KAM LEE (MASSACRE, ex-DEATH) afirma que criou seu estilo de vocal gutural imitando cachorros

Em nova entrevista ao Soundterror, Kam Lee, que integrou uma das primeiras formações do Death e também o Mantas ao lado de Chuck Schuldiner e Rick Rozz, relembrou os primórdios do gênero e contou como desenvolveu sua técnica de vocal gutural, mais tarde consolidada no death metal.

Sobre a convivência com Schuldiner no início dos anos 80, Lee afirmou (conforme transcrição do Blabbermouth): “Éramos crianças, então só o conheci como adolescente. Não posso realmente expandir sobre ele como adulto. Só posso dizer que éramos adolescentes, tínhamos 15, 16 anos e nos divertíamos tocando música na garagem. Nunca pensamos que isso se tornaria o que se tornou.”

Questionado sobre sua saída do Death, respondeu de forma direta: “Por que deixei o Death? (Chuck) me expulsou porque tentei arrumar uma namorada para ele.”

A entrevista também abordou a origem de seu estilo vocal, muitas vezes considerado a semente do ‘growl’ no metal extremo. Lee explicou:

“No Death e no Mantas, comecei basicamente a imitar muita coisa do que recebíamos como influência. Eu fazia troca de fitas (cassete), recebia fitas do Possessed, Sacrifice, Paul Speckmann (Master), Hellhammer, Venom… tudo isso influenciou. Mas quando realmente encontrei o ‘growl’ foi no Massacre. Antes era mais gritado, e o Chuck também passou a cantar, tentando soar como Jeff Becerra. Eu não queria soar como outra pessoa. Pensei: qual era a coisa mais primal que eu podia imaginar? Muita gente fala de filmes demoníacos, mas para mim era algo natural. Cresci cercado por cães grandes, rottweilers e pitbulls. O momento mais assustador que vivi aos 14 anos foi estar entre quatro ou cinco deles na hora da alimentação, quando todos rosnavam num som grave para afirmar dominância. Era arrepiante. Então pensei: é isso que quero fazer com a voz, algo primal, cru, natural. Literalmente comecei a imitar cachorros. Foi assim que surgiu o ‘growl’.”

Lee disse ainda que não conhecia ninguém na época que usasse uma técnica semelhante. Apesar disso, apontou que também absorveu influências: “Peguei a enunciação fonética de Tom G. Warrior, porque gostava de como ele falava nas demos do Hellhammer, mesmo sem perceber que era por conta de ele ser suíço e o inglês não ser sua língua nativa. Gostava dos ‘ooh’ e dos ‘hey’, e expandi isso. Além disso, todo o final dos anos 80 foi uma mistura de Venom, Lemmy (Kilmister, Motörheade qualquer coisa que fosse rasgada e crua.”

O vocalista recordou também a rejeição inicial ao som que fazia ao lado de Chuck e Rozz: “Sabíamos que estávamos fazendo algo completamente diferente, e todo mundo odiava. Diziam: ‘Isso é uma merda. Nunca vai durar. Nunca vai pegar. Isso é lixo.’ E veja só — mais de 40 anos depois, se tornou uma das maiores influências do metal. Não sabíamos que teria tanto impacto, mas sabíamos que era algo diferente, porque o que estava em alta era o hair metal, Mötley Crüe e esse tipo de coisa. Queríamos ser o oposto. Então seguimos para o underground. Minhas letras vinham dos filmes de terror, como Lucio Fulci e Evil Dead. O próprio Scream Bloody Gore (primeiro álbum do Death) nasceu disso.”

Em outras entrevistas recentes, Kam voltou a comentar o debate sobre quem surgiu primeiro como banda de death metal, Death ou Possessed. Para ele, os californianos vieram antes: “O Possessed veio primeiro, porque todos ouvimos a demo deles na época das trocas de fitas. Aquilo mudou tudo. Até então o Mantas era muito influenciado pelo Venom. Mas quando escutamos Possessed e Slayer, decidimos juntar a crueza do Venom, a velocidade do Slayer e a maldade do Possessed. Esse é o tripé que considero o alicerce do death metal.”

Ao mesmo tempo, Kam fez questão de esclarecer polêmicas em torno de declarações passadas sobre Schuldiner: “Usei as palavras erradas ao dizer que Chuck ‘copiou’ o Possessed. O termo certo é que ele foi muito influenciado. Eu mesmo me influenciei pelo Hellhammer e Tom G. Warrior. Não vou ficar incomodado com isso porque é fato. Infelizmente, muita gente distorceu essa fala para criar discórdia.”

Para Lee, a importância de Schuldiner muitas vezes é reforçada como parte de um processo de mercado: “O legado dele se tornou um produto após a morte. Para seguir vendendo e relançando discos, é isso que o marketing faz. É como Coca-Cola contra Pepsi, McDonald’s contra Burger King. A marca que tem a melhor propaganda sempre vence.”

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