AC/DC – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Belmilson Santos

A noite de 24 de fevereiro de 2026 consolidou um reencontro que por muito tempo pareceu distante: após mais de 15 anos sem se apresentar no Brasil, o AC/DC retornou ao país para concretizar o sonho de uma geração que ainda não havia testemunhado sua força ao vivo e, ao mesmo tempo, reacender a chama naqueles que aguardavam ansiosamente por mais uma oportunidade de assistir o grupo australiano no palco.

A trajetória até aqui nos últimos anos, porém, não foi linear. A ausência definitiva de Malcolm Young, falecido em 2017, representou a perda do principal arquiteto do som do AC/DC, o líder oculto responsável pela engrenagem rítmica que sustentou décadas de clássicos. Pouco antes, em 2016, Cliff Williams chegou a anunciar aposentadoria ao fim da turnê daquele período, enquanto Phil Rudd enfrentava problemas judiciais que o afastaram das atividades do grupo. Paralelamente, o drama vivido por Brian Johnson, impedido de continuar excursionando por risco de surdez total, colocou a própria continuidade da banda sob tensão — lacuna temporariamente preenchida por Axl Rose, do Guns N’ Roses, numa solução emergencial que permitiu honrar compromissos já assumidos.

A reconstrução começou a tomar forma com o retorno de Brian Johnson, Cliff Williams e Phil Rudd para as gravações de Power Up, trabalho concebido como tributo à memória de Malcolm e baseado em riffs que ele havia deixado registrados. Para a atual turnê, entretanto, a formação voltou a sofrer ajustes: Cliff Williams optou por não seguir na estrada de forma permanente, abrindo espaço para Chris Chaney (Jane’s Addiction, Slash, Eddie Vedder, Alanis Morissette) no baixo, enquanto Phil Rudd foi substituído por Matt Laug (Alanis Morissette, Slash’s Snakepit, Alice Cooper) na bateria. Ao lado de Angus Young e de seu sobrinho Stevie Young, que assumiu a guitarra base desde o afastamento de Malcolm, o grupo apresenta hoje uma configuração que equilibra herança, resistência e continuidade.

Essa passagem brasileira integra a “PWR Up Tour”, que promove o mencionado Power Up, lançado em 2020. Em São Paulo, o reencontro foi desdobrado em três datas no Estádio do MorumBIS — 24 e 28 de fevereiro, além de 4 de março —, todas rapidamente esgotadas, reflexo de uma espera que atravessou gerações e sobreviveu a incertezas que, em determinado momento, colocaram o futuro da banda em dúvida.

A primeira noite dessa série paulistana — única cidade do país a receber o AC/DC em 2026 — foi impulsionada por uma demanda incontornável: a necessidade quase física de reencontrar a guitarra incendiária de Angus Young, a voz cortante de Brian Johnson e o impacto de clássicos que atravessaram gerações sem perder a força.

Para este que vos escreve, o momento tinha um sabor ainda mais especial: em 2026, completam-se 30 anos não apenas da primeira vez que vi a banda ao vivo, mas também daquele que, até hoje, tenho como o melhor show que já assisti.

De volta ao Brasil pela terceira vez, nove anos após a última passagem com a turnê do álbum Who You Selling For, os novaiorquinos do The Pretty Reckless foram escalados para abrir todos os shows do AC/DC em São Paulo. A banda vem consolidando seu espaço no rock contemporâneo não apenas pela trajetória, mas também pela parceria recente com os australianos. Desde 2024, o grupo liderado por Taylor Momsen tem sido convidado para abrir as datas da turnê “Power Up Tour”, participando das etapas europeia, norte-americana e, agora, também das fases latino-americanas da excursão.

Com seu logotipo exibido no telão, o The Pretty Reckless subiu ao palco pontualmente às 19h30 e iniciou a apresentação com a faixa-título de seu trabalho mais recente, Death By Rock and Roll, que completou cinco anos no último dia 12 de fevereiro. Em agosto de 2025, a vocalista Taylor Momsen — ex-atriz conhecida por interpretar Cindy Lou Who em Como o Grinch Roubou o Natal (2000) e Jennifer “Jenny” Humphrey na série Gossip Girl — revelou ao canal de YouTube Audacity Check In que as gravações do próximo álbum ainda não estavam concluídas. Segundo ela, a agenda intensa, em razão da turnê com o AC/DC, tem feito com que as sessões ocorram de forma intercalada com os próprios shows.

