BARCELONA ROCK FEST – BARCELONA (ESPANHA)

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Por Écio Souza Diniz Fotos: Écio Souza Diniz e Barcelona Rock Fest Em sua nona edição, o Barcelona Rock Fest (BRF) seguiu firme com seu compromisso de oferecer entretenimento de qualidade ao seu público. Realizado entre os dias 26 e 29 de junho, como de costume no Parc de Can Zam, em Santa Coloma de Gramenet, na zona metropolitana de Barcelona, este ano os palcos do festival foram liderados por Doro, Exodus, Judas Priest, King Diamond, Lynyrd Skynyrd, Running Wild, Savatage, Scorpions, Slipknot e Stryper. A ROADIE CREW acompanhou todos os dias do festival e traz para você os principais destaques. A infraestrutura oferecida na área do festival segue sendo um dos seus pontos mais positivos, especialmente o típico revestimento de grama sintética na arena com os dois grandes palcos principais. Isso faz do evento algo confortável e amigável até mesmo para famílias inteiras, que levam inclusive crianças, permitindo às pessoas descansarem ou até mesmo ver parte dos concertos sentadas, o que é especialmente desejável perante o calor típico de Barcelona neste período do ano. Além disso, o fácil acesso a banheiros e tendas de merchandising (que vendiam CDs, vinis, camisetas e acessórios como spikes, anéis, pulseiras, chapéus, bandanas, botas etc.) e de comida e bebida, estrategicamente distribuídas na área do evento, torna a experiência mais agradável. Além disso, o Parc de Can Zam, além de sua conveniente localização de fácil acesso via metrô e outros meios de transporte público desde o centro de Barcelona, também possui uma considerável área circundando o espaço cercado para o festival, o que também permite ao público relaxar debaixo de árvores e à beira de um lago.   Quinta-feira, 26 de junho Ao chegar no festival, por volta das 19h, , um tempo foi reservado para relaxar, tomar uma cerveja, olhar as tendas de merchandising e assistir um pouco ao Motörhits, uma excelente banda local cover de Motörhead que tocou nas últimas edições do festival nos intervalos entre bandas. Em seguida, fui ver o show dos italianos do Wind Rose. Essa banda de folk/power metal formada em 2009 ficou conhecida por misturar metal épico com temas de fantasia medieval. Eles ganharam fama com o cover viral de Diggy Diggy Hole, um ‘meme-song’ dos youtubers Yogscast. Em geral, foi um show divertido e que fez a festa dos presentes naquela tarde ensolarada. Por volta das 22h, a lenda estadunidense Savatage entrou no Stage Fest trazendo sua maestria em forma de heavy metal. A consagrada formação composta por Zak Stevens (vocal), Chris Caffery (guitarra), Al Pitrelli (guitarra), Johnny Lee Middleton (baixo) e Jeff Plate (bateria) brindou o público com uma performance intensa e dinâmica. Os tecladistas Paulo Cuevas e Shawn McNair apoiam a banda nos shows atuais, visto que o fundador, vocalista e tecladista Jon Oliva não está participando por conta de problemas de saúde (fratura na coluna T7, esclerose múltipla e doença de Ménière), embora continue envolvido nos bastidores e em novos trabalhos. O legado do Savatage ao metal se dá sobretudo por seu pioneirismo na fusão de metal progressivo, power metal e elementos sinfônicos, influenciando bandas como Dream Theater e Symphony X. Suas composições teatrais e conceituais elevaram o ‘storytelling’ no metal, evidenciando assim sua originalidade e impacto duradouro no cenário mundial. No Wacken Open Air 2015, o qual eu fiz a cobertura para a ROADIE CREW, eu vi o grandioso e histórico show da banda acompanhada pelo grupo Trans-Siberian Orchestra. Apesar do show no Barcelona Rock Fest ter tido estrutura menor que o mencionado no Wacken, posso dizer que também foi excelente. Num passeio por quase toda a sua discografia, a banda tocou com intensidade e paixão cada música. Logo que começam a ecoar as ondas do mar da introdução The Ocean antecedendo Welcome, do incrível The Wake of Magellan (1997), o público já ia ao delírio. Em seguida, o hit Jesus Saves do clássico Streets: A Rock Opera (1991) começou a engrossar o caldo com seus excelentes riffs de guitarra. Apresentando o primeiro momento mais progressivo do show, a banda executou a sensacional faixa título de The Wake of Magellan, que deu lugar para a marcante balada Strange Wings de Hall of the Mountain King (1987). Dando lugar a riffs cortantes, a faixa-título de Power of the Night (1985) levou os presentes a uma viagem no túnel do tempo dos primórdios mais pesados e tradicionalmente heavy metal do Savatage. Logo em seguida, o peso cedeu espaço à intensa faixa título de Handful of Rain (1994), que destacou a excelência da interpretação vocal de Zak. Mantendo essa atmosfera, eles entraram com a belíssima Chance, do álbum citado. Nessa sucessão de pérolas, veio aquela que é minha favorita da banda: a faixa-título de Gutter Bullet (1990). Essa música não só é uma obra de arte que combina quase à perfeição peso das guitarras e melodia, mas também o seu videoclipe é icônico por combinar teatralidade sombria com crítica social, refletindo o estilo dramático da banda e ajudando a consolidar sua reputação como inovadora no metal conceitual e visual. Não por coincidência, este foi o ponto alto do show em termos de resposta e interação com o público. Sem pausa para respirar e recuperar o fôlego, emendaram outra música aclamada por todos, a faixa-título de Edge of Thorns (1993) com seu riff de teclado e refrão inesquecíveis. No momento mais sentimentalmente profundo do show, a banda tocou Believe, de Streets: A Rock Opera, enquanto o telão exibia Jon Oliva no piano e nos vocais, com a banda entrando após o primeiro refrão. Encerrando essa jornada de clássicos, a banda fechou com o peso cortante dos riffs das faixas títulos do debut Sirens (1983) e de Hall of the Mountain King. Vida longa ao Savatage! Depois de um breve intervalo, foi a vez de entrar em cena o Slipknot, atração mais esperada do dia por muitos. É um fato conhecido que essa banda foi importante por revolucionar o metal com uma estética agressiva, som pesado e identidade visual marcante, ficando famosa por sua performance intensa e por atrair novos públicos ao gênero. Atualmente, o grupo é composto por Corey Taylor (vocais), Mick Thomson e Jim Root (guitarras), Sid Wilson (turntables e teclados), Shawn “Clown” Crahan e Michael “Tortilla Man” Pfaff (percussão e backing vocals), Alessandro “V-Man” Venturella (baixo) e o grande Eloy Casagrande (ex–Sepultura, na bateria desde 2024). O público empolgado, composto em grande parte por fãs jovens, não esmoreceu em nenhum momento durante todo o show, cantando junto as músicas e participando das rodas de mosh. A entrada já veio com um soco na cara com (sic), do debut Slipknot (1999), seguida pelas pancadas People = Shit, do conceituado Iowa (2001), e Gematria (The Killing Name), de All Hope is Gone (2008). Os pontos altos foram Wait and Bleed do debut, primeiro hit da banda e um marco do nu metal, Psychosocial, de All Hope is Gone, e a aclamada e talvez a mais popular da banda, Duality de Vol. 3: (The Subliminal Verses) (2004), na qual Eloy colocou para fora toda a sua fúria nas baquetas. Também se destacaram outras duas músicas do debut, Spit It Out, outro clássico nos shows, famoso pelo “jump the fuck up”, e Surfacing. Encerrado o show do Slipknot era hora de ir a casa e descansar para os próximos três dias de festival. Sexta-feira, 27 de junho Preparado para o segundo dia da jornada, cheguei por volta das 18h e aproveitei um momento para disfrutar do parque, sentar à beira do lago e tomar uma cervejinha com os amigos. Então, às 19h começou no palco Stage Rock o show da banda alemã Bonfire.  Esse grupo, formado em 1972 na cidade de Ingolstadt pelo guitarrista Hans Ziller (único membro original atualmente), alcançou sucesso nos anos 80 com álbuns como Don’t Touch the Light (1986) e Fire Works (1987), ajudando a popularizar o hard rock melódico germânico no cenário internacional e inspirar gerações de bandas europeias do gênero. Neste o show, o atual vocalista, o grego Dyan Mair, na banda desde 2022, mostrou seu ótimo alcance vocal nos clássicos do grupo como a faixa-título de Don’t Touch the Light e Ready 4 Reaction, Never Mind, Sweet Obsession e Champion, de Fire Works. Também foram pontos altos do show Sword and Stone (do single homônimo de 1989) e a marcante I Died Tonight do álbum mais recente, Higher Ground (2025). No Rock Tent, Deborah Bonham, irmã do lendário John Bonham (Led Zeppelin), mostrou por que cada vez mais é considerada uma das grandes vozes do rock/blues britânico. Desde sua estreia em 1985 com o álbum For You and the Moon, ela conquistou espaço no Reino Unido, Europa e Japão, lançando vários discos e participando de turnês mundiais ao lado