DEATH TO ALL – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Belmilson Santos Há um gosto amargo ao pensar que não houve tempo para Chuck Schuldiner conhecer o Brasil com o Death — e que nenhum produtor ousou trazê-lo enquanto o grupo lançava seus sete álbuns de estúdio. Em 13 de dezembro de 2001 — dia em que completava três anos do último show do Death — o criador de uma das bandas mais respeitadas do death metal faleceu ao sucumbir a uma pneumonia decorrente do câncer no cérebro contra o qual lutou por dois anos. Nos últimos anos, porém, os fãs brasileiros têm tido a oportunidade de se sentir mais próximos de Chuck ao ouvir, ao vivo, músicas que não puderam presenciar com ele no palco, por meio de projetos tributo formados por ex-integrantes do Death. Entre eles estão o Left to Die, que estreou no país em 2025 com o guitarrista Rick Rozz e o baixista Terry Butler, e o Death to All — também conhecido como Death DTA —, comporto por Steve DiGiorgio (baixo), Gene Hoglan (bateria) e Bobby Koelble (guitarra), que retornou ao Brasil pela terceira vez em janeiro último. Alguns torcem o nariz para essas iniciativas, acusam-nas de oportunismo, caça-níqueis, e se recusam a comparecer aos shows sob o argumento de que Chuck não está mais entre nós. Outros, por sua vez, apoiam os músicos e saem de casa para prestigiá-los, celebrando o catálogo do Death e a memória do antigo parceiro. Mais uma vez, a ROADIE CREW marcou presença, desta vez no show mais recente do Death to All em São Paulo, realizado no Carioca Club no dia 24 de janeiro. Outras quatro cidades também receberam a turnê, três delas também com produção da Overload. Sempre acompanhados do vocalista e guitarrista Max Phelps (Exist, ex-Cynic), cuja semelhança vocal e no ‘playing’ com Chuck chama a atenção, DiGiorgio, Hoglan e Koelble vieram ao país para homenagear os álbuns Spiritual Healing Symbolic, que, quando a turnê “Symbolic Healing” (e não Hearing” como está no cartaz abaixo) teve início em 2025, completavam 35 e 30 anos de seus lançamentos, respectivamente. Antes de desembarcar no Brasil, Hoglan declarou: “Chegou a hora de comemorar alguns marcos do catálogo do Death”, referindo-se ao terceiro e ao sexto discos de estúdio da banda formada na Flórida. “São duas eras muito diferentes, mas igualmente importantes do Death”, continuou. “Vai ser um prazer representar esses dois álbuns”. Curiosamente, nenhum dos três músicos gravou Spiritual Healing, e apenas Bobby Koelble e Gene Hoglan participaram de Symbolic. Hoglan e DiGiorgio tocaram juntos somente em Individual Thought Patterns (1993), enquanto o baixista integrou ainda a formação de Human (1991).

Pontualmente às 19h, o som mecânico proporcionou um breve momento de calmaria com a envolvente Windfall, dos australianos do Dead Can Dance. Foi uma forma breve de relaxar o esqueleto e preparar os ouvidos do público, que compareceu em ótimo número, para a pancadaria sonora que viria em seguida com o Death to All.

Enquanto a introdução ainda ecoava pelo Carioca Club, o “Atomic Clock” Gene Hoglan surgiu atrás de seu kit de bateria, erguendo as mãos para formar seu tradicional pentagrama. À frente, Steve DiGiorgio, Bobby Koelble e Max Phelps também ocuparam seus postos.

Ovacionado, o quarteto se reuniu próximo à bateria, conversou alguma coisa, tomou seus lugares e deu início ao show com um trecho de Infernal Death, faixa de abertura de Scream Bloody Gore, álbum de estreia do Death lançado em 1987. Na sequência, emendaram com Living Monstrosity, abrindo as comemorações de Spiritual Healing.

O “monstro” do fretless, Steve DiGirgio, chamava a atenção ao debulhar um baixo de apenas três cordas, além do visual inconfundível. Vestindo camiseta com o logotipo do Death, o conhecido “riponga do metal” mantinha o estilo habitual, com bandana na cabeça e sandálias franciscanas nos pés.

Na sequência dedicada ao primeiro álbum homenageado da noite, Spiritual Healing, a “falange” metálica disparou Defensive Personalities, fugindo da ordem original do tracklist. O disco, aliás, não foi executado na íntegra: nesta primeira parte do show, o repertório ainda trouxe músicas de outras fases do catálogo do Death, intercaladas às faixas do terceiro trabalho de estúdio.

Antes de Lack of  Comprehension, de Human, DiGiorgio mandou um breve solo, desta vez utilizando um baixo semelhante ao anterior, porém com quatro cordas. Ao longo do show, ele também utilizou um Ibanez de cinco cordas da mesma “família”.

Reservado durante toda a apresentação, o competente Max Phelps optou por não centralizar atenções, deixando os holofotes para os músicos que efetivamente integraram o Death. Coube, assim, a Steve DiGiorgio assumir o papel de porta-voz da noite, conduzindo a comunicação com o público.

