Por Leandro Nogueira Coppi
Entre histórias contadas com bom humor, reflexões sobre inteligência artificial, bastidores de gravações e planos para os próximos passos, Andria Busic, cofundador do Dr. Sin, ex-integrante de bandas como Taffo, Platina, Cherokee e outras, além de atual baixista do Ultraje a Rigor, falou abertamente sobre o lançamento de Life As It Is, seu primeiro álbum solo. Em clima descontraído, o músico recebeu a reportagem no Metal Bar, em São Paulo, para uma conversa presencial e sem pauta, que acabou se transformando em um bate-papo sobre carreira, criatividade, família, shows e a empolgação com a nova fase artística.
Após décadas de estrada, o que te inspirou, neste ponto da carreira, a lançar seu primeiro álbum solo, Life As it is?Andria Busic: Na verdade, eu estava em casa um dia. Fazia muito calor, então decidi descer para nadar — coisa que quase nunca faço; quem tem piscina em casa não nada. Foi aí que começou a surgir uma música na minha cabeça, e eu não parava de cantá-la (N.R.: neste momento, Andria cantarola a melodia). Então pensei: “Pô, não aguento mais ficar cantando essa música que está na cabeça, vou subir”. E, ainda de calção molhado, já saí gravando.
Então, quando você teve esse start, ainda não havia material arquivado ou planejado para um suposto álbum solo?Andria: Eu não tinha nada. Gravei essa música inteira em um dia e, no outro, fiz a letra — ou seja, em dois dias ela estava pronta. Aí já comecei a fazer outra, me empolguei. Quando percebi, em um mês eu já estava com doze ou treze músicas prontas, e ainda tinha mais algumas guardadas… Eu tinha quinze! Então comecei a pensar nos assuntos sobre os quais eu queria falar. Lembrei dos primeiros amigos, daqueles que quase você nunca vê, mas quando reencontra é quase a mesma coisa de sempre, e também das coisas de que eu sempre gostei.
A propósito, qual foi essa primeira música que surgiu na sua cabeça?Andria: Foi Hey! Hey!. A segunda eu já não me lembro qual foi, me perdi. Mas a terceira foi a que eu fiz para a Stephanie.
Fale mais sobre essa música, Through Her Eyes (A Song to Stephanie).Andria: Foi a música mais complicada de se fazer, porque, quando você vai falar de alguém que ama, ficar falando “eu te amo, eu te amo” fica uma coisa meio banal. Então pensei: vou falar de alguma coisa que ela ama. A partir daí, comecei a escrever a letra. Foi o maior desafio que tive no disco. Lembro que foi a faixa que mais demorou. Quando percebi, eu já estava na quinta, sexta música. E, a cada nova composição, eu gravava baixo e guitarra, deixando uma base pronta, então já tinha base e a melodia encaminhadas. A partir daí, eu perguntava para a Eli (N.R.: esposa de Andria): “Do que eu posso falar agora? O que você acha?”. E ela falava: “Por que você não fala de vikings, que é algo de que você gosta tanto?”
Eu ia entrar nesse assunto, porque me surpreendeu vê-lo abordando esse tipo de tema no single e clipe The Templars. Não sabia que era algo de que você gostava.
Andria: Pô, adoro vikings! Adoro samurais (N.R.: tema também abordado na música Blade of the Rising Sun (Samurai)).
Me surpreendeu mesmo. Eu sabia, por exemplo, que você sempre foi fã de Star Wars.Andria: Também, mas isso eu já havia feito no Dr. Sin (N.R.: Andria se refere à música May the Force Be with You, presente no álbum Animal, de 2011). Fiz também os Portais de Luz (N.R. Portals of Light, faixa do álbum solo), que é outro assunto de que eu gosto muito. Como eu fiz uma música meio prog, meio Rush, essa cabia falar sobre isso. Os temas também foram surgindo conforme as músicas me levavam às ideias. Porque tem melodia que pede certas coisas. A.I. Control saiu em um minuto, acho que foi a segunda que eu fiz. Nela, eu falava só sobre inteligência artificial.
Esse é o assunto do momento, preocupante, aliás.Andria: É o assunto do momento, algo que não vai acabar enquanto não acabarem com a gente, porque estão deixando isso dominar tudo. Ninguém mais tem criatividade. Se eu quiser fazer um disco em um minuto, eu faço aqui: (dou o comando) “faz uma música no estilo Guns N’ Roses, com a letra falando sobre tais tópicos…”. Meu, em um minuto eu tenho uma gravação maravilhosa.
Me preocupo com a hora que eu começar a receber discos feitos por I.A. para resenhar, por exemplo. Tem coisa que não dá para ter certeza. E, se eu souber que é, me nego a resenhar.Andria: Você não sabe se é verdade ou não. E vou te falar: eu não consigo dizer (quando é uma gravação real ou não). O único jeito é falar: “toca aí isso que você fez”. O que eu digo nessa música é que, usar para completar suas ideias é do caralho, é uma ferramenta maravilhosa. Mas deixar ela te dominar, construir tudo por você e você se encostar, aí não. E tem outra: se você cria máquinas que vão pensar no seu lugar, elas vão te dominar. O filme O Exterminador do Futuro (mostra que) é bem possível. Vou te contar uma brincadeira que eu fiz. Eu estava com o Ivan (Busic, irmão de Andria) e um pessoalzinho, e aí pintou esse negócio de fazer música. Então dei o comando, “banana, guarda-chuva…” e fui falando só merda, “carro velho, calhambeque, trem…”. Cara, saiu uma letra tão boa com essa merda de assunto, que eu pensei: “Não é possível!”. E olha: além de tudo, a música também era legal. Quer dizer, em um minuto eu tinha uma música com os assuntos mais estúpidos do mundo. É assustador.
Vejo isso com tristeza e preocupação. Como você falou, se for apenas para dar o acabamento, ok.Andria: Exatamente. Quando fui fazer o clipe (The Templars) com o Victor (Silva, genro de Andria, fotógrafo e videomaker, que também idealizou a capa e o encarte de Life As it is), falando de templários, eu gravei as imagens lá na Itália, usando roupa de templário, cantando no Castelo Scaligero. O Hugo Aspromonte, que filmou, fez a nossa parte no (estúdio) Mosh (em São Paulo)…
Você foi para a Itália justamente para gravar o clipe, ou já estava por lá e aproveitou a ocasião para também filmar?
Andria: Estávamos lá fazendo outra coisa, mas aí eu falei: “Vamos aproveitar que estamos aqui e fazer o clipe também”.
Ok. Desculpe cortá-lo, prossiga com o que estava contando, por favor.Andria: Fomos lá, gravamos com ele (Hugo), e depois voltamos para o Brasil, onde gravamos a outra parte com os instrumentos no estúdio Mosh. Só que ainda ficava aquela lacuna para preencher, que eram as imagens dos templários. Aí perguntei: “O que você acha (de utilizar o recurso da I.A.)? Fala para fazer isso assim”. Então ele colocou os tópicos da letra. Meu, quando eu vi, ele já estava fazendo o clipe e estava lindo. Aí é legal demais!.
Fora que o disco tem a música A.I. Control falando disso.Andria: E ficou perfeito. Fiquei impressionado. Quando misturou tudo, ficou demais. Estou apaixonado pelo clipe.
Então, pelo fato de você já estar na Itália, a ideia de esse ser o primeiro clipe surgiu naturalmente?Andria: Exato! Falando sobre os templários, lá estava cheio de castelos templários. Falar sobre Samurais é que não dava (risos).
Já que o assunto é disco solo, conheço muitos fãs que sempre aguardaram por um disco seu nesse formato — até porque seu irmão, Ivan, tem o Rock and Road lançado.Andria: Eu nunca parei para prestar atenção nisso. Acho que eles pensavam em um disco solo mais como algo instrumental, de baixo, alguma coisa assim.
Em outros momentos da sua vida nunca havia surgido a ideia de gravar um álbum solo?Andria: Eu não gostava da ideia de ter uma carreira solo, porque eu era um cara de banda, sempre fui. Mas, como apareceram todas essas músicas em um período em que eu estava sozinho, fazendo tudo sozinho, falei: “Tem que ser agora”.
Você nunca foi um músico de arquivar ideias de riffs e melodias, coisas que não davam para ser aproveitadas em suas bandas, mas já pensando em usá-las em um trabalho somente seu?Andria: A gente arquivava, mas não usava para nada. Eu nunca pensei: “Vou usar depois só para mim mesmo”. Tinha umas duas ideias que estavam encostadas e eu pensei: “Não é possível que a gente não usou isso”. Inclusive, a dos templários, acredita que estava encostada? Eu tinha umas ideias cantando, só pedacinhos, e acabei terminando a música gravando baixo, guitarra… E pensando: “Não é possível que deixei esse refrão de lado”.
Agora, ao se concentrar para compor esse trabalho solo, você se deixou levar pelas ideias que vinham naturalmente ou, ao menos instrumentalmente, pensou em seguir alguma linha de som?Andria: Foi ao contrário, eu não tinha pensado em uma carreira solo. Eu estava pensando nas músicas e, depois que eu vi tudo pronto, pensei: “Virou uma carreira solo”, porque eu fiz tudo (risos).
Sempre achei que você tinha que ter um disco só seu, com suas ideias.Andria: É, eu nunca tinha parado para fazer. E meu irmão sempre falava: “Tem que fazer!”, e eu nunca levei a sério. Mas agora está aí!
Com o disco lançado, você pensa em, daqui para frente, apresentar essas músicas no palco?Andria: Sim, vou fazer shows dele. E começam em julho. Já tenho algumas propostas para isso, vamos ver se consigo viabilizar.
Nesse primeiro disco… Eu digo primeiro, porque imagino que você esteja empolgado em prosseguir…Andria: Agora eu gostei, fui mordido pelo bichinho (risos).
