CALIBAN – SÃO PAULO (SP)

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Por Marcelo Gomes

Fotos: Thamires Sartori (Tramamos)

O Fabrique Club virou território do caos na passagem do Caliban por São Paulo, após longos 16 anos sem pisar em solo brasileiro. O último show da turnê pela América Latina reuniu um público sedento e uma banda que sabe exatamente como transformar peso em insanidade. A noite contou ainda com as apresentações das bandas brasileiras Broad and Sharp e Fim do Silêncio.

Abrindo o evento, a Broad and Sharp encarou o desafio inicial com personalidade. Liderada pelo vocalista Roger Guinalia, a banda brasileira de hardcore e metal apresentou faixas como Perdido, Sobre Meninos e Lobos, Abusos, Esperança e Convicto. Apesar de o som não colaborar no início, o grupo conseguiu se ajustar ao longo da apresentação e manter o público conectado, demonstrando consistência e atitude mesmo diante das limitações técnicas.

Na sequência, o Fim do Silêncio subiu ao palco com a casa já mais cheia e entregou um set intenso com Real Vida Suja, Marreta, Gota, De Olhos Fechados, Um Novo Dia de Revolta e Estado Laico. A equalização também deixou a desejar, com a bateria soando como uma lata, lembrando o infame St. Anger, do Metallica. Ainda assim, a banda lidou com a situação com bom humor, chegando a brincar com o problema. O público respondeu positivamente, agitou bastante, e a banda realizou uma apresentação honesta e consistente.

Por fim, era chegada a hora do Caliban. Com Andreas Dörner nos vocais, Marc Görtz e Denis Schmidt nas guitarras, Iain Duncan no baixo e Patrick Grün na bateria, a banda mostrou por que é considerada um dos pilares do metalcore europeu, combinando agressividade, melodia e uma presença de palco avassaladora. Desde os primeiros acordes de Guilt Trip e a energia eletrizante de I Was a Happy Kid Once, o grupo já ditava o ritmo frenético da noite. A pista do Fabrique Club rapidamente se transformou em um caldeirão de rodas, com a resposta do público à altura da intensidade sonora vinda do palco.

Antes de Paralyzed, Andreas Dörner fez um alerta para os fãs: havia passado recentemente por uma cirurgia no joelho e pediu que o público agitasse por ele. O pedido foi atendido de imediato. Em uma demonstração de lealdade e cumplicidade, os presentes criaram um verdadeiro pandemônio na pista, transformando a música em trilha sonora de devastação. Ao final, o grupo foi ovacionado. A interação seguiu intensa quando, antes de Davy Jones, o vocalista solicitou que todos se abaixassem e, ao seu comando, pulassem, resultando em uma explosão sincronizada que elevou a temperatura da casa a níveis extremos.

Reforçando que se tratava do último show da turnê na América Latina, a banda executou I Will Never Let You Down, acompanhada por mais uma grande roda no centro da pista. A sequência com The Beloved and the Hatred não foi diferente: teve seu início cantado como se fosse um hino de guerra, seguida por Forsaken Horizon e Ich Blute für Dich com riffs pesados e vocais guturais que não davam trégua aos pescoços dos headbangers.

Visivelmente irritado com os celulares, Andreas pediu que todos vivessem o momento e fizessem um ‘wall of death’ em VirUS. O pedido foi atendido de imediato e a pista se dividiu para o embate épico. Para coroar o momento, o guitarrista Marc Görtz subiu no balcão do bar para acompanhar de camarote a batalha, levando a plateia à loucura. Em seguida, em um gesto de profunda empatia, a banda dedicou Dear Suffering a um fã que havia falecido, evidenciando que, além da agressividade sonora, há respeito e conexão genuína com seu público. Foi um instante de reflexão, no qual a música serviu como conforto coletivo.

A atmosfera mudou brevemente com Insomnia. Iniciada com uma passagem acústica, com apenas Iain no palco, a canção ganhou contornos de balada poderosa, acompanhada pelas luzes dos celulares que criaram um mar de estrelas no Fabrique Club, em contraste com a fúria predominante da noite. A energia retornou com força total em Back from Hell, preparando o terreno para o encerramento do setlist principal.

Diante dos pedidos do público, o Caliban retornou ao palco para o encore, iniciado com Memorial, que literalmente tirou todos do chão, com os fãs pulando freneticamente. Devil’s Night manteve a intensidade elevada, com riffs brutais e a bateria implacável de Patrick Grün conduzindo a destruição sonora. O encerramento com Nothing Is Forever foi especialmente marcante. A banda homenageou um fã chamado Gabriel, que comemorava aniversário no dia, convidando-o ao palco para celebrar a data. Com direito um parabéns animado e uma bela trilha sonora, os alemães encerraram literalmente em clima de festa, solidificando a relação com os fãs.

O show no Fabrique Club deixou claro que a longa espera valeu a pena. Mesmo com as limitações físicas de Andreas, a entrega do Caliban foi total, deixando a sensação de dever cumprido e a promessa de que os alemães não levarão tanto tempo para retornar. Entre momentos de caos, empatia e celebração, a banda transformou a despedida da turnê latino-americana em uma noite memorável, daquelas que ficam marcadas no corpo e na alma dos fãs.

Setlist Caliban:

Guilt Trip
I Was a Happy Kid Once
Paralyzed
Davy Jones
I Will Never Let You Down
The Beloved and the Hatred
Forsaken Horizon
Ich Blute für Dich
VirUS
Dear Suffering
Insomnia
Back from Hell
Memorial
Devil’s Night
Nothing Is Forever

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