GRAVE DIGGER: AS TURBULÊNCIAS DOS ANOS 80 E O BOM MOMENTO ATUAL

Por Fernando Queiroz

Prestes a voltar ao Brasil em novembro, Chris Boltendahl, vocalista e líder do Grave Digger, uma das mais tradicionais bandas do metal alemão, falou à ROADIE CREW sobre o que esperar da apresentação, o que teremos no setlist e sua experiência no Summer Breeze Brasil (atual Bangers Open Air), ao qual ele se referiu como quase um festival europeu. Também falou sobre o obscuro período do final dos anos 80, quando a banda mudou duas vezes de nome (para “Digger” e depois para “Hawaii”, decisões que hoje ele considera erradas) e sua relação com ex-membros e com bandas contemporâneas, com quem diz ter uma relação amistosa. Além disso, afirmou que o Grave Digger é uma banda que só quer levar diversão aos fãs, sem nenhuma mensagem política.

Foto: Jens Howorka

Vocês já vieram algumas vezes para o Brasil, sendo a última em 2023. Teve alguma das vezes em que estiveram por aqui que foi diferenciada, com alguma experiência que os marcou?
Chris Boltendahl: Acho que tocamos há dois anos. Tocamos pela primeira vez no Summer Breeze Open Air em São Paulo, que agora se chama Bangers Open Air. E foi incrível tocar em um festival em São Paulo depois de todos esses anos, porque até então só tínhamos feito shows solo como headliner, sabe.

Então para você foi como estar em um festival europeu?
Chris: Foi mais ou menos isso. Acho que foi organizado como um festival europeu. Creio que a equipe do Summer Breeze da Alemanha também estava por trás disso. E conhecemos o booker, Christian, que também é o agente de booking do Grave Digger na América do Sul. Então, sim, foi uma experiência muito boa. Nos divertimos bastante assistindo outras bandas e curtindo o ambiente. 

Com o lançamento do álbum Bone Collector vocês pretendem focar o setlist nele ou será mais variado?
Chris: Sobre toda a carreira… Não a carreira completa porque pulamos a fase do Digger, então tocaremos músicas desde o começo nos anos 80 até Rheingold e duas músicas de The Bone Collector. Então é incompleto. Tocamos 17 ou 18 músicas nos shows, não tem como contemplar tudo.

O single Bark to Hell, lançado recentemente, não está no álbum. Por que vocês acabaram deixando essa música fora do disco?
Chris: O plano original era lançar um EP com duas músicas novas depois do lançamento de The Bone Collector e no último verão para o Wacken Open Air. Mas no final decidi lançar apenas de forma digital. E acho que 10 músicas em um álbum já são suficientes. Não quero sobrecarregar o público com muita música ou o que for, então decidimos lançar Bark to Hell e Hellfire Crusade, duas músicas que sobraram das sessões de The Grave Digger, nas plataformas digitais. Mas nada ao vivo ou algo assim.

Grave Digger
Chris Boltendahl e Axel Ritt (Foto: Roberto Sant’Anna/Roadie Crew)

Então não serão tocadas ao vivo?
Chris: Não. Mas isso não tem nada a ver com qualidade, sabe. A qualidade dessas duas músicas também é boa. Mas no fim das contas, acho que elas não se encaixam com o material do álbum, entende? Então, decidi lançá-las como faixas avulsas.

Você vem sendo o produtor dos discos há algum tempo. O que o levou a produzir você mesmo em vez de trabalhar com alguém de fora?
Chris: Eu sei muito bem como a banda deve soar depois de todos esses anos. E não preciso de alguém de fora porque sou muito focado no som da banda. E agora posso fazer isso eu mesmo. Esse é o melhor caminho. Fazemos tudo no meu próprio estúdio. E levamos bastante tempo ajustando os sons de bateria, do baixo, da guitarra, tudo. Se você vai a um estúdio, tem três semanas. E em três semanas você gasta muito dinheiro e tem que terminar. Agora, no meu estúdio, podemos fazer isso pelo tempo que eu quiser, que é muito bom.

Assim dá para ter uma maior consistência de lançamentos, não?
Chris: Sim, com isso podemos testar coisas, apagar outras e levar o tempo que quisermos. Acho que isso é muito melhor do que entrar num estúdio por três ou quatro semanas, sair de lá com a master final e não poder mudar mais nada. Aqui no meu estúdio posso trabalhar mais e mais, e até o último minuto antes de entregar à gravadora posso mudar as coisas.