Na primeira oportunidade, agradeceu a presença de todos, comentou que é sempre um prazer tocar em São Paulo, perguntou quem assistia ao Death to All pela primeira vez e avisou, em tom descontraído, que na próxima passagem pelo Brasil cobraria desses quando lhes perguntar quantos ali já os assistiram. Em seguida, fez questão de esclarecer o propósito do projeto Death to All:

“Gostaria de aproveitar esta oportunidade, logo no começo, para perguntar a todos: por que fazemos isso? Além de amarmos o Death, amamos a música — é uma banda sensacional. A razão é homenagear, eternizar e celebrar a vida, a música e o legado do nosso grande Chuck Schuldiner!”

O público imediatamente começou a entoar o nome de Chuck em coro. DiGiorgio continuou:

“É sobre o Chuck. É sobre o que ele compôs. É sobre o que ele imaginou. É sobre o legado dele. Estamos aqui para dar continuidade a isso. É para o prazer de vocês. Temos muitas músicas para tocar que o Chuck escreveu para vocês. Um set bem longo para vocês esta noite. E se vocês viram o pôster da turnê, claro, sabem que estamos celebrando alguns aniversários de lançamento de álbuns. Temos tocado algumas músicas de um disco que saiu há 35 anos. Vocês conhecem Spiritual Healing, certo?”.

A deixa conduziu a Altering the Future. Na sequência, o quarteto voltou ainda mais no tempo ao revisitar o primeiro álbum do Death com Zombie Ritual. A histeria foi geral!

Até aquele momento da apresentação, a qualidade do som já era satisfatória, mas ganhou ainda mais definição a partir de Within the Mind, quando a guitarra de Max Phelps passou a soar cristalina, permitindo que o belo solo da música fosse ouvido com nitidez. Uma das mais celebradas do set pelos fãs foi The Philosopher, que não integra nenhum dos álbuns homenageados, pertence a Individual Thought Patterns. Cantanda a plenos pulmões pela plateia, a música serviu para que DiGiorgio oferecesse outra aula de fretless bass. Não é à toa que, há muito tempo, ele é considerado não apenas um dos melhoes baixistas do thrash metal — pelo trabalho com o Testament —, mas também figura entre os nomes mais respeitados do death metal  desde os tempos de Sadus, quando ainda era conhecido principalmente pelos fãs mais veteranos, atentos e garimpeiros do gênero. Fechando a primeira parte do set, o Death to All mandou a própria Spiritual Healing. Desse disco, ficaram de fora Low LifeGenetic ReconstructionKilling Spree, justamente as três últimas do álbum. Todos aguardavam com expectativa a segunda parte do show. Antes de iniciar as comemorações de Symbolic, Steve DiGiorgio foi ao microfone prestar as devidas honras a um dos discos mais reverenciados do death metal técnico. Arriscando-se em português, provocou a plateia: “Estão vivos? Estão vivos? Vamo aí, pau!”. Em seguida, misturando português com espanhol, emendou: “Foda pra “caraio”. Estão listos?”. Só então assumiu um tom mais sério: “Certo, vocês estão curtindo o show até agora, né?”, perguntou o baixista. “Tenho uma surpresa especial para vocês. Eu sei que todos viram o pôster da turnê e sabem o que estamos fazendo. Estamos celebrando o aniversário de um álbum que saiu há 30 anos, chamado Symbolic”. Quando o músico disse o nome do disco, a euforia foi ensurdecedora.

Para a alegria geral, Steve — que àquela altura já havia deixado as sandálias de lado e tocava descalço — explicou que, diferentemente de Spiritual Healing, que não foi executado na íntegra, Symbolic seria apresentado por completo:

“Vocês conhecem esse álbum? Vocês realmente vieram aqui esta noite para ouvir esse disco ao vivo, certo? Então ótimo para vocês, porque vamos tocar a porra desse álbum inteiro!”. 

Vale lembrar, mais uma vez, que DiGiorgio não participou gravações de Symbolic — o baixo no disco foi gravado por Kelly Conlon. Ainda assim, ele destacou o caráter especial da ocasião: “É algo bem especial, porque Gene me lembra disso a cada cinco minutos do dia”, disse dando risada. “Mesmo quando o álbum foi lançado e a banda Death estava em turnê, eles nunca tocaram o disco completo. Tocavam algumas faixas, misturadas com outras músicas, como todas as bandas fazem. Então esta turnê é a primeira vez que todos vocês vão ouvir todas as músicas, na íntegra, ao vivo — estamos tocando todas. Vamos lá, fiquem confortáveis. Ainda temos um longo caminho pela frente, porque vamos começar com a faixa-título, que vocês conhecem”.

Quando Symbolic foi iniciada, o Carioca Club quase veio abaixo — era, afinal, uma das músicas mais aguardadas da noite. Logo nos primeiros instantes, Bobby Koelble enfrentou problemas com sua guitarra e precisou substituí-la às pressas. Enquanto isso, Max Phelps segurou a bronca com firmeza, sustentando a base e os vocais até que tudo estivesse novamente em ordem. Com a situação resolvida, a execução seguiu sem sobressaltos, e a dupla correspondeu à expectativa, inclusive entregando com precisão seus respectivos solos.

Confesso, caro leitor, que nessa parte do show — dedicada à obra-prima em questão —, meus olhos se voltaram com mais atenção para aquele que é um dos maiores bateristas do metal. A performance de Gene Hoglan em estúdio em Symbolic é tão impressionante e marcante que ajudou a elevar seu nome a outro patamar, abrindo caminho para trabalhos com bandas e artistas como Fear Factory, Devin Townsend, Strapping Young Lad e Testament, entre outros. Vê-lo de perto executando com precisão cirúrgica cada arranjo do disco impressionava e justificava o apelido “Atomic Clock”. Mesmo em meio à complexidade técnica das composições, o baterista grandalhão conduziu toda a apresentação com uma tranquilidade quase desconcertante, como se aquilo que fazia — para a maioria, um desafio monumental — fosse algo absolutamente natural. Era de arrepiar observá-lo tocar a introdução que criou para Zero Tolerance, o arranjo percussivo simples, porém perfeitamente encaixado, na bela abertura de Empty Words, a pulsação rítmica de Sacred Serenity e 1,000 Eyes, além dos bumbos galopantes de Crystal Mountain. Para quem toca bateria ou aprecia o instrumento, aquela parte do show parecia celebrar não apenas Symbolic e o legado de Chuck Schuldiner, mas também o próprio Gene Hoglan.

Com a sequência do tracklist respeitada na íntegra, a homenagem a Symbolic terminou exatamente como em estúdio, incluindo o desfecho acústico e dramático da faixa final tocado no som mecânico. Antes de anunciá-la, porém, Steve DiGiorgio fez questão de enaltecer o público paulistano: “Puta plateia linda aqui, cena linda. A gente ama São Paulo. Sabe de uma coisa? Toda vez que a gente vem aqui rola aquela expectativa especial, cara. A gente adora esperar o momento de voltar para cá e trazer energia para vocês. A gente ama sentir essa troca. Um brinde a vocês, São Paulo. Saúde! (em português) Diante da resposta calorosa da plateia — que fez o tradicional “Olê, olê, olê, Death, Death” —, ele continuou: “É exatamente isso que eu quero dizer. Obrigado, seus filhos da puta, isso é excelente demais. Obrigado, obrigado, obrigado! Estou quase estourando o microfone aqui. A gente realmente não quer parar (de tocar), cara. Vocês não foram embora. A gente não está pronto para ir embora. Tocaríamos para vocês pela porra da eternidade, tá ligado?”.  Em seguida, o baixista sinalizou que o momento se aproximava do fim: Mas tudo chega ao fim, né? Assim como todo CD tem sua última música, a gente também toca nossa última música aqui no palco para vocês. Então, se vocês quiserem mais, é melhor fazer a gente ouvir isso. Mas agora, essa é a última música de Symbolic, como prometemos antes. Essa é Perennial Quest”.

No bis, Phelps, DiGiorgio, Hoglan e Koelble surpreenderam ao executar um trecho de Deliverance, dos suecos do Opeth. Para encerrar a noite, reservaram Spirit Crusher, de The Sound of Perseverance (1998), último álbum de estúdio do Death, e Pull the Plug, de Leprosy (1988), clássico segundo trabalho da banda. Quem nunca viu o Death ao vivo e não compareceu ao show perdeu uma oportunidade de ouro de assistir a Symbolic em sua totalidade, interpretado por músicos de alto quilate e com um Max Phelps que, em diversos momentos, parecia incorporar o próprio Chuck Schuldiner. Bastava fechar os olhos para que o timbre e a interpretação remetessem diretamente ao criador do Death e um dos pioneiros do death metal. Ao fim, o sentimento que ficou no Carioca Club não era de nostalgia vazia, mas de celebração consciente de um repertório que segue relevante décadas depois. O Death to All cumpriu a proposta de honrar diferentes fases da banda com respeito aos arranjos originais, competência técnica e entrega sincera. Mais do que revisitar discos clássicos, o quarteto reafirmou no palco que o legado de Chuck Schuldiner permanece vivo — não como peça de museu, mas como música executada com precisão e recebida por um público que conhece cada nota. Death to All – setlist:
  1. Infernal Death
  2. Living Monstrosity
  3. Defensive Personalities
  4. Lack of Comprehension
  5. Altering the Future
  6.  Zombie Ritual
  7. Within the Mind
  8. The Philosopher
  9. Spiritual Healing
  10. Symbolic
  11. Zero Tolerance
  12. Empty Words
  13. Sacred Serenity
  14. 1,000 Eyes
  15. Without Judgement
  16. Crystal Mountain
  17. Misanthrope
  18. Perennial Quest
  19. Deliverance (cover do Opeth)
  20. Spirit Crusher
  21. Pull the Plug
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