
Por Luiz Tosi
Fotos: Andre Santos
O domingo, 7 de setembro, foi o dia do rock no The Town, e o Autódromo de Interlagos recebeu uma multidão de cem mil pessoas. Cem mil! É gente que não cabe nem na imaginação de muito festival com curadoria “especializada”. Mas aqui a lógica é outra. Estamos falando de um megaevento mainstream, familiar, pop – em que a preocupação não é manter uma régua crítica ou editorial, mas sim preencher o espaço com nomes que conectem, entretenham e, muitas vezes, surpreendam.

Num momento em que o metal e o hard rock clássico vivem um impasse na cultura pop – relevantes, sim, mas menos chamativos para esse tipo de line-up de massas –, quem diria, foi o punk, esse velho malcriado, que acabou vestindo o protagonismo do dia. Foram quatro shows nacionais e quatro internacionais orbitando de alguma forma no punk e seus arredores. Teve punk raiz, punk californiano, punk de condomínio, poppy punk, pop disfarçado de punk, punk brasileiro… Enfim, o punk possível num evento desse tamanho – com a exceção de um peixe fora d’água, que comentarei mais adiante. Mas, no saldo geral, a mistura funcionou. E muito bem.

Os representantes brasileiros
A programação começou às 14h40 com uma dobradinha que tinha “São Paulo” escrita na testa: Inocentes & Supla. Foi uma parceria tão improvável quanto acertada. Os Inocentes abriram os trabalhos com a fúria de sempre. Rotina, Expresso Oriente, Garotos do Subúrbio, Pátria Amada, Cala a Boca, São Paulo e Pânico em SP vieram em sequência como um tapa na cara. Chama a atenção como essas letras, algumas com mais de 40 anos de vida, seguem atuais e necessárias. Então Supla e sua banda, Os Punks de Boutique, se juntaram aos Inocentes para uma versão de I Fought the Law, do The Crickets e imortalizada pelo The Clash, uma das duas maiores bandas punk da história.

A partir de então, Papito e sua banda assumiram o palco com a já clássica Charada Brasileiro, um cover delicioso e improvável de As it Was, de Harry Styles, a indefectível Green Hair (Japa Girl) e mais covers, desta vez Imagine (John Lennon) e She Loves You (The Beatles), ambas “punkizadas”. Se Os Inocentes têm uma faixa São Paulo, Supla também tem a sua. Então, foi a vez de São Paulo (a do Supla), que precedeu os dois grandes hits da sua primeira banda, Tokyo: Humanos e Garota de Berlim. O encerramento veio com mais uma jam entre as duas bandas, agora com Blitzkrieg Bop, dos Ramones, a outra das duas maiores bandas punk da história. A combinação funcionou perfeitamente. Contestadores, cada um à sua maneira: Supla, sempre performático, deu um tom teatral, enquanto Clemente, com os dentes à mostra, manteve os pés fincados na raiva. Um show histórico, meio circo, meio trincheira. Do jeitinho que São Paulo gosta.

As três atrações brasileiras seguintes foram Capital Inicial, CPM 22 e Pitty (a única a tocar intercalada com atrações internacionais). Gostem ou não, os três são extremamente competentes no que se propõem a fazer e, cada um à sua maneira, são casos raros de longevidade no rock brasileiro. É impressionante a quantidade de hits que Pitty (20 anos), CPM (30 anos) e Capital (40 anos) já produziram. São músicas que até quem não conhece, conhece. Dinho Ouro Preto, por exemplo, é um MC do sentimento popular. O Capital fez um show lotado, cheio de hits, mas também puxou seu lado mais punk com Psicopata, Saquear Brasília e a sempre incendiária Veraneio Vascaína – uma música que chama a polícia de “tarados, assassinos armados, uniformizados” e é cantada por cem mil pessoas no meio da tarde.

Liderado pelo carismático Badauí e com seu som calcado no punk californiano dos anos 80/90 e letras emocionais e açucaradas, o CPM 22, por sua vez, trouxe um caminhão de “hits malhação” que conquistou uma geração inteira, levando muitos marmanjos com camisetas do Iron Maiden a cantar a plenos pulmões. Para quem cresceu com essa trilha sonora, pareceu um prato cheio.
Já Pitty talvez seja a figura feminina mais relevante do rock nacional das últimas duas décadas. E não é por sorte, mas por repertório, atitude, consistência e talento. No The Town, ela entregou um set equilibrado e sem concessões, flertando com punk, industrial, eletrônico e brasileiro com a mesma segurança. Gostos à parte, negar o talento dela seria desonesto.

Bruce Dickinson
Agora vamos ao peixe fora d’água. Como sabemos, o Iron Maiden não tem fãs, tem torcedores. Daqueles tão fanáticos que nunca abandonam seu time, mesmo jogando fora de casa. E foi assim. Ainda que houvesse um número expressivo de camisetas da Donzela por Interlagos, ele era quase inexpressivo num universo tão grande, deixando Bruce mais deslocado que vegano em churrascaria – e fazendo do seu show o menos lotado do Palco Skyline. Se muitos ali pareciam não sacar de Maiden muito além de Fear of the Dark, imagine de sua carreira solo. Mas, assim como um time grande, ainda que fora de casa e com torcida reduzida, chega se impondo, carrega um respeito tão grande que basta um apito para todos prestarem atenção.
O show começa com Toltec 7 Arrival, vinheta instrumental que já entrega a proposta. O palco, dominado por tons frios e com um cenário discreto, é invadido por Bruce com um sorriso no rosto. Sem concessões, ele joga na cara do público a dobradinha Accident of Birth e Abduction, duas porradas do seu catálogo solo que dispensam explicações. Riffs diretos, vocais rasgados e aquela condução de palco que só ele sabe fazer. A aura de Bruce é única. Ele é mais que um vocalista. É aviador, palestrante, escritor, empresário, historiador, esgrimista e, acima de tudo, um excelente contador de histórias. Numa tarde dominada pelo poppy punk e por atrações mais palatáveis ao grande público, ele foi o estranho essencial: deslocado, sim; perdido, nunca. E aos poucos foi ganhando cada um dos presentes. O setlist foi um presente (para quem conhece). Se em sua última passagem por São Paulo, pouco mais de um ano atrás, a apresentação foi concentrada no seu mais recente lançamento, The Mandrake Project, desta vez o repertório foi um passeio mais amplo por sua carreira. Aos desavisados que esperavam concessões ou hits do Maiden, esquece. O voo solo de Bruce é outro universo.
A sequência com Laughing in the Hiding Bush transforma a performance em teatro. Bruce comanda a música como quem dirige uma peça: gesticulando cada verso, brincando com a respiração, mergulhado na própria encenação. Antes de Road to Hell (obrigado!!), ele apresenta os músicos com reverência, leve ironia e muito orgulho. A performance da banda, por sinal, foi irretocável. A partir de Chemical Wedding, o show ganha peso litúrgico. Seguida de Resurrection Men e Rain on the Graves, a apresentação alterna o sombrio e o sarcástico – com destaque para a fala de Bruce, em que compara políticos brasileiros ao diabo, “com rabo, chifre e tudo”.
Se esse era o show mais deslocado do festival, o mega hit Tears of the Dragon foi um dos momentos mais catárticos do dia. Book of Thel retoma a dramaticidade barroca que caracteriza os projetos solo de Bruce, colocando fim à apresentação. Mas ainda faltava o grand finale. Relembrando os 40 anos desde a primeira vez em que esteve no Brasil com o Iron Maiden (no Rock in Rio I, em 1985), o cantor recontou o episódio em que abriu um corte na testa ao quebrar a guitarra na mesa de som durante a execução de Revelations. Emendou com uma versão a cappella da faixa, num lembrete de que ele ainda é o dono daquela voz. A apresentação fechou com Flash of the Blade, uma pérola do álbum Powerslave que nunca havia sido tocada ao vivo, nem mesmo pelo Maiden. Foi presente raro, para poucos. Vi gente com camiseta deste álbum não reconhecendo a música. Ah, os festivais…
Dickinson foi, sim, um peixe fora d’água no line-up do dia. Mas um peixe bravo, que nadou contra a corrente até formar redemoinhos ao seu redor e dragar todos para dentro. No meio de um festival que pedia refrãos fáceis e dancinhas de TikTok, ele entregou uma ópera densa e difícil – e, ainda assim, saiu ovacionado. Um peixe fora d’água com alma de tubarão.

Bad Religion
Poucos nomes têm tanta moral no punk quanto o Bad Religion. E Greg Graffin e cia. não vieram brincar em serviço. Chamados às pressas para substituir o Sex Pistols, que cancelou sua participação no festival devido a uma fratura no pulso do guitarrista, os californianos entregaram tudo o que se espera de um set de punk rock: 24 músicas em 60 minutos! A banda disparou clássicos como uma metralhadora, deixando claro que ainda tem muito gás e relevância. Recipe for Hate, You Are (The Government), You, 21st Century (Digital Boy), Infected e American Jesus incendiaram o público – e mesmo os que não os conheciam a fundo se renderam à coesão e intensidade da banda, que não abre mão de uma performance extremamente limpa e melódica, com destaque para os solos e harmonias vocais. Foi uma aula de punk: político, direto, sem firulas. Encaixou perfeitamente no clima do festival e mostrou que há espaço para mensagens com substância entre um hit e outro. Ótimo show!

Iggy Pop
Histórico. Catártico. Emocionante. Especial. Inesquecível. A apresentação de Iggy Pop no The Town merece todos os rótulos-clichês que usamos quando buscamos, em vão, uma definição para um show tão – perdoem meu francês – do caralho quanto esse. Só quem viu, escutou e sentiu entenderá.

Padrinho absoluto do punk, aos 78 anos Iggy ainda domina o palco como um furacão incontrolável e inspirador, entregando um show tão visceral quanto poético – o ápice do festival e um daqueles momentos que ficam gravados na memória. Com seu corpo magro e desengonçado, carisma transcendental e uma voz muito bem definida pelo meu professor Tony Monteiro como “deliciosamente desafinada”, Iggy hipnotiza desde os primeiros segundos, já adentrando o palco arrancando a camisa e transportando todos diretamente para 1970, quando sua energia crua e suja chocou o mundo com o The Stooges: T.V. Eye, Raw Power, I Got a Right e Gimme Danger abriram a noite jogando o caos direto na cara, lembrando a todos que ele foi punk antes mesmo do punk.

A banda que o acompanhou foi outro espetáculo à parte. Sete músicos, incluindo uma seção de metais, costuraram o punk com harmonia e punch, criando uma ponte improvável entre dois patrimônios de Detroit: o motor barulhento da guitarra distorcida e a elegância melódica da soul music da Motown. Algo raríssimo. E mágico.
A energia explodiu de vez com The Passenger e Lust for Life. O público, que já vinha entregue, dançou como se não estivesse há horas num festival. Sorrisos estampados, pulos, gritos e cerveja voando; todos hipnotizados, como que obedecendo aos comandos de um mestre de cerimônias. No telão, closes em músicos de outras bandas extasiados. Todos reverenciavam o maior de todos.

O repertório seguiu infalível: Death Trip, I Wanna Be Your Dog, Search and Destroy, Down on the Street. Cada faixa um soco. Ainda teve 1970, Some Weird Sin, Frenzy, Funtime e a deliciosa Louie Louie, encerrando uma celebração a um artista que se recusa a envelhecer em decadência ou resignação. Esse show não foi apenas “bom” ou “memorável”. Nem mesmo só “do caralho”. Foi imortal. Iggy não veio apenas tocar suas músicas. Veio lembrar a todos nós por que o punk continua tão poderoso, relevante e influente, mais de meio século depois. Obrigado, mestre.

Green Day
A banda punk mais popular da história não decepcionou. Se os Stooges são o Black Sabbath do punk – pioneiros, caóticos, perigosos –, o Green Day é seu Metallica: é a banda que traduziu o espírito do estilo para as massas, rompendo fronteiras sem abandonar os códigos centrais, tornando tudo mais acessível e palatável. O trio da Califórnia, com quase 35 anos de estrada desde seu debut, conseguiu o impensável: atravessar gerações mantendo relevância, melodia e rebeldia juvenil mesmo diante de uma estética cada vez mais segura, pop, corporativa (assim como o Metallica). E no The Town 2025, Billie Joe Armstrong e companhia mostraram por que ainda são gigantes.
O carisma de Billie Joe é uma entidade própria. Basta sua presença para transformar o palco em um parque de diversões, um estádio lotado com alma de garagem. E com um público de 100 mil pessoas nas mãos, ele nem precisou forçar. A multidão se entregou logo nos primeiros acordes, e o jogo estava ganho. Nem parecia necessário tanto esforço, mas a entrega foi total. O trio explodiu com American Idiot, agora com versos atualizados para mirar em Donald Trump, e Holiday, que atira no governador paulista Tarcísio de Freitas ao trocar California por São Paulo – ambos chamados, sem cerimônias, de “bastardos fascistas”. A crítica política sempre foi parte do DNA da banda, e mesmo dentro de um line-up familiar, o Green Day não fugiu do confronto.
O setlist foi uma avalanche de acertos puxando gritos e pulos generalizados. Boulevard of Broken Dreams foi entoada em uníssono com intensidade quase religiosa. Basket Case trouxe a catarse nostálgica, enquanto When I Come Around e Good Riddance (Time of Your Life) embalaram casais, amigos e famílias. Como quem conhece mais os hits, me chamou a atenção não tocarem o sucesso She. Já Jesus of Suburbia, com seus nove minutos, foi executada como uma espécie de épico-progressivo-punk que só o Green Day conseguiu transformar em normalidade.

O show foi meticulosamente planejado para entreter. Teve fã chamado ao palco, teve piada, teve coreografia improvisada e brincadeiras com o público. O trio não hesita em abusar de todos os artifícios do show business. Às vezes exageram no tom ensaiado de algumas interações, mas seria injusto acusá-los de oportunismo: o Green Day sempre foi assim. Eles não ficaram “mainstream”, eles são o mainstream. E isso não é uma ofensa. É constatação.
O Green Day definiu o “poppy-punk”. São os responsáveis por tornar o punk um território palatável, radiofônico, aceito pelos pais. Assim como o Metallica, nos anos 90, transformaram um gênero marginal em espetáculo de estádio. E, dentro da lógica do The Town – um megaevento mainstream, familiar, pop –, eles são a cola perfeita. A banda que junta tudo, que agrada todas as idades, que embala sem agredir. Incomoda com suavidade. É o que o festival se propõe a fazer. Exceções ao questionamento dos Inocentes, à estranheza de Bruce Dickinson e ao incômodo de Iggy Pop, tudo ali foi cuidadosamente pensado para não desafiar a ordem. O The Town é seguro como deixar o filho passear no shopping. A coisa mais nociva que ele poderá consumir talvez seja na praça de alimentação.
Com relação à estrutura, o The Town 2025 cumpriu seu papel. Claro que um evento para 100 mil pessoas nunca será totalmente eficiente, mas a estrutura montada no Autódromo de Interlagos mostrou pontos positivos: som de qualidade em todos os palcos, entradas e saídas bem organizadas, transporte fluido e uma cenografia que respeitou a grandiosidade do evento sem cair no exagero. As ativações de marca foram criativas sem ser invasivas e o line-up foi bem costurado, apostando em diversidade geracional e coerência estética. A posição do palco Skyline poderia ser repensada, assim como a quantidade e a disposição dos banheiros – que, ao menos, estavam bem cuidados. O acesso e a variedade de alimentação e bebidas também se mostraram boas, principalmente por permitirem pagamento direto ao ambulante, em vez daquele famigerado cartão pré-pago.
E para quem reclama que os palcos são distantes: sim, são. E você provavelmente não deveria ir a festival algum. Nenhum.

Por fim, apesar da grandiosidade do evento, a cobertura fotográfica foi marcada por falhas graves de organização. O fotógrafo da ROADIE CREW relatou uma logística confusa e pouco transparente na distribuição dos coletes de acesso aos pits dos palcos, com listas fechadas antecipadamente e privilégios concedidos a outros veículos generalistas, em detrimento de mídias especializadas em rock como a nossa e outras como a rádio Kiss FM. Em mais de uma ocasião, foi preciso aguardar por horas, disputar espaço por desistência de outros profissionais ou presenciar a entrada de pessoas não credenciadas formalmente. A sensação é de um sistema engessado e desigual, que dificulta o trabalho de quem está ali justamente para valorizar os artistas e o festival e não apenas fotografar celebridades.

Setlist Bruce Dickinson
Toltec 7 Arrival (intro)
Accident of Birth
Abduction
Laughing in the Hiding Bush
Road to Hell
Chemical Wedding
Resurrection Men
Rain on the Graves
Tears of the Dragon
Revelations (versão a cappella)
Book of Thel
Flash of the Blade

Setlist Bad Religion
Recipe for Hate
Supersonic
You Are (The Government)
Candidate
No Control
Struck a Nerve
New Dark Ages
Modern Man
My Sanity
I Want to Conquer the World
Fuck Armageddon… This Is Hell
Fields of Mars
Do What You Want
True North
Atomic Garden
We’re Only Gonna Die
Generator
You
21st Century (Digital Boy)
Infected
Cease
Anesthesia
Sorrow
American Jesus

Setlist Iggy Pop
T.V. Eye
Raw Power
I Got a Right
Gimme Danger
The Passenger
Lust for Life
Death Trip
I Wanna Be Your Dog
Search And Destroy
Down On The Street
I Feel Alright
Some Weird Sin
Frenzy
Funtime
Louie Louie

Setlist Green Day
American Idiot
Holiday
Know Your Enemy (com fã no palco)
Boulevard of Broken Dreams
One Eyed Bastard
Longview
Welcome to Paradise
Hitchin’ a Ride
Brain Stew
St. Jimmy
Dilemma
21 Guns
Minority
Basket Case
When I Come Around
Letterbomb
Wake Me up When September Ends
Jesus of Suburbia
Bobby Sox
Good Riddance (Time of Your Life)

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