
Parece que foi ontem que o Dream Theater anunciou a volta de Mike Portnoy. Desde 2023, porém, a montanha-russa de emoções ainda não diminuiu a velocidade: teve turnê mundial para comemorar os 40 anos, passando pelo Brasil em 2024; o lançamento do 16º álbum de estúdio, “Parasomnia”, e de mais um trabalho ao vivo, “Quarantième: Live à Paris”, em 2025; e mais uma turnê mundial, que chegou ao Brasil em 2026. Definitivamente, a vida presta.
Então, vamos sorrir, porque o Dream Theater fez numa noite de domingo um de seus melhores shows no Rio de Janeiro, onde a banda bate ponto assiduamente desde a sua primeira vez no Brasil, em 1997. E nem mesmo a previsibilidade do repertório – previamente anunciado com a íntegra do novo disco, os 23 minutos de “A Change of Seasons” e músicas que não haviam sido tocadas na última passagem pela cidade – fez com que a resposta do público fosse menos efusiva.

Luzes apagadas pontualmente às 20h, a introdução para a instrumental “In the Arms of Morpheus” mostrou imediatamente a preocupação visual com a produção do espetáculo. O enorme telão funcionou durante todo o tempo com imagens e animações para imagens para ilustrar cada música, o que fez enorme diferença durante os pouco mais de 70 minutos de “Parasomnia”, cujo conceito sobre distúrbios perturbadores do sono deixou tudo com um ar sombrio – para ter uma ideia, procure a HQ “Parasomnia – The Graphic Album”, lançada pela banda em parceria com a editora estadunidense Z2 Comics.
O cuidado com os detalhes incluiu até mesmo os panos laterais de palco, desenhados para dar a impressão de que a banda estava dentro do quarto representado na capa de “Parasomnia” – destaque-se ainda a belíssima iluminação, especialmente os feixes de laser que rodeavam os músicos em momentos específicos, e os canhões de fumaça que cumpriram um papel importante na impossibilidade do uso de pirotecnia.
E musicalmente? Foi um primor. Enaltecer a parte técnica da banda é chover no molhado, mas é preciso sempre ressaltar a diferença que faz Portnoy ao lado de James LaBrie, John Petrucci, John Myung e Jordan Rudess, porque o baterista tem o molho. Bastou “Night Terror”, cuja refrão estava na ponta da língua de todos os fãs que encheram o Vivo Rio, para mostrar como Portnoy faz a diferença no Dream Theater, muitas vezes atraindo os holofotes como se fosse o frontman do quinteto.

E um dos fatores diretamente relacionados a Portnoy foi o Dream Theater ter voltado a dar mais ênfase ao “metal” do que ao “prog”, o que ficou ainda mais latente ao vivo. Claro, a música continua intrincada, com longas sessões instrumentais e uma técnica impecável, o que faz o fã amar a banda tanto quanto o detrator odiá-la. As performances em “A Broken Man” e “Midnight Messiah” não mudaram o panorama, mas a trinca final deveria ser considerada patrimônio universal…
Sim, incluindo “Are We Dreaming?”, que funciona como interlúdio no álbum, mas que ao vivo foi a introdução perfeita para uma maravilhosa suíte de 27 minutos de êxtase musical formada por “Bend the Clock” e “The Shadow Man Incident”, num espetáculo também visual, graças ao gigantesco “Homem Sombra” inflado do lado esquerdo do palco, bem atrás de Petrucci. Um desfecho apoteótico para uma primeira parte que, por si só, já teria valido o ingresso.

Mas teve o segundo ato, depois de um intervalo de 20 minutos sob as graças de “Audrey’s Dance”, composição Angelo Badalamenti e David Lynch para a inesquecível Audrey Horne, personagem de Sherilyn Fenn em “Twin Peaks”, genial série que é uma das obras-primas de Lynch – e me perdoem por soar repetitivo, ou por dizer o óbvio, mas a mente por trás disso é a de Portnoy.

