P.O.D. – SÃO PAULO (SP)

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Por Daniel Agapito

Fotos: Andre Santos

Para felicidade de alguns (e tristeza de muitos outros), o polêmico nu metal tem passado por uma renascença nos últimos anos, fenômeno que têm respingado na agenda de shows de São Paulo. Este ano viu a passagem histórica do System of a Down, esgotando estádios e autódromos pelo país, além de outros nomes do estilo, como Korn, Ill Niño e Primer 55, com vinda marcada para o ano que vem. Outro estilo polêmico que viu diversos shows em 2025 foi o metal cristão, especialmente com expoentes mais modernos, a exemplo de Silent Planet, Skillet e The Devil Wears Prada, além do atemporal Stryper. Tudo isso faz com que o sucesso da vinda do P.O.D., banda que sempre teve uma forte conexão com o Brasil, não fosse surpresa para ninguém.

Fugindo bastante do normal, sua turnê (ao lado do Demon Hunter) passaria por seis estados, incluindo Pernambuco e o Distrito Federal Brasília, pouco contemplados por bandas “maiores”. Sendo uma das grandes atrações do Knotfest do ano passado e historicamente tocando em casas como Via Funchal e Tropical Butantã, houve um certo estranhamento quando seu show foi anunciado para o Carioca Club, mas não demorou para que fosse aberta uma data extra – na semana anterior, no dia 5 –, que contaria também com os americanos do Living Sacrifice. Chegando na semana da última performance da turnê, a cidade de São Paulo foi tomada pelo caos, com tempestades, tufões e milhões de pessoas sem energia, mas, com a ajuda de forças divinas, o P.O.D. seguiu firme e forte.

Para ambas as datas em São Paulo, o Carioca Club seria dividido entre pista e “front stage”, equivalente a uma pista premium, que garantiu que aqueles fãs dispostos a pagar um pouco mais terem uma experiência única, mas que, convenhamos, deveria ser algo reservado para casas maiores. Independente disso, a casa estava cheia desde cedo, quando o Demon Hunter subiu no palco (pontualmente às 17h30), o que fez com que o coro dos fãs em Sorrow Light the Way fosse para lá de emocionante. Sem muito tempo para respirar, passaram diretamente para Heaven Don’t Cry, daquelas músicas que não chegam a ser baladas, mas são mais lentas e calcadas na emoção, em que a cantoria continuou – mal dava para discernir o que era efetivamente a voz de Ryan Clark do que era o público.

Depois de Collapsing, grande destaque de The World Is a Thorn (2010), o vocalista reconheceu a energia dos fãs, dizendo que apesar de estarem aqui na semana passada, a última vez antes disso havia sido há 12 anos atrás (ironicamente no Inferno Clube). Seguiram firmes com The Heart of a Graveyard, do álbum de 2015, antes de dar um presente aos fãs old school e uma variada no setlist com Not Ready to Die, recebida calorosamente. A próxima surpresa veio na forma de Undying, cantada a plenos pulmões pelo público, que mostrava estar em êxtase. A seguinte, Dead Flowers, mais calma e contida, soa como um worship, clima acentuado pelas diversas mãos ao alto, além da postura do vocalista, que cantava de olhos fechados, absorvendo a energia do público.

As pedradas voltaram com Cold Winter Sun, mais pesada e mais rápida – exemplo clássico do metalcore sem muita invenção de moda. No resto da turnê, seria nessa hora que viria I’m Done, segunda representante de There Was a Light Here, lançado em setembro deste ano, mas em seu lugar veio a balada My Heartstrings Come Undone, uma das favoritas dos fãs, julgando pela reação da galera. Passados os agradecimentos de sempre aos fãs, equipe, casa e headliner, Clark anunciou que estavam chegando no fim, iniciando Last One Alive para dar aquela última injeção de energia no povo, que cantou todos os versos em uma só voz. Para fechar, executaram a brutal Storm the Gates of Hell, dedicada àqueles que estavam na roda.

Na meia hora entre a saída do Demon Hunter do palco e o apagar das luzes, o Carioca Club parecia encher mais e mais. Pontualmente às 19h, as luzes se apagaram e o tema de Por um Punhado de Dólares soou pelo PA e as cortinas se abriram novamente, revelando a banda toda já no palco, com P.O.D. estampado no telão. Sem muitas delongas, o carismático frontman Sonny Sandoval foi rápido para iniciar o show com Southtown, que viu uma bela cantoria dos fãs, além de um mar de celulares indo ao ar para registrar o momento. No meio da música, ele foi ao fundo do palco e voltou enrolado em uma bandeira do fã-clube P.O.D. Brasil, mostrando seu verdadeiro apreço pelos fãs brasileiros.

A faixa seguinte, também de The Fundamental Elements of Southtown (1999), Rock the Party (Off the Hook), viu Sonny puxar um jovem fã para o palco, que estava dando crowdsurf por cima do público – certamente, foi uma memória inesquecível para o menino. Como se a energia dos fãs já não estivesse lá no alto, vieram logo com a enérgica Boom, como o próprio nome já sugere. Além de pulos que faziam tremer o chão, seu refrão foi cantado em uníssono por quem estava lá, inclusive vários que erraram a entrada, deixando Sandoval visivelmente confuso. Marcos Curiel, o guitarrista, puxou um coro de “olê, olê olê olê, P.O.D., P.O.D.” que foi rapidamente emendado em Set it Off, que por sua vez abriu as portas para Drop, primeira representante do disco novo. Em estúdio, ela conta com uma participação de Randy Blythe, vocalista do Lamb of God, mas ao vivo, quem fez a segunda voz foi Ryan Clark, do próprio Demon Hunter.

