Por Fernando Queiroz
Fotos: Roberto Sant’Anna
Essas “noites hard” em São Paulo não são novidade; temos algumas por ano já há algum tempo, e o Manifesto quase sempre é o palco. O padrão acaba sendo o mesmo, com uma banda maior e mais notória, junto com geralmente um membro (ou ex-membro) de um ou mais grupos de relativo sucesso, acompanhado de um time de músicos brasileiros e apresentando músicas de toda sua carreira. Aliás, o que mais temos visto por aqui no Brasil é isso, e quem começou com essa prática foi Jeff Scott Soto. Esse ano, aliás, já tivemos o próprio JSS, além de Ted Poley, ex-Danger Danger, e agora foi a vez do cantor americano Johnny Gioeli, que integra o Hardline, além de ser vocalista da banda do alemão Axel Rudi Pell. A atração principal, contudo, vinha da Suécia: um dos nomes mais proeminentes desse “hard rock melódico” europeu, o Eclipse. Prato cheio para quem gosta de hard rock, não?
O evento estava programado para começar às 21h, e levando em conta que seriam duas atrações, fora o ‘after party’ – que na verdade mais se enquadra como balada noturna típica da casa –, podemos dizer que não era o horário mais convidativo possível. Bem, é o padrão do Manifesto, algo que deveria ser revisto! Para piorar, teve mais de meia hora de atraso. Já passava das 21h30 quando Johnny Gioeli, acompanhado de um time de músicos brasileiros extremamente competentes e notórios da cena, subiu ao palco (incluindo Bento Mello, filho do lendário músico da igualmente lendária banda Titãs, Branco Mello).

Gioeli tem história! Começou sua carreira na banda Hardline e foi com músicas dela que abriu seu show: Dr. Love e Takin’ Me Down, ambas do primeiro disco, Double Eclipse, de 1992, e com o logo do dito grupo no telão. Perfeito, tanto musicalmente, quanto por já termos um outro “Eclipse” na mesma noite – com o perdão do trocadilho, seria um Triple Eclipse! Vale dizer que esse é um dos grandes discos daquele começo dos anos 90, embora conhecido por menos gente do que deveria, e a voz de Johnny está impecável! Não apenas isso, sua presença de palco é digna dos grandes frontmen do rock e seu senso de humor, com piadas durante todo o show, deixa o clima leve e gostoso. Interessante destacar que o tal álbum teve as guitarras gravadas por ninguém menos que Neal Schon, conhecido por seu trabalho com o Journey.

Para a terceira canção, a tela muda, e o logotipo de Axel Rudi Pell, guitarrista que em sua carreira solo tem Johnny como vocalista, apareceu. Pela primeira vez em seus shows solo, o cantor tocou Long Live Rock, que está no disco Knights Call, de 2018. Não tivemos uma sequência de músicas do alemão naquele momento, mas a escolhida depois foi provavelmente a que mais animou as pessoas presentes: Live and Learn, da banda Crush 40. Um certo ouriço famoso, que corre muito rápido, foi mostrado no telão. E há um motivo: essa música foi composta por Jun Senoue, que é diretor de áudio da Sega e responsável por todas as trilhas sonoras de Sonic The Hedgehog, cujos vocais foram gravados por Gioeli.

Aqui, devemos fazer uma pausa na cobertura do show para falar sobre… vídeo games! Assunto que considero importante e o momento oportuno para isso. Games, e em especial os mascotes que eles criaram, fizeram parte da infância e fazem parte da vida até hoje de muita gente. Sonic The Hedgehog é um ícone pop, e tenho certeza que muitos sabem, hoje, quem é Johnny Gioeli por conta dessa música. Digo mais: muitos hoje ouvem rock por conta de games – não apenas desse jogo em especial, mas em geral. Bandas como os finlandeses do Poets of the Fall, que contribuíram com os games Alan Wake e Control, da produtora Remedy, é um outro bom exemplo. Outro é Ted Poley, já citado aqui, que infelizmente não toca a icônica canção Escape from the City, do mesmo game em questão, Sonic Adventure 2. Mas, como diz o colega Leandro Coppi, é assunto para um outro momento. O ponto é que cantores como esses tiveram suas carreiras elevadas por conta de jogos eletrônicos, uma indústria que hoje, em números financeiros, é maior que a do cinema ou qualquer outro tipo de entretenimento, e onde o rock, o hard rock e o heavy metal têm história! Isso tudo ficou evidente quando uma pessoa jogou, ao palco, um boneco do mascote da Sega, naquele momento do show. Falo com propriedade: sou uma cria dos anos 90, e Sonic Adventure 1 e 2 fizeram minha alegria por muitas tardes e noites nos meus 9 ou 10 anos de idade.

