TIAMAT – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Andre Santos

Fãs brasileiros do Tiamat amargaram longos 16 anos até que a banda sueca retornasse ao país após a estreia em 2009, acompanhada dos portugueses do Moonspell, na mesma São Paulo e no mesmo Carioca Club. Na ocasião, a “Tia Marta” divulgava o álbum Amanethes, lançado no ano anterior, trabalho marcado por uma sonoridade que sugere influências de Pink Floyd e Sisters of Mercy.

Criado pelo vocalista, compositor e produtor Johan Edlund, o grupo surgiu no final dos anos 1980. O artista iniciou sua trajetória no metal extremo, ajudando a consolidar a cena sueca de death metal, antes de conduzir o Tiamat por uma transformação gradual que incorporou elementos de doom, gothic metal, rock atmosférico e psicodelia. Ao longo da discografia da banda, Edlund se destacou pela disposição em romper fronteiras estilísticas, priorizando atmosferas densas, letras introspectivas e uma abordagem cada vez mais autoral. Seus temas costumam abordar espiritualidade, existencialismo, ocultismo e experiências pessoais, refletindo uma visão artística marcada por melancolia e questionamentos internos.

A recente apresentação do Tiamat, dentro da “Latam Tour 2025”, marcou o encerramento de uma excursão de dez datas pela América Latina, iniciada no México e que passou ainda por Honduras, Chile e Argentina. A passagem do grupo por Sampa reuniu contrastes que ajudam a explicar a longevidade e a singularidade da banda escandinava. Em plena segunda-feira de dezembro, com a cidade ainda lidando com problemas causados por chuvas e quedas de energia (“parabéns”, Enel – só que não), o grupo de Edlund entregou um show longo, emocionalmente carregado e ancorado em diferentes fases de uma discografia que atravessa o death/doom metal, o gothic metal e incursões mais atmosféricas e progressivas.

Antes mesmo do início do show do Tiamat, Edlund já dava sinais de que aquela não seria uma apresentação convencional. Sem vaidade, o cantor surgiu diante da cortina ao som de Shine On You Crazy Diamond (Pts. 1-5), do Pink Floyd, que rolava no som ambiente, para cumprimentar fãs, autografar discos e até carimbar (!) braços e encartes com o símbolo da banda — um gesto espontâneo que estabeleceu um clima de proximidade raro para um nome tão influente do underground europeu.

Esse comportamento afetuoso contrastou com a imagem sombria que sempre acompanhou o Tiamat desde os tempos iniciais, ainda sob o nome Treblinka, no fim dos anos 1980, quando figuravam entre os pioneiros do death metal sueco. Chamou atenção, no entanto, o quanto Edlund aparentava estar envelhecido e frágil, parecendo ter bem mais do que seus 54 anos. De chapéu, com poucos e ralos cabelos brancos, me lembrou o saudoso produtor musical, compositor, arranjador e jurado de televisão Arnaldo Saccomani.

Com 15 minutos de atraso e um público em número apenas razoável, o show começou ao som de um sino de igreja, com a banda já posicionada no palco, enquanto Edlund assoprava seu apito que emula sons de pássaros. O clima antecipava Church of Tiamat, música de pegada pós-punk e andamento arrastado que abre o disco Skeleton Skeletron (1999), introduzindo imediatamente o lado mais introspectivo e cadenciado da banda. A música começou com Edlund declamando a primeira estrofe, para então a banda descarregar o peso.

A postura de Edlund no palco — chapéu, óculos escuros e uma interpretação quase blasé — reforçava essa atmosfera meio onírica, enquanto sua voz alternava momentos graves e soturnos com passagens mais agressivas ao longo da noite.

Ao seu lado estavam o baterista Lars Sköld, parceiro de décadas, conduzindo a apresentação com uma bateria precisa e econômica, fundamental para sustentar as constantes mudanças de clima do repertório; o guitarrista Simon Johansson (Soilwork, ex-Abstrakt Algebra), que dividiu o protagonismo com Edlund em uma performance visceral; além dos experientes Gustaf Hielm (baixo — ex-Meshuggah e Pain of Salvation) e Per Wilbert (teclado — Spiritual Beggars, ex-Opeth).