Depois de I Got That, enquanto a equipe ajustava o som e trazia mais água ao palco, Curiel e Sandoval aproveitaram para falar com os fãs, agradecendo a presença de todos, perguntando quem já tinha visto a banda ao vivo e contextualizando a próxima música, Lay Me Down (Roo’s Song), que nunca havia sido tocada ao vivo. Roo Bublitz foi um fã e amigo da banda que morreu em janeiro de 2022, homenageado em VERITAS (2024). Apesar de a faixa nunca ter sido executada, seu refrão foi cantado por alguns fãs. Continuando com o repertório mais recente, trouxeram Soundboy Killa, representante enérgica de Circles (2018). Mostrando uma preocupação genuína com seus fãs, Sonny pediu mais garrafas de água à sua equipe e jogou-as na pista: “Não queremos ninguém desmaiando”.

Na sequência, aconteceu um dos momentos mais surpreendentes do show: um cover de Don’t Let Me Down, dos Beatles, só que em versão nu metal. Por mais tenebroso que possa soar, fez sentido, dada a sonoridade mais “feliz do grupo”. Vendo a energia do público estagnar um pouco, Curiel perguntou se estavam “guardando energia para a discoteca que tinha depois”, dizendo que na próxima turnê viria como DJ – mal sabia ele que na verdade o evento seguinte seria um forró…

Durante Murdered Love, diversos fãs subiram no palco e, aproveitando a oportunidade, Sandoval ofereceu o microfone a eles. Dentre os fãs que subiram estava também a criança que apareceu na segunda música. Depois de cantar, o vocalista simplesmente deu o microfone na mão dele e o pequeno ficou plantado lá sem entender nada, soltando um “P.O.D.”, ovacionado pelo público.

Passado um bloco com Lost in Forever e I Won’t Bow Down, começaram Sleeping Awake, mas pararam alguns segundos depois, perguntando aos fãs: “Querem ouvir Sleeping Awake?” Curiel deu a escolha de Will You ou Sleeping Awake parecido com o que tinha acontecido no Knotfest, entre Sleeping Awake e Southtown, mas desta vez a primeira não foi cortada. Mais uma vez, a música viu uma criança subir ao palco – parecia show da Xuxa… – e Sandoval pediu para que colocassem os pequenos no palco para a próxima faixa, Youth of the Nation. No total, 5 crianças de diversas idades marcaram presença no palco, criando um momento de conexão verdadeira, realmente emocionante. Além da felicidade de Sandoval, o público também cantava como se não houvesse amanhã. Como bom vendedor, Sonny jogou alguns exemplares da versão traduzida de seu livro (“Filho de Southtown”) para o público, enquanto Curiel falava de seu projeto de reggae (Sonny Dread) e apresentava o resto da banda.

O último bloco começou com aquela “limpação de janela” ao som de Afraid to Die, um dos singles de maior expressão de VERITAS. Independente da época de lançamento das músicas, todas eram cantadas com força total pelos espectadores – chegava a ser impressionante. À beira das lágrimas, o vocalista elogiou o público paulistano mais uma vez, dizendo que tinha o poder de transformar os piores dias nos melhores, a depressão e a ansiedade em uma vida longa, iniciando Satellite, daquelas para cantar junto. Para fechar de vez, não podia ser outra: Alive, uma das músicas mais icônicas do nu metal e um momento de catarse verdadeira na apresentação.

No Knotfest do ano passado, já haviam oferecido uma apresentação memorável, apenas tocando hits, mas por ser em festival, várias músicas ficaram faltando. Desta vez mais do que compensaram, trazendo aquele mesmo setlist, só que expandido, contemplando quase sua discografia toda, sem faltar nenhum clássico. Em relação ao Demon Hunter, estava claro que seus fãs ansiavam por uma apresentação há tempos, e mesmo com pouca interação com o público, trouxe qualidade técnica de sobra, matando a saudade de seus apoiadores. Além de tudo isso, mesmo com o Carioca trazendo suas complicações, especialmente com a divisão da pista, diria que colocar um show desses em uma casa mais “intimista” (para uma banda deste escalão) foi um grande acerto, dando aos fãs a oportunidade de ver uma de suas bandas favoritas de perto. Com isso, chego à seguinte conclusão: não só de capirotagem vive o metaleiro.

Setlist Demon Hunter

Sorrow Light the Way

Heaven Don’t Cry

Collapsing

The Heart of a Graveyard

I Will Fail You

Not Ready to Die

Cut to Fit

Undying

Dead Flowers

Cold Winter Sun

My Heartstrings Come Undone

The Last One Alive

Storm the Gates of Hell

Setlist P.O.D.

Southtown

Rock the Party (Off the Hook)

Boom

Set it Off

Drop

I Got That

Lay Me Down (Roo’s Song)

Soundboy Killa

Don’t Let Me Down (versão dos Beatles)

Murdered Love

Lost in Forever

I Won’t Bow Down

Sleeping Awake

Youth of the Nation

Will You

Afraid to Die

Satellite

Alive

 

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