Por Daniel Agapito
Fotos: @pridia (30e)
Goste ou não, não há como negar que o Avenged Sevenfold é um dos maiores nomes do rock e metal na atualidade. Afinal, são pouquíssimas as bandas com público suficiente para fazer shows em estádios aqui no Brasil. Dentre elas, menos ainda são aquelas que não se enquadram como “dinossauros” do estilo. A conexão entre a banda e o nosso país já vem de longe, com seu primeiro show por aqui acontecendo em maio de 2008, ainda com o finado The Rev na bateria. Eles retornariam algumas vezes nos anos subsequentes, figurando entre as atrações de grandes festivais, como o SWU de 2010 e Rock in Rio de 2013.
Após a turnê do polêmico The Stage entre 2017 e 2018, o quinteto deu uma pausa dos palcos por conta do risco de lesão vocal de seu vocalista, M. Shadows, seguindo as atividades apenas 5 anos depois, pouco antes do lançamento do também polêmico Life Is But a Dream… naquele mesmo ano. 2023 e 2024 viram apresentações em um ritmo reduzido, valendo destacar seu show único na América Latina, como headliner da última edição do Rock in Rio. Aquela apresentação (logo após um show mágico do Deep Purple) enfileirou hits de todas suas épocas, deixando os fãs do resto da América do Sul esperando uma turnê “de verdade”.
Não teriam que esperar muito, pois após a aparição de alguns deathbats (o mascote da banda) na estação de metrô em Pinheiros, ficou claro: 2025 veria a volta do A7X. Foi esse o caso, com os shows marcados para o começo de outubro e até lá, tudo parecia incrível, a felicidade dos fãs era palpável – até o final de setembro chegar. A data em Buenos Aires seria adiada de última hora por conta de complicações com Shadows, e o resto da turnê iria pelo mesmo caminho nos dias seguintes.

Agora sim, voltando para os dias atuais, os serviços no Allianz Parque começariam no final da tarde com o Mr. Bungle. Projeto paralelo do genial Mike Patton, mais conhecido por seu trabalho com o Faith No More e com o Bungle, ele se dá a liberdade de mostrar toda sua loucura enquanto toca com alguns dos melhores músicos que o metal tem a oferecer (Scott Ian, Dave Lombardo, Trevor Dunn e Trey Spruance). Na segunda-feira da semana do show, fizeram uma apresentação lotada no Cine Joia, que seria a única no Brasil com Ian, que teve que abandonar a banda para tocar com o Anthrax no 70,000 Tons of Metal.

Do segundo que Patton e seus amigos subiram no palco, executando a clássica Tuyo de Rodrigo Amarante, estava mais do que claro que boa parte do público não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Mike vestia roupas vermelhas e acessórios de umbanda e do lado dele estava simplesmente Andreas Kisser. A dobradinha de Anarchy Up Your Anus e Bungle Grind apenas reforçou o clima de confusão. Os fãs da banda se divertiam horrores, batendo cabeça, cantando, mas o resto só olhava pro palco, perdido. Bastou o vocalista abrir a boca e falar em português para ganhar o público: “Precisamos de uma pausa… somos velhos. Velhos, gringos, macumbeiros.” Com um “laroyê” saudando a galera, passaram para um cover da melosíssima I’m Not in Love do 10cc.

O que veio a seguir foi uma sequência histórica de bordoadas sonoras, digna de greatest hits, talvez a santíssima trindade do Bungle: Eracist, Raping Your Mind e Retrovertigo. Mas a galera só foi realmente se animar quando tocaram Refuse/Resist. Mesmo sem o público conhecer sua banda, Mike sabia interagir bem, mudando a letra de Habla Español o Muere para Speak Portuguese or Die e até tendo uma conversa bastante 5ª. série com um fã: “Oi, macumbeiro! Sim, você! Preciso te falar uma coisa. É importante! Eu quero tomar no cu! Até tem feijão no meu dente! Descabelar o palhaço… descabelar o palhaço”.