de artistas como Paul Rodgers, Jeff Beck e Robert Plant. Em 2022, lançou o álbum de covers Bonham-Bullick, seguido pelo tributo ao Cream Heavenly Cream (2023), fortalecendo ainda mais sua trajetória. No Barcelona Rock Fest, Deborah brilhou com uma performance poderosa e descontraída, interagindo em espanhol com o público e mostrando um razoável domínio do idioma. Sua banda, formada por músicos experientes, destacando o talentoso guitarrista Peter Bullick, garantiu uma imersão no rock clássico, com destaques para Grace (de Duchess, 2008) com seus ótimos solos, a energética Thunder, a contagiante e vibrante I Feel So Alive (Spirit, 2013) e a sólida Train, todas mostrando consistentemente a energia e o talento de Deborah. Nessa vibe mais rock’n’roll, no Stage Rock entrava The Hellacopters. Formada em 1994 na cidade de Estocolmo (Suécia) pelo guitarrista Nicke Anderson (baterista do Entombed), essa banda revitalizou o rock garage com energia punk e riffs marcantes, influenciando o rock alternativo europeu. A mescla de atitude punk com melodias acessíveis, características da banda, foi apresentada fielmente no festival. Atualmente, a banda excursiona divulgando seu atual álbum, Overdriver (2025). A performance se destacou na faixa-título de By the Grace of God (2002), um dos álbuns mais bem-sucedidos da banda, em I’m in the Band (de Rock & Roll Is Dead, 2005), um dos maiores hits da banda, na crua e energética The Devil Stole the Beat From the Lord (de Grande Rock, 1999), Carry Me Home (de By the Grace of God), Token Apologies (Grande Rock) e na emocional So Sorry I Could Die (de Eyes of Oblivion, 2022). Também se destacou Toys and Flavors (de High Visibility, 2000), cujo videoclipe se tornou muito famoso na época. A energia transmitida por Anderson e o restante da banda trouxe ótimos momentos de diversão entusiasmada ao público. Ao lado, no Stage Fest os veteranos alemães do Running Wild invadiam a arena com sua tripulação pirata. Embora dispense apresentações, vale relembrar o pioneirismo da banda com o seu ‘pirate metal’ ao incorporar temáticas e estética pirata à sonoridade do heavy/speed metal desde o clássico Under Jolly Roger (1987). Sua mistura de riffs rápidos, melodias épicas e letras históricas influenciou o desenvolvimento do power metal europeu, abrindo caminho para subgêneros temáticos no metal, sendo referência até hoje. O lendário Rolf “Rock’n’Rolf” Kasparek (guitarra e vocal), acompanhado por Peter Jordan (guitarra), Ole Hempelmann (baixo) e Michael Wolpers (bateria), lançou um bombardeio de clássicos para um público bastante misto no festival, incluindo fãs de diferentes gerações, mas claro contando com muitos veteranos. Na edição 2015 do Wacken Open Air, eu havia visto também o show do Running Wild, o qual relatei na cobertura para a ROADIE CREW na época, e comparando com este do Barcelona Rock Fest digo que a performance e qualidade da banda permanece intacta, sem qualquer sinal de desgaste pelo tempo. Para o estilo de músicas com passagens complexas e rápidas que tocam isso é um grande feito, afinal, por exemplo, em se tratando de Rolf estamos falando de um senhor já com 64 anos. Desde a entrada com a forte Fistful of Dynamite de Death or Glory (1989) até o fechamento com a clássica Treasure Island, de Port Royal (1988), o show foi vibrante e de qualidade impecável. Os melhores momentos foram com o clássico do speed metal Ride The Storm e a inesquecível Bad to the Bone, ambas de Death or Glory, a faixa-título de Under Jolly Roger e a faixa-título de Branded and Exiled (1985). Sem dúvida, um dos pontos mais altos do dia foi com o Running Wild. Era quase meia-noite e o público estava atento para receber um grupo veterano na arena do festival: Lynyrd Skynyrd. Mundialmente conhecido, a banda formada em 1964 na Flórida (EUA) é uma dos pioneiras do southern rock, combinando rock clássico com elementos do blues e do country. Sua influência profunda ainda inspira gerações de músicos mundo afora. Um dos destaques no show em Barcelona foi a performance do guitarrista Rickey Medlocke (Blackfoot), juntamente com o vocalista Johnny Van Zant (irmão mais novo do falecido vocalista de Ronnie Van Zant e desde 1987 na banda). O guitarrista Mark “Sparky” Matejka também mostrou seu talento, sobretudo em momentos tocando ao lado de Medlocke. Como poderia se esperar, muito da plateia presente era composta por fãs veteranos com idades acima dos 60 anos. Era agradável ver como o público dessa faixa etária e pessoas bem mais jovens compartilhavam harmonicamente o espaço da arena para desfrutar juntos um rock’n’roll clássico. O público embalou a diversão e entusiasmo com Gimme Three Steps do clássico primeiro álbum Pronounced ‘Lĕh-‘nérd ‘Skin-‘nérd  (1973), That Smell e What’s Your Name de Street Survivors (1977), Saturday Night Special de Nuthin’ Fancy (1975) e Workin’ for MCA de Second Helping (1974). Mas, claro, os momentos que fizeram todos cantarem em uníssono foram os clássicos amplamente conhecidos mundo afora: Free Bird, Simple Man e Tuesday’s Gone do primeiro álbum e a icônica Sweet Home Alabama de Second Helping. Ainda com a atmosfera e músicas do show do Lynyrd Skynyrd na cabeça, já era hora de ir descansar para os próximos dois dias por vir.   Sábado, 28 de junho O início do terceiro dia de festival foi menos gentil, pois o calor judiava mais que os dias anteriores. Às 19h, a temperatura era próxima dos 40 °C, algo atípico para final de junho na zona metropolitana de Barcelona e mais comum entre o meio de julho e meio de agosto. Como uma ironia, a banda que entrava no palco nessa hora era o Exodus, que fez a temperatura aumentar ainda mais com o seu show. Para os fãs de thrash metal, o Exodus dispensa cerimônias, afinal se trata de um dos pilares da cena thrash surgida na Bay Area de São Francisco (EUA), influenciando inclusive medalhões como Metallica e Slayer. Mesmo com mudanças de formação, o Exodus manteve relevância, ajudando a consolidar o thrash metal como uma vertente essencial do metal mundial. Atualmente, a banda conta com Gary Holt (guitarra), Lee Altus (Heathen, guitarra), Jack Gibson (baixo), Tom Hunting (batería) e Rob Dukes (vocalista entre 2005 e 2014 que retornou em 2025 substituindo novamente Steve “Zetro” Souza). Sem enrolação, chegaram arrancando ainda mais suor dos presentes com os bombardeios sonoros da faixa título e de Piranha, ambas clássicas do eterno Bonded by Blood (1985). Particularmente, sempre gostei da fase Dukes na banda, mas até então só havia visto o Exodus ao vivo algumas vezes com Zetro nos vocais. Ver de perto a atuação de Dukes me faz reforçar a percepção de que de fato é também um excelente vocalista e frontman para a banda. Mesmo com o calor visivelmente fazendo o suor brotar em sua cara, Dukes manteve a garra do início ao fim. Num momento inusitado do show, pediu à equipe de segurança próxima à grade para lhe dar uma bandeira do Brasil que fãs brasileiros haviam pendurado e a coloca no ombro pelo resto de uma música e depois estendida numa das caixas de retorno do palco por mais duas músicas. A fúria da banda, expressa principalmente na atuação de Dukes, nos riffs de Holt e nas baquetas de Hunting, também mostrou suas garras em The Toxic Waltz, Blacklist e na faixa-título de Fabulous Disaster (1989) e nas outras pepitas de ouro de Bonded by Blood: A Lesson in Violence e Strike of the Beast. Essas duas últimas desencadearam grandes ‘moshpits’, que faziam parecer que as pessoas esqueciam o calor que reinava no local. Em resumo: de cara, o Exodus já foi um dos pontos máximos do dia.   Em seguida, o thrash metal deu lugar ao punk rock no Stage Fest com a banda sueca The Baboon Show. Formada em 2003, esse grupo se populariza cada vez mais na cena europeia por sua energia explosiva e letras politizadas, tendo como base um instrumental que mistura punk clássico com influências de garage rock. Embora todos os músicos sejam talentosos, os holofotes recaem na carismática vocalista Cecilia Boström, que se mantém dinâmica durante todo o show. Essas características contribuíram para uma recepção muito boa de ambos tanto por parte dos fãs como dos curiosos presentes, o que faz bastante sentido, já que historicamente o cenário punk na Espanha, sobretudo na zona metropolitana de Barcelona, é bastante forte, com muitos squats (ocupações), selos, shows independentes e centros sociais autogeridos. De cara, a banda já fez o público saltar com Be a Baboon (de Punk Rock Harbour, 2011) e a faixa-título do mais recente álbum, God Bless You All (2022). Em seguida, Cecilia desceu do palco, pulou a grade e se juntou ao público, que a ergueu, para cantar junto a ele a excelente e marcante Forward in Reverse (de The World Is Bigger than You, 2016). A adrenalina também se elevou durante as ótimas Holiday (de Radio Rebelde, 2018), Rolling (de Damnation, 2014) e no fechamento com o hino da banda, a faixa-título de Radio Rebelde. Depois de uma pausa para comer algo, recuperar as energias e apreciar uma cervejinha, era hora de ir ao espaço coberto do Rock Tent para ver o excelente grupo sueco de doom metal Avatarium. Formada em 2013 por Leif Edling (Candlemass), essa banda foi uma grata surpresa no cenário metálico com sua mescla única de doom metal tradicional com influências de rock clássico e atmosferas sombrias. A voz poderosa da performática vocalista Jennie-Ann Smith também contribuiu significativamente para a banda se tornar uma referência moderna do doom europeu, com forte apelo emocional e artístico. Além disso, Smith é acompanhada por excelentes músicos: Marcus Jidell (guitarrista desde o primeiro álbum, Avatarium de 2013), Andreas Johansson (bateria), o excelente e carismático baixista Mats Rydström, que substitui Edling desde 2016, e o tecladista Rickard Nilsson, que acompanha o grupo ao vivo. Inclusive, Rydström estava misturado ao público mais tarde no mesmo dia e no dia seguinte para assistir a shows, dando ao mesmo tempo atenção às pessoas e fãs que falavam com ele, demonstrando ser buma pessoa bem agradável para conversar. Eles abriram com a excelente Being With the Dead, do novo álbum Between You, God, the Devil and the Dead (2025), seguida pela joia musical intitulada Rubicon (de The Fire I Long For, 2019) com sua vibe setentista e riffs marcantes. Do novo disco, o grupo ainda tocou a intensa Long Black Waves, cujo instrumental é uma clara homenagem a Led Zeppelin e Black Sabbath com o toque do Avatarium, e a forte I See You Better in the Dark. A atmosfera soturna com pitadas de psicodelia seguiu forte com a faixa-título e Pearls and Coffins, de The Girl with the Raven Mask (2015), e a faixa-título de The Fire I Long For. Os melhores e mais intensos momentos ficaram a cargo de Porcelain Skull (de The Fire I Long For, 2019) e da inconfundível Moonhorse (faixa de abertura do primeiro álbum). Um show memorável do início ao fim. Que bom que nos anos 2000 tenham surgido bandas como o Avatarium. De volta à arena, chegava o momento da teatralidade suprema dos contos de horror do mestre King Diamond tomar a cena. O incomparável vocal de King Diamond, a atuação teatral em palco, os álbuns conceituais sombrios e a sonoridade puramente heavy metal das suas músicas influenciaram e ainda marcam gerações, servindo inclusive de referência para diversos grupos de metal extremo. O soberbo cenário de palco é um destaque,  arremetendo a mansões mal assombradas, típicas em suas letras, contando com caixões, brilhantes cruzes invertidas, ala de hospital e até quarto do pânico. King Diamond nos presenteou com um show digno de sua história legendária, acompanhado pelo seu braço direito, o incrível Andy LaRocque (guitarra), o também companheiro de longa data Mike Wead (guitarra, Mercyful Fate), Pontus Egberg (baixo), Matt Thompson (bateria) e contando ao vivo com a tecladista grega Hel Pyre (W.E.B, Nervosa, Afterblood). É impressionante como Kim Bendix Petersen (nome verdadeiro de King Diamond) no auge dos seus 69 anos ainda consegue manter a performance intacta e o alto alcance de voz de contratenor, mesmo tendo inclusive passado por sérios problemas em 2010 quando chegou a ser declarado morto por cerca de cinco horas durante cirurgia de revascularização do miocárdio. Bem dizem que aqueles que se tornam lenda são forjados pela resiliência. Além da postura de um gentleman em cena, ele é também simpático e descontraído com o público. No que diz respeito ao repertório, tudo foi irrepreensível. Todos foram à loucura na abertura com Arrival (do clássico absoluto Abigail, 1987), na qual King Diamond retira a boneca que representa a personagem que dá nome ao disco. Na sequência, a banda emenda com A Mansion in Darkness, segunda faixa de Abigal. Em seguida, remetendo ao primeiro álbum, Fatal Potrait, veio a afiada Halloween. E como toca esse Andy LaRocque! Um gênio da guitarra. A atmosfera sorumbática baixou forte na arena com a ritualística faixa título de Voodoo (1998). Mantendo essa atmosfera, mas com mais peso, eles seguiram com Spider Lilly, primeiro single retirado da próxima trilogia conceitual de King Diamond, cuja primeira parte se chama Saint Lucifer’s Hospital 1920 e deve aparecer em seu próximo álbum de estúdio, com lançamento previsto ainda para 2025. Agora era o momento de um dos melhores conjuntos de riffs rápidos contrapostos perfeitamente com melodia e que atende pelo nome Sleepless Nights, de Conspiracy (1989). A sucessão de clássicos seguiu com Welcome Home e The Invisible Guests (ambas de Them, 1988) e The Candle (de Fatal Portrait). Então, a banda tocou o ótimo single de 2019 Masquerade of Madness e em seguida King Diamond apresentou Hel Pyre, que começou o inesquecível riff de teclado de Eye of the Witch (de The Eye, 1990). Do mesmo disco, tocaram a pesada Burn e para concluir esse grande espetáculo, não podia faltar um dos hinos do King Diamond, a faixa-título de Abigail. Esse foi o terceiro show do King Diamond que vi com essa formação e cada vez a banda está mais afiada. Mal havia processado mentalmente a apresentação de King Diamond, logo começou no palco ao lado o show de outra lenda do heavy metal, o alemão Udo Dirkschneider, vocalista clássico do Accept, com a banda Dirkschneider. Seu legado junto ao Accept com os álbuns dos anos 80 tem a digital marcada nos moldes de muito do que foi desenvolvido no heavy metal europeu, além ter fornecido várias das bases para estilos como power e speed metal. Esse show faz parte da turnê em comemoração aos 40 anos do clássico Balls to the Wall (1983) do Accept, promovendo também o álbum Balls to the Wall – Reloaded (2025) gravado com a banda Dirkschneider e trazendo diversas participações especiais de grandes nomes, como Joakim Brodén (Sabaton), Biff Byford (Saxon), Dee Snider (Twisted Sister), Michael Kiske (Helloween) e outros. Portanto, nesse show no Barcelona Rock Fest tivemos a satisfação de ver ao vivo todas as músicas do disco. Udo estava acompanhado por seu filho Sven Dirkschneider (batería), Andrey Smirnov e Fabian “Dee” Dammers nas guitarras e o velho companheiro Peter Baltes (que deixou o Accept em 2018) no baixo desde 2023. Essa formação conseguiu manter a arena lotada durante todo o show entre 1h e 2h30 da madrugada, mesmo depois de um dia longo e quente. Além de ouvir ao vivo a entrada com a inesquecível faixa-título de Balls to The Wall, o público também cantou junto a espetacular Head over Heels, Losing More than You’ve Ever Had, Love Child, Turn Me On e Guardian of the Night. Para encerrar perfeitamente, a banda nos deu o excelente bônus com músicas de outros álbuns do Accept, com Fast as a Shark e Princess of the Dawn, de Restless and Wild (1982), e Burning, de Breaker (1981). Nesse clima de heavy metal clássico proporcionado por Udo, ainda permaneci um tempo no festival me divertindo com os amigos enquanto via bandas locais tocarem no Rock Tent. Já depois das 4h era hora de marchar para casa e descansar para o último dia do festival. Domingo, 29 de junho Chegado o último dia, o calor parecia também estrelar com entusiasmo, pois foi o dia mais quente dentre os quatro do festival. Assim, cheguei as 16h, ainda no auge do sol, com o Dark Tranquility entrando em cena. Como muitos já sabem, a banda, formada em 1989, integra o grupo de nomes influentes do famoso cenário de Gotemburgo dos anos 90 e que estabeleceu as bases do death metal melódico. Ao longo das décadas, o Dark Tranquility manteve relevância com uma sonoridade evolutiva, combinando agressividade, melodia e atmosferas sombrias. Os principais destaques do show e com maior participação do público foram com Terminus (Where Death Is Most Alive) e Misery’s Crown (de Fiction, 2007), Final Resistance (de Damage Done, 2002) e ThereIn (de Projector, 1999). Apesar do calor, o público se manteve firme e apreciou o show. Feita uma breve hidratação à base de três garrafas d’água me posicionei para o show da Rainha do Metal, Doro Pesch, com sua banda Doro. Nascida em Düsseldorf (Alemanha), Doro ganhou notoriedade nos anos 80 como vocalista da banda Warlock, que com o álbum Triumph and Agony (1987) tornou-se um marco do heavy metal europeu. Com sua imagem poderosa e voz inconfundível, ela abriu caminho para a presença feminina no metal, inspirando gerações. Ao longo das décadas, depois do Warlock, Doro manteve uma carreira solo sólida, ampliando seu legado como pioneira e embaixadora duradoura do gênero. Mostrando seu entusiasmo e simpatia característicos, Doro nos forneceu um show cheio de energia e performance, acompanhada por Nick Mitchell (baixo e teclado), Bas Maas (guitarra, After Forever), Johnny Dee (bateria) e o guitarrista brasileiro Bill Hudson, que já se apresentou e gravou com vários artistas, como Trans-Siberian Orchestra, Savatage, U.D.O, Doro, Jon Oliva’s Pain, Circle II Circle e Vital Remains, entre outros. Com um setlist composto em sua maior parte por músicas do Warlock, Doro fez o público cantar junto. Ela entrou no palco de sorriso no rosto e demonstrando seu talento único com a música Time for Justice do mais recente álbum Conqueress – Forever Strong and Proud (2023). Na sequência, todos receberam com alegria dois clássicos do Warlock, I Rule the Ruins (de Triumph and Agony) e a faixa-título do primeiro álbum Burning the Witches (1984). Doro e o guitarrista Bill Hudson chamaram muito a atenção com suas performances, movimentando-se pelo palco e indo várias vezes à plataforma que levava ao meio do público, já montada para o show do Scorpions. Com Raise Your Fist in the Air, do álbum Raise Your Fist (2012), um dos maiores hinos da fase solo de Doro, toda a arena ergueu as mãos, também em sinal de respeito à resistência de Doro e à sua postura de união na comunidade metal. Num momento emotivo, a banda tocou a bela e marcante Für Immer, de Triumph and Agony. Com Children of the Dawn, do mais recente álbum, Doro resgatou o espírito épico e melódico do Warlock com uma produção moderna. O encerramento foi com a rápida e agressiva Metal Racer, de Burning the Witches, e o hino All We Are, de Triumph and Agony. Doro nos deixou com uma sensação antecipada de nostalgia. Dado um breve intervalo, o guitarrista e vocalista Michael Sweet entrou em cena com o heavy metal/hard rock do Stryper. Consagrada como o primeiro grupo de heavy metal cristão a alcançar sucesso comercial e estrelar no mainstream, especialmente nos anos 80, o Stryper com seu visual glam e mensagens religiosas influenciou muitas bandas no mundo todo. Acompanhado por seu irmão Robert Sweet (batería), Oz Fox (guitarra) e Perry Richardson (baixo), Michael ofereceu um show consistente ao significativo público de fãs presente no festival, focando em sua maior parte nas músicas do clássico To Hell with the Devil (1986). Desse álbum, a banda tocou a faixa-título, Calling on You, Free, More than a Man e Sing-Along Song. Além disso, tiveram vez no repertório as clássicas faixa-título e The Rock that Makes Me Roll, do primeiro álbum, Soliders Under Command (1985). Outros destaques foram Loud‘n’Clear, do primeiro EP, The Yellow and Black Attack (1985), e All for One, de Against the Law (1990). Finalmente, um dos momentos mais esperados chegou com o Judas Priest invadindo a arena. A influência do Judas no metal é atemporal e incomparável. Se o Black Sabbath criou o heavy metal, o Judas padronizou as bases do estilo ao consolidar o som clássico do gênero nos anos 70 e 80 com riffs marcantes, vocais agudos e uma estética própria que influenciou gerações. Além disso, foi com essa banda que se popularizou o hoje tão comum visual com jaquetas de couro e tachas. Com todos esses atributos, influenciaram gerações de bandas desde os estilos mais tradicionais até o metal extremo. É muito gratificante ver o Judas tão vivo, o que muito se deve à energia revigorada trazida pelo guitarrista Richie Faulkner desde sua entrada em 2011. Além disso, é surpreendente como Rob Halford aos 73 anos ainda consegue aguentar turnês mundiais e sustentar seu vocal agudo sem decair. Rob e Richie, acompanhados por Ian Hill (baixo), Scott Travis (bateria) e pelo produtor Andy Sneap na segunda guitarra, deram mais uma vez uma aula de heavy metal digna do seu legado. Dentre os vários shows do Judas que já vi, incluindo aquele memorável do Wacken Open Air 2015 que gerou o CD/DVD Battle Cry, esse do Barcelona Rock Fest não ficou atrás. Na atual turnê, chamada “Shield of Pain”, além de promover o mais recente álbum Invincible Shield (2024), o Judas Priest também celebra o 35º aniversário do icônico Painkiller (1990). Por isso, grandes partes do cenário e do setlist foram focados para homenagear esse disco fundamental do heavy metal. Depois de meia hora de espera e seguindo uma breve falha técnica no som de retorno do palco, Halford já chegou esganiçando seu vocal com a poderosa All Guns Blazing, abrindo espaço para o canhão sonoro de Hell Patrol, ambas pérolas de Painkiller. Desse álbum, a banda brindou ainda os presentes com o poderoso hino representado pela faixa-título, a apoteótica A Touch of Evil, a marcante Night Crawler, a ríspida Between the Hammer & the Anvil e a viciante One Shot at Glory. Ou seja, do referido álbum só faltou tocarem Leather Rebel e Metal Meltdown. Foi bem legal ouvir ao vivo novamente a excelente Freewheel Burning, de Defenders of the Faith (1984), que vem fazendo parte do repertório nas últimas turnês desde Firepower (2018). Outro grato presente foi escutar Solar Angels, de Point of Entry (1981), que já fazia quase duas décadas não era tocada ao vivo. Outros momentos de grande satisfação geral foram com os carros-chefes de Screaming for Vengeance (1982), Electric Eye e You’ve Got Another Thing Comin’. O refrão da faixa-título de Hell Bent for Leather (1978) também levantou uma participação massiva do público., Mas claro, os pontos altos e que toda a arena cantou em coro foram com Breaking the Law, um hino símbolo de revolta contra o sistema que teve influência gigante no cenário metálico mundial, e Living After Midnight, ambas do também clássico British Steel (1980). Também deve ser ressaltada a performance de toda a banda nas excelentes faixas de Invisible Shield: The Serpent and the King e Giant in the Sky. Essa última tem tudo para se tornar um novo hit da banda. Conclusão: eles não chamados de Metal Gods à toa! Rumo ao final da jornada de quatro dias de festival, o fechamento foi com outros veteranos do hard rock/heavy mundial, aguardados também por uma legião de fãs: os alemães do Scorpions. É praticamente dispensável mencionar que o Scorpions foi fundamental para consolidar pontes entre o metal e o mainstream nos anos 80 e 90 através de seu som marcante e acessível, combinando riffs pesados e baladas poderosas. O legado da banda inclui milhões de discos vendidos e um papel simbólico na reunificação cultural da Alemanha e do mundo pós-Guerra Fria. Os guitarristas Rudolf Schenker e Matthias Jabs seguem em ótima forma e cheios de energia para passear por todo o palco e pela plataforma que seguia à sua frente. Mikkey Dee (bateria, ex-Motörhead, ex-King Diamond, ex-Thin Lizzy) também ganhou holofotes, algo natural levando-se em conta seu currículo e reafirmando sempre que desde sua entrada em 2016 no lugar de James Kottak se encaixou como uma luva ao Scorpions. Já Klaus Meine, mesmo com 77 anos, ainda é dotado do timbre vocal que o consagrou na história do rock e metal. Atualmente, o Scorpions excursiona promovendo a “Coming Home – 60 Years of Scorpions Tour”, obviamente celebrando os 60 anos da banda e trazendo clássicos de diversas fases da sua carreira. O excelente show que presenciamos foi de fato uma celebração junto ao público de Barcelona. Desde a entrada bombástica com Coming Home do megaclássico Love At First Sting (1984) a banda já arrancou gritos, sorrisos e lágrimas desde fãs mais veteranos aos mais jovens. Inclusive, desse álbum foram tocados seus grandes hinos, levando o público a cantar junto e pular em toda a arena do festival: Bad Boys Running Wild, Big City Nights, Still Loving You e a apoteótica Rock You Like a Hurricane. Isso é só um entre milhões de exemplos que podem demonstrar porque mesmo 41 anos depois de seu lançamento Love at First Sting ainda é o maior sucesso comercial da carreira da banda. Dentre os clássicos de outros discos, como já esperado, a maior participação do público foi em The Zoo e Make It Real, de Animal Magnestim (1980). Os momentos mais belos foram cortesia dos ‘mega-hits’ Winds of Change e Send Me an Angel, de Crazy World (1990). Desse álbum tocaram também sua faixa de abertura, Tease Please Me. Já a abertura de Rock Believer (2022), Gas in the Tank, é quase um hit moderno e fica bem legal ao vivo. Os fãs dos primeiros álbuns da banda foram presenteados com um medley composto pelos excelentes e potentes riffs de Top of the Bill (do visceral In Trance, 1975), Steamrock Fever (do transicional Taken by Force,1977), Speedy’s Coming (de Fly to the Rainbow, 1974) e da marcante Catch Your Train (do excelente Virgin Killer, 1976). E, claro, não poderia faltar um dos grandes pontos altos do show com os riffs inconfundíveis da faixa-título de Blackout (1982). Assim, com mais uma demonstração do que significa ser uma megabanda do hard rock/heavy metal, o Scorpions fechou em alto nível a edição 2025 do Barcelona Rock Fest.
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