Por Marcelo Gomes
Fotos: Belmilson Santos
São Paulo foi palco de um encontro perfeito para celebrar a New Wave Of British Heavy Metal (NWOBHM) na Burning House. A aclamada banda sueca Enforcer desembarcou na capital paulista com sua turnê Unshackle Latin America 2026, prometendo uma imersão nos anos 80. A abertura ficou por conta dos talentosos brasileiros do Creatures, que aqueceram o público com um setlist poderoso, mesclando material de seus dois álbuns. O resultado foi uma experiência inesquecível, reafirmando a paixão e a vitalidade de uma era de ouro da música pesada.

O início ficou por conta do Creatures. Formado por Marc Brito (vocal), Mateus Cantaleäno (guitarra), Ricke Nunes (baixo) e Sidnei Dubiella (bateria), os brasileiros apresentaram um setlist de cerca de 50 minutos, que mesclou faixas do novo álbum Creatures II com material do primeiro disco, entregando uma performance explosiva para o público que chegou cedo para vê-los. Abriram com Devil in Disguise e nem a guitarra desafinada de Mateus (que o fez parar por duas vezes para afiná-la) pôde deter esses guerreiros do metal. A sequência foi com Night of the Ritual e Beware of the Creatures, ambas do novo álbum. A banda resgata a sonoridade da NWOBHM e conduz o público a uma jornada aos anos 80.

O reconhecimento dos presentes veio rápido, e o vocalista Marc Brito não poupou elogios a São Paulo, classificando a cidade como a capital do metal brasileiro. Aproveitou para revelar que fariam um show solo na cidade em abril e outro na Alemanha, no festival Keep It True. A semibalada Nothing Lasts Forever fez o público cantar, oferecendo um respiro bem-vindo em meio à intensidade. Houve espaço para um solo de guitarra de Mateus, seguido por um blues arrastado e outras passagens instrumentais mais aceleradas. Os músicos realmente sabem proporcionar uma viagem no tempo. Encerraram com a poderosa Dressed to Die, que mais uma vez contou com a participação dos presentes. A apresentação foi marcante; boa parte da plateia já conhecia a banda e, para quem não conhecia, foi uma grata surpresa. Fazendo com excelência o som a que se propõe, o Creatures vem se consolidando na cena brasileira e promete um futuro brilhante.

Após essa apresentação, a expectativa aumentou para o Enforcer. E os suecos não deixaram por menos. Quando subiram ao palco, foi como se estivessem abrindo os portões de 1980. Luzes cortando a fumaça, roupas de couro reluzindo e aquele grito agudo que atravessa o peito antes mesmo do primeiro riff. Destroyer abriu a noite com energia visceral, sem alívio. Emendando Undying Evil e Unshackle Me, a banda deixou claro que não estava ali apenas para tocar, mas para incendiar. O público respondeu com punhos erguidos e um coro alto, transformando o refrão em declaração de guerra. A energia era intensa, rápida, quase física. Dava para sentir o chão vibrando sob os pés.

Com Olof Wikstrand (vocal e guitarra), Jonathan Nordwall (guitarra), Garth Condit (baixo) e Fabio Alessandrini (bateria), o line-up atual funciona como uma máquina pronta para devastar o que tem pela frente. Um dos destaques da noite foi From Beyond, com refrão marcante que se fixa na memória e leva todos a cantar. Live for the Night já é considerada um clássico dos suecos. A presença de palco é marcante; os músicos agitam sem parar, Olof se ajoelha e se entrega como se não houvesse amanhã. Quando tocaram Die Young, do Black Sabbath, ficou evidente o quanto o clássico dos pioneiros do heavy metal permanece atual, sem destoar do set do Enforcer. Não foi apenas uma homenagem, mas uma reafirmação das raízes, e o público reagiu calorosamente. Roll the Dice e Zenith of the Black Sun mantiveram o ritmo intenso, enquanto Coming Alive fez jus ao nome, com os fãs cantando cada verso como se fosse o último da noite e até abrindo rodas.

O momento instrumental mostrou por que o Enforcer é mais do que velocidade. O solo de bateria que veio a seguir foi curto, no entanto evidenciou técnica e precisão. Em seguida, Diamonds e Scream of the Savage devolveram a atmosfera oitentista, com riffs rápidos que mantiveram o público agitando. Nostalgia e Mesmerized by Fire criaram contraste entre a melodia da primeira e a agressividade da segunda, enquanto Running in Menace reacendeu o mosh pit. Em um show tradicional de heavy metal não pode faltar um solo de guitarra, e Jonathan não se eximiu da tarefa, mostrando habilidade sem excessos, priorizando a emoção em cada nota. A reta final foi uma escolha certeira. One with Fire e Take Me out of this Nightmare intensificaram o clima épico, preparando o terreno para Katana, executada com precisão. O encerramento com Midnight Vice veio acompanhado de um pedido de Olof para que todos fizessem daquele o melhor show da turnê. Os fãs corresponderam e o vocalista se empolgou tanto que chegou a quebrar a correia da guitarra, precisando trocar o instrumento durante a música. Foi um final apoteótico, digno de uma banda que mantém o heavy metal tradicional vivo, com força, suor e paixão. Quem esteve presente saiu com o ouvido zunindo e a certeza de ter vivido algo genuíno e especial.
Setlist Creatures
Devil in Disguise
Night of the Ritual
Beware the Creatures
Children of the Moon
Danger
Nothing Lasts Forever
End of the Line
Lightning in My Eyes
Dressed to Die
Setlist Enforcer
Destroyer
Undying Evil
Unshackle Me
From Beyond
Live for the Night
Die Young (Black Sabbath)
Roll the Dice
Zenith of the Black Sun
Coming Alive
Diamonds
Scream of the Savage
Nostalgia
Mesmerized by Fire
Running in Menace
One with Fire
Take Me out of this Nightmare
Katana
Midnight Vice
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