Até era de se entender a confusão do público. Depois da vertiginosa Sudden Death, emendaram direto Hopelessly Devoted to You, de John Farrar, antes de seguir com My Ass Is on Fire (com Funkytown da Lipps Inc. no meio). Em entrevista comigo, Barata, baterista do Test, que abriu o show no Cine Joia, descreveu o show de sua banda como “um drible desconcertante para cima de um zagueiro, em que o público é o zagueiro” – podemos dizer que o mesmo vale para o Bungle. “Agora, terminamos”, disse Patton, ao iniciar All By Myself de Eric Carmen. Pouco esperava o público que ele dedicaria a música para “a nossa suprema pomba gira” e trocaria a letra para “Tomar no Cu”. É um gênio musical ou não é? Macumba, baladinha e 5ª série, adoto as palavras do vocalista: “Muito legal!”

A noite já caía sobre o Allianz enquanto o A Day to Remember subia ao palco, curiosamente, alguns minutos antes do início do show. Foi só o logotipo deles estampar o telão de led que a reação foi estrondosa; bem diferente da banda anterior. Eles abriram seu show com um hino do chamado ‘easycore’, The Downfall of Us All. Não só seu som segue mais a linha dos headliners, como também fizeram sucesso na mesma época, então eram muito mais conhecidos pelos fãs, que cantaram o riff da primeira música a plenos pulmões. A mesma energia continuou durante I’m Made of Wax, Larry, What Are You?, retirada do mesmo álbum.

Com o Bungle, o espetáculo vinha da própria banda, das letras, do caos, que não foi o caso com o ADTR. Não que a banda não seja boa, são ótimos músicos, mas seguiram muito mais os padrões de show de estádio, com explosões de confete, colunas de fumaça e fogo no palco, além do uso de telão e show de luzes mais elaborado. Com isso em mente, estavam com o público na mão, e não só por conta da nostalgia. Big Ole Album Vol. 1, trabalho mais recente do grupo, foi contemplado com uma dobradinha de Bad Blood e Make it Make Sense, que viram a continuação de algumas pequenas rodas que haviam se aberto.

O primeiro circle pit realmente notável da noite veio com Paranoia, a pedidos do vocalista. Miracle trouxe um contraste interessante, mostrando bem a versão mais “modernizada” do som que fez a banda se tornar conhecida, mesclando uma acessibilidade quase pop com breakdowns pesados. O próximo momento de destaque foi Mr. Highway’s Thinking About the End, um dos – se não o – breakdown mais emblemático do metalcore dos anos 2010. Se o público já estava animado antes, depois da chamada para desrespeitar os arredores o estádio estava à beira da erupção. Houve um agradecimento breve aos headliners pelo convite, antes de seguirem com All My Friends, “que é sobre ter amigos e bebedeira pesada”.

Por algumas músicas, o show deu uma acalmada, seja pelo gás do público não ser infinito ou até pela natureza das músicas, como If it Means a Lot to You, que retrata o término de um relacionamento à distância em meio a uma turnê. Além de um backing vocal forte dos fãs durante os “la la las” e mais explosões de confete, esta foi aquela música em que o estádio foi iluminado por dezenas de milhares de lanternas de celular. Dali para frente, parece que houve uma injeção de ânimo no público da capital paulista (que, de acordo com o vocalista, é a cidade que mais escuta ADTR). Apesar de a banda só se apresentar formalmente depois daquela música, àquela altura o show estava chegando ao fim, fechando com All I Want e All Signs Point to Lauderdale.

