MASTERPLAN – SÃO PAULO (SP)

Escrito por

em

,

Por Fernando Queiroz

Fotos: Amanda Sampaio

Poucos grupos têm um potencial tão desperdiçado quanto o Masterplan. Na verdade, não consigo lembrar de uma banda que estourou tanto quanto eles em seu primeiro álbum, com os recém-saídos do Helloween Roland Grapow e Uli Kusch unindo forças com o fantástico vocalista Jorn Lande – não por acaso, seu primeiro disco, homônimo, é sensacional, um clássico do gênero! Depois disso, veio um segundo trabalho ainda muito bom, chamado Aeronautics, mas bastante abaixo do antecessor. A saída de Uli e Jorn acendeu o alerta, e o álbum MK II, com o cantor Mike DiMeo e o baterista Mike Terrana, não foi bem aceito, e a banda passou a fazer cada vez menos shows. Nem a volta de Jorn em Time to Be King, outro “meia boca”, ajudou e logo o vocalista também saiu pela segunda vez. Finalmente, em 2012, a banda se firmou com os vocais de Rick Altzi, que permanece até hoje.

O estrago estava feito, e por muitos e muitos anos, mesmo após seu último trabalho, Novum Initium, que não se tornou o sucesso que precisava, ficou sem fazer turnês extensas – no máximo um show aqui, outro ali. Nesse meio tempo, um disco patético de regravações do Helloween, Pumpkings, não melhorou a situação. Houve também um single, Rise Again, lançado em 2024, que passou despercebido, apesar de ser realmente uma boa música. Pois bem, chegamos a 2025, e para surpresa de todos aqui estavam eles, no Brasil, pela primeira vez com essa atual formação (acompanhados do baterista brasileiro Marcus Dotta, que substituía Kevin Kott especialmente para a ocasião), que, apesar de boa, é uma sombra do que já foi a banda. Casa cheia? Longe disso. Um show épico? Longe! Uma apresentação ruim? Mais longe ainda. Vejamos o que rolou.

Pontualmente, às 19h, a primeira banda de abertura foi ao palco. Os veteranos do Seventh Seal, tradicional nome do ABC paulista, que conta hoje com Leandro Caçoilo nos vocais, tocaram para um público muito diminuto ainda, que até parecia maior do que realmente era, com as pessoas bem espalhadas pelo lugar. Seu som nada mais é que um heavy metal com toques de power, relativamente genérico, mas que não vai realmente desagradar os presentes – especialmente porque, apesar do que foi dito, acaba funcionando realmente bem ao vivo! Como quase toda banda de abertura, em especial a primeira abertura, enfrentou problemas como som estourado, alto demais e, em determinados momentos, com o microfone falhando. Ainda bem, isso durou pouco e a impecável voz de Caçoilo, como sempre, se mostrou o ponto alto, como em qualquer banda que integre – sem tirar os méritos dos outros excelentes músicos ali presentes, que fizeram bonito em seus instrumentos.

A segunda abertura, também pontual, foi a relativamente novata na cena Trend Kill Ghosts (sobretudo se comparada à anterior, com seus 30 anos de estrada), com um pouco mais gente presente os apreciando. Com um som muito mais condizente com a banda principal, naquele power metal bem melódico tradicional, e funcionando tão bem quanto, não posso deixar de dizer que foi um show mais prazeroso de assistir, até pela vibe que o público estava. Claramente influenciado por bandas como Edguy, o vocalista Diogo Nunes tem uma técnica e um jeito de cantar que se assemelha muito com Tobias Sammet, e isso não é algo ruim – pelo contrário, funciona muito bem para o gênero! Houve, durante a apresentação, diversos problemas de som, que dessa vez persistiram mais. Em muitos momentos, não se ouvia o microfone e a caixa da bateria era deveras baixa – o que é uma pena, pois, acreditem, Alessandro Kelvin é um dos melhores bateristas que vocês ouvirão por aí. Tudo só foi ficar nos trinques além da metade do show. Não tirou, porém, o brilho de grandes músicos que entregaram o seu melhor. Uma banda que vale a pena conhecer, inclusive em estúdio, com dois discos, Kill Your Ghosts, de 2019, Until the Sunrise Again, lançado em 2021, além de um excelente EP, Facing My Ghosts, que saiu este ano.