Mais Hardline, mais Axel Rudi Pell – agora sim, mais canções do guitarrista em sequência e, sim, tivemos mais Crush 40 com o nosso querido Sonic no telão. Entre as músicas, Johnny fazia mais brincadeiras, mais interações, sempre com sorriso no rosto, claramente feliz de ver que as pessoas estavam curtindo! De fato, parecia que ele era a grande atração da noite. Não quis fazer bis, apenas falou, brincando, “este é o momento em que saio do palco e vocês gritam meu nome para eu voltar” – nem precisava, já estavam gritando seu nome. Terminou o show com a dobradinha Rock the Nation e Rhythm from a Red Car, respectivamente de Rudi Pell e Hardline. Foi uma apresentação de gala de um vocalista que deveria ser mais conhecido! Destaque para a excelente banda brasileira que o acompanhou. Todos excelentes músicos, especialmente Flavio Sallin, tecladista, que não apenas tocou, mas em um determinado trecho, até mesmo cantou, e muito bem!

A noite, porém, era do Eclipse. Pouco mais de um ano após sua apresentação no Summer Breeze Brasil (atual Bangers Open Air), quando fez um dos primeiros shows do último dia do festival, agora a banda teria a oportunidade de mostrar um setlist completo para um público seu – acredito, inclusive, que muitos ali os conheceram no show passado. Programado para às 23h, após o atraso de Gioeli, era claro que os europeus também não conseguiriam entrar no horário marcado. Esse atraso, porém, foi mais curto, de cerca de quinze minutos.

O público, porém, era menor que na banda anterior, provavelmente por muita gente precisar ir para casa de transporte coletivo – e esse é um ponto que nós da redação temos a reclamar, pois também somos parte do público e temos esse ponto de vista: horários como esse são prejudiciais para público e, consecutivamente, para os artistas. Lembrem-se, não é uma “balada” noturna comum, como são as noites dos fins de semana no Manifesto, é um show de artistas internacionais e isso deveria ser levado em conta na hora de programar.

Voltando ao show, iniciaram com Roses on Your Grave, do disco Wired, de 2018, e seguiram com All I Want, de seu último álbum, Megalomanium II. Os presentes pareciam gostar, e havia uma boa energia. É preciso dizer, porém, que claramente tínhamos um ambiente muito menos animado que no show de Gioeli, e a própria banda era menos intensa – menos interação, presença e “calor” no palco. É uma grande e notável diferença entre o hard rock americano e o escandinavo, tendo os últimos aquela “frieza” nórdica, que contrasta demais com a energia dos primeiros. Isso se reflete no próprio som proposto pelo Eclipse e por bandas semelhantes. Não ajuda, também, nesse ponto o fato de o vocalista Erik Martensson também ser guitarrista, não permitindo sua maior interação com o público. Em sua defesa, ele tentava! Fez o seu melhor para andar pelo palco quando podia e tocar a mão das pessoas à frente. A última crítica que faremos é quanto a um desnecessário solo de guitarra e depois de bateria, que apesar de curto, não era algo que combinava com a ocasião.

Dito tudo isso, a banda foi tecnicamente impecável. Tocou um setlist recheado de hits, como Saturday Night (Hallelujah), que combinou perfeitamente com o dia (era um sábado à noite, afinal), Runaways, Falling to My Knees e, claro, a saideira, Viva la Vitoria, que veio ao fim de um bis maior que o comum, com três músicas relativamente longas. Erik, em especial, é notoriamente um excelente músico, que usa uma lindíssima Les Paul branca, e canta magistralmente. Um show competente, apesar de burocrático, e que de forma alguma é possível dizer que não valeu a pena. Valeu! E teria sido extremamente mais bem sucedido se não tivessem uma apresentação matadora anteriormente, com Johnny Gioeli. De fato, o som da banda funciona melhor em festivais, e poderia voltar para futuras edições do que os revelou ao público brasileiro, pois da primeira vez em que vieram levaram uma boa quantidade de admiradores.

O evento no geral? Bem, valeu a pena! Bom som, e o palco e a estrutura do novo Manifesto Bar são excelentes. Duas ótimas bandas e uma energia gostosa das pessoas que presenciaram! A parte “ruim” foi a ordem das bandas, pois claramente o astro da noite era o americano Johnny Gioeli – longe de tirar o brilho dos suecos do Eclipse, que já têm seu público fiel no país e entregaram exatamente o que ele esperava.
A noite terminaria com a apresentação dos brasileiros do Nite Stinger e seu hard rock típico que não fez, exatamente, parte do evento, mas um ‘after party’, como chamaram, que era mais próximo das baladas típicas do Manifesto – tanto que a esmagadora maioria do público não ficou para vê-los (seu nome nem sequer estava no flyer do evento, diga-se de passagem).

Setlist Johnny Gioeli
Dr. Love
Takin’ me Down
Long Live Rock
Live And Learn
In This Moment
Take You Home
Oceans of Time
Carousel
Fever Dreams
Everything
What I’m Made of…
Hot Cherie
Rock the Nation
Rhythm From a Red Car
Setlist Eclipse
Roses on Your Grave
All I Want
Run for Cover
Battlegrounds
Anthem
The Downfall of Eden
Runaways
Saturday Night (Hallelujah)
Solo de Guitarra/Bateria
Blood Enemies
Wylde One
Still My Hero
Falling to My Knees
Stand on Your Feet
Black Rain
Twilight
Bis
I Don’t Wanna Say I’m Sorry
Bleed & Scream
Viva La Vitoria
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