
Por Antonio Carlos Monteiro
Fotos: Cristina Mochetti e Karina Mochetti
Já falei aqui sobre a experiência de curtir um show em terras estrangeiras quando cobri o show dos Rolling Stones no ano passado aqui em Vancouver, principalmente pelas diferenças em relação à organização e à própria postura das bandas em cena. De volta à cidade visitando a filha, aproveitei para conferir mais uma das bandas do coração, o Lynyrd Skynyrd. Um detalhe interessante aconteceu em função da própria origem do show. Ele fez parte de um evento chamado PNE Fair, feira de verão (a turma de Vancouver ama uma feira!) que reúne diversas atrações, parque de diversões, food trucks etc. O negócio é organizado por uma entidade sem fins lucrativos e existe desde 1910. Ela aconteceu no Pacific Colisuem, que fica no mesmo complexo que o Empire Stadium, local onde os Beatles se apresentaram em 1964. Ou seja, pisávamos em solo sagrado!
Uma coisa que já notamos: por estes lados, banda veterana leva público veterano. Mas havia exceções: em meio às incontáveis cabeças brancas presentes no local, exatamente à minha frente estava uma garotinha de não mais de 5 anos que curtiu muito o show. Essa está muito bem encaminhada. Outro detalhe que difere bastante do que acontece no Brasil. Aqui todo mundo ficou acomodado em cadeiras, até mesmo quem estava na pista. Lógico que quando a banda entrou no palco não houve quem permanecesse sentado, mas esperar pelo início do show bem acomodado é muito melhor.
Se bem que não havia a menor necessidade de chegar com horas de antecedência. Como aqui a organização e o respeito prevalecem, dava pra chegar em cima da hora que seu lugar estaria lá, imaculado, esperando por você. E foi o que aconteceu. Até uns 20 minutos antes do horário marcado para o início show (às 19h30, horário perfeito para um domingo!), parecia que o negócio ia ser um fiasco retumbante, já que a maior parte do ginásio, que tem capacidade para 17.500 pessoas, estava vazia. Quando a banda pisou no palco, havia pouquíssimos lugares vagos.
Pontualidade é outra coisa que o pessoal respeita. O show começou com exatos nove minutos de atraso e algumas vaias já eram ouvidas. Só que o clima mudou totalmente quando o Lynyrd Skynyrd entrou em cena. Workin’ for MCA, que há anos abre o show dos caras, marcou uma recepção pra lá de calorosa para o grupo. O som, que estava simplesmente pavoroso na música mecânica que antecedeu a apresentação, mostrou grande melhora e a partir do segundo tema já estava impecável.

Todo mundo sabe que o Lynyrd Skynyrd já foi promovido de “banda de rock” para “instituição da música”. O show, parte da turnê em comemoração aos 50 anos do grupo (tour que começou em 2023 e passou pelo Brasil em setembro daquele ano e que está sendo comentado como a última dos caras (embora ainda não haja um anúncio oficial a respeito), tem um setlist totalmente calcado no passado – mais especificamente, nos anos 70, já que todo o repertório veio de material lançado naquela década. Mas será que isso foi um problema? De forma alguma! Afinal, quem ali não estava a fim de ouvir, por exemplo, pérolas como That’s Smell (de Street Survivors, 1977)? Essa música, aliás, que tem uma pegada bastante pop, fica muito pesada quando aparece em cima do palco.