A grande atração começaria às 21h. O Masterplan, que hoje conta com ótimos músicos, alguns dos melhores do power metal, não se assemelha em quase nada com aquele de outrora: o sueco Rick Altzi, conhecido por seu trabalho anterior no Thunderstone, no vocal; Jari Kainulainen, o lendário baixista finlandês que gravou todos os grandes clássicos do Stratovarius, no qual ficou até 2005 – ambos desde 2012 na formação –, e os dois alemães membros originais, Axel Mackenrott no teclado e, claro, ninguém menos que Roland Grapow nas guitarras, simplesmente o melhor guitarrista que o Helloween já teve, na opinião de muitos, e inclusive na minha (detalhe: ele esteve já outras vezes no Brasil em turnês solo, acompanhado de músicos locais). Ainda contam com Kevin Kott na bateria, mas este não pôde estar presente nessa turnê, sendo substituído pelo brasileiro Marcus Dotta. Era, enfim, uma formação muito distante da banda que gravou o lendário homônimo debut – quase irreconhecível, na verdade, em especial para quem os viu em 2003, em seu auge, quando tocaram com o Gamma Ray no país. Uma banda completamente descaracterizada, que pelo tempo que ficou sem fazer giros extensos não conseguiu solidificar a identidade com essa formação. É claro que isso gera desconfiança.

Bem longe de uma casa cheia, o público era modesto, mas respeitável – longe de termos um fiasco. Esqueçam, também, qualquer possibilidade de lerem sobre um show decepcionante, pois foi realmente bom! Paradoxalmente, isso também é um problema. Explicarei logo mais. Vamos ao show.

Foi com pontualidade que o grupo alemão, hoje mais multinacional, abriu o show com Rise Again, seu último single. Como mencionei, a canção foi lançada sem alarde, com pouca divulgação, e pouquíssimas pessoas presentes a conheciam. Bem, foi um bom começo, e faz sentido, por ser a música sobre crescer de novo, como o nome diz. Após um breve cumprimento ao público, Altzi, bem humorado, falou que aquele dia, 31 de outubro, era noite de Halloween, mas “claro que isso não tem nada a ver com o Roland, não é?”, nas palavras dele. Tirou alguns risos da plateia. A segunda canção foi a que realmente animou os fãs: sob gritos muito animados e todos cantando junto, tocaram Enlighten Me, uma das mais queridas de seu disco de estreia. Um dos pontos mais altos da apresentação veio a seguir, com seu maior clássico, Spirit Never Dies, a faixa de abertura do debut. Aí não tem jeito, clássico é clássico e vice-versa, como diriam os filósofos do futebol: o público veio abaixo!

Lost and Gone, a mais conhecida canção do MKII, da segunda formação da banda, foi a próxima, mas, mesmo sendo o maior sucesso e single daquele disco, pouco empolgou os fãs, apenas os mais assíduos acompanharam o vocalista. Uma pena, pois é uma ótima música, mesmo que perdida em um disco medíocre. Já o segundo álbum, Aeronautics, tem músicas queridas pelos fãs. Duas, em especial, e foram elas que seguiram: Crimson Rider e a balada Back for My Life (a última com celulares com lanternas ligadas). Ambas foram muito bem recebidas pela plateia, que as cantou energicamente. Outro clássico, Kind Hearted Light, seguiu e foi igualmente celebrado.

Acho importante dizer que muitas pessoas têm pé atrás com Rick Altzi, infelizmente, e o motivo é bem nítido: Jorn Lande. Não foi o Masterplan que o revelou, mas sem dúvida foi a banda que o alçou ao posto de um dos maiores da história no gênero. Altzi, porém, mostrou ali que está, sim, no mesmo nível em técnica, carisma e presença de palco. Na verdade, foi uma das bandas de power metal mais afiadas que tive a oportunidade de ver – afinal, só temos músicos de primeira linha ali.

Aliás, não apenas Rick canta as canções do Masterplan perfeitamente, como mostrou que sabe cantar com excelência músicas do Helloween! Exatamente, a próxima foi uma grata surpresa: Helloween numa noite de Halloween: The Time of the Oath, do disco de mesmo nome, lançado em 1996, quarto de Roland Grapow no grupo e segundo com o vocalista Andi Deris, que substituiu Michael Kiske em 1994. Gritos ensurdecedores por toda a casa ressoavam ao começarem a tocar essa.

Foi nesse meio de show que Rick e Roland anunciaram o que todos queriam: o Masterplan lançará um disco novo no próximo ano. Segundo o guitarrista, a banda já tem três videoclipes gravados para o álbum, que sairá pela gravadora italiana Frontiers Records, e se chamará Metalmorphosis.

