Por Fernando Queiroz
Conhecido mundialmente como tecladista, compositor e líder do Nightwish, o músico finlandês Tuomas Holopainen está concentrado, neste momento, em seu projeto de música folk Auri, em parceria com seu colega da banda de metal sinfônico, multi-instrumentista Troy Donockley, e sua esposa, Johanna Kurkela, nos vocais. O trio, que lançou seu primeiro disco em 2017, chega agora ao terceiro lançamento, Candles & Beginnings, e pela primeira vez com turnê no horizonte. Os três membros da banda concederam entrevista à ROADIE CREW, na qual discutiram os desafios, a produção dos discos e as diferenças entre o Auri e o Nightwish, além da relação pessoal entre eles e com a música do grupo e o que o Auri significa na vida de cada um.
Troy, você vê uma diferença muito grande ao compor as linhas dos seus instrumentos no Auri em comparação com uma banda de metal?
Troy Donockley: Na verdade, não. São coisas muito correlacionadas, então é bem tranquilo para mim. Esses instrumentos a que você se refere (folclóricos) são tão ecléticos que podem ser usados em todos os estilos, se você os permitir. Sabe, às vezes as pessoas ficam relutantes em usar alguns deles, mas no Auri eles ficam muito felizes com isso e no Nightwish também! Eu estava falando com eles outro dia – sim, eu converso com meus instrumentos! – e eles adoram fazer aquilo! No Auri, eles e a música são partes da mesma coisa.
Criar no Auri se torna um desafio pelo foco mais folk da música ou é mais fácil, pois é mais seu tipo de som?
Troy: Meus gostos musicais são muito amplos. Muito vastos. É muito fácil para mim, não preciso de esforço nenhum. Sabe, eu escrevo músicas desde que sou criança. No começo eram horríveis, mas depois que comecei a amadurecer, comecei a achar minha razão para compor, e é aí que tudo muda. Infelizmente, muitas pessoas nunca encontram seus motivos para escreverem músicas e continuam criando coisas que não são reais. As minhas são realmente do coração. Então, criar para o Auri é simplesmente parte de mim. É o que eu faço e o que eu sempre farei.
Johana, quando Tuomas chegou para você com as ideias das músicas do Auri, foi algo muito diferente criar as vozes em cima delas em comparação com o que você fez na sua carreira até então?
Johanna Kurkela: Eu acho que não foi ele que chegou com essa ideia, foi algo que nós três idealizamos juntos. Acabamos conversando a respeito e aconteceu. Nossa amizade é tão forte que era impossível não acontecer esse nascimento do Auri.
Troy: É verdade! Isso começou lá em 2011, quando Tuomas e Johanna estavam lá na minha casa, em Yorkshire (ING), e eu escrevi uma música para Johanna, chamada Aphrodite Rising, que está no primeiro álbum do Auri. Foi a primeira vez que tivemos essa conexão juntos, que foi se completando e virou o Auri.
Então para você criar e cantar as linhas de voz do Auri é algo natural?
Johanna: Eu creio que, em termos de vocais, eu fiquei bem livre para fazer como gosto no Auri. Ali foi a primeira plataforma para começar a explorar minhas próprias composições. Então, ter essa liberdade para fazer como gosto, ter esse espaço seguro e encorajador que me oferecem aqui – muito obrigado a vocês dois por isso, aliás – foi crucial para me fazer achar minha própria voz, descobrir novas áreas e elementos dela, além de novas habilidades que eu pude utilizar. Tem sido uma jornada maravilhosa descobrir tudo isso. Então, acho que era inevitavelmente o próximo passo a tomar.
E acho que você aproveitou muito bem! Uma das músicas que mais gosto é do Insomnium, em que você canta os coros.
Johanna: Muito obrigada! Eu amo aquela música, Godforsaken. Foi incrível gravá-la, fico muito feliz com isso.
Como você diria que foi lidar com Tuomas músico, compositor e produtor, comparado com o que é lidar com ele como marido? (N.R.: nesse momento, os três riem, com Tuomas olhando para Johanna com mãos na cintura, em forma de brincadeira. Algo como ‘vamos ver o que você vai dizer’).
Johanna: Sabe, eu acho que com a gente, nós somos a música e a música é a nossa forma de viver, compartilhar a música é nossa vida, então acaba sendo tudo interligado, não há uma separação. É simplesmente como somos! Tanto na música, quanto fora dela, na verdade continua dentro da música. É parte de nós e está sempre lá. Então eu diria que é igual. Quer dizer, temos uma vida muito boa de casados, nunca brigamos, quase não discutimos, é um lar muito bonito e harmonioso que temos juntos.