Em 1986 a banda passou a se chamar Digger apenas por algum tempo e até lançou um disco com esse nome. Como e porque veio essa decisão?
Chris: Foi uma ideia da gravadora, a Noise Records. Eles disseram: ‘Vocês querem entrar no mercado americano, ganhar muito dinheiro? Querem ser estrelas do rock, pegar garotas, fumar maconha o dia todo?’ E nós dissemos: ‘Sim, queremos.’ ‘Então vocês têm que mudar a música e tirar o ‘Grave’ de Grave Digger.’ E nós dissemos OK. Estávamos sempre bêbados e confiamos na gravadora. Foi um erro. O disco é bom, mas não se encaixa bem na história do Grave Digger. Então levamos um cartão vermelho, como no futebol, dos fãs. E isso nos forçou a fazer uma pausa por alguns anos, e depois voltamos com The Reaper.

Stronger Than Ever não está disponível em CD, nem nas plataformas digitais. Vocês pretendem, em algum momento, relançar esse disco ou regravá-lo?
Chris: Não, ele se sustenta por si só. Fizemos uma regravação muito tempo depois da música Stand up and Rock, do álbum Digger. Foi OK, foi divertido, mas deixei por isso mesmo. Não quero regravar mais nada.

Mas nem relançar em plataformas digitais?
Chris: Eu não tenho os direitos do álbum, infelizmente. Os direitos sempre foram da BMG UK, e eles os repassam para outras pessoas. Eu não tenho nenhuma influência sobre isso.

Depois desses anos chamando-se Digger e outros como Hawaii, como veio a decisão de que iriam voltar ao nome original?
Chris: Porque estávamos realmente desesperados naquela época. Ninguém queria ouvir Grave Digger. Então mudamos o nome para Hawaii. Estávamos totalmente fora da realidade, acho. Sempre bêbados, fumando muita coisa… E então surgiu a ideia de Hawaii. Mas a maioria das músicas da demo Hawaii foi depois gravada no álbum The Reaper. Acho que voltar como Grave Digger foi nossa última chance de voltar à cena. Dissemos: ‘OK, vamos reunir o Grave Digger mais ou menos.’ Voltamos com o nome original e, no fim, foi uma boa ideia. Demos um passo de volta para a cena com o álbum The Reaper.

É muito comum as pessoas se referirem ao Grave Digger como power metal, mas esse é um rótulo relativamente recente. Vocês aceitam bem serem colocados nesse gênero ou se incomodam com isso?
Chris: Enquanto as pessoas não disserem que Grave Digger é uma banda de black metal, não tenho problema (risos). De qualquer forma, Grave Digger é uma banda de heavy metal clássico. Você conhece minhas raízes, e as raízes da banda são dos anos 80 – como Judas Priest ou Saxon, Ozzy Osbourne. Essas são as raízes da banda. Acho que somos um grupo de entretenimento. Não temos uma mensagem política, nos vemos como uma banda que quer entreter. Queremos trazer festa e diversão para o público durante os shows ao vivo. Às vezes chamamos de ‘true German heavy metal’ ou ‘true metal’, mas no fim é heavy metal clássico.

A banda está desde 2011 sem lançar material ao vivo. Há perspectiva de lançarem um disco ao vivo, ou algo em vídeo?
Chris: Vamos gravar no final do ano. Vamos tocar em um clube aqui na Alemanha que será fechado depois do nosso show. Será o último show da casa. Então, nesse show, vamos gravar um álbum ao vivo. Mas não será lançado separadamente. Ele virá como parte de uma edição especial do próximo álbum. Não lançamos mais álbuns ao vivo estendidos — apenas junto com edições especiais ou algo assim.

Há algum dos ex-integrantes da banda com quem você gostaria de voltar a colaborar algum dia?
Chris: Não, não, eu não quero trabalhar com eles novamente porque eles não tocam mais no Grave Digger. Esse é o motivo, sabe. E nós fizemos algo juntos com Uwe Lulis. Tocamos duas músicas no Wacken Open Air também como um especial para os fãs, porque eu sei que muitas pessoas gostam dele como guitarrista do Grave Digger. Mas, no fim das contas, nós não queremos fazer nenhum tipo de colaboração relacionada ao Grave Digger novamente com ex-integrantes.

Vocês, o Accept e o Running Wild inauguraram o heavy metal na Alemanha. Houve, ou há, algum tipo de rivalidade entre as bandas?
Chris: Não, nós estamos em muito bons termos, especialmente com o Accept. Tocamos há dois anos. Fizemos alguns shows no Brasil, alguns na América Latina. Oh, desculpe, desculpe. Alguns shows na América Latina junto com o Accept e também foi um enorme sucesso. E, sim, com Axel (Morgan), com Rock ’n Rolf (N.R.: Rolf Kasparek, vocalista e guitarrista do Running Wild). Eu não sei quando foi a última vez que o vi, acho que em algum momento dos anos 90. E nunca mais cruzamos nossos caminhos. Então, no fim, não há rivalidade entre essas bandas. Nós já estamos todos velhos demais para isso.

 

Clique aqui para receber notícias da ROADIE CREW no WhatsApp.