No início da apresentação, o som estava embolado, o que prejudicou um pouco o vocal de Taylor, que soava baixo — especialmente nas partes em que cantava de maneira mais contida. O problema foi sendo ajustado ao longo da apresentação; ainda assim, em outro momento, o volume do microfone da caixa da bateria de Jamie Perkins acabou ficando muito alto.

Apesar da responsabilidade de abrir para um gigante do rock and roll e de encarar um estádio tomado por fãs ansiosos pelo início do show do AC/DC, Taylor conseguiu conquistar a plateia não apenas com sua voz, mas também com atitude e carisma. Antes de apresentar Going to Hell, faixa-título do segundo álbum do grupo, ela elogiou o público paulistano e convocou a participação coletiva: “São Paulo! Vocês são incríveis pra caralho, cara! Vamos precisar da ajuda de vocês na próxima música. O sol já se pôs. Está esfriando lá fora. Há uma brisa agradável. Olha todos esses chifres do metal aí!”, disse em referência aos inúmeros adereços luminosos usados pelos fãs no estádio inteiro. Em seguida, completou: Em homenagem ao AC/DC, vou precisar ver cada uma das suas mãos levantadas no ar. Isso é foda demais! Porque esta noite, nós todos vamos pro inferno!”. 

Do repertório apresentado, Since You’re Gone e, principalmente, Witches Burn foram as que mais me cativaram. Mas a surpresa da noite foi a estreia ao vivo de For I Am Death, primeiro single da banda em quatro anos, lançado em 22 de agosto do ano passado.

Em termos de performance, além da própria Taylor Momsen, vale destacar o guitarrista Ben Phillips, tanto pelo peso dos riffs — claramente ancorados no rock dos anos 1970 — quanto pela forma como, em certos momentos, deixam transparecer nuances do grunge e da música alternativa dos anos 90. A escolha dos timbres também contribuiu para reforçar essa identidade sonora ao longo da apresentação.

Ao fim do show, ficou claro que o The Pretty Reckless não estava ali apenas como aquecimento para o AC/DC, mas como uma banda em fase ativa de consolidação. Mesmo com pequenos ajustes técnicos ao longo do set e diante de uma plateia um tanto quanto morna — embora respeitosa e até receptiva —, o grupo entregou um show consistente e deixou sua marca antes da atração principal assumir o palco.

De minha parte, como bem apontado na hora do show pelo amigo e ex-redator da ROADIE CREW, Thiago Rahal Mauro (editor do site Onde o Rock Acontece), a única ressalva recai sobre os refrãos, que poderiam soar mais pegajosos e convincentes. É nesse aspecto que se percebe a ausência de um olhar — e ouvido — mais clínico de um produtor experiente.
Assim que o show do The Pretty Reckless chegou ao fim, a pista do estádio do São Paulo Futebol Clube começou a ganhar um novo contorno, tornando-se visivelmente mais cheia. Naquele momento, emoção e ansiedade já dominavam o ambiente. De rockers mais veteranos, que tiveram a chance de ver o AC/DC em sua estreia no Brasil, há 41 anos, na primeira edição do “Rock in Rio”, a jovens que herdaram o gosto pelo rock and roll dentro de casa, os sorrisos se multiplicavam entre as milhares de pessoas que transformavam o Cícero Pompeu de Toledo no ponto de maior concentração de público no país naquela noite — 72.000 pessoas reunidas por um mesmo propósito: música em alta voltagem.

Quando o relógio marcou nove em ponto, a escuridão que até então ocultava a movimentação no palco — enquanto os últimos ajustes eram feitos — deu lugar a uma explosão de luz vinda dos telões. Como introdução ao espetáculo, um vídeo animado mostrava uma caranga vermelha e endiabrada, com uma pequena estátua de Angus Young na ponta do capô, percorrendo a cidade de São Paulo em alta velocidade rumo ao Morumbi, até invadir as dependências do estádio.

Assim que o possante sinistro “estacionou”, a plateia foi exibida no telão, provocando um barulho ensurdecedor para receber o AC/DC, que entrou fazendo todo mundo pular ao som de If You Want Blood (You’ve Got It), do clássico Highway to Hell, de 1979. Naquele momento, ainda era difícil raciocinar sobre o que estávamos presenciando. Ninguém parecia disposto a pensar em nada, somente pular, agitar, dançar e cantar enquanto Brian Johnson, Angus Young, Stevie Young, Chris Chaney e Matt Laug faziam o estádio pulsar.

Mal o público teve tempo de se recuperar da descarga elétrica do impacto inicial e o impiedoso quinteto já emendou nada menos que Back in Black, faixa-título do segundo álbum mais vendido da história da música — atrás apenas de Thriller, de Michael Jackson. Passado o clássico estrondoso, as luzes se apagaram por alguns instantes; um breve silêncio pairou no ar, permitindo que a plateia tomasse fôlego e, por alguns segundos, “voltasse à Terra”.

Na sequência, surgiu a primeira música do repertório extraída de Power Up: Demon Fire. A reação do público foi mais contida, o que abriu espaço para observar com mais atenção os velhinhos joviais Brian Johnson e Angus Young, parceiros de estrada há quase 50 anos.

Angus, já septuagenário e com os cabelos completamente brancos, pode até não atravessar o palco com a mesma velocidade de outrora, mas continua impressionando por sua energia e disposição, conduzindo o espetáculo com sua presença magnética. Vestido com seus inseparáveis terninho e boné colegial, segue divertindo os fãs com seu característico passinho — herança direta de Chuck Berry e também influenciado pela irreverência performática de Little Richard.

Já Brian Johnson, embora não apresente hoje a mesma potência vocal de outros tempos — algo compreensível após os problemas auditivos que quase o afastaram definitivamente das turnês —, continua sendo aquele velho canastrão debochado que domina o palco com carisma. Entre sorrisos maliciosos, gestos exagerados e provocações bem-humoradas, diverte o público enquanto canta, compensando eventuais limitações com personalidade, entrega e uma conexão genuína com a plateia.

Prosseguindo, a banda disparou outra das antigas, Shot Down in Flames, mais uma retirada de Highway to Hell. Ao final, o estádio inteiro respondeu com o tradicional coro: “Olê, olê, olê, olê / Ei – Ci – Di – Ci”. Animado com a reação, o quinteto retribuiu o carinho com outro clássico, a sempe bem-vinda Thunderstruck. Na sequência, foi a vez de outra pérola de Back in BlackHave A Drink On Me. Em dado momento da execução, rolou um breve e bem sucedido duelo entre a voz de Brian Johnson e a guitarra de Angus, em um daqueles momentos em que provocação e entrosamento caminham lado a lado no palco. Figuraças! O show seguia firme, mas ainda faltava aquele momento “extra”. Então, após Have A Drink on Me, as luzes diminuíram e o sino com o logotipo do AC/DC, que permanecia suspenso no teto da cobertura do palco desde o show do The Pretty Reckless, começou a descer lentamente, acompanhado das primeiras badaladas ecoando pelo estádio. Era o sinal de que chegara a vez da cadenciada Hells Bells. A histeria foi geral, afinal, tratava-se de outro de vários clássicos absolutos do rock. A sequência seguinte, formada por Shot in the Dark, do “novo” trabalho, e Stiff Upper Lip, do disco homônimo de 2000, gerou mais um momento em que o público parecia perder bastante o entusiasmo. Você, caro leitor, pode até alegar que isso é natural quando se trata de músicas menos consagradas, mas, em se tratando de AC/DC, nas duas últimas apresentações a plateia se manteve muito mais animada ao longo do show. Pode-se também argumentar que o público também envelheceu. Concordo, mas havia ainda uma nova geração de fãs presente, com energia suficiente para manter a festa em alta. É verdade que o efeito teria sido ainda maior se, ao invés dessas faixas, tivessem entrado músicas como Moneytalks, Who Made WhoHard As A RockRock ‘n’ Roll Damnation e outras. Por outro lado, ainda falando de músicas menos badaladas, foi muito legal ver no set Riff Raff e a subestimada Sin City, por exemplo. Com um verdadeiro espetáculo de luzes, o grande momento da noite foi Highway to Hell. Nessa, enquanto Angus desfilava pela rampa com sua guitarra, labaredas de fogo eram acionadas e se misturavam com os efeitos de chamas que eram exibidos no telão, dando a impressão de que o “baixinho” estava mesmo caminhando pelo inferno. E, falando em show de iluminação, os chifrinhos de luzes vermelhas da plateia também criaram um efeito coletivo muito bonito — isso sem contar a presença de sinalizadores na pista, algo que desde a última passagem do System of A Down pelo Brasil, em 2025, parece que está se tornando corriqueiro em locais abertos. Também foi divertido observar a plateia formando rodas (!), especialmente em músicas como Shoot to ThrillDirty Deeds Done Dirt Cheap. Enquanto isso, Angus e Brian continuavam se divertindo com o público, principalmente quando se aproximavam ainda mais ao caminhar pela rampa frontal do palco. Na mencionada Sin City, por exemplo, Angus tirou a gravata e a usou para produzir uns ‘noises’ nas cordas da guitarra, incendiando a plateia e arrancando aplausos e gritos de empolgação. A festa estava boa, mas confesso que, em determinados momentos, me bateu uma sensação de nostalgia ao pensar que Malcolm Young, Cliff Williams e Phil Rudd — ou mesmo Chris Slade — não estavam ali no palco. Nada contra os músicos atuais, mas, você leitor, certamente entende esse saudosismo. Obviamente, Matt Laug e o estático Chris Chaney cumprem seu trabalho da forma mais dedicada possível, mas a cozinha atual da banda não possui o mesmo carisma, a presença de palco e a pulsação que sentimos ao ouvir Cliff, Phil e Slade em ação. Stevie Young, assim como seu saudoso tio Malcolm, também é contido no palco, porém não demonstra os mesmos carisma e pegada. O único momento em que ganhou um holofote extra foi ao assumir o riff inicial de Jailbreak, outra das músicas cujo refrão foi cantado em uníssono por todo o estádio. Aproveitando esse que parece ser o bloco das lamentações, não posso deixar de mencionar que senti falta de alguns elementos que sempre deram um tempero especial aos shows do AC/DC, como o divertido strip tease de Angus e ornamentos de palco icônicos, como a boneca inflável gigante em Whole Lotta Rosie — dessa vez apenas exibiram no telão uma boneca de neon. Nesse aspecto, o show de 1996, durante a turnê de Ballbreaker, permanece imbatível.

Voltando à empolgação, ninguém ficou parado ao ouvir mais uma rajada de clássicos como High Voltage, You Shook Me All Night Long e a já mencionada e sempre agitada Whole Lotta Rosie. Outro momento de invejável vitalidade proporcionado por Angus Young veio em Let There Be Rock, quando o emblemático guitarrista se lançou em um solo improvisado que se estendeu por longos minutos, mostrando toda a vitalidade e criatividade que o tornam único. No entanto, a execução acabou se prolongando a ponto de apertar o horário para quem dependia de transporte público, e muitos começaram a deixar o estádio para não correr o risco de ficar pela rua.

Aqueles que permaneceram até o fim ainda se divertiram com T.N.T. e com o encerramento apoteótico de For Those About to Rock (We Salute You), quando os lendários canhões surgiram e iam explodindo de forma ensurdecedora, fechando a primeira das três noites do AC/DC nesta passagem pelo Brasil (única em que a imprensa teve liberação para cobertura) — que, infelizmente, muito provavelmente, poderá ter sido a última do grupo no país.

Ao final, o que ficou evidente é que, mesmo remodelado devido as sentidas ausências, o AC/DC continua capaz de transformar um estádio em uma verdadeira usina de energia e adrenalina. Entre clássicos atemporais, riffs contagiantes e inesquecíveis e momentos de pura interação com o público, a banda reafirmou seu legado e a capacidade de unir gerações pelo poder de seu rock and roll incendiário. Para quem esteve presente, a sensação foi de testemunhar não apenas um show, mas uma celebração da história viva de um dos maiores e mais copiados grupos de todos os tempos.

The Pretty Reckless setlist:
  1. Death By Rock and Roll
  2. Since You’re Gone
  3. Follow Me Down
  4. Only Love Can Save Me Now
  5. For I Am Death (1° vez)
  6. Witches Burn
  7. Make Me Wanna Die
  8. Going to Hell
  9. Heaven Knows
  10. Take Me Down
AC/DC setlist:
  1. If You Want Blood (You’ve Got it)
  2. Back in Black
  3. Demon Fire
  4. Shot Down in Flames
  5. Thunderstruck
  6. Have A Drink On Me
  7. Hells Bells
  8. Shot in the Dark
  9. Stiff Uper Lip
  10. Highway to Hell
  11. Shoot to Thrill
  12. Sin City
  13. Jailbreak
  14. Dirty Deeds Done Dirt Cheap
  15. High Voltage
  16. Riff Raff
  17. You Shook Me All Night Long
  18. Whole Lotta Rosie
  19. Let There Be Rock
  20. T.N.T.
  21. For Those About to Rock (We Salute You)
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