Continuando, neste álbum você trabalhou com diversos músicos convidados. Como foi esse processo na hora de distribuir as músicas entre eles?Andria: Na verdade, o que eu fiz nesse disco, foi o seguinte: depois que ele estava pronto, eu já vinha com algumas ideias de bateria que eu fazia até na mão mesmo. Eu gravava as bases e depois levava para os bateristas. Quando levei para o Rodrigo (Oliveira, baterista do Korzus), se eu não falasse “para!” ele gravava tudo (risos). Só que havia outros para quem eu também tinha prometido que iam gravar também. Levei para o Adriano (Daga), e o Ivanzinho também fez algumas. Todo mundo queria gravar mais… Mas não tinha mais música, tive que dividir as quinze entre eles (risos). O que eu realmente nunca vou conseguir gravar é a bateria, nisso eu sou triste. Mas tenho as ideias e já deixava tudo meio encaminhado para eles. Só que aí eles colocavam a pegada de verdade, bateria eletrônica não rola.
Você já tem uma definição sobre a banda que o acompanhará ao vivo, se serão vários músicos participando ou se haverá um line-up fixo?Andria: O Thiago Melo vai tocar comigo, porque além de eu ter feito as bases… Eu falava: “Faz as bases junto comigo”. Então havia duas bases gravadas em cada música, e ele gravou mais uma. Eu abria as minhas bases e ele ficava com a central, ficando três sons de guitarra diferentes, além dos solos também. Eu só fiz um solo no disco.
De modo geral, o que mais te agradou no disco, a ponto de você usar isso como mote para atrair a atenção de quem fosse indicar a audição?Andria: Eu nem me preocupei muito com os baixos, sabia? Até peguei leve com o lance de baixo, fiz uma coisa mais ‘straight’, mais reta. Óbvio que, às vezes, não tem como escapar de algumas coisas, porque saem de modo natural. Acho que a música como um todo, do jeito que saiu, foi o que mais me deixou louco pelo disco. Foi como tudo soou quando estava junto. Fiquei maluco, está legal demais.
Quanto ao título Life As it is, o que ele representa?Andria: Ele fala dos assuntos que vivo no momento… Na verdade, todos os discos que você faz são meio assim, a não ser que você tenha uma temática, tipo: “Vou falar da Muralha da China e da invasão dos mongóis”. Nesse álbum, falo das coisas da minha vida, sobre os amigos, amizade, sobre minha filha e também de assuntos que eu gosto. Então ele representa a vida como ela é, misturando temas pessoais com coisas que me interessam.
Até que ponto o seu irmão, Ivan Busic, teve alguma relação com o disco?Andria: Ele não sabia, só ficou sabendo depois que já estava pronto! Soube porque eu falei: “Você vai gravar essa, essa e essa”. E ele respondeu: “Pô, eu nem sabia que você estava fazendo um disco!”. Eu quis fazer uma surpresa para ele, saber qual seria a reação dele. Parecia que tinha tomado um choque: “Mas já está pronto assim?”. Eu queria saber a reação se ele ia gostar ou se diria algo como: “Pô, você podia fazer assim e assado”. Ninguém falou isso. Todo mundo disse: “Está demais!” e saiu gravando. Quer dizer, então estava bom! (risos). Ele ficou muito feliz quando ouviu, e eu achei isso tão bonitinho da parte dele.
Como você conciliará a divulgação do disco com seus compromissos com o Ultraje a Rigor, gravações no SBT e afins?Andria: Terei que saber usar as brechas, né? Por exemplo, o Ultraje não vai ter shows no mês de julho, então usarei esse mês, porque poderei tocar. Então vou seguindo desse jeito, conforme for acontecendo. Não é fácil, mas vou conciliando as coisas.
Neste momento da sua vida, tocando com o Ultraje a Rigor e sem falar em retorno do Dr. Sin, embora imaginando essa possibilidade no futuro, você enxerga seu trabalho solo como um projeto ou já pensa em algo que terá continuidade?Andria: É como eu falei: agora eu gostei e vou em frente. Já me empolguei e acho que vou fazer um disco a cada ano. Ano que vem tem outro! Apesar da experiência, sou praticamente um iniciante no que diz respeito à carreira solo, então existem algumas dificuldades para quebrar certas barreiras, mas é algo de que estou curtindo demais. Acho que todo mundo (que é músico) tem que fazer isso de forma meio despreocupada, porque, se ficar pensando em resultado breve, vai desistir. Curta cada etapa dele. Se não der para lançar no ano que vem, trabalhe mais nele e lance depois de dois anos. No meu caso, tem tanta música… São quinze faixas (no disco), e pelo menos umas cinco ou seis você vai querer mostrar com clipes, essas coisas…
Então teremos mais clipes do disco…Andria: Gostei tanto (de The Templars) que eu tenho que fazer! Me viciaram nesse clipe, então agora tenho que fazer um melhor do que o outro.
Para finalizar, te parabenizo por este lançamento, Andria.
Andria: Eu agradeço, irmão, pela força de sempre!
Foto: Stephanie Veronezzi @stephanieveronezzi