Com o relógio se aproximando das 20h45, o estádio já se encontrava empanturrado de gente, e nos telões havia um QR code convidando os fãs a “se juntarem ao show de luzes”. As luzes se apagaram ao som de Nightcall, faixa de synthwave do Kavinsky, e gritos de “Sevenfold! Sevenfold!” já ecoavam desde o começo. As primeiras notas de Game Over ecoaram, e o público gritava e pulava como se não houvesse amanhã. Zacky Vengeance (guitarra), Synyster Gates (guitarra), Johnny Christ (baixo) e Brooks Wackerman (bateria) foram recebidos calorosamente. Já M. Shadows, sentado em uma cadeira no meio do palco, usava uma balaclava, tal qual no show do RiR. Mesmo com a fase atual não sendo das mais populares da carreira do Avenged Sevenfold, tanto Game Over quanto Mattel (ambas do disco novo) foram cantadas a plenos pulmões.

Seria durante Mattel que o verdadeiro espetáculo começaria, as telas do palco (e que rodeavam o estádio) apareciam tomadas por chamas, enquanto os integrantes surgiam distorcidos de diversas formas, usando gráficos de IA. Os fãs já estavam enlouquecendo, mas quando Shadows disse que queria “ver essa porra explodir” antes de iniciar Afterlife a coisa ficou séria. Uma das grandes dúvidas na cabeça de muitos era se a voz dele iria aguentar duas horas de show, já no final da turnê. Mas se o público continuasse no pique que estava, nem importaria, pois era difícil discernir o que era o vocalista e o que era a galera. A felicidade não vinha só do público, pois a banda toda soltava alguns sorrisos ocasionais, impressionados com os fãs brasileiros.
Algo que tem se tornado praticamente marca registrada do nosso povo nos últimos tempos são os sinalizadores (para desespero dos bombeiros), e durante Chapter Four, já apareceram alguns. Após alguns problemas com o operador do holofote, Shadows declarou seu amor pelos brasileiros, puxando inclusive uma bandeira e dedicando Hail to the King a “todos os brasileiros, não só quem está em São Paulo”. O amor estava longe de ser unilateral, pois tudo foi ecoado a plenos pulmões, até o solo de Synyster Gates.

Descansando a voz, Shadows falou um pouco mais com a galera: “Vocês estão no nosso Instagram sempre pedindo as mesmas músicas, vocês gostam tanto assim de Gunslinger? Não tocamos de propósito em Curitiba porque tocamos no Rock in Rio.” Vendo a indignação dos fãs, decidiram tocar, e a reação foi realmente estrondosa, parecia que a Seleção havia conquistado o hexa. Sua execução foi algo verdadeiramente cinemático, com direito a fogos iluminando o estádio. Passada Buried Alive, Shadows brincou de novo com os pedidos de música: “Estou gravando todos vocês (apontado para seus óculos), se tiver alguém gritando Seize the Day, vou te achar e vou te bater. A verdade é que não tiramos ela inteira, mas podemos tocar parte.” No final, Shadows prometeu que da próxima vez tocariam-na perfeitamente.

As emoções bateriam forte novamente com So Far Away, dedicada para The Rev e contando com uma silhueta dele projetada na tela atrás da banda. Não deixando a tristeza tomar conta, teve início Bat Country, com os fãs tomados pela nostalgia. Nela, o clima de final de turnê se tornou aparente, com alguns sinais de cansaço do vocalista, diversas brincadeiras de Gates, mas, no geral, a banda parecia estar completamente entrosada. Matt até iniciou Nobody, mas em uma atitude digna de aplausos, parou a música para que um fã ferido pudesse ser atendido.
É até difícil descrever apenas com palavras a energia que rolava no estádio durante Nightmare, com todo mundo cantando, roda a torto e direito, um mar de celulares filmando – loucura pura. O vocalista descansava a voz em algumas das notas mais difíceis, jogando para os fãs, mas mesmo assim, ofereceu uma performance invejável. Logo no finalzinho da música, Shadows pediu para que parassem o show mais uma vez, novamente por conta de um fã machucado. Indo para o canto do palco, jogaram um sutiã nele. Ele olhou e disse “não vai caber em mim”, devolvendo. O operador de câmera foi rápido para destacar que já haviam jogado outro sutiã no palco, que se encontrava no pedestal de um dos guitarristas. Enquanto não tinha o OK para seguir, Matt fez mais um chá revelação, coisa que já havia feito no show anterior, em Curitiba.
Bastou um grito de “go” e um riff que definiu o metalcore para as rodas (que haviam acalmado na música anterior) fez com que elas voltassem a todo vapor durante Unholy Confessions. A apresentação já se aproximava de 1h40 de duração, mas nem a banda, muito menos os fãs demonstravam sinais de cansaço. Aqui vale destacar a resiliência de Brooks Wackerman, que juntou Unholy, um solo de bateria e Save Me praticamente sem pausa alguma, não deixando a qualidade cair em nenhum momento. O final do show viu alguns momentos relativamente mais mornos (mesmo assim, com o público engajadíssimo) com Save Me e Cosmic, mas também já era de se esperar, estava passando das duas horas de espetáculo.

