Por Alessandro Bonassoli
Surgida em 2004 na cidade de Videira, no Vale do Rio do Peixe, em Santa Catarina, a banda Sabre surpreendeu quem acompanhou sua trajetória de sete anos. Após quatro registros oficiais e muitos shows pelo Sul do Brasil e São Paulo com um hard rock de qualidade, o grupo entrou em um hiato. Mas agora, 14 anos depois, toda a discografia foi disponibilizada nas plataformas de streaming, incluindo a versão remasterizada de Boemia, primeiro trabalho, que completa duas décadas de lançamento. Para falar sobre isso, a ROADIE CREW conversou com o guitarrista e vocalista Elias Scopel Liebl, que revela a decisão de uma continuidade na história do Sabre.

Entre 2004 e 2011 o Sabre viveu uma intensa carreira, mas como vários outros grupos contemporâneos, entrou em um hiato. E agora, em pleno ano de 2025, para surpresa de quem acompanhou a trajetória da banda, toda a discografia foi lançada em streaming. O quê motivou isso?
Elias Scopel Liebl: Com o passar do tempo, a vida de cada um tomou um rumo. Eu sempre estive à frente de tudo, compus as músicas, e agora como se completaram 20 anos do Boemia, resolvi dar uma organizada nele e disponibilizar, pois muita gente pedia e a gente não tinha nada em streaming.
Mas isso é um ato comemorativo ou existe a possibilidade do Sabre voltar à ativa?
Elias: Sim, surgiram vários convites para tocar aqui pela região sul e isso acendeu a chama de voltar aos palcos. Eu estou a fim de voltar no ano que vem, só preciso reformular a banda, conversar com os demais, pois está cada um em um canto. Conversei com Wagner (Maschio, baixista), que vive em Curitiba, mas ainda não decidimos nada. O Mário (Oliva, bateria) também está morando na capital paranaense. O Jean (Medeiros, baixista), mora em São Paulo. Vou estudar a melhor forma possível, se não der certo com os antigos integrantes, certamente quando nos encontrarmos vamos fazer umas jams. Também já está me passando pela cabeça em gravar alguma coisa nova. Conversei bastante com o Gui (Oliver, vocalista da banda Landfall) que gravou o Boemia e recentemente uma versão de Never Ending Road (do álbum Burning Wheels, de 2007). Acredito que na atual fase de todos os membros que já passaram pelo Sabre, o importante é se divertir e dar boas risadas no palco, independente de seguirmos juntos ou não.
Ao longo da carreira o Sabre foi radicado em Videira, no interior de Santa Catarina, e na capital paranaense. Afinal, de onde é a banda?
Elias: Eu sou de Santa Catarina, mas morava em Curitiba. E quando vinha para cá nas férias, comecei a formular a banda junto com o Mário, que também é de Videira. Depois mudamos para o Paraná para dar sequência e lá entrou o Wagner, que é de Curitiba. Mas a banda é catarinense. Começou em Videira, mudou de estado, mas depois voltou para cá.
Inicialmente, você era o guitarrista, mas acabou se tornando também vocalista. Como foi isso?
Elias: Quando começamos, em 2004, não tínhamos um vocal, então nos virávamos como era possível e eu fazia a voz. No ano seguinte, já em Curitiba, testamos vários vocalistas, mas nenhum fechou. Um deles foi o Guilherme Oliver, que fez alguns shows com a gente e iniciou a gravação do Boemia, nosso primeiro trabalho. As gravações ainda tiveram participações especiais dos vocalistas André Mendes, da Dragonheart, Giuliano Schmidt, da Still Life e, depois, da Syntz, e Rafael Steel, que cantava em um Whitesnake Cover. Em 2007, quando fomos para Florianópolis gravar o segundo álbum, Burning Wheels, eu assumi o microfone de vez. Tudo foi registrado no Estúdio AML, sob a produção de Alexei Leão, que era vocalista da Stormental.

