Por Fernando Queiroz
Fotos: Amanda Sampaio
Eu não sabia que queria isso, mas, na verdade, eu precisava disso! Você, caro leitor fã da carreira do vocalista Edu Falaschi, no Angra ou não, também precisava ver isso.
Ao longo dos muitos anos em que acompanho a carreira do icônico cantor (acredite, são muitos mesmo, possivelmente desde antes de você ter nascido), uma coisa sempre foi quase um consenso internet afora: ele é mestre em fazer baladas. Absolutamente todo álbum que ele gravou, sempre houve uma “música mela cueca” que se sobressaiu de alguma forma. Seja na banda que o realmente revelou, o Symbols, no relativamente desconhecido Venus, no Almah, ou na banda que o consagrou, o Angra, além de sua atual carreira solo, sempre teve uma balada assinada em seu nome – e ela sempre se destacou dentre as demais do álbum em que foi lançada. Agora, imagine você um show inteiro, com banda e em formato elétrico, só com esses sucessos. Sonho, não? Pois bem, aconteceu. E não desapontou.
Como nem tudo são flores, comecemos com o que houve de ruim: a produção – e aqui temos algumas coisas a considerar. No anúncio do show, nas páginas das redes sociais tanto do Manifesto Bar, onde o show ocorreu, quanto na de Edu, o evento estava marcado para às 20h. Um bom horário, não? Se não fosse o fato de logo antes do show, na tarde do mesmo dia, Edu ter falado, em story publicado em seu instagram, que a apresentação ocorreria de fato às 23h! Ou seja, da abertura do bar até o show, foram três horas de espera, e era nítido que, assim, o show acabaria altas horas da madrugada, claramente com o intuito de manter pessoas para a balada após o término da apresentação de Edu, que contaria com uma (ótima, inclusive, vale frisar) banda cover de Helloween. Completo absurdo e desrespeito, mas uma prática que não é nova na casa. Além disso, a produção não estava com a lista de profissionais de imprensa autorizados a entrar, o que gerou contratempos para nossa equipe, que teve que esperar algum tempo para ter a entrada autorizada – sendo que já estava tudo confirmado quase uma semana antes.
Outro ponto problemático foi a pista premium. O lugar já é relativamente pequeno, com capacidade para cerca de mil pessoas. Colocar uma divisória ali, em um corredor estreito, deixou a passagem de uma pista para outra bem caótica.
Feitas as críticas, vamos à parte boa: o show! A casa já estava cheia antes das 22h, ficou realmente difícil até mesmo de chegar na frente e entrar na pista premium. Apesar da lotação, não havia nenhum alvoroço ou confusão, como era de se esperar para um evento de power metal, um dos públicos mais tranquilos que existem – ainda mais se tratando de uma noite “romântica”, com baladinhas. No geral, tudo tranquilo. Bem, pontualmente às 23h, finalmente, as luzes se apagaram e era hora do espetáculo.

Sem introdução elaborada como nos shows tradicionais, Edu Falaschi, equipado de um violão, e sua banda entraram já ao som de um clássico de Temple of Shadows, a bonita Wishing Well, uma escolha muito boa para começar! Como Edu disse logo depois, ouviríamos músicas que não seriam tocadas em outras oportunidades. Deixou claro que era algo único, e que, infelizmente, aquele formato não se tornaria uma turnê. Citou, especificamente naquele momento, o Almah, banda que teve entre o período final de sua passagem pelo Angra e um pouco depois, até entrar em carreira solo, na qual que está agora, e foi celebrado por todos. Shade of My Soul, do álbum Fragile Equality, de 2008, foi tocada em seguida. Foi uma sequência de três músicas da sua banda menos famosa, mas que tem seu público cativo e que sente falta daquelas músicas, como The Brotherhood, que Edu dedicou a seu irmão Tito Falaschi, baixista de sua banda, extraordinariamente, nessa ocasião. A última da trinca foi Breathe, do primeiro disco do Almah, quando ainda era um projeto, e não uma banda – como curiosidade, a música, como o disco todo, foi gravada por nomes importantes da cena como Emppu Vourinen (Nightwish), Lauri Porra (Stratovarius) e Casey Grillo (ex-Kamelot, Queensryche).

Mais Angra, dessa vez com uma canção que, de certa forma, foi escrita para ser um dos grandes hits da banda, mas que, por conta do álbum em que foi lançada, o extremamente criticado Aqua, acaba hoje tendo mais um status de ‘cult classic’: Lease of Life. Antes de começá-la, Edu explicou um pouco sobre o clipe gravado embaixo d’água e como ele quase se afogou ali, embora nesse momento seu microfone tenha ficado um pouco baixo e não deu para ouvir direito toda a explicação. Por sorte, o volume voltou ao normal durante a execução da música.

Se você conhece a banda Venus, parabéns, você é um grande apreciador da carreira de Edu Falaschi. Em 1998, ele gravou um álbum com essa banda chamado Ordinary Existence. O disco não foi realmente, na época, um sucesso, mas após sua entrada no Angra, uma música em específico ali presente encontrou seu lugar ao sol: a balada acústica Leaving the Light, e essa foi a primeira vez que Edu a tocou ao vivo – possivelmente a única, também, mas isso só o futuro nos dirá.

Seguimos com outro “lado b” do Angra, Breaking Ties, do álbum Aurora Consurgens, disco que sabidamente pesa emocionalmente para Edu, pois foi um dos momentos mais delicados dele em sua passagem pela banda, e todas as reportagens e declarações de quem participou do processo de produção falam que foi tudo muito conturbado. Finalmente, então, tivemos um trabalho da carreira solo de Edu, Suddenly, do álbum El Dorado o último gravado pelo cantor e que, se me permite dizer, deveria ser mais apreciado, não apenas pelos fãs, mas por ele mesmo em suas apresentações ao vivo.

A primeira participação especial foi de Rodrigo Arjonas, ex-guitarrista do Symbols, banda que revelou Edu para o mundo – e com Tito também no palco, tínhamos metade da banda original ali. Hard Feelings, canção do primeiro disco, foi tocada. Edu, se você estiver lendo isso, seus fãs amam as músicas do Symbols! Toque mais canções da banda em seus shows! Já a segunda participação veio em seguida com Júnior Carelli, ex-tecladista do Shaman e Noturnall. E foi a vez da primeira música a não ser uma balada: a pesada e progressiva Millennium Sun. Edu, de fato, havia dito que haveria exceções no setlist.

Finalmente, mais Almah, com Bullets on the Altar e Warm Wind, e Skies in Your Eyes, de seu primeiro álbum solo, Vera Cruz. Dali em diante, foi Angra atrás de Angra – e só hits!
O público cantou em peso as partes em português de Late Redemption, originalmente interpretada por Milton Nascimento. Hoje, vejo esse carinho pela canção ainda mais importante, dada a situação de saúde da lenda da MPB, que infelizmente sofre de demência por corpos de Lewy. Outro grande hit veio logo depois, Heroes of Sand, um dos maiores de sua carreira e a primeira balada icônica de sua época no Angra, que, como ele falou, já tinha a ideia pronta antes de entrar na banda no lugar de Andre Matos.

Vale dizer aqui que Edu ainda contou uma história interessante naquele momento, algo que muitos dentro do “nicho Angra” sabem, mas não todos: Edu fez teste para entrar na banda antes de Fireworks, último disco com Andre Matos, ser gravado e apenas dois anos depois fez o que finalmente o levaria para a banda. A situação do Angra foi complicada naquela época – Andre chegou a sair antes de gravar o álbum, mas voltou atrás. Saiu depois, como sabemos, e o resto é história.
Em todos os shows de Edu, uma música se destaca, tanto por si só, quanto pela sua curiosa versão em forró. Como ele falou, no nordeste foi onde viu como sua obra atingiu um grau absurdo de popularidade por conta do grupo Calcinha Preta. Bleeding Heart, lançada como bônus na edição japonesa do álbum Rebirth e posteriormente sendo disponibilizada para o resto do mundo no EP Hunters & Prey, foi tocada com o cantor pegando seu próprio celular para filmar o público cantando (o vídeo, de ponto de vista da plateia, pode ser visto no instagram da ROADIE CREW). O refrão da versão em português dos forrozeiros foi inclusive cantada em determinado momento – claro, todos sabiam a letra.

A saideira veio com participação especial: Thiago Bianchi, do Noturnall, outro icônico vocalista nacional e que Edu chama de “irmão de outra mãe”. Ambos fizeram dueto em Rebirth, faixa que dá nome ao primeiro disco gravado por Edu no Angra. O dueto caiu como uma luva e a voz de Thiago casou perfeitamente com a canção. Uma performance incrível de ambos os cantores. Ainda deu tempo para Edu, com violão em mãos, tocar, a pedido dos fãs, uma versão acústica de Pegasus Fantasy, música de abertura do anime Os Cavaleiros do Zodíaco, composta pela banda japonesa MAKE-UP e que teve sua versão brasileira cantada por Edu para a ocasião do relançamento do desenho na emissora Bandeirantes, em 2002 – antes disso, quando era exibido pela rede Manchete, a música de abertura era outra, composta especialmente para o mercado nacional e não algo adaptado, como na versão gravada por Edu Falaschi. Vale dizer que ele também registrou outras duas faixas para o desenho: Blue Forever, tema de encerramento do anime, e Never, canção presente no filme Saint Seiya: Heaven Chapter – Overture, lançado no Japão em 2004, e nos cinemas brasileiros em 2006. Nenhuma delas, porém, chega perto da popularidade que Pegasus Fantasy atingiu entre seu público.

Há alguns meses, escrevi aqui uma crítica ao último show de Edu Falaschi em São Paulo de sua turnê tocando Temple of Shadows na íntegra, na qual comentei como aquele formato, até mesmo com orquestra, já estava ficando repetitivo e que o álbum, apesar de icônico para o metal brasileiro, já foi tão explorado por ele e pelo próprio Angra, que estava ficando já enfadonho ouvir tantas vezes seguidas. Disse, na ocasião, que talvez Edu precisasse rever como abordaria seu excelente material, que não se resume só àquele disco. Fui muito criticado na época, mas não mudo uma vírgula. Pois bem, quando falei aquilo, era exatamente sobre algo assim que dizia! Uma abordagem diferente, com músicas diferentes, muitas esquecidas, e misturadas aos sucessos, contemplando todas as fases de sua longa jornada no metal brasileiro. Foi isso que tivemos e tenho certeza que todos saíram satisfeitos! Sem playbacks, tudo tocado na mão, músicas em regiões confortáveis para a atual voz do cantor e ótimas participações especiais, tudo convergiu para uma excelente performance em uma apresentação mais que bem-vinda! Uma pena ser algo que ficará, segundo ele, só nesse show, mas que abre possibilidade, dado o sucesso do formato, para novos voos em outras direções.

Setlist
Wishing Well
Shade of My Soul
The Brotherhood
Breathe
Lease of Life
Leaving the Light
Breaking Ties
Suddenly
Hard Feelings
Millennium Sun
Bullets on the Altar
Skies in Your Eyes
Warm Wind
Late Redemption
Heroes of Sand
Bleeding Heart
Rebirth
Pegasus Fantasy