WEATHER SYSTEMS – SÃO PAULO (SP)

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Por Fernando Queiroz

Fotos: Belmilson Santos

Se eu fosse, antes do show, definir Daniel Cavanagh, usaria a expressão “excelente compositor” – agora, o chamo apenas de “gênio”. É bem verdade que ouvir a música do Anathema, e consecutivamente a do Weather Systems, pode exigir um certo estado de espírito. Pessoalmente, não é um no qual eu esteja todos os dias, mas quando se está nele e se consegue entender (e sentir) a coisa, é para desabar. Nunca tinha tido a oportunidade de presenciar isso ao vivo, mas achava que seria igual. Não é. É ainda mais forte! Simplesmente, você é transportado a esse momento interno. Isso por si só já dá uma ideia de como foi intenso o que se presenciou no Carioca Club naquela quente noite de domingo.

A banda em questão não era o Anathema de fato, embora a mente criativa seja a mesma, o teor das músicas igual e o setlist formado majoritariamente por canções do clássico conjunto inglês. Daniel Cavanagh ainda veio acompanhado de outro ex-membro de sua antiga banda, o baterista português Daniel Cardoso. Completaram o time a também lusitana e fantástica cantora Soraia Silva e o baixista brasileiro André Marinho. A língua portuguesa estava muito bem representada! Cavanagh ficou, como sempre, responsável pelos vocais masculinos, guitarra e teclado. Se você leu e entendeu o que eu quis dizer até aqui, já deu para ter noção de como foi uma noite ímpar, no melhor sentido do termo.

Na porta da casa, antes da abertura, uma pequena fila já estava presente. Algumas pessoas também bebiam cerveja nos bares do entorno. Mas, no geral, não havia um grande público esperando para entrar, e o que tinha, era bem homogêneo – totalmente compreensível, já que de fato é uma música de nicho. A previsão de entrada era às 18h, mas houve atraso – cerca de 20 minutos. Um transtorno, mas até aquele ponto, aceitável. Era até engraçado que em vários momentos víamos grupos de pessoas fantasiadas que estavam em bloquinhos de carnaval. Fiquei receoso de que algum sujeito um pouco embriagado demais pudesse encher o saco, mas, ainda bem, nada ocorreu. Quando o público foi chamado para dentro, tudo ocorreu sem problemas, com a tranquilidade que todos gostam. Dentro da casa, dado o ainda baixo público, tudo também estava bem tranquilo. Um dos pontos mais legais foi olhar o movimento na banca de merchandising da Overload, que sempre está presente; havia boa quantidade de pessoas comprando camisetas da banda, e com razão, já que a estampa era realmente bonita.

Mais atrasos. O início do show, previsto para às 19h, depois de 30 minutos ainda não dava sinais de que começaria. Realmente, começou a ficar um pouco incômodo! De toda forma, mesmo com esse atraso, ainda era um horário realmente excelente para shows, e isso inclusive ajudou a mais gente chegar antes de ele começar. Mas fica o adendo: atrasos nunca são legais. Aparentemente, os técnicos de palco estavam tendo alguma dificuldade (não sei qual), pois sempre ficavam entrando e saindo de lá e mexendo em coisas. Finalmente, 45 minutos depois do previsto, começou a introdução, o telão foi ligado, e o show, aleluia, começou! Um atraso considerável, e cansativo, mas quando começou…

… tudo melhorou! A banda subiu ao palco e Cavanagh entrou com seu celular em mãos filmando o público. Claro, foi recebido com aplausos e gritos. Começar o show com Deep, um clássico do álbum Judgement do Anathema foi escolha certeira – animou o público logo de cara, e deu espaço para seguirem com canções de Ocean Without a Shore, primeiro disco do Weather Systems: Still Lake, Synaesthesia e Do Angels Sing Like Rain? Enquanto isso, Daniel ia falando com as pessoas. Ele é carismático, mas aqui, ele deu muito a palavra para a companheira de microfone, sua conterrânea Soraia Silva. Claro que a comunicação em português deixava tudo mais próximo, e ela é por si só uma pessoa que se aproxima do público, ao ponto de descer e ir cantar em meio ao público, abraçada com as pessoas ali! Cantar, aliás, é o que ela faz de melhor! Não entrarei em comparação com Lee Douglas, mas Soraia fez bonito em tudo que cantava. É o tipo da pessoa que ama o que faz, e faz bem o que faz. Dali em diante, praticamente só Anathema atrás de Anathema – para alegria dos fãs de longa data, passearam por várias fases da antiga banda.

A cada música, Daniel ou Soraia falava com a plateia – ele em inglês, ela em português –, muitas vezes em momentos tocantes, como quando o vocalista e guitarrista falou que no dia era o aniversário de sua falecida mãe, e dedicou One Last Goodbye a ela e a todos ali que já perderam alguém na vida. Em específico para mim, isso foi para tirar lágrimas literalmente, pois perdi alguém muito próximo bem recentemente. Os maiores clássicos ficaram para o fim, e destaco as duas partes de Untouchable, gravadas pelo Anathema, e a terceira parte, já com o Weather Systems. Tocar as três partes seguidas foi uma sacada incrível e funcionou muito bem. Tocaram, a seguir, um cover de Metallica, Wherever I May Roam, com o baixista André Marinho nos vocais! Confesso que achei meio desnecessário, mas já esperava, pois desde a antiga banda eles sempre tocaram alguma música de banda clássica. Metallica sempre funciona, afinal, então foi um ‘play safe’.

Sem sair do palco para bis, e com duas horas de apresentação, Daniel Cavanagh e seus comandados saíram do palco ovacionados. Para todos os efeitos, aquele era o Anathema, mesmo que com o nome Weather Systems, e sem seu irmão mais novo, Vincent Cavanagh. Som perfeito, ótima iluminação e uma performance arrasadora de todos os músicos, com destaque para Soraia Silva, que canta angelicalmente.

A música do Anathema e do Weather Systems, que inclusive é o nome de um dos melhores álbuns da agora extinta banda inglesa, é um pouco nichada, mas a partir do momento que você se insere nela, é um caminho sem volta; e ao vivo, como eu disse, você é automaticamente transportado a ela. Depois de uma super apresentação como essa, o que fiz quando cheguei em casa? Óbvio: fui ouvir mais Anathema e reouvir o disco do Weather Systems! Afinal, eu também fui transportado para aquele mundo melancólico. Aliás, eles prometeram voltar no ano que vem – espero de coração que cumpram isso!

Setlist
Deep
Still Lake
Synaesthesia
Do Angels Sing Like Rain?
Springfield
One Last Goodbye
Closer
A Simple Mistake
Ocean Without a Shore
Flying
Untouchable, Part 1
Untouchable, Part 2
Untouchable Part 3
Wherever I May Roam
A Natural Disaster
Fragile Dreams

 

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