ADOLESCENTS | T.S.O.L. | TREVA – SÃO PAULO (SP)

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Texto: Rogério S. M.

Fotos gentilmente cedidas por Flavio Santiago

“Quero uma festa que não tenha Stones / Gosto muito deles, mas quero os Ramones / Quero uma festa que não tenha Beatles / Se é pra recordar, prefiro Sex Pistols / Quero uma festa punk”. Foi impossível não recordar desse clássico do punk nacional sair do Cine Joia em 29 de novembro. Porque foi exatamente isso o que ocorreu naquela abafada noite de sábado: uma verdadeira festa punk. Tão divertida que Os Replicantes com certeza aprovariam. Afinal, no palco estavam dois dos maiores nomes da cena californiana dos anos 1980, T.S.O.L. e Adolescents.

O punk rock, no geral, sempre teve muitos adeptos em São Paulo, mas a cena oitentista da Califórnia é especialmente forte. Não por acaso, embalou muitas outras festas e tem um lugar especial no coração não apenas dos punkers, mas também de skatistas e até surfistas. Por isso, era de se imaginar um público bem mais velho curtindo os clássicos nesse show histórico, mas não. Como já é de praxe em shows punk por aqui, o público estava lotado de jovens e até pré-adolescents – ops, pré-adolescentes… Se há uma cena que prova a cada evento que está se renovando com força é a do punk.

E o que vimos no Cine Joia foi mais do que um rito de passagem para esses mais jovens. Foi uma celebração de quem sustentou essa bandeira por décadas e, mesmo já entrando na chamada fase “madura” da vida, ainda demonstra uma energia que muita gente só sonha ter. Mas, para juntar essas diferentes gerações em cima do palco, tivemos a abertura da banda Treva. O quarteto paulistano formado por Felipe Ribeiro (vocal e guitarra), Felipe Skid (guitarra), Eduardo Moratori (baixo) e Gian Coppola (bateria) tem chamado a atenção com seu som que mistura bem peso e melodia. Começando os trabalhos com Novo Amanhã, o grupo deixou o lugar na temperatura ideal para a noite memorável que se seguiria. Com a casa já bem movimentada, fizeram um show coeso e com bastante energia, em que puderam mostrar músicas mais novas, como Eu Marginal e Recomeço. Mas foi em termas como Onde Morre o Sol e Passado que Se Tem que a banda teve excelente resposta do público. “Pra nós, da Treva, foi um grande prazer poder dividir o palco com as bandas que servem de referência pra gente. Havíamos tocando com Buzzcocks em Porto Alegre e com Helmet aqui mesmo em São Paulo, e, agora, estar junto com duas bandas ícones do punk californiano, que tanto nos influencia, é mais um sonho realizado”, declarou Ribeiro.

Público devidamente aquecido, era hora de conferirmos o primeiro headliner da noite. Como punk também se trata de surpreender, o T.S.O.L. subiu ao palco sem nenhum alarde e, 5 minutos antes do horário previsto, já estava detonando Sounds of Laughter, clássico do debut Dance With Me. Lá estava o vocalista Jack Grisham, alguns quilos a mais do que quando tinha 20 anos, mas com a potência e carisma de sempre. Ron Emory, mesmo sendo relatado não estar tão bem de saúde, empunhou sua guitarra e, no seu melhor estilo, com o corpo inclinado, detonava os riffs com sua característica habilidade e timbres inconfundíveis. Saber que essa pode ser a última vez que vemos a banda por aqui trazia um pouco mais de emoção ao show. Músicas como Superficial Love  e World War III nos levavam direto para o começo dos anos 1980, mas algo estava diferente. O grupo mais maduro, mais íntimo com seus instrumentos e com o palco, nos dava a real dimensão de como essas músicas sempre deveriam soar.

E assim foi, uma atrás da outra, sem papo, sem enrolação, apenas pura energia. Apenas lá pela metade da apresentação que Grisham se comunicou um pouco com o público. Soltava piadas, dava pequenas provocadas, sempre com seu habitual sorriso no rosto. Andava pelo palco sem parar, emendando músicas uma na outra e olhando constantemente para o baterista Antonio Val Hernandez, que segurava a onda dos “tiozões” com força e concentração. Mas quem roubava a cena mesmo eram Grisham e Emory, basicamente hipnotizando o público, especialmente em clássicos como In My Head. O público não deixava por menos e enfileirava moshs e stage dives.

Em dado momento, Grisham anunciou: “Essa próxima música não costuma estar nos setlists de nossos shows nos EUA, mas como esta banda tem uma história estranha, resolvemos deixar essa de presente para vocês”. Em seguida, foi para o canto do palco e viu Emory cantar Red Shadows, do álbum Change Today?, que contava com o vocalista Joe Woods. Surpresas à parte, o que a galera queria mesmo era ver Grisham dominando o palco. Em pouco mais de um hora de apresentação, o T.S.O.L. entregou muito mais do que prometeu, com uma empolgação rara para uma banda que diz estar quase parando. E vendo como a banda ainda entrega músicas com adrenalina, como Fuck You Tough Guy, fica difícil acreditar que talvez seja o fim.

Faltava ainda a facada final no coração dos punks presentes. E, pontualmente às 21h, também sem nenhum alarde, o Adolescents subiu ao palco tendo à frente o fundador e líder Tony Reflex, uma das figuras mais icônicas do punk californiano e mundial. Acompanhado dos guitarristas Ian Taylor e Dan Root, do baixista Brad Logan e do incrível baterista Mike Cambra, o quinteto dominou o palco logo nos primeiros segundos de L.A. Girl. Reflex entrou com uma inacreditável blusa de malha que, claro, não durou uma música. Mesmo assim, manteve sua camiseta de manga comprida azul durante toda a apresentação. E olha que a banda não parava um segundo e emendava um clássico atrás do outro, mesmo pedindo diversos ajustes no retorno para a equipe. Dos PAs, a agressividade soava de forma impecável e o público respondia com seguidos stage dives e moshs.

Se na frente o vocalista atraia as atenções, quem segurava tudo com potência e técnica era Cambra. Tecnicamente, o baterista fez o chamado show perfeito e ditava o ritmo insano das músicas, como no puro suco de adrenalina de 5150 or Fight. Como rolou na apresentação do T.S.O.L., havia pouco espaço para conversa. A interação foi muito mais orgânica, com parte do público invadindo o palco ou subindo simplesmente para cantar as letras na cara de Reflex, como em No Way, um dos pontos altos da apresentação, que arrancou até sorrisos do vocalista.

Reflex, aliás, mostrava como carisma não se compra. O vocalista se movimentava com seu característico estilo “boneco de posto”, braços sempre pra baixo, caretas e passos que pareciam ser pernas de pau. Como um louco no manicômio, ele conduzia banda e público com voz potente e energia, como na extremamente insana Forever Summer, uma prova de como os sons mais recentes do quinteto não devem em nada aos clássicos. Mesmo assim, o apogeu da apresentação veio (como não poderia deixar de ser) com o hino Amoeba, que levou o público não apenas a gritar seu refrão a plenos pulmões, como desencadeou um verdadeiro frenesi na pista, com pessoas subindo e se atirando do palco já sem nenhum cuidado ou pudor. Uma retrato fiel de toda a energia e vitalidade do punk.

O fim veio com a não menos clássica Kids of the Black Hole, encerrando uma noite de reverências, celebrações, despedidas e sementes plantadas para o futuro. Simbolicamente, Reflex, o último a sair do palco, distribuía autógrafos e cumprimentos a quem conseguia chegar perto. A última cena? Um jovem fã que, além do autógrafo, pediu um abraço. O vocalista, com um grande sorriso, atendeu. O novo reverencia o antigo e carrega seu legado para as futuras gerações. Ali, naquele instante, naquele abraço, pudemos ver a história ser feita. Que o futuro do estilo seja tão empolgante, inconformado, rebelde e talentoso como seus precursores.

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