GRAVE DIGGER – SÃO PAULO (SP)

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Por Marcelo Gomes

Fotos: Belmilson Santos

Na noite de sexta-feira, em São Paulo, o Carioca Club transformou-se em um ambiente dedicado ao heavy metal com a apresentação do Grave Digger, banda alemã icônica do gênero. O show marcou a celebração dos 45 anos de carreira do grupo, trajetória marcada por riffs poderosos, temas históricos e mitológicos e uma fidelidade inabalável ao metal tradicional. Além disso, a performance serviu de oportunidade para promover seu álbum mais recente, Bone Collector, lançado em 2025, que acrescentou mais um trabalho relevante ao catálogo do grupo. Com um setlist abrangente, o Grave Digger entregou uma noite inesquecível ao misturar clássicos e faixas mais recentes, recebendo do público uma resposta calorosa. O evento contou também com a banda brasileira Just Heroes, vencedora de um concurso promovido pela revista ROADIE CREW em parceria com a plataforma Opus Entretenimento, no qual foi escolhida entre mais de cinquenta bandas inscritas e recebeu a maioria dos votos do público.

A apresentação da Just Heroes, responsável por abrir a noite, revelou-se uma grata surpresa ao apresentar um metal tradicional preciso, influenciado por Judas Priest mas sem soar como mera cópia. A formação composta por Machine (vocais), Flavio Souza (guitarra), Wander Cunha (guitarra), Fábio Cavalcante Gomes (baixo) e Marcus Castellani (bateria e ex-integrante do Manowar) demonstrou excelente entrosamento, com destaque para a presença de palco do vocalista Machine, que surgiu usando óculos escuros, boné e roupas de couro, evocando a escola de Rob Halford. A banda abriu com Heroes, conquistando de imediato a atenção do público, e seguiu com Angels Deserve to Live e Forever in My Heart. Neste momento, o vocalista agradeceu à ROADIE CREW e à Opus Entretenimento pela realização do concurso que levou-a ao palco, discurso que evidenciou a importância daquela oportunidade. Viral Signs, Hurts Like Fire e Survivor of Hate demonstraram a energia da banda, com riffs marcantes, refrãos fortes e uma cozinha muito sólida.

Na parte final, o show da Just Heroes chegou com o vigor de We Will Never Heal e Horsepower, faixas que funcionaram muito bem ao vivo e incentivaram a participação do público com coros e punhos erguidos. O ponto de conexão máxima com o público veio com a clássica Breaking the Law, do Judas Priest, escolhida a dedo para coroar a apresentação e escancarar de vez as influências que permeiam o som do quinteto. A banda soou segura, coesa e com repertório consistente, deixando claro que não estava ali apenas para “abrir a noite”, mas para marcar presença. Ao final, a sensação geral era de surpresa positiva: muitos que talvez não conhecessem o trabalho do grupo saíram com a impressão de terem assistido a um show de metal tradicional de alto nível, digno de qualquer banda veterana.

Encerrado o show de abertura, era chegada a vez dos anfitriões. A formação atual do Grave Digger é composta por Chris Boltendahl nos vocais, fundador do grupo em 1980 e figura central na história da banda; Tobias Kersting na guitarra, fazendo sua estreia no Brasil; Jens Becker no baixo; e Marcus Kniep na bateria, responsável por ditar o ritmo da noite com precisão técnica. Essa formação, que se manteve estável nos últimos anos, demonstrou excelente química ao revisitar o vasto catálogo da banda, equilibrando a experiência de Boltendahl e a energia dos demais integrantes. O setlist incluiu faixas do álbum Bone Collector, comprovando que o Grave Digger permanece ativo e relevante após 45 anos de carreira.

A apresentação teve início com Twilight of the Gods. Apesar de uma pequena falha inicial na guitarra, a abertura manteve o impacto e transportou o público para o universo mitológico característico do Grave Digger, sustentado por riffs pesados e pelos vocais marcantes de Boltendahl. Sem a parte acústica da faixa, a banda seguiu diretamente para The Grave Dancer. Antes de Kingdom of Skulls, presente no álbum The Bone Collector, Boltendahl saudou o público paulistano e afirmou que na celebração de 45 anos tocariam músicas novas e antigas, ressaltando que o mais importante era tocar heavy metal. O público respondeu de forma entusiasmada, entoando um “olê, olê, olê, Digger, Digger” que ecoou pela casa toda.

O riff de Under My Flag intensificou a energia da plateia. É importante destacar a qualidade da equalização do som, que permitiu ouvir cada instrumento com clareza e definição. A entrada recente de Tobias Kersting na guitarra deu novo vigor à banda sem comprometer sua identidade sonora. Valhalla, já consolidada como clássico, teve seu refrão cantado em uníssono pelo público. Era visível a celebração dos fãs, que vibravam a cada música executada.

A banda demonstrou sua satisfação ao longo da noite e preparou uma surpresa: The Keeper of the Holy Grail, faixa nunca tocada ao vivo no Brasil. Desde os primeiros acordes, a música foi cantada intensamente, transportando o público a uma atmosfera épica. The Dark of the Sun destacou-se pelo coro do público, que acompanhou a música com potência impressionante. Outra favorita de Boltendahl, The Curse of Jacques, trouxe melodias marcantes que envolveram a todos em um clima dramático e emocional.

Boltendahl fez questão de enfatizar que a banda se apresentava totalmente ao vivo, sem uso de playback. Em tempos em que muitos recorrem a recursos de apoio, a afirmação causou impacto positivo. O Grave Digger tem uma execução tão precisa que poderia suscitar dúvidas, mas a performance provou sua autenticidade. Shadows of a Moonless Night reforçou essa impressão com seu metal tradicional, seguida pela apresentação individual dos integrantes, que foram bastante aplaudidos.

A sequência com The Round Table (Forever) e Excalibur trouxe o lado épico esperado pelos fãs. A vibração da casa durante os riffs de Excalibur foi notável. A parte final do show conduziu o público por uma série de destaques. The Devil’s Serenade e Back to the Roots mantiveram a energia elevada, preparando o terreno para Rebellion (The Clans Are Marching), Scotland United e Circle of Witches. Nesses momentos, o público tornou-se parte ativa da apresentação, com coros que quase sobrepunham os vocais de Boltendahl. E, claro, o desfecho com Witch Hunter e Heavy Metal Breakdown foi a consagração da essência do Grave Digger: heavy metal direto, sem frescura, feito para ser cantado, brindado e celebrado ao vivo.

Mesmo em meio à celebração de sua discografia, o álbum Bone Collector esteve presente como lembrete de que o Grave Digger não depende apenas de nostalgia. Embora o repertório tenha privilegiado clássicos, a banda demonstrou confiança ao apresentar material novo, fazendo da turnê um reflexo de sua longevidade criativa. Boltendahl mencionou essa nova fase em alguns discursos, reforçando o orgulho pela trajetória e pela capacidade contínua de produzir obras relevantes.

O show no Carioca Club não foi apenas um exercício de memória, mas a prova viva de que o Grave Digger permanece em excelente forma, tanto em estúdio quanto no palco. A formação atual mostrou entrosamento, ótima performance e respeito profundo por sua história, ao mesmo tempo em que reafirmou o compromisso da banda com o presente. Para quem esteve presente na noite de 14 de novembro em São Paulo, a sensação foi de ter participado de um capítulo especial na trajetória de uma lenda do heavy metal, um capítulo marcado por riffs, coros, cerveja erguida e a certeza de que, após 45 anos, o Grave Digger continua cavando fundo na alma do heavy metal.


Setlist Just Heroes
Heroes
Angels Deserve to Live
Forever in My Heart
Viral Signs
Hurts Like Fire
Survivor of Hate
We Will Never Heal
Horsepower
Breaking the Law (Judas Priest cover)

Setlist Grave Digger
Twilight of the Gods
The Grave Dancer
Kingdom of Skulls
Under My Flag
Valhalla
The Keeper of the Holy Grail
The Dark of the Sun
The Curse of Jacques
Shadows of a Moonless Night
The Round Table (Forever)
Excalibur
The Devils Serenade
Back to the Roots
Rebellion (The Clans Are Marching)
Scotland United
Circle of Witches
Witch Hunter
Heavy Metal Breakdown

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