De modo geral, as faixas de Starlust abordam temas cósmicos e de autoconhecimento, com o próprio título sendo um trocadilho de ‘stardust’ (poeira cósmica) e ‘lust’ (desejo, luxúria). Como diria que suas composições conseguem passar estas mensagens? De que forma elas dialogam com os temas?
Helena: Como todas as faixas são instrumentais, a interpretação das pessoas acaba sendo muito livre, mas o que eu quis com os títulos foi tentar evocar o que eu sinto com cada uma delas. Eu sou apaixonada por astronomia e qualquer coisa que envolva cosmos e ciência, Carl Sagan é um dos meus ídolos. E uma das suas falas mais famosas define a Terra como sendo o ‘pálido ponto azul’ e que todos os nossos problemas ou tudo que importa estão ali, naquela pequenez. E Starlust é sobre isso, ela tem momentos ‘épicos’, rápidos, mas também a vulnerabilidade do refrão, um tema melódico que surge com orquestra. E o título é sobre isso, sobre o nosso desejo incansável, nossa busca por um brilho, algo além de nós mesmos; mas mesmo tendo surgido de material de estrelas, nós ainda somos poeira cósmica.
Dreamlike Vision, que você compôs originalmente em 2021, passou por uma ‘nova roupagem’ para entrar no EP. O que exatamente foi essa versão ‘mais madura e contemporânea’?
Helena: Dreamlike Vision foi minha primeira música 100% solo, eu nunca tinha escrito para valer uma música centrada no meu trabalho como guitarrista. Então, na época eu ainda não tinha tanta maturidade musical ou até experiência me gravando e me produzindo no meu home studio. E agora, para esta versão, eu senti que foi um processo diferente, mais profundo, de saber como me gravar melhor, desde mão mesmo, pegada, até como me timbrar melhor também. Alguns detalhes de arranjo que antes eu não tinha pensado foram surgindo, como na parte acústica; acrescentei algumas camadas de violão de nylon que senti que trouxeram mais maturidade pro arranjo, também incluí umas partes no solo principal, tirei algumas coisas que pareciam demais. É realmente uma chance de revisitar e repaginar seu trabalho com outra cabeça, mas tentando entender aonde você queria chegar com o original pra também não perder a essência, senão se tornaria uma música nova.
Com isso em mente, de modo mais geral, como você descreveria sua evolução musical desde que começou a compor músicas autorais?
Helena: O Shamangra em muitos aspectos foi pra mim um divisor de águas e influenciou diretamente a forma como eu entendo arranjos, composição e também a guitarra. Minha relação com o instrumento ficou mais profunda depois que eu passei por um processo tão imersivo assim, de tocar mais de 20 músicas de uma banda, de um guitarrista. Foi a experiência que mais me marcou em um curto período de tempo, foi quando eu mais senti um crescimento em mim não só como guitarrista, mas também como musicista como um todo. Starlust foi escrito antes do convite pro projeto, então um próximo trabalho solo agora com certeza vai ser composto com uma nova mentalidade.
Fora o Shamangra, você também faz parte de outros projetos, como o duo de metal progressivo Curi & Nagagata (com o baterista Alex Curi) e também a banda de metal extremo Sinaya. Como diria que a influência destes seus outros projetos aparece no seu trabalho solo?
Helena: Quando você divide um projeto com outras pessoas, faz parte de uma banda ou até mesmo toca coisas que não são suas originalmente, existe um lado coletivo muito forte, o de ouvir o outro, seja para compor, seja ouvindo o que o compositor fez no original para tentar captar o mais fiel possível. Agora, quando você faz algo 100% solo, pode ser ao mesmo tempo solitário e libertador, porque só depende de você. Se você empaca em uma parte, só depende de você mesma para achar uma solução; mas você também não precisa fazer concessões, a sua palavra é final. Já meu trabalho com Alex no projeto Curi & Nagagata é diferente do meu trabalho solo porque ele não é exatamente música de guitarra. Tem guitarra, tem bateria e é instrumental, mas a nossa composição é focada na música como um todo, é mais holístico musicalmente do que o que aconteceu em Starlust, em que eu coloquei a guitarra na frente de tudo como ponto de partida.
Você teve a chance de estudar com algumas de suas maiores influências, grandes nomes da guitarra, como Tosin Abasi (Animals as Leaders), John Petrucci (Dream Theater), Guthrie Govan, Andy James (Five Finger Death Punch) e Jason Richardson (All that Remains), dentre muitos outros. Qual foi a sensação de poder aprender diretamente de alguns de seus ídolos?
Helena: É uma sensação surreal porque você tem uma relação distante com seus ídolos vendo eles no YouTube, nas redes sociais e em shows. E aí de repente eles estão na sua frente, compartilhando com você o conhecimento que eles têm, os caminhos que eles percorreram até chegar ali e não tem como você não se inspirar profundamente. Guthrie, por exemplo, é uma pessoa cujas aulas vão além de técnica, ele ensina filosofia de vida. A sensação de passar por uma experiência assim é que você quer voltar pro seu quarto e ficar horas e horas tocando, estudando sem parar porque é de tirar o ar você ver músicos tão absurdamente bons tocando na sua frente. Eu falo que eu fiquei mal acostumada porque eu tenho tanta, mas tanta sorte de nos últimos anos ter me cercado dos melhores músicos do mundo, primeiro tendo aula com meus ídolos e agora tocando com Luis e Hugo Mariutti, Aquiles Priester. O nível deles é altíssimo, eu sempre quis me cercar de gente muito, muito boa assim porque você não tem escolha a não ser melhorar cada vez mais, e pra mim a busca eterna é essa, ser uma musicista cada vez melhor, nunca parar de estudar e me aprimorar.
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