
Por Guilherme Goes
Fotos: Andre Santos
Embora alguns insistam na ideia de que a cena heavy metal vive um momento de estagnação, a realidade demonstra o oposto. Nos últimos anos, uma nova geração de bandas, transitando entre thrash, doom, speed, death e outras vertentes extremas, tem renovado o cenário com trabalhos competentes e notável originalidade.
Entre os principais nomes dessa nova safra, um dos que mais se destaca é o conjunto alemão Kanonenfieber. Formado em 2020, o projeto idealizado pelo músico Noise propõe uma imersão histórica na I Guerra Mundial, construindo suas composições a partir de relatos reais, cartas de soldados e documentos oficiais. A sonoridade mistura death metal, black metal e elementos de technical blackened, resultando em um trabalho intenso e atmosférico. No palco, os integrantes performam usando uniformes inspirados nos trajes de soldados do conflito, sempre com máscaras que preservam o anonimato – detalhe que reforça a estética da banda. Outro ponto marcante é que todas as letras são em alemão, o que contribui para a autenticidade e a força da proposta.
No dia 7, o Kanonenfieber finalmente fez sua aguardada estreia em São Paulo. Demonstrando o hype em torno da apresentação, o público começou a chegar cedo para garantir um bom lugar, com diversos fãs reunidos no local quase 2 horas antes da abertura oficial do clube. Embora o evento não tenha atingido sold out, os seguidores preencheram praticamente toda a pista. Sem bandas de abertura, uma discotecagem interna manteve a responsabilidade de animar a galera que aguardava ansiosamente a entrada do grupo.

Pontualmente às 20h, sirenes e sons de aviões bombardeando uma cidade alemã ecoaram pelos alto-falantes, gerando uma atmosfera imersiva. O guitarrista Kreuzer surgiu primeiro no palco, dedilhando a introdução de Menschenmühle. Em seguida, Noise (vocais), Ernst (guitarra), Gunnar (baixo) e Hans (bateria) tomaram suas posições, abrindo o set com uma fúria visceral, seguindo com Sturmtrupp e Der Füsilier I. As músicas exibiam blast beats avassaladores e um pedal duplo intenso. Noise, desde o primeiro momento, assumiu o comando como um verdadeiro general, mostrando em poucos minutos de show o porquê de ser considerado um dos grandes frontmen da cena atual.

Após uma breve troca de uniformes, o grupo retomou o ataque com as faixas Grabenlieder, Der Maulwurf e Panzerhenker. Mesmo que boa parte do público não compreendesse as letras em alemão – exceção feita a algum estudante dedicado do idioma –, a intensidade da performance, de alguma forma inexplicável, conseguia transmitir as narrativas sobre os horrores da I Guerra, fazendo com que os presentes sentissem os efeitos desse episódio brutal do século XX. A banda combinava técnica impecável, excelente linguagem corporal e elementos teatrais que remetiam aos movimentos dos combatentes. Noise, como um general em campo, apontava para a plateia como se estivesse dando ordens diretas. Em determinado momento, todos se abaixaram no palco simulando um ataque aéreo, ampliando ainda mais o impacto dramático da apresentação. A conexão entre os músicos chamava atenção: Noise e Gunnar dividiam guturais com precisão cirúrgica, enquanto Hans, na bateria, entregava uma performance impressionante, com pedal duplo de velocidade quase sobre-humana.

O público respondeu de maneira intensa durante todo o show, mas foi na reta final que a conexão atingiu seu ápice. Em Z-Vor!, um dos principais hinos do Kanonenfieber, a pista se abriu em um moshpit gigantesco. Já em Die Havarie, banda e público se uniram em um coro ensurdecedor no refrão marcado pelo grito de guerra “ahoi, ahoi!”, criando um dos momentos mais emocionantes da noite. Após mais de uma hora de impacto sonoro, teatralidade e uma comunhão quase ritualística entre músicos e fãs, o espetáculo foi encerrado de forma grandiosa com Ausblutungsschlacht.

O Kanonenfieber entregou um espetáculo arrebatador, combinando técnica refinada, performance teatral, domínio absoluto de palco e uma capacidade impressionante de conduzir o público. O único ponto que poderia ter elevado ainda mais a apresentação foi a ausência do telão de LED da casa, que teria permitido projetar imagens e elementos visuais relacionados às narrativas das letras, ampliando ainda mais a experiência geral. Ainda assim, o público saiu satisfeito, com a certeza de ter presenciado um evento verdadeiramente marcante.

Setlist
Menschenmühle
Sturmtrupp
Der Füsilier I
Grabenlieder
Der Maulwurf
Panzerhenker
Kampf und Sturm
Z-Vor!
Die Havarie
Die Feuertaufe
Waffenbrüder
Ausblutungsschlacht

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