Depois de passar décadas cruzando estradas ao redor do mundo com o Napalm Death, Mitch Harris chegou à conclusão de que um dos maiores problemas enfrentados pelos músicos não está no palco, mas nos bastidores. Segundo o guitarrista, o modelo de negócios que sustenta as turnês continua apresentando falhas estruturais que dificultam a sobrevivência financeira de artistas de todos os portes.
Em entrevista à Decibel Magazine sobre o lançamento da plataforma TourFlip, Harris relembrou uma experiência marcante vivida ainda nos primeiros anos da banda. Apesar do sucesso de uma das primeiras turnês como atração principal nos Estados Unidos, o resultado financeiro foi decepcionante.
“Nossa primeira turnê como headliner nos Estados Unidos foi basicamente fruto da ignorância da juventude. Você tem um empresário que não conhece realmente a indústria, coloca você em um ônibus, leva equipe de iluminação, monitor, som e gerente de turnê. No fim de dois meses na estrada, você percebe que não sobrou dinheiro nenhum.”
O músico explicou que os custos escondidos de uma excursão acabam consumindo praticamente toda a receita gerada pelos shows e pelas vendas de merchandising.
“Eu achava que o ônibus custava 350 dólares por dia. Mas aí vêm combustível, manutenção, pedágios, hospedagem do motorista, táxis e uma série de outras despesas.”
Embora tenha deixado de excursionar regularmente em 2014, Harris afirma que a situação não melhorou ao longo dos anos.
“O sistema estava quebrado naquela época e continua quebrado hoje. Mesmo bandas do nível do Napalm Death enfrentam dificuldades. Se você não divide um ônibus com outra banda, acaba tentando fazer tudo em uma van e todos ficam à beira de um colapso.”
Segundo ele, a combinação de aumento nos preços dos combustíveis, hospedagens, produção de merchandising e taxas cobradas sobre ingressos tornou as turnês simultaneamente a principal fonte de renda e um dos maiores riscos financeiros para os artistas.
Foi justamente dessa percepção que nasceu a TourFlip. Desenvolvida ao longo de oito anos, a plataforma pretende funcionar como um ponto de encontro para profissionais da música, permitindo contatos diretos entre artistas, casas de shows, festivais, promotores e fãs, sem a necessidade de intermediários tradicionais.
“A ideia é criar oportunidades. O ecossistema é algo muito importante.”
Harris acredita que muitos grupos deixam de alcançar novos públicos porque o modelo atual privilegia grandes mercados e ignora cidades menores que também possuem demanda por shows.
“Você percebe que está praticamente empatando financeiramente em alguns shows. Então passa a tocar em cidades menores e descobre que elas também são ótimas, porque ninguém costuma passar por lá.”
Para o guitarrista, a proposta da TourFlip está diretamente ligada à filosofia DIY (faça você mesmo), que sempre foi uma das bases do grindcore e da música extrema.
“Meu sonho é que as bandas possam personalizar essa ferramenta para tornar suas operações mais eficientes, se conectar diretamente com profissionais criativos e fazer os fãs se sentirem parte da jornada.”
O músico também destacou que a iniciativa busca fortalecer toda a cadeia envolvida na realização de shows.
“As turnês são a principal fonte de renda das bandas e uma oportunidade para vender merchandising. Todos têm um papel na sustentação da nossa comunidade. Um dos objetivos é criar oportunidades para grupos novos e desconhecidos tocarem fora de suas cidades e conquistarem novos públicos.”
A TourFlip será oficialmente lançada em 4 de julho. Para Harris, mais importante do que o sucesso comercial da plataforma é iniciar uma discussão sobre os problemas que vêm afetando a música ao vivo há anos.
“Crie uma conta, ajude a cena a crescer e apoie a criatividade em todos os níveis. Precisamos corrigir sistemas quebrados para as gerações atuais e futuras.” Visite tourflip.com para mais informações.
