Por Fernando Queiroz
Fotos: Belmilson dos Santos
A vasta maioria das pessoas ligadas ao metal vai automaticamente associar o vocalista David Vincent ao Morbid Angel – talvez ao I Am Morbid, banda que conta também com o brasileiro Bill Hudson. Dificilmente, porém, alguém pensará na banda que tivemos o prazer de ver no último segundo dia de outubro: o Vltimas. Um adendo: o nome da banda se pronuncia “últimas”. Apenas como esclarecimento, a letra “V”, em latim, se pronuncia “U”. Dito isso, seguimos.
Para complementar e melhorar a noite, o Hate, com seu black/death metal polonês, naquela linha do Behemoth, citando um exemplo um pouco mais famoso, se apresentou junto. O grupo capitaneado por Adam TFS, que está divulgando seu mais novo álbum, Bellum Regis, para muitos presentes era a principal atração da noite, como vimos ao longo do evento. Por fim, os paulistas de São José dos Campos do Chaos Synopsis fizeram a apresentação de abertura.

Talvez a falta de conhecimento sobre o Vltimas por parte do público fã de Vincent ou até mesmo por não gostarem da linha que a banda segue, algo bem distante do que estamos acostumados a ouvir dele nos “Morbids”, combinado com o fato do show ser em uma quinta-feira, numa casa ainda relativamente desconhecida no cenário e a recente apresentação do Behemoth, apenas alguns dias antes – como disse, o Hate segue a mesma linha de som, mas claro que o Behemoth é mais popular – fizeram com que logo de início, antes mesmo das portas abrirem, já soubéssemos que haveria baixíssimo público, o que, infelizmente, se concretizou.
Ao entrar na Burning House com quase meia hora de atraso do horário previsto, era possível tranquilamente passear pelo local, que mesmo pequeno, estava quase às moscas. Para o público, porém, há quem diga que isso é bom – para muitos, é confortável ver o show sem ficar esmagado por inúmeras pessoas; para as bandas, é triste. Pessoalmente, sempre gosto quando shows lotam, pois há a possibilidade maior de voltarem quando há sucesso de audiência.

Pouco após a entrada das pessoas na casa, o Chaos Synopsis foi ao palco apresentando todo seu peso, com um death metal que passeia entre o moderno e o tradicional. Os paulistas foram ajudados pelo som que, por alguma particularidade da Burning House, serve bem para o estilo mais “cru” (ou menos cheio, talvez) que tocam. Competentes do início ao fim, o que mais agradou foi o clima intimista com que a banda se aproximava da plateia; o vocalista sempre falando tranquilamente entre as músicas, muitas vezes diretamente a uma ou outra pessoa ali. Uma vibe underground, que agradou à maioria. Confesso que me incomoda a mistura de músicas em inglês e português – claro, é a proposta deles e naquilo que se propõem fazem com maestria. Inegavelmente fizeram um bom ato de abertura!

Definitivamente, a banda mais pesada do dia era o Hate! Um dos expoentes do metal extremo polonês, é daquelas que fazem o chão tremer – literalmente! A parte mais estranha, na verdade, foi o intervalo entre os shows; em vez da tradicional discotecagem com músicas do gênero, ficou no ar um som ambiente, sombrio, que lembrava uma introdução de shows, mas extremamente longo. A ideia é muito bacana, mas pelo palco não ter cortinas, ser pequeno e sem a escuridão impedindo a visão, era possível ver o próprio baterista do Hate andando de um lado para o outro testando equipamentos e até mesmo passando rapidamente som. Outros integrantes também faziam aquilo, algo bem underground, lembrando shows de bandas locais. Com uma casa tão vazia como estava, a sensação ficou ainda maior de algo assim.

Após algum tempo de espera naquele ambiente soturno pelo som, algo que causava bastante estranheza mas não desconforto (pelo contrário), finalmente o Hate, apresentando em especial seu disco de 2025, Bellum Regis (excelente trabalho, aliás), subiu ao palco – e com muito, muito barulho! Por conta da acústica limitada da casa, o som do Hate tinha problemas e em vários pontos específicos do local, a voz de Adam TFS era quase inaudível; em outros pontos, a voz era boa, mas a bateria ficava embolada. Claro, pela casa estar bem vazia, podia-se escolher exatamente onde ficar para ouvir melhor.