“Não podemos deixar vocês assim, nosso tempo acabou, mas precisamos conversar. De coração, Brasil, vocês foram nosso primeiro amor, estiveram aqui desde o dia 1, e aqui estamos em 2026.” A conversa foi novamente interrompida por mais um fã precisando de atendimento médico, o que fez o vocalista entregar algumas águas do palco para as pessoas da grade. Enrolando uma bandeira personalizada no seu pedestal, Shadows perguntou se havia fãs de necrofilia, respondido com diversas luzinhas pelo estádio, logo entrando em A Little Piece of Heaven.
Apesar de todos os pesares, o show que o Avenged Sevenfold fez naquele sábado (seu maior enquanto headliner) consolidou-os ainda mais como um dos grandes nomes do metal na atualidade. Podem dizer que seu auge já passou, que não lançam mais discos bons, mas falam isso de qualquer banda depois de um certo tempo. Mesmo as músicas de Life Is But a Dream…, que pende para um lado bem mais experimental, foram cantadas sem medo pelos fãs. A única crítica que poderia ser feita seria realmente à voz de Shadows, mas no Allianz ela deu pouquíssimos indícios de falha, então, na medida do possível, sua entrega foi excepcional.

Em relação à presença de palco, eles podem não sair correndo por aí, mas aproveitaram cada centímetro que estava à disposição deles, levando os fãs junto. Faixas como Almost Easy, Seize the Day (inteira), ou até Beast and the Harlot (executada uma vez só após o hiato) fizeram falta no repertório, mas ele não sofreu por isso. Como disse o frontman, “são tantas músicas que fica difícil tocar tudo”.
As bandas convidadas dispensam comentários. Por mais que Mr. Bungle não tenha nada a ver com o resto, sua qualidade técnica e influência não podem ser negadas e A Day to Remember trouxe um show que cabe bem na definição do que deveria ser o metal moderno. Ao todo, uma ótima maneira de começar o calendário de shows de grande porte de 2026.

Setlist Mr. Bungle
Tuyo
Anarchy up Your Anus
Bungle Grind
I’m Not in Love (cover 10cc)
Eracist
Raping Your Mind
Retrovertigo
Refuse/Resist (cover Sepultura)
Hypocrites/Habla Español o Muere
Sudden Death
Hopelessly Devoted to You (cover John Farro)
My Ass is on Fire
All By Myself (cover Eric Carmen)

Setlist A Day to Remember
The Downfall of Us All
I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?
Right Back at it Again
Bad Blood
Make it Make Sense
Paranoia
Miracle
Mr. Highway’s Thinking About the End
All My Friends
Have Faith in Me
2nd Sucks
Silence
If it Means a Lot to You
All I Want
All Signs Point to Lauderdale

Setlist Avenged Sevenfold
Game Over
Mattel
Afterlife
Chapter Four
Hail to the King
Gunslinger
Buried Alive
Seize the Day
So Far Away
Bat Country
Nobody
Nightmare
Not Ready to Die
Unholy Confessions
Save Me
Cosmic
A Little Piece of Heaven
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