A estreia de Rick Altzi e Jari Kainulainen na banda foi com o single Keep Your Dreams Alive. Uma canção cadenciada demais para ter sido o cartão de visitas da formação, no já distante ano de 2013, e não fez tanto sucesso, nem caiu nas graças da maioria. Não posso dizer que foi uma música que animou a galera. Podia ter sido facilmente substituída por alguma outra, mas o álbum Novum Initium, em que ela está incluída, não tem um hit.

Mas se queriam empolgar, a receita do bolo já tinham, que era tocar mais de sua estreia, e logo três. Crystal Night e Soulburn, duas bem conhecidas, precederam um dos momentos mais esperados, seu outro maior hit. Gravada originalmente com participação de ninguém menos que Michael Kiske, Heroes levou todos à loucura – ao vivo, quem canta as partes de Kiske é o próprio Roland Grapow, e o faz muito bem, mesmo que com auxílio de Altzi nas notas mais altas. Antes do bis, ainda tivemos mais Helloween, com The Chance, do álbum Pink Bubbles Go Ape, de 1991.

Talvez o ponto mais baixo, entediante e desnecessário do show foi no bis. A primeira do bis foi Crawling from Hell, que, apesar de ótima, foi junto a um medley que incluiu solo de bateria, solo de guitarra, interação de mandar o público cantarolar riffs junto e até mesmo um trecho de Burn, do Deep Purple. Essa brincadeira durou uns infindáveis quase dez minutos! Mas, bem, isso foi compensado com a excelente The Dark Ride de saideira, faixa-título do último disco gravado por Grapow no Helloween, em 2000.

Lembra quando falei que era paradoxal terem feito um ótimo show e isso ser um problema? Bem, apenas reparem no padrão! A esmagadora maioria da apresentação foi formada por músicas do primeiro disco, e foram essas as que mais empolgaram, ao lado das duas de Aeronautics. Dos outros álbuns, apenas alguns singles, músicas que foram tentativas de hits, e mesmo essas, não levantaram os fãs – preciso mencionar, também, que não houve nenhuma canção do disco Time to Be King. E isso além de apostar em hits da antiga banda de Roland Grapow, o lendário Helloween. Isso mostra que a banda vive de apenas um disco e de duas músicas de seu sucessor, e esse é o problema. Com quase 25 anos de estrada e cinco LPs lançados, viver apenas de um é um problema, ainda mais com uma formação em que apenas dois ali gravaram esse trabalho. A banda é uma sombra do que foi e, em especial, do que deveria ter sido, e vive de um muito breve momento de seu longínquo passado. De certa forma, é como ver um “cover de luxo”. Um grupo de potencial imenso, uma verdadeira seleção de alguns dos mais gabaritados músicos do gênero, tem total capacidade de fazer mais e melhor! Foi um show muito divertido, extremamente bem executado e com ótima qualidade de som – tecnicamente impecável, sem exageros. Valeu a pena, no fim das contas. Não há como criticar sua performance, nem o setlist escolhido, mas o foco foi um total apelo nostálgico.

O que esperamos para o futuro? Com o novo álbum anunciado, tomara que isso mude. Espero, pessoalmente, que o Masterplan volte a fazer um grande disco, dois grandes discos, três até, e que na próxima vez que vierem, a gente possa falar “ficou faltando essa ou aquela música”, de tantas boas que têm para apresentar. Não é o caso no momento, o show foi completo, não faltou nenhum grande clássico, nenhuma música querida pelos fãs, pois simplesmente tudo se resume àquele momento curto no início do século. O time que compõe o quinteto é excelente e pelo que vimos ao vivo tem total capacidade de lançar grandes trabalhos no futuro. É aguardar para ver como se sairão. E esperamos que não fiquem mais tantos anos sem fazer turnês!

Setlist Seventh Seal

Beyond the Sun

Mechanical Souls

Back to the Game

Seventh Seal

Pleasures of Sin

Grace

The Seed of Dissent

 

Setlist Trend Kill Ghosts

Like Animals

Rebellion

Facing My Ghosts

Deceivers

Puppets of Faith

Poisoned Soul

Setlist Masterplan

Rise Again

Enlighten Me

Spirit Never Dies

Lost and Gone

Crimson Rider

Back For My Life

Kind Hearted Light

The Time of the Oath

Keep Your Dreams Alive

Crystal Night

Soulburn

Heroes

The Chance

Crawling from Hell

The Dark Ride

 

 

Clique aqui para seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp