
Os discos do Albaluna costumam vir carregados de contexto. Qual é a história por trás de Ennead?
Ruben: O trabalho foi inspirado no livro “Mirante” (1999) de Jaime Umbelino, já falecido. O autor viveu na nossa cidade – Torres Vedras, e escreveu muito sobre a sociedade local a partir dos comportamentos sociais que ele observava do seu escritório localizado no centro da cidade. Como Marr´s e eu nos graduamos na mesma universidade, ele em história e eu em arqueologia, ainda que em anos diferentes, nós compartilhamos do gosto pela história e decidimos tirar do livro alguns temas relacionados a crítica social para escrever as letras. A verdade é que a nossa música sempre teve um caráter de intervenção social; assim, o comportamento da sociedade e a forma como os seres humanos se relacionam é a inspiração principal da poética de Ennead. Nele, há uma introspecção acerca da degradação de valores como a solidariedade e a empatia. Depois dessa parte das letras, vieram as músicas que transportam essa carga, fazendo com que achássemos bom ter um pouco mais de peso. Então, se por um lado o som é mais folk metal ou dark folk, as letras são mais profundas. Veja a faixa Vigília, ela é muito tranquila e simpática, mas de tema duro e dramático. Além disso, musicalmente Ennead traz elementos de Heptad (2021), então ele poderia ser visto como uma sequência. Tanto é que há muitos elementos do disco passado que reaparecem nesse.
Ao contrário de apontar um culpado, percebo que essa crítica social das letras é um convite para a reflexão acerca dos temas abordados.
Ruben: Exatamente! As composições musicais são todas minhas, enquanto a parte poética é praticamente toda feita por Marr´s. Em Ennead há uma faixa chamada Sísyphos – uma reconstrução de uma música que eu compus há muito anos e já teve várias versões – em que as letras se dividem entre o inglês, escrita por mim, e o português, por Marr´s. Ela fala de alguém que sente o peso da vida e que quer realmente viver ao invés de apenas sobreviver, de alguém que tenta trabalhar a raiva que existe por querer viver, mas que não se pode por às vezes a pessoa se sente presa pelo trabalho, por uma questão familiar etc. É da esse empurrão para que ela saia de um círculo vicioso, do labirinto.









