
Por Fernando Queiroz
Fotos: Andre Santos
Diversão. Se eu tivesse que definir o que é ouvir e assistir o Gloryhammer em uma palavra, seria essa. A banda escocesa idealizada pelo tecladista Christopher Bowes, conhecido ainda mais por ser o vocalista do Alestorm, aposta nisso: humor! Não aquele humor escrachado no estilo Massacration ou Nanowar of Steel, mas algo que pega os estereótipos do power metal e os usa elevados à sem-número potência de forma a ficar extremamente propositalmente caricato e estereotipado. De fato, parece ser realmente o foco do trabalho artístico de Bowes (que na banda aqui em questão usa o nome de seu personagem na história criada para o grupo, Zargothrax, um enredo maluco que mistura fantasia com ficção científica de forma satírica), já que o próprio Alestorm é também algo assim, em outro formato. A zoeira pode ser vista em todo material deles, de letras a fotos promocionais, do visual às performances ao vivo. É uma banda que não se leva a sério – pessoalmente, acho isso muito legal.
Com uma formação um pouco diferente da que iniciou as atividades – com o cipriota Sozos Michael no papel de Angus McFife, vocalista e protagonista da saga escrita pela banda, lugar que era do suíço Thomas Winkler, que continuou sua jornada na banda Angus McSix (trocadilho!), de onde também já saiu –, essa foi a primeira passagem da banda pelo país, uma demora considerável para um grupo relativamente bem famoso e com mais de dez anos de estrada, ainda com a associação ao Alestorm. Era, na verdade, para terem vindo meses atrás, mas os shows foram cancelados e agora, por outra produtora – Overload –, finalmente tivemos o prazer de recebê-los. Eles, por sua vez, entregaram tudo que se espera de uma banda com sua proposta, goste você ou não dela, mesmo com um baixo público os presenciando em São Paulo. Baixo público, porém realmente formado por fãs! Vejamos como foi.
Já próximo das 18h, meia hora antes da abertura da casa, podíamos ver que não seria um evento lotado – sequer cheio. Umas poucas pessoas aqui e ali na rua com camisetas de bandas e mais um punhado na fila era o que víamos e sabíamos que estariam no show. Mas o clima era bom, descontraído, com pessoas com um martelo enorme de brinquedo na fila, dando risada, e até alguns chifres de unicórnio coloridos – que tem a ver com a história criada pela banda, novamente –, tudo para ser, ao menos, uma noite bem tranquila e de muito alto astral, algo comum no power metal, ainda mais levando em conta que a banda usa o humor como elemento.
Sem problema algum, pontualmente, às 18h30, as portas abriram, e rapidamente todos foram entrando. No fim das contas, o público total foi baixo, mas suficiente para produzir um volume legal ali dentro e fazer valer a noite. Também com pontualidade, às 20h, no melhor horário possível, as cortinas se abrem e estamos prontos para começar.

A introdução do show, por si só, já foi simplesmente hilária: um recorte em papelão da imagem do cantor galês Tom Jones no palco, com iluminação em foco, e uma canção sua, Delilah, tocando de fundo. Soltei uma risada sincera na hora! Depois, sim, começou a introdução instrumental da banda, e logo o Gloryhammer veio ao palco com The Land of the Unicorns do disco Legends from Beyond the Galactic Terrorvortex, de 2019. Unicórnios é o que não falta nas letras deles, aliás. E, sim, os discos têm esses nomes absurdos – tudo muito bem pensado para ser absurdo mesmo. O tecladista e fundador Christopher Bowes não estava presente – na verdade, ele nunca está, pois geralmente está em turnê com o Alestorm. Seguimos com He Has Returned, e logo Sozo falou com o público. Em novo momento cômico, contou que de onde ele vem (no caso, o mundo imaginário da história da banda) não existem aviões, apenas unicórnios alados, e anunciou Fly Away. Risadas por parte de todos (os que entenderam, ao menos).