Apesar dos contratempos de som, os poloneses fizeram, talvez, a melhor apresentação da noite! Pesada, brutal, extremamente sombria e magistralmente bem tocada, a música do Hate se sai muito bem ao vivo, e para quem gosta de muito peso, o chão realmente tremia nas partes mais rápidas. Teria sido uma apresentação muito superior se tivessem mantido o local anterior, o Fabrique – trocado de última hora –, que tem melhor acústica. De toda forma, valeu a pena assistir essa ótima banda em sua segunda passagem pelo país. Se me permitem uma opinião pessoal, seu trabalho é superior, hoje em dia, a seus conterrâneos mais famosos do Behemoth, então se você admira o estilo, trate de dar uma chance! Vale dizer, após o show Adam saiu para atender fãs e autografar o merchandising, que era simplesmente incrível em qualidade e variedade de itens.

Era a hora do nosso The Undertaker (lutador de WWE) do metal! Com seu chapéu redondo, sobretudo preto e as notórias costeletas, David Vincent, com sua banda mais “desconhecida”, o Vltimas, veio ao palco! Pela primeira vez aqui em nosso país, vem divulgando o disco Epic, de 2024. Diferente dos “Morbids”, com seu death metal bem brutal, o som do Vltimas difere em todos os sentidos: algo mais cinematográfico, performático, notoriamente mais leve e até com um toque de thrash metal. De certa forma, isso deixa a ideia de ser um show menos atrativo para os fãs de brutal death metal. Compreensível, mas garanto: estão perdendo!

Já passava das 22h, numa quinta-feira, e isso sem dúvidas teve um impacto: o show estava ainda mais vazio que durante a performance do Hate, já que muitos saíram para conseguir pegar o transporte coletivo. Apenas mais um entre tantos motivos para reverem os horários de shows ou, ao menos, em casos como esse, não colocar uma banda de abertura para acabar mais cedo. Seguimos.
Performático de forma diferente de como é no Morbid, mas igualmente carismático, Vincent tem uma das melhores dialéticas que já vi ao vivo em termos de interação com o público. Diferente de Adam, do Hate, que quase não se comunicava durante sua apresentação, o influente cantor parecia até um ator falando com as pessoas! Sua voz falada, parecendo de um narrador de rádio, é icônica. De certa forma, há um “que” de Sisters of Mercy ali no modo como ele se porta no Vltimas. A cada música, uma introdução sobre do que se tratava aquilo, de forma teatral. Incrível!

E a banda ajuda! Todos excelentes instrumentistas e com ótima presença em cena, na medida do possível, dado o fato de ser um palco diminuto. Mas, diferente do som da atração anterior, para a proposta do som deles, algo menos “intenso”, vamos dizer assim, a acústica não prejudicou – onde quer que estivéssemos, ouvíamos cada instrumento perfeitamente, até na frente do palco, que era muito fácil de chegar, já que provavelmente havia menos de 150 pessoas por lá.
Em todos os aspectos, foi uma grande apresentação! Destaco, em especial, a música Mephisto Manifesto, uma das melhores da carreira do vocalista e um verdadeiro petardo do Vltimas, presente em seu segundo e mais recente álbum.

Fica difícil dizer qual foi o ponto mais alto da noite. Se a música do Hate é mais pesada e intensa, isso acabou se tornando um problema pela acústica – não muda o fato de terem feito uma performance incrível. O Vltimas é algo mais experimental, de certa forma, bem diferente do que se espera de David Vincent, mas igualmente bom. Além disso, o local ajudou mais a eles do que aos poloneses.
Já para as poucas pessoas, infelizmente, que estiveram no show, foi uma noite ótima, com exceção dos péssimos horários. Se você, caro leitor, não conhece o Vltimas, mas é fã do trabalho de David Vincent, um aviso: corre sério risco de virar fã deles também se estiver disposto a ouvir algo fora dos padrões.

Hate setlist:
Sovereign Sanctity
Erebos
The Wolf Queen
Bellum Regis
Valley of Darkness
Luminous Horizon
Interludium
Rugia
Iphigenia
Wrists
Resurrection Machine
Hex
Vltimas setlist:
EPIC
Praevalidus
Invictus
Mephisto Manifesto
Exercitus Irae
Last One Alive Wins Nothing
Scorcher
Nature’s Fangs
Total Destroy!
Monolith
Miserere
Diabolus Est Sanguis
Something Wicked Marches In
Everlasting
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