BRÉA EXTREME – SÃO PAULO (SP)

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Por Daniel Agapito Fotos: Marcelo Catacci Muitas pessoas conhecem o Napalm Death como “aquela banda de grindcore”, mas em seus mais de 40 anos de atividade, os britânicos têm provado diversas vezes que são muito mais do que isso. Com 17 álbuns de estúdio, sua sonoridade vai de um grindcore vertiginoso nos primeiros anos a um death metal brutal na “era” seguinte, chegando em um bom equilíbrio entre os dois nos dias atuais. Esta passagem seria a 17ª da banda pela capital paulista, com a última sendo uma performance incrível no Sun Stage, na primeira edição do Summer Breeze Brasil (agora Bangers). Fora eles, o festival promovido pela Xaninho Discos e Caveira Velha Produções traria o Dead Congregation, banda grega de death metal, pela primeira vez no Brasil, contando também com mais 10 bandas de relevância para o cenário underground do metal extremo nacional. Os serviços estavam previstos para começar cedo, com as portas abrindo às 14h e a primeira banda, o Dischavizer, de Nader El Kak e Igor Spigolon, subindo no palco meia hora depois. Trachoma, dupla de goregrind paulista, foi a responsável por abrir o palco secundário, que receberia também o Andralls, veteranos da cena de thrash paulista. No palco principal, rolaram também Subcut, banda de grind importantíssima para o cenário do interior paulista, e Baixo Calão, paraenses que estão na ativa desde 1996. A Baixo Calão merece um baita destaque, porque não só são incríveis, proporcionando um show enérgico e que animou a galera, mas também estão quebrando tudo no estado de São Paulo, tendo tocado com o Surra um dia antes e com o Dead Congregation um dia depois do festival. Ver Leandro Porko ativo no palco também é algo altamente inspirador, sem dúvidas. Podridão foi a primeira banda que este que vos escreve conseguiu ver na íntegra, e mesmo sendo um show curto, de pouco mais de meia hora, foram 30 minutos do mais puro caos. A performance já era especial, pois era aniversário do vocalista e baixista Júnior “Putrid Dick” de Andrade, irmão do baterista, Rafael Prado. Apesar do tamanho minúsculo do palco secundário, rolaram altas rodas e ‘crowdsurfs’. Em termos de repertório, contemplaram todas as eras de sua carreira: o primeiro álbum foi representado por Drowned Numbs, o segundo por Chronic Gonorrhea, o mais recente, dentre muitas, pela sua faixa-título, Cadaveric Impregnation, e assim foi. Foram 9 hinos da brutalidade. Voltando ao palco principal, tivemos direito a uma aula de agressividade do Fossilization, grupo de sludge/death que tem representado o Brasil em diversos festivais pelo mundo. Se em estúdio já conseguem entregar pedrada auditiva atrás de pedrada auditiva, imagina ao vivo… Absurdo de pesado! Sabe aquele show sem frescura, sem massagem, direto ao ponto? Foi o deles. Subiram no palco pontualmente às 17h30, tocaram 7 músicas e desceram, sem mais. Dentre seu arsenal de armas de destruição em massa, se destacam Once Was God e Blight Cathedral. Novamente no palco menor, o sempre bem-vindo Cemitério foi o próximo da ordem. Começaram sua jornada só em 2014, há relativamente pouco tempo, mas desde então têm se tornado um dos nomes mais bem-vistos do underground. Com suas letras baseadas em filmes de terror, engajaram os fãs que desceram para o segundo palco, executando músicas de ambos seus álbuns (Cemitério, de 2014, e Oãxiac Odéz, de 2016), tocando também algumas do disco que estão para lançar, como Massacre no Texas. Quem viu o show que fizeram na edição de junho do Kool Metal, abrindo para Possessed e Venom Inc., estranharia o setlist, pois foi exatamente igual. E, assim como no Kool Metal, o show foi incrível. O Cemitério pode tocar quantas vezes for, sempre vão apresentar uma performance de qualidade. A última banda nacional a tocar no palco principal foi a Surra, cujo nome descreve perfeitamente o som. Quem leu minha entrevista com o baterista Victor Miranda na seção Cenário da 282 da ROADIE CREW, sabe exatamente o que esperar de uma apresentação deles: comentários sociais incisivos, uma energia ímpar e rodas loucas. Foi exatamente isso que aconteceu. Logo na primeira música, Ninho de Rato, já tinha gente invadindo o palco para cantar junto, rodas na frente e no fundo da casa; nem o Suicidal Tendencies tem essa energia toda…  Seu setlist destacou o último álbum, Falha Crítica (que eu resenhei também, comprem a revista!), com Operação Morre e Cala a Boca, Viral, Murro em Ponta de Faca, Liberdade Eliminando o Mundo, Amanhã Eu Faço, É Proibido Ser Pobre e Plano Infalível representando o disco. Os fãs gritavam o nome da banda após cada música. Foi lindo. A banda que fechou o palco secundário (também a última banda nacional a tocar no evento) foi o lendário Rot, quinteto de grindcore mundialmente conhecido. Atualmente composto por Clodoaldo “Mendigo” Gradice na guitarra, Emiliano Borges na bateria, Diego Presépio no baixo e Henrick Magalhães e Evandro Borella nos vocais, o quinteto apresentou o show que (de longe) teve mais energia na noite inteira, perdendo apenas para algumas músicas do Napalm. Começaram logo com Pathetic White Man, Torpor e Another Kind of Prison, três faixas rápidas, sujas e objetivas. Os membros da equipe da produtora ficaram alertas o show inteiro, todos no canto do palco, para que ninguém o invadisse. As invasões de palco geralmente são um elemento vital dos shows de grind, mas o palco era tão pequeno e os ‘crowdsurfs’ eram tantos que realmente não tinha como ter o show com invasões de palco. O repertório foi bem equilibrado, contendo algumas das antigas, algumas novas e 6 ainda não lançadas, que farão parte de um split com o Facada. Não tem como transmitir adequadamente o caos (organizado) que foi. O show dos gregos do Dead Congregation foi uma das grandes incógnitas para aqueles que foram ao festival. Tá, eles têm um som realmente bem legal em estúdio, mas e ao vivo, como seria? Já estão na estrada há uns 20 anos, sempre lançando álbuns sólidos, aos olhos dos críticos gringos. Foram colocados em um horário difícil, logo após o Rot. Seria complicado até para o Napalm superar a folia que o Rot proporcionou, fechando o palco secundário. Começaram sua primeira vinda ao Brasil com tudo, escolhendo Martyrdoom, cartão de visita de seu primeiro álbum, Graves of Archangels. Com uma introdução sinistra e som brutal, ela realmente encapsula o que é o Dead Congregation. Apesar da qualidade do som (não só da música em si, mas o som da casa estava perfeito), o público não se animou muito. Batiam cabeça, sim, mas e as rodas que marcaram todos os outros shows até então? Raras e singelas. Os ‘crowdsurfs’ alucinados de antes? Nulos. Fecharam com as brilhantes Serpentskin e Teeth into Red, mas os fãs seguiram do jeito que estavam: mornos, cansados, guardando energia para o Napalm Death. O show foi animal, o som dos caras e a habilidade técnica deles é indubitável, mas, não me leve a mal, não foi perfeito. No palco, estavam incríveis, um som animal mesmo, porém, depois de vários shows majoritariamente de grind ou de crossover, todos de menos de meia hora, com a energia lá em cima, fazer uma apresentação de death metal, bem mais devagar que o Surra, por exemplo, pode ser o melhor show da vida, mas no contexto do grind, vai ser algo cansativo. Foram uma ótima escolha para trazer para cá, já que são ótimos e pouco conhecidos pelo público brasileiro, mas o resto das bandas do festival não ajudaram muito. Tenho certeza absoluta de que o show que fizeram no dia seguinte (27/10) na Iglesia fez jus à sua qualidade em estúdio muito mais. Enfim, havia chegado a hora dos headliners, os ingleses que estão firmemente no trono do grindcore desde sua formação inicial, lá em 1981: Napalm Death. Mesmo com um pequeno atraso (não passou de uns 10 minutos e foi a única banda das 12 que atrasou), os fãs estavam com uma sede absurda de grindcore. Começaram a noite com From Enslavement to Obliteration, que até o começo desse ano não era executada ao vivo