O primeiro single lançado pela banda, em 2013, foi a próxima – a música que dá nome ao personagem principal, interpretado pelo vocalista, Angus McFife, possivelmente seu maior hit; ao menos, um dos maiores. O atual vocalista faz bonito nas faixas gravadas por Winkler e, apesar de não ter um agudo tão alto, adapta bem essas partes para sua voz. O público, apesar de diminuto, era barulhento, e todos gritavam “hoots, hoots!” Contextualizando, isso é referência ao baixista The Hootsman (personagem de James Cartwright), que tem o “poder de hoots” e acabou virando um tipo de grito de guerra dos fãs. O músico chegou a comentar sobre isso em papo com fãs no Reddit, na qual há outras explicações sobre a própria palavra “hoots” na cultura escocesa. Estava tudo realmente divertido! Lembram logo no começo, quando falei de diversão?

Continuamos com Questlord of Inverness, Ride to the Galactic Fortress (é um desafio por si só escrever esses nomes!) e então, em meio a muitos gritos, novamente, de “hoots”, Wasteland Warrior Hoots Patrol… “Hoots!” Muitos “hoots”, nas músicas e nos gritos da plateia, que culminaram na canção que leva o nome da banda, seguida de Fife Eternal. Em diversos momentos, Sozos pegou o martelo de brinquedo que alguém na plateia levou, além do que ele mesmo trouxe, com luzes de neon. Também tivemos um sujeito pintado de duende verde entrando no palco só de sunga, simulando uma luta com o vocalista! Mais risadas.

Em certos interlúdios, os guitarristas Michael Barber e Paul Templing falavam com vozes “robóticas”, performando seus personagens, e o baixista, um dos mais queridos pelo público, levantou todos quando foi se dirigir, sozinho no palco, aos fãs para apresentar uma canção, com uma cerveja na mão e sempre falando de “hoots”. Era constante a interação interpretativa entre os membros em seus personagens, como inimigos ou aliados.

O show seguiu no mesmo padrão dali para frente, com Masters of the Galaxy, On a Quest for Aberdeen e The Siege of Dunkeld (In Hoots We Trust)… “Hoots!” Mais gritos de “hoots!” A deixa para saírem do palco foi Keeper of the Celestial Flame of Abernethy. Voltaram rapidamente para o bis, com Universe on Fire, Hootsforce (é muito “hoots!”), e finalmente, finalizaram com The Unicorn Invasion of Dundee (e muito unicórnio). Detalhe curioso: Dundee é uma cidade na Escócia e a banda conta com várias referências ao país. Show terminado, alma lavada.

Embora com pouco público, o Gloryhammer entregou o show que todos esperavam: diversão, humor, músicas muito bem tocadas, performances hilárias e muitos hits. Como falei, certa vez, em entrevista com Falk Maria Schlegel no começo deste ano, estamos vivendo uma nova onda de power metal pelo mundo. Uma onda em que as bandas não são mais aquelas coisas filosóficas, cheias de mensagens intelectuais, virtuosismo e certa sensibilidade. Por muitos anos, falei que o power metal precisava se renovar de alguma forma, pois estava perdendo força, mas nunca pensei que seria dessa forma, com humor e sendo sátira de si mesmos. Há quem não suporte isso, mas eu agradeço muito por essa proposta descontraída! Bandas que não se levam a sério são sensacionais. No mais, o que posso dizer é que foi um privilégio ver esse grupo pela primeira vez no Brasil, e com certeza foi para todos presentes. É verdade que sim, seria mais proveitoso vê-los em um festival, em que seriam mais apreciados – quem sabe em 2027, no quinto Bangers Open Air, não? Neste ano, porém, entregaram o melhor do power metal, com ótimo som, iluminação, performances individuais e coletivas, e horário – é tão bom chegar cedo em casa depois de um show!

Setlist
The Land of Unicorns
He Has Returned
Fly Away
Angus McFife
Questlords of Inverness, Ride to the Galactic Fortress!
Wasteland Warrior Hoots Patrol
Gloryhammer
Fife Eternal
Masters of the Galaxy
On a Quest for Aberdeen
The Siege of Dunkeld (In Hoots We Trust)
Keeper of the Celestial Flame of Abernethy
Universe on Fire
Hootsforce
The Unicorn Invasion of Dundee

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