Por Daniel Agapito
Fotos: Lara Zugaib
Dentro do metal extremo, não tem subgênero que capture tão bem a essência suja e tosca (do melhor jeito possível) do underground de modo geral do que o grindcore. “Músicas” rápidas com comentários sociais diretos, sem rabo preso com nada nem ninguém, shows caóticos, tudo faz parte do pacote imprevisível do grind. Com diversos festivais “especializados” em determinados gêneros, era hora de os fãs da rapidez e podridão terem sua própria festa. Enfim, chegou o Bréa Extreme, festival promovido pela Caveira Velha Produções em parceria com a Xaninho Discos. No ano passado, começaram com o pé direito, trazendo simplesmente Napalm Death e Dead Congregation (Grécia), além de 10 bandas nacionais. A edição deste ano seria um pouco menor, contando com apenas 7 grupos em um palco só, mas com um headliner tão pesado quanto: Rotten Sound.
Aquela tarde de domingo começou relativamente cedo, por volta das 15h45, com o quinteto de blackened grindcore VØID IT, que atualmente promove seu novo álbum, Dissociative Identity Disorder, lançado no início de setembro. Além do novo disco, contam também com uma nova formação, agora com 2 vocalistas, Raimundo Rodrigues e Samuel Sales. O show deles foi curto, mas direto. Não chegou aos 25 minutos de duração, mas conseguiram entregar uma apresentação visceral e cheia de peso. Vale destacar especificamente Samuel Sales, que em diversos momentos desceu do palco e foi dar uns gritos no meio ao público, terminando o show deitado no chão. Em sua fala, também prezou pelo equilíbrio: “Não deixe se levar pelo pessimismo europeu, mas não deixe se levar pela fé cristã, o falso otimismo.”
Na sequência, 10 minutos antes do horário marcado (originalmente 16h30), veio a Plague Rages, banda veterana do cenário paulista, com quase 30 anos de estrada. Sua abordagem ao grind é mais tradicional, reta e direta; o show começou com um sample que parecia ser um enxame de abelhas, e continuou parecido. Fizeram meia hora de brutalidade sonora pura, um ataque atrás do outro. Teve uma hora, no meio do show, que Kiko, o baterista, estava batendo tão levemente e tão devagar que uma de suas baquetas simplesmente saiu voando. Em relação ao repertório, foram 25 músicas no total, todas com títulos perfeitos para explicar pra sua vó: Aborto Paterno, Coligação Nazi-Evangélica (cuja parte 2 foi tocada antes da parte 1) e Massacre de Mendigos, só para dar alguns exemplos. Não é fácil uma banda durar 30 anos, especialmente no underground, na cena faça-você-mesmo, e a Plague foi uma das poucas que conseguiu. Com um show de qualidade tipo aquele, ficou claro como conseguiram. Eles têm um compromisso sério com o barulho e a bestialidade.

Diretamente de Recife, o Rabujos finalizaria uma miniturnê que fizeram pelo Sudeste, tocando em Sorocaba na sexta-feira e em Santo André no sábado, ao lado do Social Shit, da Argentina. Formada em 1994, mas só gravando seu primeiro material 10 anos depois, a banda nordestina é outras que pode ser considerada lenda do underground nacional. O que reinou nesse show foi a interação com os fãs, como quando o vocalista pediu para que fizessem parte de um “complô global para te vigiar e roubar sua atenção” (ou seja, seguissem a banda nas redes sociais) ou quando deu aos fãs a oportunidade rara de “pogar” em show de grindcore (durante Exílio), oportunidade não aproveitada pelo público.

Vale ressaltar também a participação de Samuel (vocal da VØID IT) em Era de Extremos, trazendo mais uma camada de agressividade. Podemos dizer com certeza que os recifenses aproveitaram ao máximo essa primeira vinda às terras paulistas, impressionando o público daqui. É estranho falar que uma banda com mais de 30 anos, já conhecida na cena, foi uma das revelações do festival, mas foi isso: quem não conhecia, saiu fã. Presença, técnica, peso, tinha tudo!

Seguindo na linha das bandas nacionais que vieram de tão longe que poderiam ser consideradas gringas, a Baixo Calão (Belém/PA), que está acompanhando os finlandeses por toda a perna brasileira de sua turnê latino-americana, foi a quarta banda a subir no palco da Burning. Única “figurinha repetida” da última edição do festival, novamente proporcionaram um show incrível. Começaram a todo vapor com Coprofagia, pura pedrada sonora. Passadas mais algumas faixas, Leandro Porko (vocal) soltou alguns agradecimentos à produção, à equipe, mas o maior foi para o próprio público: “Com uma galera foda dessas até esqueço que tô com duas hérnias de disco.”

Falar que a galera estava foda seria um desserviço. Estavam completamente enlouquecidos! Um moshpit surgiu na segunda música (Neceológio) e só foi parar depois de Agitações no Sistema, lá para o final do show, quando uma funcionária da casa pediu para que o dono de um carro Nissan o tirasse do lugar em que havia estacionado errado. A apresentação, por sua vez, foi tudo menos estacionada, durando por volta de meia hora, com um repertório de 13 músicas. Fecharam com Aglomerados, praticamente um surf rock com distorção, perfeito para dar aquele último two-step e sair na mão sem perder a amizade.

Continuando apenas com instituições da podreira nacional, tivemos direito a uma aula do D.E.R. Foi muito mais que um show. Quem já teve a honra de experienciar uma apresentação deles sabe bem o que esperar: emoções à flor da pele, peso, barulho e muita técnica. Recentemente, lançaram seu primeiro material de inéditas em um bom tempo, justamente Tempo Severo, álbum pessoal e profundo, abordando o passar da vida. Algumas faixas do novo álbum figuraram no setlist daquela noite, dentre elas No Império das Trevas e O Mantra: Quanto a Carne Pode Suportar?, ambas tocadas com uma profundidade emocional inesperada para uma banda de grind. Maurício e Renato (baixo e guitarra, respectivamente) tocam parados, como duas estruturas gregas, enquanto Thiago (vocal) é possuído por uma energia inexplicável, realmente entra em transe.

E o baterista? O que falar de Barata? Barata não é um ser humano, tem a precisão de um robô e a força de um elefante. Além de tocar mais rápido que Marky Ramone cheirado, ele também tem uma agenda desumana: na quarta-feira, estava tocando em uma galeria de arte em Viena, na Áustria; na sexta, no ensaio geral da Gaviões da Fiel; e no domingo, na Burning House. Para tentar resumir: quem não viu D.E.R., veja. Eles sempre conseguem garantir um espetáculo para lá de marcante, deixando tudo de si – e mais um pouco – no palco. Seu disco novo aborda a incerteza do tempo, mas uma coisa é certa: Desordem e Regresso é como um bom vinho, só melhora com o tempo.

2025 tem sido um belo ano para bandas experientes do cenário do grind lançarem álbuns, pois maio nos trouxe mais um petardo do Desalmado. O quarteto já havia tocado na Burning House, justamente no show de lançamento do disco, e agora, após as faixas passarem pelo teste de fogo que é uma turnê por vários cantos da região, voltariam à casa mais quente do underground. Comparado ao som das outras bandas, especialmente do D.E.R. e do Baixo Calão que vieram logo antes, o Desalmado vai mais pro metal, algo mais cadenciado, groovado. Existem músicas caóticas, bem grind, claro, mas apresentam uns riffs mais técnicos, breakdown, aquele pezinho no death metal. Por isso, o público estava um pouco mais morto do que antes – nem chegou a rolar roda, por exemplo. Isso não quer dizer que não estavam curtindo, o bate-cabeça e os aplausos eram constantes.

Antes de seguir com Dead Propaganda, Caio Augusttus (vocal) soltou um “Palestina livre!”, mandando se foderem o sionismo e o fascismo. Caio deixou clara a importância da atividade política no grindcore, a importância de “se manter fiel às pautas necessárias”. Ele falou que fica feliz em ver bandas ativas, bandas produzindo, e que a satisfação maior não era estar tocando ao lado do Rotten Sound, mas de estar tocando com as bandas daqui, em especial Rabujos e Baixo Calão. A importância desta atividade foi algo que ele falou bastante sobre em entrevista para este que vos escreve, disponível na edição 287 da ROADIE CREW. Aquela entrevista teve como foco seu novo álbum, que no show teve um bloco dedicado apenas a ele, com Anger, No Peace, Only Death, Blood Thorns e Monopoly of Violence, antes de fecharem com Manto de Sangue, Pig Killer e Bridges.

Enfim, havia chegado a hora que todos estavam esperando. Cinco anos após sua estreia catártica no Setembro Negro de 2019 e 2 anos após a passagem do Goatburner, projeto solo do vocalista (Keijo Niinimaa) pelo House of Legends, o Rotten Sound fechava a perna brasileira de sua turnê latina, encerrando também mais uma edição do Breá Extreme. Desde sua última vinda, lançaram seu 8º álbum de estúdio, Apocalypse (2023), e ainda lançarão um EP este ano, Mass Extinction, que sairá em dezembro pela Season of Mist. Após uma passagem de som rápida, sem pompa nem circunstância, começaram com uma dobradinha de Cursed (2011), Self e Power. O show todo foi nessa toada, faixas rápidas, uma emendada na outra, geralmente sempre do mesmo álbum.
Passadas as primeiras duas, vieram aqueles agradecimentos preliminares de lei, à equipe, à presença dos fãs, aquele “amei essa turnê no Brasil” e uma divulgação rápida do último álbum, que foi de onde vieram Pacify e Equality. “Existem duas batidas que mantêm o mundo do jeito que está: blast-beat e D-beat. Vamos tocar um pouco de D-beat pra vocês dançarem: Suburban Bliss.” Ela foi seguida diretamente por Renewables, ambas também de Apocalypse. “Adoramos o Brasil, já quero voltar ano que vem.” Quem ouve aquelas músicas que soam como um canteiro de obra mal imagina a tranquilidade de Keijo e companhia. “Fico feliz que a casa esteja cheia assim, mas tem um monte de gente em casa assistindo Netflix, chamamos eles de Lazy Asses (“vagabundos”).” Durante esse começo do show, o vocalista ia gradualmente fazendo vários ajustes no som, mexendo nos amplificadores. E compensou: a timbragem estava pesadíssima, mesmo na ausência de um baixista. O atemporal Murderworks (2002) foi contemplado com Target, Void e Insect, recebida com caos completo na parte da frente da casa. Sami Latva, baterista, estava batendo tão levemente em seu instrumento que ele todo ia para a frente, bumbo, microfones, pratos – mãos levinhas do sujeito… No final de Insects, o microfone simplesmente parou e fez o frontman brincar com o público: “Não somos o Pig Destroyer.”