A essa altura, já dava pra sacar que a banda continua impecável em cena. Johnny Van Zant é um vocalista corretíssimo, excelente intérprete e, acima de tudo, sabe como conduzir uma audiência. Talvez a proximidade entre seus Estados Unidos natal e o Canadá tenha tornado as coisas mais fáceis do que quando tem que lidar com um público de outro continente, e ele deu um show de simpatia e comunicação. A cozinha, corretíssima e verdadeiro dínamo em uma banda como o Lynyrd, apesentava uma cara nova: o baixista Robbie Harrington estreou este ano ao lado do batera Michael Cartellone e ambos deram o show habitual de groove, peso e precisão. O tecladista Peter Keys, por sua vez, é um verdadeiro craque naquele piano martelado que tão bem combina com o southern rock do grupo. Como se não bastasse, ele consegue a proeza de, mesmo se apresentando sentado, ser um verdadeiro performer. As backing vocals Carol Chase e Dale Krantz-Rossington (viúva do guitarrista Gary Rossington, falecido em 2023) fazem aparições pontuais e sempre muito corretas. E por fim o trio de guitarristas Rickey Medlocke (que foi batera do Lynyrd entre 1971 e 1972), Mark Matejka e Damon Johnson (que substituiu Rossington) são a verdadeira usina de força do septeto. Com timbres perfeitos, bases seguras e solos memoráveis, os três lembram que a guitarra foi criada para ser um instrumento musical, não um artefato de malabarismo.
Você soma isso a um repertório marcante e um show bem pensado, e não tem erro: é o crime perfeito. E assim foram quase duas horas de espetáculo. Alguns efeitos de luzes foram a única “pirotecnia” apresentada, já que ali a música tinha o comando. Temas como Saturday Night Special e Gimme Back My Bullets levantaram a multidão, enquanto que a balada Tuesday’s Gone, com imagens de Gary Rossington no telão, fez até o mais forte sucumbir. Na sequência, outra megaclássica, a belíssima Simple Man ganhou um coro de mais de 17 mil vozes acompanhando Johnny e, de quebra, mostrou a bandeira do Canadá tremulando no telão – vale lembrar que as tensões entre os dois países andaram escalando a níveis perigosos nos últimos meses, mas isso não chegou nas cadeiras do Pacific Coliseum, tanto que depois de Call Me the Breeze, cover de JJ Cale que a banda gravou em Second Helping (1974), foi a vez do hino ufanista Sweet Home Alabama (de Nuthin’ Fancy, 75), cujo refrão foi cantando com fervor por Vancouver.

Depois daquela paradinha fake só pra atiçar a galera, os caras voltaram à cena e mostraram que sabem fazer uma emoção: a volta foi com seu maior clássico, Free Bird, a “balada-que-vira-rockão” e na qual tudo acontece: na parte lenta, surgem no telão os nomes dos músicos que já faleceram ao lado de velas queimando. Na última estrofe, quem aparece no telão é Ronnie Van Zant, irmão de Johnny e morto no fatídico acidente aéreo que vitimou a banda em 1977 com o áudio de sua voz nesse trecho. Ao mesmo tempo, Johnny deixa o palco não sem antes colocar o chapéu que era do irmão sobre o microfone. Passada essa parte, tem início aquele inebriante duelo/dueto de guitarras que dura mais de cinco minutos e que arrepia até defunto – um dos momento mais memoráveis da história do rock. No final, o adeus é mais uma vez com a bandeira do Canadá, agora ao lado da americana.

Já tentaram dizer que o Lynyrd Skynyrd atual é uma “banda cover”, por não ter em suas fileiras nenhum integrante original, o que é uma afirmação que beira o patético. Mais da metade da banda está junta há pelo menos 25 anos e uma parte considerável de seus ex-integrantes acabou tombando no meio do caminho – pra se ter uma ideia, dos músicos que gravaram os dois primeiros discos, nenhum permanece vivo. Além do mais, os nove que subiram ao palco em Vancouver o fizeram não só com a competência habitual, mas com uma garra digna da tradição do nome e da história do Lynyrd Skynyrd. O que a gente pode exigir mais do que isso?
Só restou às mais de 17 mil pessoas que foram ao Pacific Coliseum voltarem pra casa com a certeza de terem assistido um dos melhores shows de suas vidas.



Setlist
Workin’ for MCA
What’s Your Name
That Smell
I Know a Little
Saturday Night Special
Down South Jukin’
Cry for the Bad Man
Gimme Back My Bullets
The Needle and the Spoon
Tuesday Gone
Simple Man
Gimme Three Steps
Call Me the Breeze
Sweet Home Alabama
Bis
Free Bird
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