Foto: Imani GivertzPor Daniel AgapitoO metalcore é um dos subgêneros do metal mais controversos dos últimos tempos, especialmente aqui no Brasil, onde boa parte do público ainda prefere apostar nos bons e velhos clássicos do heavy metal e do hard rock tradicional. Esses mesmos fãs mais “cabeça fechada” parecem sempre ter uma visão muito parecida do estilo, descrevendo-o como era em seu auge nos anos 2000, com direito a cabelinho de emo, calça “skinny” e aquela mistura característica de vocais gritados e refrãos limpos cheios de emoção, quase melosos. Dentre os grupos que foram relevantes naquela época, existe um que praticamente juntava todos estes aspectos, se destacando como um dos nomes mais icônicos da cena: The Devil Wears Prada.Seja pelo filme do mesmo nome (que por incrível que pareça não foi a inspiração para batizar a banda, que começou antes mesmo de ele ser anunciado), pelos títulos no mínimo estranhos das faixas de seus primeiros lançamentos ou pelo seu som, que definiu toda uma geração de grupos que veio logo depois, é realmente difícil estar ligado no metal moderno e nunca nem ter ouvido falar dos nativos de Dayton, Ohio. Nunca foi fácil ser fã de metalcore no Brasil, mas 2025 foi um ano bastante interessante para o estilo, com shows de grandes nomes como Silent Planet e Atreyu pela primeira vez em terras tupiniquins, além do retorno de bandas como The Amity Affliction e Miss May I. O Devil Wears Prada também já está com seu retorno marcado, vindo para São Paulo e Curitiba nos dias 16 e 17 de agosto, mais de 13 anos após sua primeira passagem.Tivemos a chance de conversar brevemente com a icônica voz por trás da banda, o pra lá de carismático Mike Hranica, pouco antes de eles subirem no palco da Xfinity Center em Mansfield, uma das últimas datas de sua turnê atual. Claramente animado para retornar para o país que o recebeu tão bem na primeira vez há mais de 15 anos, ele nos contou algumas de suas memórias do Brasil, revelou o que mudou na banda desde então e deixou claro o que esperar da tão aguardada sequência de shows. Confira!Pra começar, vale destacar que essa não será a primeira vez do The Devil Wears Prada no Brasil, já que vieram pela primeira vez em 2010, na turnê de With Roots Above and Branches Below, quando passaram por Carioca Club em São Paulo e John Bull em Curitiba. Tem alguma memória desta passagem?
Mike Hranica: Lembro bem do Carioca! Tocamos lá duas vezes, inclusive. Mas é isso, fomos aí duas vezes, e já faz tempo que estamos precisando voltar. Foi incrível, estamos muito animados para ter a chance de retornar.Mesmo com o metalcore não sendo o estilo mais estabelecido de todos por aqui, vários artistas ainda falam muito bem do público brasileiro, que ficou conhecido por ser completamente louco. O que lembra dos nossos fãs?
Mike: Sim, posso confirmar esses rumores! A energia de vocês é muito maior do que você geralmente vê por aí em outros países mais ‘tradicionais’. Os fãs têm um entusiasmo diferenciado, e sempre nos tratam como celebridades quando chegamos, o que acho um pouco bizarro. Bom, vai ser uma loucura de novo, assim como foram as primeiras duas vezes!Com isso em mente, para você, como músico, como é a sensação de ouvir suas músicas cantadas por milhares de vozes em um país que está a milhares de quilômetros de sua terra natal?
Mike: É a melhor coisa! Sempre digo que um dos meus componentes favoritos de cantar com o Devil Wears Prada é que temos a chance de viajar o mundo tocando nossas músicas e vendo cada canto do nosso planeta. Sou muito grato por tudo isso, o clima e o ambiente daí são muito diferentes de todo o resto do mundo, é incrível. Quando estamos aí, adoro passear por São Paulo e por Curitiba, adoro voar e conhecer os outros países da América Latina, é o que mais gosto deste meu trabalho.Então, suas impressões do Brasil são bem positivas no geral!
Mike: Com certeza! Tem sido ótimo tocar aí! Acho meio bizarro que demoramos tanto para voltar, tivemos um espaço de só alguns anos entre a primeira e segunda vez (N.R.: dois anos, 2010 e 2012), mas agora já faz muito tempo. Gosto de misturar os lugares, não curto ficar fazendo turnê nos Estados Unidos o tempo todo, gosto de sair e conhecer o mundo, então está dando certo.A última vez que estiveram aqui foi em 2012, quando fizeram um show descrito por nosso editor Claudio Vicentin como “acima do divino”. Desde então, muita coisa mudou, não só com o TDWP, como também com a cena do metalcore como um todo. Como você enxerga esta evolução do estilo nestes últimos 10 anos?
Mike: Realmente chegou no mainstream. Agora estamos em turnê com Parkway Drive, I Prevail, Beartooth, Killswitch Engage, Amity Affliction, Alphawolf, dentre outros (N.R.: no festival Summer of Loud). Tocamos em outros festivais gigantescos aqui nos EUA (N.R.: Inkarceration, Welcome to Rockville, Sonic Temple, Warped Tour), fizemos grandes turnês pela Europa, então nosso mundo, que um dia foi muito underground e passava longe das grandes rádios rock, realmente avançou, agora várias bandas de amigos, nós também, inclusive, conseguimos experimentar um bom sucesso nas rádios. Amo isso, acho que maior e melhor é sempre a direção certa. É algo que parecia estar vindo há um tempo, algo bem merecido, todos nós estamos trabalhando bem duro para conseguir conquistar esse nível de sucesso. Quando era criança, o tipo de música que queria escutar nas rádios era justamente a coisa mais pesada possível, e agora o fato de a ‘música de breakdown’, ‘música de grito’, ‘música de afinação baixíssima’ estar mais popular do que nunca é algo espetacular.Podemos dizer que vocês foram um dos primeiros grandes nomes do metalcore mais moderno, um dos grupos que mais ajudou a definir o som e a estética dos anos 2000, mas agora estamos vendo toda uma geração nova que derrubou toda e qualquer barreira estilística. O que acha deles?
Mike: De novo, acho incrível, muitos de nós (do começo da cena) crescemos tendo experiências similares, não sentíamos como se pertencessem (na sociedade) e por isso acabamos gravitando em direção à música mais pesada, mas ao mesmo tempo incorporando os refrãos cantados, com emoção, e os ganchos mais comuns no pop. Virou algo mais e mais popular e acho muito bom, sou muito grato à cena toda, nunca imaginei que músicas desse tipo poderiam receber tanta atenção do público em geral.No começo do ano entrevistei Brandon Saller, do Atreyu, e ele disse que o metalcore está vivendo um renascimento, prestes a ter seu segundo auge, basicamente. Com grandes turnês como Summer of Loud e Warped Tour, ambas com sua participação, de volta aos calendários estadunidenses, diria que está na hora de o estilo brilhar novamente?
Mike: Com certeza! Ver o sucesso das bandas que estão conosco no Summer of Loud, o sucesso de grupos como Bring Me the Horizon, que conquistaram algo único, diria que é sim o melhor momento para tudo isso. De novo, só tenho a agradecer, só tenho gratidão. Não acho que houve ou que haverá um momento em que chegaremos a um pico como estilo, em que tudo dali para a frente será pior, por assim dizer, que a tendência será não melhorar, não ir para frente. Sempre podemos melhorar. Sou uma pessoa muito orientada no futuro, acho que sempre podemos conquistar mais e mais e chegar em níveis ainda maiores de sucesso.Focando um pouco mais em vocês como banda, podemos dizer que sempre abordaram temas muito sérios em suas letras, mas algo que parece que têm mudado é o jeito que apresentam as músicas em si, podemos ver pelos títulos antigos, como Dogs Can Grow Beards All Over (cachorros têm barba no corpo todo) e Hey John, What’s Your Name Again? (ei, John, qual seu nome?), enquanto hoje parecem ter um tom mais pé no chão. Diria que houve algo específico por trás desta mudança?
Mike: Acho que não. Em relação aos títulos das músicas, acho que isso realmente foi mudar quando fizemos Zombie EP (2010), que de muitos jeitos é o nosso material menos sério (N.R.: um projeto em que todas as músicas retratam um apocalipse zumbi), foi tipo: ‘Ah, talvez seja a hora de amadurecer um pouco e pensar um pouco mais nos nomes das nossas músicas, colocar mais esforço nisso.’ Ainda acho que não nos levamos muito a sério, até nos levamos menos a sério ainda em muitos aspectos, com o jeito que brincamos no palco, por exemplo. Jeremy (DePoyster, guitarra, vocal) está sempre zoando, sempre falando algumas merdas aleatórias. Acho que até lá atrás eu levava as coisas muito a sério, via a vida como um competição, mas hoje em dia é diferente, e estou animado para que o Brasil possa ver essa nova experiência ao vivo.Como descreveria a evolução de vocês desde a última vez em que vieram aqui?
Mike: Ah, muito mudou, muita coisa mudou mesmo. Majoritariamente, acho que o John (Gering, teclados) era o único integrante novo, entre aspas, ainda tínhamos Chris (Rubey, guitarra), Daniel (Williams, baterista,falecido este ano) e Andy (Tick, baixo) na formação, mas, sabe, as pessoas mudam, você sempre pode mudar o jeito que pensa nas coisas. Sei que tocar em uma banda, viajar o mundo gritando e tocando metal não é o estilo de vida preferido de muitas pessoas, e você realmente percebe isso quando você deixa de ser criança – por exemplo, agora, que estamos todos com 30 e poucos anos. Mesmo assim, eu e Jeremy nunca deixamos isso subir para nossa cabeça, nunca tomamos nada disso como certo, sempre estivemos motivados para entregar o melhor resultado possível e deixar esse barco flutuando. John e os outros caras trabalham pra caramba para fazer tudo acontecer e para conseguirmos viver disso. Não só isso, como também não somos mais os mesmos no palco.O ciclo pós-lançamento de Color Decay (2022) já tem contado com alguns singles novos, como Ritual no começo do ano passado e For You agora em abril. Já tem algum material novo sendo preparado? Há planos para um novo álbum em um futuro próximo? Quanto pode nos contar?
Mike: Não posso falar muito ainda, mas posso dizer que sim. É uma loucura que já tenham passado 3 anos desde Color Decay, mas agora estamos chegando no final do ciclo dele e grandes anúncios e surpresas estão vindo já já. Isso é o que posso te falar.Sei que vocês estão em turnê com o Amity Affliction e no show que fizeram aqui em abril estrearam uma música nova. Seria muita loucura esperar algo parecido?
Mike: Não posso estragar a surpresa…Passando para o show que vão fazer no mês que vem, os repertórios de suas últimas turnês têm sido mais focados em Color Decay, mas desde a última vez que passaram por terras latinas lançaram muita coisa. Podemos esperar um repertório mais ‘balanceado’, de certa forma?
Mike: Sim! Em uma turnê como a que estamos fazendo agora, o Summer of Loud, acabamos focando bem no presente, mas conhecendo nosso histórico todo com o Brasil, com certeza iremos incluir algumas joias do passado nos shows.Estão vindo com um clima um pouco de ‘recuperação do tempo perdido’, não?
Mike: Ah, podemos dizer que sim. Sou sempre muito focado no futuro a toda hora, então é aí que geralmente está minha visão, ao invés de ficar olhando para o passado, ser retrospectivo demais, mas, sim, com certeza queremos fazer valer cada segundo, para nós e para vocês.De modo geral, como passaram tanto tempo longe, o que vocês da banda esperam destes shows?
Mike: Aquele entusiasmo brasileiro incrível que você realmente só encontra aí, nunca vimos um público parecido com o de vocês. Já tivemos o privilégio de tocar em tantos lugares incríveis pelo mundo, mas por algum motivo vocês fãs brasileiros nos tratam como se fossemos os Beatles (rindo). A energia é algo fora do normal, estou muito animado!Realmente, a comunidade do metalcore pode não ser a maior daqui, mas parece que todo mundo que vai aos shows, especialmente nesses últimos anos, quando estamos vendo mais e mais bandas. É muito fã, todos enlouquecem!
Mike: Gosto de ouvir isso! É, posso dizer que estou quase um pouco nervoso, geralmente não fico tão nervoso assim, mas estou vendo bastante coisa de vocês, estou fazendo várias entrevistas, e estaremos voando em direção a vocês muito em breve!Houve algum motivo específico para este distanciamento prolongado da América Latina ou foi apenas uma questão de falta de oportunidade e problemas logísticos?
Mike: Foi falta de oportunidade, mesmo. É a coisa menos glamurosa que poderíamos falar sobre isso, mas a logística de fazer show por aí é muito mais complicada do que o trâmite para tocar em qualquer outro lugar do mundo. Digo isso em termos de fazer a conta fechar, não perder um monte de dinheiro fazendo isso. Mas, a oportunidade apareceu e não tínhamos como dizer não, nossa volta já está muito atrasada!Conseguiu dar uma olhada no som das bandas que vão tocar com vocês aqui no Brasil, Crowning Animals e Emmercia?
Mike: Ainda não consegui ouvi-las com muita atenção, mas estaremos por aí, então vamos conferir os shows com certeza! Quando estou em turnê, acabo me fechando um pouco mais, me sinto muito estimulado com o tanto de música que está rolando a toda hora, com a correria do dia a dia. Geralmente consigo focar mais em ouvir música quando estou em casa, e o fato de estar longe de lá há umas 5 ou 6 semanas não me ajuda muito, mas estamos preparados para voltar com tudo aí!Para fechar, agora é com você: pode mandar uma mensagem para seus fãs brasileiros e para os leitores da ROADIE CREW!
Mike: Estamos verdadeiramente muito ansiosos para tocar aí novamente, o Brasil tem sido um dos países que mais ouve nossas músicas nas plataformas digitais, nunca iremos esquecer disso. Somos muito gratos pela oportunidade de poder voltar e sermos bem recebidos por aí, então com certeza serão shows muito divertidos! Sempre vemos os comentários de ‘come to Brazil’ nas nossas postagens, agora queremos aproveitar ao máximo!
The Devil Wears Prada no Brasil
Falta menos de um mês para The Devil Wears Prada voltar – na sua melhor fase! – à América Latina! O esperado retorno da banda norte-americana de metalcore moderno ao Brasil e outros quatro países americanos acontece após 13 anos desde a última turnê por aqui. A realização é da Liberation Music Company.No Brasil, os shows são dia 16/08 em Curitiba/PR, no Jokers (abertura: Crowning Animals), e dia 17/08 em São Paulo/SP, no Carioca Club (abertura: Emmercia). A banda promete um setlist equilibrado entre novo e antigo material, produção visual forte e intensa interação com o público.
Serviço:
The Devil Wears Prada em Curitiba
Data: 16 de agosto de 2025Local: Jokers (Rua São Francisco 164, Curitiba/PR)
The Devil Wears Prada em São Paulo
Data: 17 de agosto de 2025Local: Carioca Club (Rua Cardeal Arcoverde 2899, São Paulo/SP)Clique aquipara seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp