Em agosto de 1975, Steve Harris formava o que se tornaria o Iron Maiden. O nome da banda, no entanto, só viria no Natal daquele ano. Nos meses seguintes, o grupo mergulhou em uma rotina exaustiva de ensaios, até finalmente subir aos palcos de Londres.
O primeiro show aconteceu em 1º de maio de 1976, na St Nicholas’ Church, em Poplar. Pouco mais de um mês depois, em 9 de junho, o Iron Maiden se apresentava no Cart And Horses, pub em Stratford, leste da capital inglesa — e Harris considera essa data como o verdadeiro ponto de partida da história da banda.
“Foi incrível”, recorda o baixista, em entrevista à Classic Rock. “Literalmente, em três ou quatro shows já tínhamos um público fiel. Estávamos fazendo algo diferente das outras bandas. Tocávamos muito material próprio — tínhamos 11 músicas originais logo no início. Você ia aos pubs e via grupos tocando sempre as mesmas covers, porque era o que as pessoas queriam. Nós tocávamos covers de coisas que ninguém conhecia. Nunca fizemos o que as pessoas queriam.”
Naquele 9 de junho, o Iron Maiden recebeu apenas £5 de despesas. Harris registrou tudo em um pequeno diário, que se tornou um retrato precioso da gênese da banda: “Show de audição no Cart And Horses. Fomos bem. Recebemos £5 de despesas.” As anotações seguintes mostram o lento crescimento: £10 na apresentação seguinte no mesmo pub e £15 em um show no Bridge House, em Canning Town. Nem sempre o retorno era positivo. Sobre uma noite ruim no Sneakies Rock Club, em Hounslow, em agosto de 1976, ele escreveu: “Pior show até agora – horrível!”
Mesmo nas dificuldades, Harris manteve a disciplina. Continuou registrando os detalhes de cada apresentação até 1979, quando a banda já se tornava presença constante no lendário Ruskin Arms, com cachês de £30 por noite. “Eu mantinha o diário por controle financeiro, porque não tínhamos empresário”, explicou.
Questionado se aquelas anotações refletiam a confiança de alguém que já se via destinado à fama, Harris nega: “Não, não pensávamos assim. Você só pensa no que vem a seguir. ‘Temos show no sábado? Tomara que sim, assim não preciso ir a um casamento.’”
O apoio da família foi crucial para que ele seguisse em frente. “Nunca tive aquelas brigas com os pais que dizem: ‘Arrume um emprego de verdade.’ Eu não teria ouvido mesmo, teria feito o que quisesse, como todo jovem faz.” A única reclamação do pai, conta Harris, foi sobre o cabelo comprido: “Um dia ele disse: ‘Você não acha que precisa cortar um pouco esse cabelo, garoto?’ Eu respondi: ‘Não, não preciso.’ Ele apenas disse: ‘Tudo bem’ — e nunca mencionou o assunto de novo.”
A trajetória dos primeiros anos também foi marcada por mudanças constantes de formação. Cantores como Paul Mario Day (falecido em 2025) e Dennis Wilcock, e músicos como Terry Rance, Dave Sullivan e Doug Sampson passaram pelas fileiras iniciais.
Para Harris, o que fez o Iron Maiden se destacar desde o início foi a ousadia de seguir o próprio caminho. “Algumas bandas tocavam o que o público queria ouvir. Nós fazíamos o que acreditávamos ser certo. Nunca nos encaixamos nas expectativas de ninguém.”
Quase cinquenta anos depois, o baixista continua fiel ao mesmo princípio — o de fazer as coisas à sua maneira, sem concessões.
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