O Auri tem já três álbuns. Quando vocês idealizaram esse projeto, já tinham planos para que se tornasse isso, que chegasse nesse terceiro? E pretendem manter como algo ativo?
Johanna: Ótima pergunta! Para mim, pelo menos, o Auri tem sido uma grande aventura que eu não levo como certo que sempre estará lá, por isso quero aproveitar cada segundo disso! Então, tenho o sonho de que continue por muito tempo, mas nunca é algo garantido, especialmente porque somos muito ocupados com outras coisas.
Tuomas Holopainen: Desde o começo, sempre houve um senso de promessa. Quando sentamos e criamos as músicas para o primeiro álbum, havia ali a clara certeza de que viria mais. Então, nunca vi o Auri como algo que seria apenas um álbum, sempre vislumbrei nós três juntos com um futuro pela frente.
Troy: Idem. Eu sempre tive a clara suspeita de que isso seria algo que desenvolveríamos mais e mais, para sempre, enquanto conseguirmos fazer música. Então, porque não? Amamos o que fazemos! Seria besteira parar. A não ser que fizéssemos algo bem estúpido, tipo ir para a cadeia! Ou morrer.
Tuomas: Sim, isso seria bem estúpido.
Troy: Definitivamente. Então eu vislumbro o Auri continuando por muito tempo e viajando por muitas galáxias!

Poderia contar um pouco do como Candles & Beginnings difere dos anteriores em termos de letras?
Tuomas: Na verdade, não tem diferença. No Auri, em todos os discos, as letras são sempre muito ambíguas, e é isso que o separa de bandas como o Nightwish. É algo que me perguntam, sobre a diferença do Auri para o Nightwish, porque ambas vêm do mesmo universo, por assim dizer. Mas no Nightwish, você de cara entende sobre o que a música é, enquanto no Auri nós deliberadamente nunca revelamos nada sobre as letras, há muitas formas de interpretá-las.
Olhando em retrospectiva, quais músicas você gravou com o Nightwish que hoje você vê que teriam se encaixado bem no estilo do Auri?
Tuomas: Não, elas estão onde deveriam estar. Elas pertencem ao Nightwish.
Troy: São perfeitas onde estão.
Há a perspectiva dessa turnê se estender mais e chegar aqui na América do Sul?
Troy: Estávamos agora há pouco falando disso, pois já fomos abordados por produtores da América do Sul para tocar aí.
Tuomas: Sim! Não podemos dar detalhes, mas já temos planos. E isso é um grande elogio a nós, aliás! Então vamos ver, pois tem que ser no momento certo, no lugar certo.
Imagino que seja bem diferente um show do Auri, se comparado ao do Nightwish.
Troy: Definitivamente não é parecido, especialmente em se tratando de casas de show.
Tuomas: Com certeza é bem diferente.
Em se tratando da produção e gravação, como foi para vocês produzir o álbum? Foi muito diferente de seus trabalhos anteriores ou em outras bandas?
Tuomas: Acho que a grande diferença é que essa é uma banda de três pessoas, e todas carregam o mesmo fardo.
Troy: E esse fardo é maravilhoso!
Tuomas: Com certeza é maravilhoso! Em comparação ao Nightwish, que depende muito de mim, aqui é realmente, como eu disse, um porto seguro nesse ponto também
Então, podemos dizer que é mais fácil e leve produzir o Auri em comparação ao Nightwish?
Troy: Acho que em termos de maquinário, no Nightwish a coisa é muito grande, muito vasta, como uma grande fábrica. Já no Auri é como uma pequena manufatura em uma cabana, usando ferramentas muito menores para criar, e que são usadas com muita liberdade para fazer o que queremos. Quer dizer, no aspecto da liberdade não é tão diferente, também temos essa liberdade, mas o jeito que chegamos ao ponto de lançar com o Auri é diferente.
O que significa o Auri para cada um de vocês em suas carreiras, vidas, almas e corações?
Johanna: Que lindo! Eu acho que é um playground de total liberdade e de amor.
Tuomas: Playground de total liberdade soa muito bem! E para mim, é um porto seguro!
Troy: Para mim também, é uma mistura de ambos. O Auri sempre me soou como um bastião de sonhos musicais, de tudo que é bom sobre fazer música.
Johanna: É misturar amizade com fazer música. Fazer isso sempre foi um sonho para mim e com o Auri, posso realizá-lo!
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