Sem material novo para divulgar — o último álbum de estúdio, The Scarred People, data de 2012 —, o Tiamat optou por um setlist retrospectivo. Ainda assim, os dois primeiros discos, Sumerian Cry (1990) e The Astral Sleep (1991), assim como o próprio The Scarred People, ficaram de fora, com o foco recaindo principalmente sobre a fase iniciada em Clouds (1992). Foi bacana notar que, nesse trecho do show, o telão de LED ao fundo do palco exibia o logotipo antigo, remetendo à fase death metal do Tiamat.

Faixas como as impactantes In a Dream Clouds, mais a dramática The Sleeping Beauty, trouxeram à tona o peso do doom/death do início dos anos 90, arrancando respostas mais físicas do público, ainda que sem transformar a pista em um caos típico de shows extremos.

A banda atual mostrou entrosamento e domínio do material. Gustaf no baixo, além de linhas marcantes com forte influência pós-punk, dividiu vocais em momentos pontuais, enquanto Wiberg foi essencial na construção das camadas atmosféricas, dispensando o uso de trilhas pré-gravadas. Já Simon, apesar de ser o integrante mais recente, destacou-se não apenas pela pegada nos riffs e beleza nos solos, mas também por sua presença cheia de energia no palco.

A influência de Pink Floyd presente em alguns álbuns do Tiamat ficou evidente em músicas como Phantasma De Luxe, Cain e Love in Chains, nas quais o Tiamat se aproxima mais do gothic rock e do rock atmosférico do que do metal propriamente dito. Em alguns momentos, o grupo soava como um cruzamento improvável entre Paradise Lost, My Dying Bride e Sisters of Mercy, evidenciando como Edlund sempre transitou entre universos distintos sem se prender a rótulos. Por falar em Edlund, além do trabalho com o Tiamat, ele também esteve envolvido em projetos paralelos e colaborações, mantendo uma postura independente e avessa a fórmulas comerciais. Reconhecido por seu temperamento reservado e por declarações diretas, ele permanece como uma figura singular no metal europeu, respeitado pela coerência artística e pela capacidade de reinvenção ao longo de décadas de carreira.

Um dos pontos altos da apresentação veio com a sequência dedicada ao clássico Wildhoney (1994), álbum frequentemente citado como um divisor de águas do gothic metal. A introdução com sons de pássaros abriu caminho para Whatever That Hurts, The Ar, Do You Dream of Me? e Visionaire, recebidas com entusiasmo visivelmente maior. Punhos erguidos, coros tímidos e uma atenção quase reverencial marcaram esse trecho, reforçando o status cult do disco, que até hoje influencia bandas do metal gótico e atmosférico. Ainda assim, particularmente falando, a música que mais me arrepiou foi Brighter Than the Sun — conhecida por seu videoclipe estrelado pela cantora alemã Nicole Bolley, que participa do álbum Skeleton Skeletron —, executada em uma versão com mais punch e marcada por uma perfomance intensa de Simon.

O telão ao fundo acompanhava essa viagem pela carreira do grupo, alternando diferentes logotipos usados ao longo das décadas — do visual mais ocultista do início aos traços mais minimalistas adotados nos anos 2000. No decorrer do show, o simpático Edlund distribuiu gestos de corações e beijos aos fãs. Já na reta final, músicas como Cold Seed Vote for Love devolveram uma leve sensação dançante à apresentação, preparando o terreno para Gaia, que encerrou a noite de forma contemplativa. No final, Edlund se despediu com a mesma tranquilidade introspectiva que marcou toda a performance.

O show de pouco mais de uma hora e meia que marcou o retorno do Tiamat ao Brasil após cerca de 16 anos soou como um reencontro íntimo entre banda e público. A apresentação evidenciou as diferenças entre as fases mais pesadas e as mais atmosféricas do grupo, mas também mostrou como todas elas fazem parte de uma identidade coerente, construída ao longo de quase quatro décadas. Para quem esteve no Carioca Club, foi uma noite de melancolia, afeto e nostalgia — daquelas que não buscam impressionar pelo excesso, mas permanecem na memória pelo clima único que só o Tiamat consegue criar. Que essa turnê seja o prenúncio de um novo capítulo em estúdio, afinal, já faz muito tempo que os fãs aguardam por isso.

Tiamat – setlist: Church of Tiamat In A Dream Clouds The Sleeping Beauty Divided Will They Come? Cain Love in Chains Phantasma De Luxe Brighter Than the Sun (Wildhoney – no som mecânico) Whatever That Hurts The Ar Do You Dream of Me? Visionaire Cold Seed Wings of Heaven Vote For Love (25th Floor – no som mecânico) Gaia   Clique aqui para seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp