MEGADETH – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Bel Santos Tinha tudo para ser apenas mais uma passagem do Megadeth pelo Brasil, mas a recente visita da banda liderada por Dave Mustaine, para apresentação única em São Paulo, carregou significados que foram além de um show comum. Poucos nomes internacionais construíram relação tão duradoura com o público brasileiro quanto o Megadeth, presença frequente no país desde a estreia por aqui no Rock in Rio II, em janeiro de 1991, com a turnê de seu quarto álbum, Rust in Peace (1990). Agora, 35 anos depois daquele primeiro encontro, a possibilidade de despedida tornou esta nova visita ainda mais simbólica e repleta de sentimentos.

Inserida na turnê “This Was Our Life”, que promove o novo álbum de estúdio homônimo, a noite foi cercada por sentimentos de celebração, nostalgia e tristeza pela incerteza diante da chance de esta ter sido a última oportunidade de ver a banda em solo nacional. As limitações físicas enfrentadas por Mustaine, provocadas pela contratura de Dupuytren — condição progressiva que afeta a palma da mão e lhe causa dor ao tocar — deram peso extra a cada momento no palco. Por isso, o encontro entre banda e público ganhou contornos especiais, transformando a apresentação em algo maior do que uma simples parada de turnê: mais um capítulo marcante na longa história entre o Megadeth e seus fãs no Brasil.

Movido pela comoção em torno da possível despedida e pelo fato de ser a única apresentação da turnê no Brasil, o show mobilizou fãs de diferentes regiões do país, que viajaram a São Paulo e esgotaram com antecedência os ingressos do Espaço Unimed — algo plenamente previsível diante do caráter especial da ocasião. Justamente por isso, a produção poderia ter apostado em um local de maior capacidade, talvez até em formato open air, em vez de repetir a mesma casa onde o Megadeth vem se apresentando em suas últimas cinco passagens pela capital paulista, desde 2014. A atmosfera de evento histórico também atraiu diversas personalidades, tais como o repórter Márcio Canuto, os ex-jogadores Walter Casagrande Júnior e Solito, Daniel Erlandsson, baterista do Arch Enemy, entre outros.

Antes mesmo do início da apresentação, os ânimos do público já haviam sido incendiados quando o General Vic Rattlehead, lendário mascote do Megadeth, apareceu do lado de fora da casa para confraternizar com os fãs. A temperatura subiu ainda mais pouco depois, já com todos a postos diante do palco, quando Dave McRobb — webmaster oficial, coordenador de experiências VIP e presidente do fã-clube Cyber Army — surgiu registrando a plateia e o grupo que adquiriu o pacote side stage, que permitia acompanhar as seis primeiras músicas das laterais do palco.

Pontualmente às 21h30, as luzes se apagaram e a histeria tomou conta do Espaço Unimed. Quando um dos focos iluminou o centro do “ringue”, revelou Dave Mustaine empunhando sua guitarra e disparando o riff de Tipping Point, primeiro single do novo álbum Megadeth, lançado em 23 de janeiro (data simbólica, de aniversário de 35 anos do primeiro show no Brasil). Bastaram os primeiros acordes para que a casa viesse abaixo, dando início a uma noite carregada de expectativa pelo repertório e emoção.

O que se via por parte do público nesse começo de show era um mar de braços erguidos filmando com celulares e algumas rodas na pista. Poucos segundos após Mustaine iniciar a música, seus parceiros Dirk Verbeuren (bateria), James LoMenzo (baixo) e Teemu Mäntysaari (guitarra) se juntaram ao big boss no palco, ampliando ainda mais o frenesi do público. Com a formação da banda completa em cena, o impacto da abertura deixou claro que a banda estava disposta a transformar a noite em uma celebração à altura da ocasião.

Para a surpresa geral, ao fim de Tipping Point, que surpreendentemente foi cantada em uníssono mesmo tendo poucos meses de lançamento, Mustaine não perdeu tempo e emendou The Conjuring, clássico de Peace Sells… But Who’s Buying? (1986) — obra-prima do thrash metal —, que pela primeira vez apareceu no repertório da atual turnê. Antes de o frontman começar a cantá-la, o público acompanhou os acordes em coro com o tradicional “ei, ei, ei, ei…”, deixando claro que teria participação ativa em cada momento da apresentação. Nessa, Mustaine demonstrou considerável dificuldade para cantá-la, mas ninguém ali parecia se importar. O público preferiu assumir seu papel e cantar junto, em alto e bom som, do início ao fim, como se quisesse ajudar a conduzir aquele que poderia estar sendo seu último show no Brasil. Bastou uma breve pausa antes da música seguinte para que o Espaço Unimed fosse tomado por gritos de “Megadeth, Megadeth, Megadeth…”. A resposta da banda veio em alto nível: o quarteto atacou com Hangar 18, recebida com explosão imediata da plateia. Entre riffs cortantes, mudanças de andamento e uma sequência de solos em profusão por parte da dupla Mustaine e Mäntisaari, a música de Rust in Peace elevou ainda mais a temperatura de uma noite que mal havia começado. No solo final de Hangar 18, Dave Mustaine pareceu desafiar o problema na mão. Com a guitarra apontada para o alto, ele imprimiu uma pegada tão raivosa em seu ‘playing’ que, ao fim da execução, quem deve ter sentido fortes dores foram as cordas de sua Gibson vermelho-sangue. Tão bonito quanto essa cena, foi ver o público vibrando junto com o veterano do thrash, parecendo acompanhá-lo em cada nota despejada.

O Megadeth parecia disposto a não dar tréguas a nenhum pescoço presente. Depois de Mustaine soltar um simples “boa noite”, a agitação foi retomada com o nervoso riff inicial de She-Wolf, única representante de Cryptic Writings (1997) no repertório. Pena que ao final dela — com os riffs derradeiros também acompanhados em coro pelo público —, não tenha rolado a tradicional improvisação com solos de guitarra em demasia e também de bateria, algo que ficou marcado para sempre na memória dos fãs, principalmente após o DVD Rude Awakening, de 2001. Ainda assim, a escolha faz sentido: estender aquele momento provavelmente significaria abrir mão de alguma outra música no setlist.

E tome mais um clássico: Sweating Bullets, a primeira da noite extraída de Countdown to Extinction, álbum aclamado que representou um divisor de águas nas finanças e na trajetória comercial da banda. Em seguida, após Mustaine falar com o público pela primeira vez — e confesso que, com ele falando baixo e todo mundo fazendo barulho, não entendi praticamente nada do que foi dito, a não ser ele mencionar que havia tocado anteriormente em Buenos Aires —, veio mais uma das novas: I Don’t Care, faixa que dividiu opiniões entre os fãs quando lançada por sua pegada com influências claras de punk rock. Nada que causasse alguma estranheza em quem conhece bem Dave Mustaine, desde sempre declarado admirador do gênero e dono de uma atitude que frequentemente refletiu essa influência.

Dando continuidade ao massacre sonoro, foi a vez de a banda tocar Dread and the Fugitive Mind, faixa lançada na coletânea Capitol Punishment: The Megadeth Years (2000) e que, de uns tempos para cá, Dave Mustaine resolveu resgatar e devolver ao repertório ao vivo. Decisão acertada, diga-se. Se resolvesse fazer o mesmo com a ótima Kill the King, a outra inédita da mesma compilação, também não haveria do que reclamar.

O arsenal do Megadeth dava vez agora a uma trinca de velharias das boas, começando pela impiedosa Wake Up Dead, faixa de abertura de Peace Sells… But Who’s Buying?. Na sequência veio uma dobradinha de respeito com as inquestionáveis In My Darkest Hour — emblemática na história da música pesada por ter sido composta logo após Dave Mustaine receber, através da amiga Maria Ferrero, personagem importante da cena thrash americana dos anos 80, a notícia da morte do amigo e ex-parceiro de Metallica, Cliff Burton — e a sagaz Hook in Mouth, ambas oriundas do injustiçado So Far, So Good… So What! (1988), disco muitas vezes questionado por sua produção discutível, mas irretocável quando o assunto são composições.

Nessa trinca, destaque para o simpático baterista belga Dirk Verbeuren, músico da atual formação que está a mais tempo ao lado de Mustaine. Apesar de ser um músico de muita identidade, Dirk parece juntar características de dois saudosos ex-bateristas do Megadeth: Gar Samuelson, no estilo astuto e veloz de tocar; e Nick Menza, pela alegria e coração nos palcos e também por tocar em pé nos momentos de segurar os pratos.

Antes de a banda dar continuidade, o público aproveitou a pausa para saudar o músico, que, para muitos — incluindo Scott Ian (Anthrax) e os integrantes do Death Angel, por exemplo —, é o criador do thrash metal, entoando em coro: “Olê, olê, olê, Mustaine, Mustaine!”. Com um sorriso no rosto e visivelmente derretendo com o calor, Dave falou sobre o novo álbum, que levou o Megadeth ao primeiro lugar do chart Billboard 200 pela primeira vez na história da banda. Ele comentou que isso “fez a América acordar”  (referindo-se ao hemisfério ocidental) e que, quando a América desperta, o resto do mundo entende quem somos nós. Após discursar, anunciou a veloz Let There Be Shred, na qual ele e Teemu brilharam nos solos. Dali por diante, meu (minha) amigo (a), o que veio foi uma saraivada covarde de clássicos, começando por uma das músicas mais aclamadas da história do Megadeth: Symphony of Destruction. Nessa, a casa tremeu. Como é “de lei” nos shows da banda, o público acompanhou o famoso riff principal cantando “Megadeth, Megadeth, Aguante Megadeth!”, coro criado pelos fãs argentinos em 1994 e que se propagou mundo afora até os dias de hoje, passando a integrar a cultura em torno da banda. Depois dessa, foi a vez de uma das preferidas dos guitarristas e entusiastas do instrumento: Tornado of Souls, faixa que abriga um dos solos mais marcantes do heavy/thrash metal. Celulares no alto, rodas na pista e o público cantando em uníssono, até que, no momento certo, a atenção se voltou para o talentoso guitarrista finlandês — indicado pelo antecessor Kiko Loureiro — , que executou com maestria o solo originalmente composto por Marty Friedman, amplamente apontado pelos fãs como o melhor guitarrista a passar pelo Megadeth — opinião da qual este repórter também compartilha.

Nessa hora, se Dave Mustaine tivesse optado por inserir uma música mais pacata no repertório — como a balada A Tout Le Monde ou a cadenciada Trust — até daria para respirar um pouco. Mas não foi esse o plano: a intenção parecia ser manter a pista em constante ebulição, com os fãs bangueando e abrindo rodas a todo momento.

Assim, ele colocou lado a lado fãs de Megadeth e de Metallica para agitarem juntos com a dobradinha formada por Mechanix — presente no debut Killing Is My Business… And Business Is Good! (1985), e que James Hetfield, Lars Ulrich e companhia registraram dois anos antes como The Four Horsemen em Kill ’Em All — e a aguardada releitura de Ride the Lightning, que Mustaine decidiu “retomar” e incorporar ao catálogo do Megadeth, regravando-a para o novo álbum. Tente imaginar como foi a reação dos fãs nesta parte do show — eu não me atrevo tentar explicar!

Quando a banda deixou o palco, a sensação foi de que, se a apresentação tivesse terminado com as duas músicas que conectam a história de Dave Mustaine à do Metallica, o ingresso já teria valido a pena. Ainda assim, havia mais algumas pérolas do thrash metal que não poderiam ficar de fora em um show do Megadeth, nem em pensamento.

A primeira delas se confirmou quando James LoMenzo retornou sozinho ao palco. Após uma breve interação com o público, ele deu início a um dos riffs de baixo mais conhecidos da música pesada, originalmente gravado por David Ellefson, mas concebido por Dave Mustaine: Peace Sells. Nos últimos anos, a presença do General Vic Rattlehead no palco durante a execução da música virou tradição, mas desta vez o público foi surpreendido por duas versões do personagem: o tradicional, vestindo seu clássico terno preto, e a nova versão inspirada na capa do álbum mais recente, surgindo em um terno branco, como que simbolizando uma despedida em grande estilo, em clima de gala.

Para o final, o Megadeth, como de costume, reservou sua música mais aclamada. Antes, porém, Dave Mustaine saudou o público paulistano e foi devidamente ovacionado. Orgulhoso, ele deu início ao poderoso riff de Holy Wars… The Punishment Due, grande hit de Rust in Peace, álbum considerado pela maioria dos fãs como a obra-prima definitiva e um dos marcos do thrash metal. Não sobrou terra sobre terra: rodas se formaram enquanto o público voltava a acompanhar o riff principal em coro e a cantar em alto volume.

Antes da parte …The Punishment Due, Teemu executou ao violão o exótico solo de Marty Friedman, originalmente gravado — e tradicionalmente tocado ao vivo — com a guitarra limpa, sem distorção. Já perto do encerramento da música, como esperado, Dave Mustaine apresentou seus companheiros ao público e eles foram ovacionados.

Ao fim de Holy Wars…, a banda cumpriu o protocolo se despedindo dos fãs com o habitual arremesso de palhetas, baquetas e munhequeiras, enquanto, no som mecânico, tocava Shadow of Deth, faixa presente no álbum The System Has Failed. Os mais atentos perceberam que, mesmo após Dave Mustaine ter mencionado em entrevistas a possibilidade de este ser seu último show no Brasil, ele manteve sua tradicional fala de despedida, pedindo para que todos voltassem em segurança para casa, já que queria vê-los novamente. Na sequência, deixou o palco como vem fazendo nos últimos anos: simulando um “air guitar” ao som de My Way, na versão de Sid Vicious, até alcançar seu hobby no fundo do palco e desaparecer da vista do público. Apesar da fala ensaiada e de expressar em entrevistas o desejo de estender essa turnê pelos próximos cinco anos, talvez motivado pelo pensamento mais pé no chão de que, a depender da progressão de sua doença no nervo da mão, esse possa mesmo ter sido seu último show em solo brasileiro, Dave Mustaine deu tudo de si no palco e entregou uma das apresentações mais consistentes do Megadeth no país. Da parte dos fãs, fica a expectativa de que a medicina avance em soluções para o caso — e o próprio Dave declarou recentemente que já existe uma possibilidade de tratamento em desenvolvimento. Com isso, a esperança se renova de que a banda possa retornar ao Brasil novamente no futuro. Ainda assim, caso tenha sido de fato o último encontro, resta o agradecimento a Dave Mustaine e ao Megadeth pelos momentos construídos no país ao longo dos últimos 35 anos e pelo papel fundamental na consolidação do heavy metal e criação do thrash metal. Até que haja uma confirmação definitiva, fica o “até breve”, Dave.

Megadeth – setlist:  Tipping Point The Conjuring Hangar 18 She-Wolf Sweating Bullets I Don’t Care Dread and the Fugitive Mind Wake Up Dead In My Darkest Hour Hook in Mouth Let There Be Shred Symphony of Destruction Tornado of Souls Mechanix Ride the Lightning Peace Sells Holy Wars… The Punishment Due   ? Clique aqui e siga o CANAL “Roadie Crew” no WhatsApp ? Clique aqui e faça parte do GRUPO da ROADIE CREW no WhatsApp