Antes de se tornar uma das bandas mais marcantes do metal moderno, o System Of A Down enfrentou descrença e portas fechadas. Em entrevista à revista Metal Hammer, o guitarrista e compositor Daron Malakian contou como a cena dos anos 90 reagiu ao grupo no começo. “No começo ninguém queria nos contratar, porque não soávamos como Korn ou Limp Bizkit, e éramos quatro armênios! Quero dizer, o que diabos é um armênio para alguém que mora no Kentucky?! Nem sabiam o que éramos! E parecíamos alienígenas no palco. O Serj (Tankian) era um vocalista único, eu gritava e cantava ao mesmo tempo, e ninguém entendia aquilo. Mas nós entendíamos.”
Apesar das dificuldades, a banda se impôs na cena de Los Angeles. “Nós simplesmente saímos e fizemos o que sabíamos fazer. Éramos jovens, famintos e acreditávamos no que fazíamos. Você tem que entender, éramos um exército antes mesmo de sermos contratados. Nossos shows na Sunset Strip estavam lotados. Começou com nossos amigos, mas foi crescendo até nos tornarmos a maior banda daquela cena.”
Embora tenha sido associado ao nu metal, Daron não se vê nesse rótulo. “Não acho que alguém soava como nós. Tivemos sorte de existir uma cena, porque podíamos tocar para o público de outras bandas. Mas, para ser honesto, não sentíamos que pertencíamos, e também não sentíamos que não pertencíamos. Foi apenas a época em que existimos.”
Ele ainda elogia os pioneiros do movimento, mas critica a leva de seguidores: “As bandas originais do nu metal — Deftones, Korn, nós — faziam algo único. Todos crescemos ouvindo Metallica e Slayer, mas não copiávamos. Pegamos essa influência, misturamos com outras coisas e criamos algo novo. Já as bandas copiadoras, não dou a mínima. As que criaram o próprio caminho merecem crédito.”
Entre rejeição e reconhecimento
Mesmo depois de conquistar espaço, a banda ainda enfrentou resistência em turnês de abertura para o Slayer. “Na Polônia, fomos vaiados, jogaram moedas, até um bagel (espécie de Donuts) no Serj! Mas continuamos fazendo o que sabíamos. Meu pensamento era: se eles não gritarem ‘Slayer!’ durante nosso show, eu faço eles gritarem ‘Slayer!’ de qualquer jeito.”
Para Daron, parte da incompreensão do público vinha da dificuldade em classificar o System. “As pessoas se prendem muito à política. Nós, como banda, nem sempre concordamos em tudo. A vida não é um único assunto. Tem momentos de alegria, tristeza, humor, seriedade. Tanto o System quanto o Scars (On Broadway) compartilham isso: múltiplas camadas de emoções e sentimentos.”
Essa liberdade também aparece em letras inesperadas, como em Cigaro. “Eu não sentei para escrever no papel ‘Meu pau é muito maior que o seu!’. Eu só falei isso enquanto estava tocando e pensei: ‘Ok, nem sei o que isso significa’. Mas foi o que senti naquele momento.”
Do quarto para o mundo
Sobre o clássico Toxicity, Daron lembra: “Escrevi todo o disco enquanto ainda morava com meus pais. Eles me ouviam tocar no quarto, e quando o álbum saiu e passava Aerials ou Chop Suey! na MTV, diziam: ‘É aquela que você tocava direto no quarto’.”
Ao contrário do que sonhava na adolescência, o sucesso não o levou a excessos. “Se você perguntasse ao Daron de 14 anos o que faria quando seus sonhos se realizassem, eu diria: ‘Vou festejar como o Mötley Crüe!’. Mas quando aconteceu, fiquei ainda mais focado em escrever. Sabia que precisava compor, isso manteria o trem andando, não a porra de uma foto minha em revista.”
Com o hiato do System, em 2006, Daron encontrou no Scars On Broadway a válvula de escape necessária. “Quando a banda parou, foi difícil para mim porque não era o que eu queria. Mas não posso forçar os outros. Então pensei: se vou lançar música, preciso de um espaço para isso. E o Scars se tornou esse espaço. Sou tão orgulhoso das músicas do Scars quanto de qualquer coisa que fiz.”
Mesmo sem tantos lançamentos, ele continua compondo. “Tenho várias músicas guardadas. É como uma criança com seus brinquedos: você não brinca para os outros, brinca para si mesmo. Sei que há um público que quer ouvir, e sou muito abençoado por isso. Mas também sou meio preguiçoso quando se trata de gravar um álbum. Preciso me motivar mais.”
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