No segundo álbum também teve um outro convidado especial. E muito especial para você, certo?
Elias: Sim, meu primo Rafael Scopel, que era guitarrista da Stormental e integrou a Still Life. Ele gravou o solo de Breaking The Door. Infelizmente, em 2015, aos 32 anos de idade, o Rafa perdeu a vida em um acidente de carro (na SC-501, a rodovia estadual mais movimentada de Santa Catarina, que liga o Centro de Florianópolis às praias do Norte da ilha). Sinto muito a falta dele, era meu irmãozão.
No material que está no streaming tem um single com a voz do Guilherme Oliver. Era uma sobra de estúdio?
Elias: Não. Never Ending Road, foi gravada oficialmente no disco no Burning Wheels. Compus a música praticamente na mesma época que gravamos o Boemia, porém não tinha letra. Uma tarde o Gui passou lá em casa e fez a letra para a música em poucos minutos, para não esquecermos corremos para o estúdio para gravar uma guia de violão e voz, tenho até hoje essa guia. Quando fomos gravar o Burning Wheels em Florianópolis e assumi os vocais, optamos por deixar com a minha voz. Quando estava organizando os discos para lançamos a discografia no streaming, conversei com o Gui para ver se ele queria gravar uma versão da nossa parceria e, de imediato, gravou e surgiu essa bela versão.
A produção estava tão intensa que, ainda em 2007, saiu um EP. Isso é, até hoje, algo raro para bandas brasileiras, ter dois trabalhos saindo no mesmo ano.
Elias: Sim, antes de terminar a mixagem e masterização do Burning Wheels, decidimos lançar o EP Estrada de Rosas pela tecnologia SMD. Foi algo exclusivo para fãs e emissoras de rádios. Ele contém versões exclusivas que não se encontram nos demais trabalhos. (A faixa-título, as versões editadas para divulgação em rádios de Never Ending Road e Searching For A Moment e uma remixagem de In Your Eyes, feita por Alexei Leão).
Em 2008 vocês viveram outro momento de destaque, certo? Foram o único grupo de hard rock na eliminatória catarinense do Metal Battle, que era organizado pela Roadie Crew para indicar uma banda brasileira tocar no Wacken Open Air, na Alemanha.
Elias: Sim, participamos na etapa de Blumenau. Tocamos com as bandas Warkings, de Florianópolis; Steel Warrior, de Itajaí, que foi a classificada para tocar na final, em São Paulo; Infektus, de Timbó; e Sodamned, de Rio do Sul.

No ano seguinte teve uma mudança no grupo, mas muitos shows também.
Elias: Exato, por motivos pessoais, o Wagner precisou deixar a banda. Aí recrutamos o Jean Medeiros amigo nosso aqui de Videira. E com esta nova formação tocamos em vários festivais. Foram shows com nomes como Glenn Hughes (Deep Purple, Black Sabbath, Trapeze), Raimundos, CJ Ramone (Ramones), Garotos Podres, Krisiun, Master e Edu Ardanuy (Dr. Sin), em Santa Catarina, e Graham Bonnet (Rainbow), no Araraquara Rock Festival, no Estado de São Paulo.
E foi nesta fase em que o Sabre chegou ao Estado de São Paulo, que continua sendo o principal mercado para o rock pesado no Brasil.
Elias: Exatamente. Tocamos no Araraquara Rock Festival e no Blackmore Bar, na capital paulista. E para fechar aquele ano, entramos no Estúdio Fonte Sonora para gravar Rock N’Road, que concluiríamos no início de 2010, já com o Filipe Argenton, o Fiti, que produziu o EP, oficializado como novo baterista. Com ele fizemos vários shows no litoral catarinense e no interior do Rio Grande do Sul.
O Sabre tocou com nomes grandes da música pesada, brasileiros e estrangeiros, tocaram em todo o Sul do País e em São Paulo, gravaram dois álbuns e dois EPs. E, de repente, um hiato de quase 15 anos. O que causou isso?
Elias: Creio que foram vários motivos e essa soma chega a um ponto que cansa, ter que estar sempre investindo, morar longe dos grandes centros, algo que torna a logística pesada e, com isso, começam os desinteresses. Também nessa época montei um Pub, que consumia muito tempo. E aí vêm outras prioridades que os músicos acabam vivendo, como família, filhos, etc. Os excessos começam a pesar, uma noitada hoje custa caro para o corpo (risos), aliás, já dizia Zé Ramalho: Meus vinte anos de boy, that’s over baby (risos).
Ouça Boemia em:
Ouça Estrada de Rosas em:
Ouça Never Ending Road em:
Ouça Burning Wheels em:
Ouça Rock N´Road em:
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