“The Enemy Inside” abriu a segunda parte mostrando a disposição da banda de não esquecer os 14 anos com Mike Mangini nas baquetas. Uma atitude louvável e muito bem aceita pelos fãs. “A Rite of Passage” teve seu refrão cantando em alto e bom som, que àquela altura testemunhava, também, uma noite em alto nível de LaBrie. Sim, além de passear com desenvoltura pelo palco e interagir bem com o público, ele estava inspiradíssimo e deixou muita gente sem argumentos para críticas – só não foi uma unanimidade porque havia uma exceção na plateia: um sujeito à frente do palco que, desde os primeiros minutos de show, fez da sua missão de vida tentar tirar o vocalista do sério.
Sim, tem quem pague ingresso para ser inconveniente, mas o rapaz deve ter voltado para casa todo pimpão e feito como o Quico faria com a Dona Florinda: contado ter recebido de volta alguns “fuck you” e o dedo do meio do “cantor do Dream Theater”. E como todos os outros fãs pagaram ingresso para se divertir, “Through My Words” e “Fatal Tragedy” aumentaram a felicidade com a qual voltariam mais tarde para casa.

A excelente e pesadíssima “The Dark Eternal Night” foi uma baita inclusão no setlist, assim como a maravilhosa “Peruvian Skies”, do subestimado “Falling Into Infinity” (1997). Esta última ainda contou com a inserção de trechos de “Wish You Were Here” (Pink Floyd), num momento muito bonito; “Wherever I May Roam” (Metallica); e “Burn” (Deep Purple), trazendo à tona memórias do duplo ao vivo “Once in a LIVEtime” (1998).
Apesar de grande parte ter conhecimento do repertório, uma vez que o quinteto havia feito mudanças somente em um dos quatro shows anteriores, em Brasília, “Take the Time” foi emocionante demais, especialmente para os fãs já na casa dos 50 anos, ou seja, aqueles que descobriram o Dream Theater com “Images and Words” (1992) e, claro, guardam por este disco um carinho todo especial. Impossível não cantar cada frase e ainda vibrar com o trechinho de “Tom Sawyer” (Rush) inserido nos oito minutos de um dos maiores clássicos da banda – e foi aquele antológico trecho com as viradas do saudoso Neil Peart. Está bom para você?

Estava mais do que bom para todo mundo – ou quase, porque talvez não para o sujeito que foi apenas para perturbar um dos integrantes do grupo –, mas tinha a cereja do bolo: a íntegra de “A Change of Seasons”, que havia sido apresentada em pedaços na primeira turnê do Dream Theater no Brasil, em 1997. E foi um bis de arrepiar desde o início, com a apresentação de um trecho de “A Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), espetacular filme dirigido por Peter Weir e com uma atuação brilhante de um dos maiores gênios do drama e da comédia na história do cinema: Robin Williams (1951-2014).
Em seus mais de 23 minutos, divididos em oito partes, “A Change of Seasons” já entrou para o rol dos melhores momentos do Dream Theater no Brasil, numa história da banda com o país que vai completar 30 anos em 2027. Um momento impecável e que levou a banda a revisitar a sua própria história, seja relacionada, com “When the Water Breaks” (Liquid Tension Experiment) em “IV. The Darkest of Winters”, seja própria, com “A Fortune in Lies” em “VII. The Crimson Sunset”. Foi o ápice de uma inesquecível “noite com o Dream Theater”, de fato o clímax de uma noite para guardar na memória. Arrependam-se aqueles que não foram.

Setlist
Ato I
In the Arms of Morpheus
Night Terror
A Broken Man
Dead Asleep
Midnight Messiah
Are We Dreaming?
Bend the Clock
The Shadow Man Incident
Ato II
The Enemy Inside
A Rite of Passage
Through My Words
Fatal Tragedy
The Dark Eternal Night
Peruvian Skies
Take the Time
Bis
A Change of Seasons
