Por Leandro Nogueira Coppi
Fotos: Belmilson Santos
De volta ao Brasil pela terceira vez, nove anos após a última passagem com a turnê do álbum Who You Selling For, os novaiorquinos do The Pretty Reckless foram escalados para abrir todos os shows do AC/DC em São Paulo. A banda vem consolidando seu espaço no rock contemporâneo não apenas pela trajetória, mas também pela parceria recente com os australianos. Desde 2024, o grupo liderado por Taylor Momsen tem sido convidado para abrir as datas da turnê “Power Up Tour”, participando das etapas europeia, norte-americana e, agora, também das fases latino-americanas da excursão.
Com seu logotipo exibido no telão, o The Pretty Reckless subiu ao palco pontualmente às 19h30 e iniciou a apresentação com a faixa-título de seu trabalho mais recente, Death By Rock and Roll, que completou cinco anos no último dia 12 de fevereiro. Em agosto de 2025, a vocalista Taylor Momsen — ex-atriz conhecida por interpretar Cindy Lou Who em Como o Grinch Roubou o Natal (2000) e Jennifer “Jenny” Humphrey na série Gossip Girl — revelou ao canal de YouTube Audacity Check In que as gravações do próximo álbum ainda não estavam concluídas. Segundo ela, a agenda intensa, em razão da turnê com o AC/DC, tem feito com que as sessões ocorram de forma intercalada com os próprios shows.

Do repertório apresentado, Since You’re Gone e, principalmente, Witches Burn foram as que mais me cativaram. Mas a surpresa da noite foi a estreia ao vivo de For I Am Death, primeiro single da banda em quatro anos, lançado em 22 de agosto do ano passado.
Em termos de performance, além da própria Taylor Momsen, vale destacar o guitarrista Ben Phillips, tanto pelo peso dos riffs — claramente ancorados no rock dos anos 1970 — quanto pela forma como, em certos momentos, deixam transparecer nuances do grunge e da música alternativa dos anos 90. A escolha dos timbres também contribuiu para reforçar essa identidade sonora ao longo da apresentação.

Ao fim do show, ficou claro que o The Pretty Reckless não estava ali apenas como aquecimento para o AC/DC, mas como uma banda em fase ativa de consolidação. Mesmo com pequenos ajustes técnicos ao longo do set e diante de uma plateia um tanto quanto morna — embora respeitosa e até receptiva —, o grupo entregou um show consistente e deixou sua marca antes da atração principal assumir o palco.
De minha parte, como bem apontado na hora do show pelo amigo e ex-redator da ROADIE CREW, Thiago Rahal Mauro (editor do site Onde o Rock Acontece), a única ressalva recai sobre os refrãos, que poderiam soar mais pegajosos e convincentes. É nesse aspecto que se percebe a ausência de um olhar — e ouvido — mais clínico de um produtor experiente.
Quando o relógio marcou nove em ponto, a escuridão que até então ocultava a movimentação no palco — enquanto os últimos ajustes eram feitos — deu lugar a uma explosão de luz vinda dos telões. Como introdução ao espetáculo, um vídeo animado mostrava uma caranga vermelha e endiabrada, com uma pequena estátua de Angus Young na ponta do capô, percorrendo a cidade de São Paulo em alta velocidade rumo ao Morumbi, até invadir as dependências do estádio.
Assim que o possante sinistro “estacionou”, a plateia foi exibida no telão, provocando um barulho ensurdecedor para receber o AC/DC, que entrou fazendo todo mundo pular ao som de If You Want Blood (You’ve Got It), do clássico Highway to Hell, de 1979. Naquele momento, ainda era difícil raciocinar sobre o que estávamos presenciando. Ninguém parecia disposto a pensar em nada, somente pular, agitar, dançar e cantar enquanto Brian Johnson, Angus Young, Stevie Young, Chris Chaney e Matt Laug faziam o estádio pulsar.

Mal o público teve tempo de se recuperar da descarga elétrica do impacto inicial e o impiedoso quinteto já emendou nada menos que Back in Black, faixa-título do segundo álbum mais vendido da história da música — atrás apenas de Thriller, de Michael Jackson. Passado o clássico estrondoso, as luzes se apagaram por alguns instantes; um breve silêncio pairou no ar, permitindo que a plateia tomasse fôlego e, por alguns segundos, “voltasse à Terra”.
Na sequência, surgiu a primeira música do repertório extraída de Power Up: Demon Fire. A reação do público foi mais contida, o que abriu espaço para observar com mais atenção os velhinhos joviais Brian Johnson e Angus Young, parceiros de estrada há quase 50 anos.
Angus, já septuagenário e com os cabelos completamente brancos, pode até não atravessar o palco com a mesma velocidade de outrora, mas continua impressionando por sua energia e disposição, conduzindo o espetáculo com sua presença magnética. Vestido com seus inseparáveis terninho e boné colegial, segue divertindo os fãs com seu característico passinho — herança direta de Chuck Berry e também influenciado pela irreverência performática de Little Richard.

Já Brian Johnson, embora não apresente hoje a mesma potência vocal de outros tempos — algo compreensível após os problemas auditivos que quase o afastaram definitivamente das turnês —, continua sendo aquele velho canastrão debochado que domina o palco com carisma. Entre sorrisos maliciosos, gestos exagerados e provocações bem-humoradas, diverte o público enquanto canta, compensando eventuais limitações com personalidade, entrega e uma conexão genuína com a plateia.

O show seguia firme, mas ainda faltava aquele momento “extra”. Então, após Have A Drink on Me, as luzes diminuíram e o sino com o logotipo do AC/DC, que permanecia suspenso no teto da cobertura do palco desde o show do The Pretty Reckless, começou a descer lentamente, acompanhado das primeiras badaladas ecoando pelo estádio. Era o sinal de que chegara a vez da cadenciada Hells Bells. A histeria foi geral, afinal, tratava-se de outro de vários clássicos absolutos do rock.
A sequência seguinte, formada por Shot in the Dark, do “novo” trabalho, e Stiff Upper Lip, do disco homônimo de 2000, gerou mais um momento em que o público parecia perder bastante o entusiasmo. Você, caro leitor, pode até alegar que isso é natural quando se trata de músicas menos consagradas, mas, em se tratando de AC/DC, nas duas últimas apresentações a plateia se manteve muito mais animada ao longo do show.
Pode-se também argumentar que o público também envelheceu. Concordo, mas havia ainda uma nova geração de fãs presente, com energia suficiente para manter a festa em alta. É verdade que o efeito teria sido ainda maior se, ao invés dessas faixas, tivessem entrado músicas como Moneytalks, Who Made Who, Hard As A Rock, Rock ‘n’ Roll Damnation e outras. Por outro lado, ainda falando de músicas menos badaladas, foi muito legal ver no set Riff Raff e a subestimada Sin City, por exemplo.
Com um verdadeiro espetáculo de luzes, o grande momento da noite foi Highway to Hell. Nessa, enquanto Angus desfilava pela rampa com sua guitarra, labaredas de fogo eram acionadas e se misturavam com os efeitos de chamas que eram exibidos no telão, dando a impressão de que o “baixinho” estava mesmo caminhando pelo inferno. E, falando em show de iluminação, os chifrinhos de luzes vermelhas da plateia também criaram um efeito coletivo muito bonito — isso sem contar a presença de sinalizadores na pista, algo que desde a última passagem do System of A Down pelo Brasil, em 2025, parece que está se tornando corriqueiro em locais abertos.
Também foi divertido observar a plateia formando rodas (!), especialmente em músicas como Shoot to Thrill e Dirty Deeds Done Dirt Cheap. Enquanto isso, Angus e Brian continuavam se divertindo com o público, principalmente quando se aproximavam ainda mais ao caminhar pela rampa frontal do palco. Na mencionada Sin City, por exemplo, Angus tirou a gravata e a usou para produzir uns ‘noises’ nas cordas da guitarra, incendiando a plateia e arrancando aplausos e gritos de empolgação.
A festa estava boa, mas confesso que, em determinados momentos, me bateu uma sensação de nostalgia ao pensar que Malcolm Young, Cliff Williams e Phil Rudd — ou mesmo Chris Slade — não estavam ali no palco. Nada contra os músicos atuais, mas, você leitor, certamente entende esse saudosismo. Obviamente, Matt Laug e o estático Chris Chaney cumprem seu trabalho da forma mais dedicada possível, mas a cozinha atual da banda não possui o mesmo carisma, a presença de palco e a pulsação que sentimos ao ouvir Cliff, Phil e Slade em ação.
Voltando à empolgação, ninguém ficou parado ao ouvir mais uma rajada de clássicos como High Voltage, You Shook Me All Night Long e a já mencionada e sempre agitada Whole Lotta Rosie. Outro momento de invejável vitalidade proporcionado por Angus Young veio em Let There Be Rock, quando o emblemático guitarrista se lançou em um solo improvisado que se estendeu por longos minutos, mostrando toda a vitalidade e criatividade que o tornam único. No entanto, a execução acabou se prolongando a ponto de apertar o horário para quem dependia de transporte público, e muitos começaram a deixar o estádio para não correr o risco de ficar pela rua.

Aqueles que permaneceram até o fim ainda se divertiram com T.N.T. e com o encerramento apoteótico de For Those About to Rock (We Salute You), quando os lendários canhões surgiram e iam explodindo de forma ensurdecedora, fechando a primeira das três noites do AC/DC nesta passagem pelo Brasil (única em que a imprensa teve liberação para cobertura) — que, infelizmente, muito provavelmente, poderá ter sido a última do grupo no país.
Ao final, o que ficou evidente é que, mesmo remodelado devido as sentidas ausências, o AC/DC continua capaz de transformar um estádio em uma verdadeira usina de energia e adrenalina. Entre clássicos atemporais, riffs contagiantes e inesquecíveis e momentos de pura interação com o público, a banda reafirmou seu legado e a capacidade de unir gerações pelo poder de seu rock and roll incendiário. Para quem esteve presente, a sensação foi de testemunhar não apenas um show, mas uma celebração da história viva de um dos maiores e mais copiados grupos de todos os tempos.
The Pretty Reckless setlist:
- Death By Rock and Roll
- Since You’re Gone
- Follow Me Down
- Only Love Can Save Me Now
- For I Am Death (1° vez)
- Witches Burn
- Make Me Wanna Die
- Going to Hell
- Heaven Knows
- Take Me Down
AC/DC setlist:
- If You Want Blood (You’ve Got it)
- Back in Black
- Demon Fire
- Shot Down in Flames
- Thunderstruck
- Have A Drink On Me
- Hells Bells
- Shot in the Dark
- Stiff Uper Lip
- Highway to Hell
- Shoot to Thrill
- Sin City
- Jailbreak
- Dirty Deeds Done Dirt Cheap
- High Voltage
- Riff Raff
- You Shook Me All Night Long
- Whole Lotta Rosie
- Let There Be Rock
- T.N.T.
- For Those About to Rock (We Salute You)








