BILLY IDOL – SÃO PAULO (SP)

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Por Luiz Tosi

Fotos: Belmilson dos Santos

A história de Billy Idol com o Brasil é breve, mas com algumas curvas dramáticas. Em sua primeira passagem pelo país, o vocalista inglês realizou dois shows na segunda edição do Rock in Rio, em janeiro de 1991, um deles substituindo Robert Plant. Naquela época, o artista promovia seu quarto álbum, Charmed Life, e tinha sua popularidade impulsionada pelo sucesso do clipe de Cradle of Love.

Então veio um longo hiato de 31 anos — que quase foi interrompido em 2017, quando chegou a ser anunciado no mesmo Rock in Rio, mas cancelou sem apresentar motivos. O reencontro, enfim, veio em 2022, com duas apresentações completamente antagônicas. Na primeira, no Pavilhão Pacaembu, em São Paulo, Billy entregou um show firme, coeso e cheio de energia. Já no dia seguinte, no Rock in Rio, protagonizou um espetáculo desastroso: problemas técnicos, cansaço visível, andamentos arrastados e uma plateia apática resultaram num dos momentos mais constrangedores do festival, com direito a dois erros seguidos na entrada de Eyes Without a Face. Uma vergonha em rede nacional.

Desta vez, Billy voltou ao país para mais duas apresentações: esta em São Paulo, seguida de uma em Curitiba, no dia 12, com a missão silenciosa de apagar aquele gosto amargo. E já adianto: a missão foi cumprida.

Mas antes dele havia a abertura. E que abertura. Num line-up que misturava o óbvio ao inusitado, chamar Supla para abrir o show de Billy Idol foi quase uma piada pronta. Afinal, colocar no mesmo palco os dois cabelos espetados mais icônicos do planeta parecia uma daquelas ideias que surgem no bar e acabam virando realidade.

Num combo de irreverência, figurinos exagerados e um repertório que passeia entre o punk, o pop e a paródia, Supla entregou tudo o que se espera dele. Hits como Charada Brasileiro, Encoleirado e a sempre divertida Green Hair (Japa Girl) se misturaram a covers que iam de Harry Styles a Beatles e David Bowie, sem esquecer da dobradinha do Tokyo com Humanos e Garota de Berlim, que seguem firmes no imaginário pop de quem viveu os anos 80.

Mais do que um personagem folclórico, Supla é um frontman de respeito. Grita, dança, brinca e improvisa. Com o apoio dos competentes Punks de Boutique, entregou um show coeso, enérgico e, acima de tudo, divertido. Foi a abertura perfeita para um público que, aos poucos, foi enchendo a casa.

Eram 21h quando o Vibra São Paulo recebeu um Billy Idol sorridente, relaxado e genuinamente feliz em estar ali. Acompanhado de sua banda impecável, ele abriu com a enérgica Still Dancing, faixa do seu novo álbum, Dream Into It, que, apesar de recente, já tem cara de hit. “Vocês estão prontos?”, provocou com aquele jeitão galã-pirado, meio canastrão, uma espécie de “Elvis encontra Sid Vicious”.

Billy é um daqueles raros artistas que conseguiram vencer em todas as ligas: punk, pop, hard rock, headbangers, new wave, post-punk ou mesmo os ouvintes de FM que frequentavam as danceterias dos anos 80. A contrapartida de um repertório tão reconhecível é a plateia mais genérica, que por vezes se dispersa: há sempre quem prefira registrar tudo pelo celular ou bater papo com a música rolando.

Quem foi lá ver os hits, saiu satisfeito. Mas quem se interessa mesmo pela carreira do cantor, esse aproveitou ao máximo. É nítido quando um artista realmente acredita na força de um lançamento e não apenas grava álbuns para justificar turnês. Aqui, a banda apresentou nada menos que cinco das nove faixas de Dream Into It: além da já citada Still Dancing, vieram 77, Too Much Fun, People I Love e a estreia ao vivo de Gimme the Weight. E todas funcionaram muito bem.

As outras faixas da noite foram uma surra de hits. A segunda foi Cradle of Love, jogo ganho; já Flesh for Fantasy surgiu ainda mais suja e sensual do que a versão de estúdio. A plateia, lotada de trintões, quarentões e cinquentões, respondeu em coro, braços para o alto e (claro) celulares filmando cada segundo.

Se havia qualquer fantasma da tragédia de 2022, Eyes Without a Face foi a redenção. Billy entregou uma performance precisa, emotiva, destacada ainda mais pelo brilho absoluto de Steve Stevens. O guitarrista é um show à parte: seu solo flertou com trechos de Over the Hills and Far Away (Gary Moore), Stairway to Heaven (Led Zeppelin) e Eruption (Van Halen), hipnotizando até quem só foi lá para ouvir Dancing with Myself.

O clima subiu novamente com Mony Mony, cover de Tommy James & The Shondells que virou um hino nas mãos de Billy nos anos 80. Em seguida, surpreendeu com Love Don’t Live Here Anymore, lado B gravado originalmente em 1983 para Rebel Yell mas que ficou de fora da versão final, sendo incluída apenas edição deluxe de 40 anos do álbum. Curiosamente, foi Madonna quem lançou a música, no multiplatinado Like a Virgin, em 1984.

A banda estava afiada, coesa e mais solta com a adição de duas backing vocals femininas, totalizando oito músicos no palco. A sempre divertida Ready Steady Go jogou o clima lá em cima com aquele espírito caótico do Generation X, primeira banda de Billy. Já na reta final, Blue Highway emendou uma citação ao tema de Top Gun, originalmente gravado por Stevens para um dos soundtracks mais bem-sucedidos da história do cinema – com direito até a um teaser de Purple Haze, de Jimi Hendrix, antes. Billy é o ídolo. Mas Steve Stevens é o segredo.

A catarse veio com Rebel Yell, antecedida por uma fala de Billy sobre a origem da música: em uma festa em que ele conheceu Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, que estavam bebendo um uísque chamado “Rebel Yell”.

A reta final ainda trouxe a tão esperada Dancing with Myself, outra da fase Generation X, a pop Hot in the City e, claro, a icônica White Wedding, encerrando a noite como se o tempo tivesse parado em 1983.

Prestes a completar 70 anos, Billy Idol está mais sereno, mas continua elétrico. Já não é mais um animal selvagem no palco, mas o brilho nos olhos e o punho cerrado continuam lá. O show não foi apenas uma correção de rota após aquele Rock in Rio. Foi um lembrete de que até os maiores tropeçam e que nem todos precisam viver de passado: alguns ainda escrevem novas páginas ao vivo. Idol não veio apenas recuperar o cinturão resgatando o passado. Ele o atualizou.

Setlist

Still Dancing

Cradle of Love

Flesh for Fantasy

77

Eyes Without a Face

Mony Mony

Love Don’t Live Here Anymore

Too Much Fun

Gimme the Weight

Ready Steady Go

Blue Highway / Top Gun Anthem

Rebel Yell

Dancing with Myself

Hot in the City

People I Love

White Wedding

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