desde meados de 2017. Uma energia absurda dominou a casa logo de cara. O mesmo caos organizado que reinou nos outros shows seguia instaurado, mas em escala muito maior. Era quase impossível estar parado. Após Taste the Poison e Next on the List, ambas de Enemy of the Music Business, Barney Greenway, o vocalista, tomou alguns segundos para apresentar a banda e a próxima música (com uma mistura de inglês e um portunhol puxado para o espanhol), um hino antiguerra, Continuing the War on Stupidity. A roda seguia feroz, com um de seus destaques sendo uma bandeira da Palestina que alguns fãs conseguiram estender no começo do show, deixando-a voar por grande parte da performance. Contagion, do último álbum, Throes in the Jaw of Defeatism, com um riff muito chiclete, foi incrivelmente bem recebida, com muitos fãs cantando junto. Depois dela, o vocalista novamente se aventurou e soltou uns “obrigado”. A próxima – depois de Wolf I Feed – seria também uma nova, Resentment Always Simmers, do último EP, Resentment is Always Seismic – A Final Throw at the Throes, notável por seu canto inicial, um tanto sinistro: “flaunt your resentment, flaunt your resentment” (ostente seu ressentimento). Throes foi bem destacado, com The Curse of Being in Thrall e Amoral seguindo e It’s A M.A.N.S. World (de From Enslavement) quebrando a sequência. Após esse breve descanso do último álbum, o vocalista anunciou que retornariam a ele, tocando as primeiras duas faixas (Fuck the Factoid e Backlash Just Because) uma atrás da outra, mas como são “concerning bastards” (bastardos preocupantes, ele traduziu como “bastardos concernos”), tocaram-nas na ordem errada (“ao revés”, de acordo com Greenway). Ele fez mais alguns discursos em seu portunhol de qualidade duvidosa, sempre com comentários afiados e pertinentes; humanos são humanos, sem exceção, mensagens contra a transfobia, intervenção religiosa. Todos seus comentários tiveram cunho político? Sim! Partidário? Não! Foram relevantes? Muito…. Pedir para que o Napalm não fale de política é tipo pedir para que o Mötley Crüe não fale de sexo. Não dá. O grindcore vem do punk, e punk sem política vai contra os próprios fundamentos do estilo. Com isso em mente, seguiram com Suffer the Children, de Harmony Corruption. Depois da pesadíssima When All Is Said and Done, do brilhante Smear Campaign, já dos anos 2000, a banda “voltou para 86, 87” com a faixa-título do Scum, um dos melhores álbuns de estreia de qualquer banda de metal. Seguiram a sequência com M.A.D., executada pela última vez em 2015 antes de fevereiro deste ano, e a épica, gigante, monolítica, homérica You Suffer, que levou os fãs à loucura. Voltaram aos tempos atuais com Metaphorically Screw You, do subestimado Apex Predator – Easy Meat, seguida da também homérica Dead. Mostraram seu primeiro e único indício de comentários partidários, usando um “fuck you, Bolsonaro” como ponte para um cover incrível de Nazi Punks, Fuck Off!, do Dead Kennedys. Fale o que quiser de “politicagem” e “lacração”, mas pense: como que uma banda de grindcore vai executar uma música de uma banda chamada Dead Kennedys sem fazer comentários de políticos (controversos)? Com isso, começava o último “bloco” de músicas daquele sábado, a sequência final de faixas que encerraria a noite. Para concluir, tocaram Instinct of Survival, também do primeiro, e Siege of Power, do mesmo, pela primeira vez  o ano. Depois de alguns agradecimentos aos fãs, à produção e aos outros que não podem faltar, os nativos de Birmingham se despediram com um “see you guys next year, or whenever the fuck we come back!” (nos vemos ano que vem, ou quando voltarmos, porra!) No geral, o festival estreante se saiu muito bem, com bandas de abertura bem escolhidas, todas muito relevantes no cenário underground nacional, headliners ótimos, shows pontuais, majoritariamente sem atrasos, som sem problemas. Para os fãs de grind, podemos dizer que preencheu o vazio deixado pela ausência do Setembro Negro. Já pode ter edições todo ano. Em relação ao show do Dead Congregation, foi o que falei acima, foi muito bom, mas não para o contexto. Já o Napalm, por sua vez, fez mais um show muito bom, passando por todos os hits (surpreendentemente ignorando Words from the Exit Wound, que completou 26 anos naquele mesmo dia – mas não é surpresa, é seu álbum menos tocado ao vivo) e mostrando claramente porque são um dos melhores no que fazem. Quem não foi, perdeu uma barulheira de respeito! Dischavizer – setlist: O Golpe Excluídos Pilha de Corpos Olhos Violência Potrésto Somos Irmãos Insanidade Animal Pestilência Eles Pensar   Trachoma – setlist: We Came From the Filth (Intro) Microstomia Treatment Adipocere Corpse Wax Supplies for Your Own Ostomy Bag The Body Turns from Green to Red as the Blood Decomposes Brain Eating Amoeba Hospital Purge TDI – Dissociative Identity Disorder The Taste of Human Flesh Deadly Obscure Disease Medical Waste Cystic Fibrosis Diopathic Osteonecrosis Liquefactive Necrosis (Wet Gangrene) MDK/DFC   Subcut – setlist: Indignação dos Justos Lobo em Pele de Cordeiro União. Respeito. Humildade. É Papo de Cristão Misantropo Trinchando Nossas Valas Determinando as Vontades a Inércia Minha Vida Refletida no Espelho Coroa de Espinhos Homosapiens Glorificação aos Porcos A Inquisição, o Perjúrio e a Peste Negra Últimos Minutos de Consciência Sonhos dos Afogados Mediocridade Nenhuma Dor É Maior do que Relembrar os Dias Felizes na Miséria Antifacista Denuncie / Institucionalizado   Andralls – setlist: Cross of Shame How Many Lives I Need to Die Rotten Money We Are the Only Ones Unexpected / Fear Is My Ally Universal Collapse Enemy Within Andralls on Fire   Baixo Calão – setlist: Aglomerados Nem Resetando Famigerado Necrológio Esboroável Ama Sul Generis Agitações no Sistema Límbico Das Vísceras Coprofagia Honra ao Mérito Antecipação Consumismo Paz Armada   Podridão – setlist: Darkness Swallows the Light Drowned Numbs Urban Cannibalism Chronic Gonorrhea Bind, Torture, Kill Black Funeral for a Bestial Soul Regurgitate Hellish Maggots Verminoses Faecalis Cadaveric Impregnation Fossilization – setlist: Archæan Gateway Once Was God Oracle of Reversion Leprous Daylight At the Heart of the Nest Eon Blight Cathedral Cemitério – setlist: A Volta dos Mortos Vivos A Vingança de Cropsy Quadrilha de Sádicos Massacre no Texas Sexta-Feira 13 Holocausto Canibal O Dia de Satã A Sentinela dos Malditos Tara Diabólica Oãxiac Odèz Natal Sangrento Morte Infernal (versão do Death) Surra – setlist: Ninho de Rato Ultraviolência Operação Morre e Cala a Boca Escorrendo pelo Ralo O Mal que Habita a Terra Do Lacre ao Lucro Viral Murro em Ponta de Faca Caso isolado Arquitetos da Desgraça Guerra Suja, Bolso Cheio Brasileiro, Otário e Triste Ódio Liberdade Eliminando o Mundo Amanhã Eu Faço Nunca Foi tão Justo Plano Infalível É Proibido Ser Pobre Parabéns aos Envolvidos Rot – setlist: Pathetic White Man Torpor Another Kind of Prison Life Isn’t So Kind This Silent World Until It’s Worthless The State of the Denial of Humanity Beyond the Evidence Hawkish Bastard Politicians Pull the Trigger Slowly is Coming Espólios de Revolução A Part of Me Dethroned Certainty Decreased Possibilities War Business As Hostes do Ódio Plural Passado Presente Sem Futuro Strange Feelings Learn Some Respect Next Grind Bullshit Downtrodden Dead Congregation – setlist: Martyrdoom Morbid Paroxysm Quintessence Maligned Wind’s Bane Vanishing Faith Dismal Realms Auguring an Eternal War Only Ashes Remain Promulgation of the Fall Serpentskin Teeth into Red Napalm Death – setlist: From Enslavement to Obliteration Taste the Poison Next on the List Continuing War on Stupidity Contagion The Wolf I Feed Resentment Always Simmers That Curse of Being in Thrall Amoral It’s a M.A.N.S. World! Backlash Just Because Fuck the Factoid Suffer the Children When All Is Said and Done Scum M.A.D. You Suffer Metaphorically Screw You Dead Nazi Punks Fuck Off (cover Dead Kennedys) Instinct of Survival Siege of Power
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