Por Daniel Agapito
Fotos: Nanda Arantes
Apesar do forte estigma cultural do final de outubro, com o dia das bruxas trazendo o oculto para as massas, Jesus esteve muito presente nos shows de rock e metal de São Paulo este mês: dia 24, rolou Skillet, um dos maiores nomes do rock cristão moderno, e no dia seguinte até o salvador se soltou, e tivemos Stoned Jesus na Jai Club. O que raios é o Stoned Jesus? Com essa frase talvez perca a atenção de metade dos leitores, mas é uma banda de doom/stoner progressivo, vinda diretamente da Ucrânia. Apenas por texto fica difícil de explicar, então deixo aqui as palavras do próprio Igor, vocalista e guitarrista, sobre o som do disco novo, Songs to Sun: “Ele está pesado, intenso e pessoal, mas acho que você consegue ser feliz escutando.”
O retorno deles ao Brasil tem sido algo bastante esperado, pois já se passaram quase 10 anos desde sua última apresentação por aqui, em 2017. Para resumir brevemente o que rolou nesse show, tinha tudo para dar errado: shows do Testament e Queensrÿche no mesmo dia e chuva. Mesmo assim, encheram a Clash Club. No final do show, um fã bêbado subiu no palco e quebrou a pedaleira do baixista. Foi pra isso que não voltaram para o Brasil? Longe disso, o vocalista (em entrevista com este que vos escreve) disse que tentaram voltar duas vezes, uma em 2020 – sabemos porque não rolou – e outra em 2022, que não foi um dos melhores anos da história da Ucrânia.
“Boa noite, São Paulo! É incrível estar aqui com vocês, adoro essa cidade!” Foi assim que começou o show da Pesta, na maior tranquilidade, Thiago Cruz, o vocalista, carismático como sempre. Não demorou nem um minuto para o peso tomar conta. Quem já teve a honra de ver os mineiros ao vivo sabe o quão elétrica é a presença de palco deles e o quanto de peso suas músicas têm, especialmente ao vivo, e desta vez não foi diferente. Começaram com ambos os pés na porta, tocando logo Moloch’s Children. Para quem não conhece o som deles, carregam firmemente a tocha do doom tradicional à la Sabbath, e essa música é um grande exemplo.

Na sequência veio uma nova, Mirror Maze, quarta faixa de seu novo álbum, The Craft of Pain, lançado uma semana antes do show. Em sua versão gravada, ela conta com uma participação de Wino, lendário vocalista do Saint Vitus e The Obsessed, que tocou com eles no ano passado (saiba mais), mas naquela noite tudo ficou a cargo de Thiago, que deu aulas na voz. A casa já estava cheia, e quando veio Black Death era difícil achar alguém que não estivesse completamente vidrado no show. Words of a Madman manteve o mesmo nível de energia e a mesma qualidade, valendo destacar a performance de Marcos Resende na guitarra, que tocava com força e com emoção; seus riffs, simples mas cativantes, encantavam o público. Como se o clima não pudesse ser elevado mais ainda, fecharam com uma sequência animalesca de pedradas “sabáticas”, Shadows of a Desire e Witches’ Sabbath. Shadows… foi tocada com tanta calma pelo baterista Flávio Freitas que um dos seus microfones simplesmente caiu, vítima das mãos leves dele. Sabbath…, por sua vez, começa com um daqueles riffs simples, mas contagiantes, que merecia ter sua melodia cantada por um estádio todo.

Pouco tempo depois dos mineiros descerem do palco, o power trio do progressivo começou a colocar seus equipamentos. Sem pompas nem circunstâncias, os 3 instrumentistas com cara de sono passavam o som na maior tranquilidade. Poucos minutos antes do horário marcado, testaram o som uma última vez, todos juntos, e desse segundo em diante, o público ficou completamente em transe. No futebol, dizemos que certos jogadores “jogam de terno”, e esse seria o caso do Stoned Jesus. Até na passagem de som eles mantêm uma classe e uma precisão impecáveis. Fora isso, Igor começou o show vestindo um blazer, então até certo ponto, estava vivendo o ditado literalmente. Com o áudio devidamente ajustado, rolou ali um abraço coletivo e um fã gritou “do caralho!” O vocalista respondeu, arriscando um português no final: “Não use esse tipo de linguagem, vou chutar seu ‘cuzinho’”.

As luzes gerais da casa se reduziram, deixando apenas o palco iluminado, e sem nem um boa noite, pularam de cabeça em Bright Like the Morning, clássica de Seven Thunders Roar (2012). A energia foi linda desde o primeiro acorde, não só pelos timbres etéreos proferidos pelos ucranianos, com fidelidade estonteante ao CD, mas também pela presença de palco do trio. Apesar de o espaço da Jai ser reduzido, Igor aproveitou cada centímetro, sempre interagindo com os fãs. Seria chover no molhado dizer que todos estavam adorando, completamente envolvidos. É raríssimo ver um show de doom ou de prog com um público energizado e pulando, mas era isso que estava acontecendo.

Seguiram com Porcelain, que demonstrou perfeitamente a força desta nova formação. Yurii Kononov, baterista, mesmo parecendo ter no máximo 14 anos de idade, é um monstro das baquetas, trazendo uma quantidade de peso que não existia antes, mas de maneira que não descaracteriza as composições originais. Yurii e Igor são amigos de infância, e isso foi ficando claro ao longo do show, o entrosamento entre eles era algo fora do normal. Neste começo da apresentação, o som estava bastante inconsistente, chegando a irritar a própria banda, mas a partir da terceira música conseguiram arrumar. “Somos o Stoned Jesus, da Ucrânia! Bom, um Stoned Jesus muito doente, estávamos com o ar ligado no ônibus, aí saímos nesse calor de mais de trinta graus, nos fodemos…”

Brincando com o público e reconhecendo as falhas do show anterior, Igor continuou: “Espero que desta vez consigamos tocar mais músicas do que da última vez que viemos para São Paulo.” Ele também reconheceu a demora para voltar, dizendo que lançaram alguns discos novos desde então e perguntando se alguém havia escutado Songs to Sun, o mais recente. Foi dele que veio a faixa seguinte, Shadowland, petardo reto e direto, pendendo para o lado mais pesado da banda ao invés do progressivo. Sua sonoridade resume bem o novo álbum, flutuando entre um som mais denso e passagens ancoradas na emoção. Thessalia seguiu na mesma linha e deixou o público ainda mais vidrado. Tinha um fã colado no palco filmando com o flash do celular, o que deixou o vocalista visivelmente irritado, mas fora isso, tudo seguiu normalmente.

Thoughts and Prayers foi prefaciada com um discurso rápido do frontman, que falou do fato de não só estarem em turnê, mas estarem também arrecadando dinheiro para pessoas na Ucrânia que foram afetadas pela guerra. Ele deixou claro que o dinheiro não vai para alguma ONG ou alguma organização, indo de pessoas para pessoas, e incentivou seus fãs a deixarem pequenas doações na banca de merch: “Ação direta vale mais que só Thoughts and Prayers (pensamentos e orações)”. Ela foi mais uma cantada pela casa toda, realmente um ato lindo de solidariedade. Enquanto preparavam Silkworm Confessions, as luzes começaram a piscar, com Igor pedindo para o técnico parar, se não ele ia morrer. Esse não seria seu único pedido, pois, por conta de estar doente, pediu para que o público evitasse fumar no local. O destaque de Silkworm veio na interação com os fãs, visto que um deles teve seu chapéu “roubado” por Igor Sidorenko.

“Se você achou que essa última música era pesada, preparem seus cus. Essa próxima é tão forte que vou até tirar os óculos.” Bastaram apenas as primeiras notas de Black Woods (curtinha, inclusive, apenas 11 minutos) para que o bate-cabeça generalizado começasse. Era tanto cabelo voando que devia estar ventando mais do que dentro do ônibus da banda com o ar-condicionado ligado. Here Come the Robots foi igualmente pesada, mas exponencialmente mais rápida e mais animada, tanto que aconteceu algo que muitos diriam ser completamente impossível: abriu-se uma roda em show de doom. Tinha gente pulando, se empurrando, só faltou stagedive.

Depois dos últimos acordes, o vocalista pediu silêncio do público, criando aquele clima de tensão. Quando tudo estava quieto, um fã perguntou se “agora é a montanha”, e Igor apenas sorriu. Outros fãs, que estavam na frente do palco, com leques na mão, começaram a fazer vento para o vocalista, o que fez com que o começo de I’m the Mountain fosse algo realmente digno de cinema. Falar que a banda e o público estavam em sintonia completa não descreve o nível de conexão que rolava naquela hora, o vocalista nem cantava os refrães, deixava pra galera – e não era por falta de alcance vocal, que nem certas pessoas. Durante o último refrão, vendo seus companheiros de banda exauridos, o frontman deu água para o baixista Andrew Rodin e o baterista enquanto tocavam.

O power trio desceu do palco sem muita explicação, sem dar tchau, jogar palheta, ou bater foto, então estava óbvio que voltariam para um bis – e não demoraram nem um pouco. Ao som de gritos de “Jesus Chapado”, voltaram com a pesada Low, single do novo álbum, que foi incrivelmente bem recebida, inclusive com gente cantando junto, apesar de ser bem nova. Mal terminaram-na direito e já passaram para um clássico pra fechar o show, Electric Mistress, uma verdadeira ode às lendas do doom de tempos passados. Ela foi tocada com uma precisão absurda, cada nota parecia ressoar profundamente em cada fã, tanto que mal dava para ouvir a própria banda cantar. No último solo, houve um atrito entre o vocalista e um membro do público (que certamente deu flashbacks do último show), mas foi algo rápido, que na verdade ninguém entendeu direito o que rolou. Independentemente disso, mantiveram o profissionalismo e finalizaram a música, descendo do palco com um sorriso no rosto. Não deu tempo para atenderem todos os fãs como queriam, porque a casa teve que ser entregue cedo, já que aconteceria o grandioso “Bailão Nerd” logo na sequência.

Valeu esperar o retorno do “Jesus Chapado”? Sem dúvida nenhuma. A formação nova está mais entrosada do que nunca, o novo álbum traz bastante emoção, mas sem perder o peso, as faixas dos álbuns que lançaram entre uma vinda e outra já se consolidaram como essenciais em seu repertório e músicas como I’m the Mountain já podem ser consideradas clássicas do doom de modo geral. Em termos de presença de palco também não deixaram a desejar, mostrando de forma clara que estavam realmente animados para tocar para o público paulista novamente – agora só precisamos torcer para a próxima vinda não demorar tanto.

Setlist Pesta
Moloch’s Children
Mirror Maze
Black Death
Words of a Madman
Shadows of a Desire
Witches’ Sabbath
Setlist Stoned Jesus
Bright Like the Morning
Porcelain
Shadowland
Thessalia
Thoughts and Prayers
Silkworm Confessions
Black Woods
Here Come the Robots
I’m the Mountain
Bis
Low
Electric Mistress

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