Brave New World, single do novo EP, foi outra recebida de maneira para lá de calorosa, apesar de ser um tanto diferente, começando com Keijo simplesmente falando, ao invés de cantar. Depois dela, o vocalista olhou para o público e quis saber onde estava o Barata (máquina percussiva do D.E.R.), perguntando se os fãs conheciam Test, sua outra banda. “Eu amo Test, amo o Barata. Bom, vamos tocar a única música devagar da noite, Slay, e não, não é do Slayer.” Para conseguirem entender o que é essa “música devagar”, Slay tem a duração gigantesca de 51 segundos. Se ela é devagar, Raining Blood é doom metal. Para não deixar essa “balada” assumir o clima do show, ainda emendaram Western Cancer e Sell Your Soul.

Antes das últimas três, mais alguns agradecimentos (novamente destacando Barata, já posso chamar Keijo para criar o fã-clube oficial dele) e um discurso rápido sobre como as guerras no geral são algo ultrapassado e desnecessário. Salvation e Trashmonger seguiram, passando aquela mesma paz e calma de ser atropelado por um ônibus. Precedendo Blind, último petardo da noite, o vocalista fez um pedido simples: “Big circle pit”, e dito e feito, um liquidificador humano em sentido horário. Para acabar com aquele rumor de que o punk não ama, o vocalista terminou o show direcionando um coração aos fãs, antes de correr para a banca de merchandise. Por incrível que pareça, seu show, mesmo como headliners do festival, durou apenas 35 minutos.

Ao todo, mais uma edição bem-sucedida do festival. A quantidade de bandas ainda foi um pouco cansativa, especialmente por ser um domingo, mas não foi nada comparado à última edição, com dois palcos – o tempo entre as bandas aumentou, mas facilitou a vida de quem estava lá. Problemas técnicos praticamente nulos, pontualidade impressionante – se continuarem desse jeito, tem tudo para ser o Rock in Rio do grind. Em relação aos shows em si, não tem o que falar, apenas apresentações de qualidade. Trouxeram algumas lendas do Brasil inteiro, além de nomes mais novos, como a VØID IT. Por mim, o Rotten Sound já podia voltar ano que vem, com Mass Extinction, e já podiam anunciar a terceira edição do festival.

Setlist Plague Rages
Rodeio de Idiotas
Presos no Submundo
Aborto Paterno
Consciência Induzida ao Estado
Exploração
Anacronismo
Doença que Parece a Cura
Quadrilha da Privatização
Explorar para Lucrar
Ovo da Serpente
Coligação Nazi-Evangélica pt. 2
Realidade Insatisfaz
Hecatombe
Paralisia
Cultura do Estupro
Massacre de Mendigos
O Câncer Eleito
Iludido por Eles…
Querem Minha Obediência
Hemorragia
O Rendimento É uma Mentira
Ascensão
Oposição Perseguida
Cena Medíocre
Coligação Nazi-Evangélica

Setlist Rabujos
Tanto Faz
Nada Importa
Gangrena
Meio Homem
Desconforto
Ninguém Chora
Horrores
Opala
Marta
Era dos Extremos
Exílio
Guǐ Yā Shēn
Beco
A Última Quimera
Batismo à Gasolina
Sem Finais Felizes
Cadáver
Foice

Setlist Baixo Calão
Coprofagia
Necrológio
Nem Resetando
Ama Sul Generis
Honra ao Mérito
Das Vísceras
Esboroável
Famigerado
Agitações no Sistema
Paz Armada
Antecipação
Consumismo
Aglomerados

Setlist D.E.R.
Sui-Caedere
Amargo
Mágoa
Má Vontade
No Império das Trevas
O Mantra: Quanto a Carne Pode Suportar?
Rancor
Ressentimento
Com a Carne Sangrando em Tempo Eterno
A Vida que Pesa
A Cada Minuto
Ouça!
As Vozes que eu Escutava
Raiva
Assim Como

Setlist Desalmado
Trauma Bond
Hidra
Privillege
Dead Propaganda
Alone
Anger
No Peace, Only Death
Blood Thorns
Monopoly of Violence
Manto de Sangue
Pig Killer
Bridges

Setlist Rotten Sound
Self
Power
Pacify
Equality
Suburban Bliss
Renewables
Lazy Asses
Inhumane Treatment
Targets
Void
Insects
Ownership
Sharing
Brave New World
Slay
Western Cancer
Sell Your Soul
Salvation
Trashmonger
Blind

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