ANETTE OLZON – SÃO PAULO (SP)

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Por Fernando Queiroz

Fotos: Andre Santos

Muitas bandas têm aquela fase com aquele ou aquela vocalista que são “renegadas” pelos fãs. No caso do Nightwish, esse fardo recai sobre a cantora Anette Olzon, que esteve na banda de 2007 a 2012, quando foi substituída por Floor Jansen em meio à turnê do disco Imaginaerum – antes, ela tinha substituído Tarja Turunen, vocalista original da banda. Desde então Anette não havia, em momento algum de sua carreira, cantado músicas de sua época no conjunto finlandês ao vivo. Sem muito alarde, isso mudou em 2025, com o anúncio inesperado de uma turnê na América do Sul, onde apresentaria um repertório exclusivo dessas canções.

Quase treze anos depois da última vez que ela tinha, pela última vez, tocado músicas do Nightwish e dezessete anos após sua primeira, e até então única, passagem pelo Brasil, pudemos ver, finalmente, esse revival de uma era muito injustiçada e hoje muito querida pelos fãs, que na época não aprovaram a cantora – acreditem, essa mudança de opinião pública de fãs acontece com frequência com muitas bandas. E quem esteve presente não se decepcionou, adianto, e falo com propriedade, pois presenciei shows do Nightwish em todas as eras, inclusive a de Anette, além de ter visto diversas apresentações de Tarja em carreira solo ao longo dos anos.

Uma preocupação de todos que estavam na fila era em relação à quantidade de pessoas. Muita gente acreditava que o show teria pouquíssima gente, por conta dos valores um tanto altos – para dizer o mínimo – cobrados para o show. Ainda bem, não foi o caso.

Com certo atraso, e já com um alto número de pessoas presentes, as portas da VIP Station (uma escolha ruim, pois a casa não é boa e é mal localizada) estavam previstas para abrir às 18h30, abriram já depois das 19h. A banda de abertura entrou logo depois, sem maiores problemas. Também não decepcionou.

Por vezes, bandas de abertura acabam sendo ignoradas em shows. Muitas vezes com razão, em outras, não. Neste caso, devemos dar os parabéns também ao público presente: prestigiaram, aplaudiram e ovacionaram o Magistry, banda paranaense que toca um estilo bem condizente com o evento. Com um som mais pesado e um pouco mais denso, cheio de pedais duplos, mas igualmente melódico, é exatamente o tipo de banda que agrada a maior parte dos fãs do Nightwish e de Anette. A apresentação relativamente curta, deixou, no mínimo, uma curiosidade para conhecer mais do trabalho deles. Com um álbum e um EP de inéditas gravados, é uma banda extremamente recomendável que você conheça se gosta de metal sinfônico com altas influências de doom. A voz da vocalista Lya Seffrin cai como uma luva nas canções e sua presença no palco, além do visual arrojado, mostram o zelo com o que apresentam. Um ótimo aquecimento para o que ainda estava por vir.

Mal deu tempo de respirar após a atração de abertura, e logo ela estava no palco: Anette Olzon, cantando exclusivamente músicas de sua passagem no Nightwish, entrou sob coros de “Anette” por todos presentes. Ela realmente abraçou mais uma vez o estilo; entrou com um vestido preto com espartilho, num visual que muito remetia aos seus primeiros dias de Nightwish, mas sem o cabelo preto tingido da época. Com sorriso no rosto e lindíssima, começou o show de cara com uma dobrada de clássicos: 7 Days to the Wolves, do álbum Dark Passion Play, sua estreia no grupo finlandês lançado no já longínquo ano de 2007, canção baseada em “Lobos de Calla”, livro da série “A Torre Negra”, de Stephen King, e emendou com Storytime, faixa que abre o disco Imaginaerum, de 2011. Melhores escolhas, impossível! O som ajudava, quase impecável, e a banda de apoio, com ótimo músicos brasileiros, também (em especial o baixista Felipe Duarte, que assim como Marco Hietala no Nightwish, também é vocalista e fez seu papel com excelência). Diga-se de passagem, se essa fosse, ou for, a banda de sua possível – e provável – carreira solo, agora no gênero que a consagrou, ela pode ter certeza que estará muito bem acompanhada.

Anette finalmente cumprimentou o público e, dentre outras frases de carinho, também elogiou seu ex-chefe, Tuomas Holopainen, afirmando que “Tuomas realmente faz ótimas músicas”, numa demonstração de admiração pelo tecladista e líder de sua antiga banda, apesar das polêmicas da época de sua saída. Continuamos com uma mescla de ambos álbuns gravados por ela, com Ghost River e Bye Bye Beautiful.

Seu setlist foi uma coleção de hits e todos sabiam cantar cada um deles, sem exceção: Amaranth, que inclusive é o primeiro videoclipe que ela gravou, Rest Calm e Eva, primeiro single dela na banda. A única coisa que talvez não tenha feito muito sentido foi a instrumental Last of the Wilds, que apesar de ótima, era melhor ter sido trocada por outra canção que tivesse vocais, como For the Heart I Once Had, por exemplo. Não deixou de lado ao menos um “lado b”, Turn Loose the Mermaids, tema que nunca havia sido tocada ao vivo, que foi seguida de Sahara, outro hit e que contou com a participação da vocalista Lya Seffrin, da banda de abertura.

Não podia faltar, porém, sua canção de sucesso mais longa: The Poet and the Pendulum é um dos grandes clássicos do Nightwish de todos os tempos e levou o público abaixo. Já prestes a acabar o show, Anette chamou ao palco seu filho mais velho, Seth, enrolado em uma bandeira do Brasil. O garoto foi ao microfone, falou algumas bonitas palavras de agradecimento ao público e pediu uma salva de palmas para sua mãe, que ele chamou de “pastora”. Bem, para entender o contexto disso, por conta do visual cotidiano da cantora que ela mostra em suas redes sociais e também pela forma como ia ao palco nos seus últimos dias na banda finlandesa, os brasileiros, especificamente, começaram a chamá-la de “pastora”, por serem vestimentas que lembram mulheres de igrejas evangélicas neopentecostais do país, com as saias e tons claros. Muito legal saber que ela abraçou a brincadeira!

As saideiras ficaram por conta da bonita e emocionante Meadows of Heaven e Last Ride of the Day, músicas que fecham respectivamente os álbuns Dark Passion Play e Imaginaerum. Sob aplausos e coros por seu nome (e também coros de “pastora”), Anette terminou seu show de forma sublime.

Diferentemente de outra ex-vocalista da banda que não gosta de tocar ao vivo canções de sua época, e em muitos shows nem sequer toca qualquer uma, Anette Olzon fez o que seus fãs queriam: um setlist recheado de hits de sua passagem pelo Nightwish, em quase duas horas de show, com uma banda de apoio afiadíssima (além de Felipe no baixo e no vocal, Sanzio Rocha na guitarra, Vithor Moraes no teclado, Kiko Lopes na bateria), uma plateia que a adora e, mesmo doente (falaremos disso a seguir), entregou uma ótima performance vocal, presença de palco e sorrisos no rosto! Impossível não sair satisfeito de um espetáculo como aquele, para fãs do gênero, da cantora, de sua antiga banda – com o Nightwish parado e os fãs sedentos por ouvir as músicas da banda ao vivo, ela não podia ter escolhido um momento melhor para voltar à ativa. Missão cumprida e alma lavada. E esperemos que esse retorno de Anette aos palcos, cantando clássicos de sua carreira, não se resuma a uma turnê, mas que seja o início de uma retomada sua ao estilo que a trouxe ao mainstream do metal, de preferência com discos novos do gênero, aos 54 anos de idade e com a voz em plena forma – até melhor que nos anos que esteve no Nightwish.

Depois do show, soubemos, conversando com pessoas da produção, que Anette estava passando mal já havia alguns dias e fez o show sob efeito de medicação. Mesmo assim, não deixou de entregar o que prometeu com excelência, e não cancelou apresentação alguma – apenas adiou o show em Belo Horizonte, que seria realizado no dia seguinte, com nova data a confirmar, mas que ela afirmou que não seria cancelado.

Setlist

7 Days to the Wolves

Storytime

Ghost River

Bye Bye Beautiful

Amaranth

Rest Calm

Last of the Wilds

Eva

Turn Loose the Mermaids

Sahara

The Poet and the Pendulum

Meadows of Heaven

Last Ride of the Day

 

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