Por Leandro Nogueira Coppi
Fotos: Guns N’ Roses (*exceto onde indicado)
Mais de três décadas após dominar o rock mundial, o Guns N’ Roses segue provando que ainda é um fenômeno capaz de mobilizar multidões. Mesmo sem lançar um novo álbum de estúdio desde o longínquo e controverso Chinese Democracy (2008), a banda continua lotando estádios em todas as partes do mundo — e cada passagem por um país transforma-se em verdadeiro acontecimento, com cada passo de Axl Rose e sua gangue rendendo manchetes. Se o cantor, por exemplo, se irrita com um problema técnico no palco e atira o microfone na bateria (como aconteceu dias antes em Buenos Aires — leia aqui), vira notícia; se ele simplesmente tira um tempo para passear em um Shopping (leia aqui), lá está Axl estampando o noticiário em diversos veículos de imprensa que dão importância a esse tipo de assunto.
E nem sempre polêmicas estão sob o controle da banda. Em 2022, durante a passagem do Guns pelo Brasil, uma funcionária do hotel Juma Ópera, em Manaus, foi demitida por filmar Axl Rose saindo da sacada para cumprimentar fãs, contrariando regras do estabelecimento. Apesar de afirmar ser fã — com direito à tatuagem em homenagem ao grupo —, o vídeo acabou custando seu emprego, reforçando a fama de que qualquer passo da banda — dentro ou fora do palco — pode gerar controvérsia.
Dessa vez, em São Paulo, a recente apresentação da turnê “Because What You Want & What You Get Are Two Completely Different Things”, realizada no último dia 25 de outubro, reafirmou a força inesgotável da banda: segundo a produtora Mercury Concerts, 49 mil pessoas lotaram o Allianz Parque, registrando o maior público do estádio no ano. O show de São Paulo foi o segundo do grupo californiano no Brasil desde a turnê anterior, de 2022 — antes, o Guns N’ Roses havia tocado em São José (SC) no dia 21 e ainda seguiria para Curitiba (PR), no dia 28, Cuiabá (MT), no dia 31, e Brasília (DF), no dia 2 de novembro.
Em todas as cinco datas brasileiras, a abertura ficou a cargo do Raimundos, responsável por aquecer o público antes da aguardada entrada dos norte-americanos. Porém, antes de falar sobre o show, é preciso explicar a ausência de fotos profissionais da banda brasileira nesta cobertura. Como de costume, o Guns N’ Roses novamente vetou o credenciamento de fotógrafos e, como alternativa, disponibilizou à imprensa apenas imagens oficiais de sua própria apresentação. Aliás, desde que a fotográfa Katarina Benzova foi demitida em 2023 e posteriormente entrou com uma ação judicial contra a banda e sua equipe de gestão — alegando, no processo protocolado na Justiça da Califórnia (EUA) em 11 de novembro daquele ano, violação de direitos autorais e assédio sexual por parte do empresário do grupo, o brasileiro Fernando Lebeis —, não vem sendo divulgado o nome do (ou da) fotógrafo (a) atualmente responsável pelos registros oficiais.
Seguindo à risca o horário pré-determinado, 18h30, o Raimundos — atualmente formado Digão (vocal e guitarra), único remanescente do line-up clássico, Marquim (guitarra), Jean Moura (baixo) e Caio Cunha (bateria) — iniciou a apresentação com a pesada Os Calo, música que também abre o novo álbum XXX, que, como o título sugere, celebra os 30 anos de carreira da banda brasiliense. O som começou sofrível, a ponto de, ao final da primeira música, o público entoar em coro: “Liga o som, liga o som…”. Sem perder tempo, Digão — que na primeira música apenas cantou — puxou no triângulo Esporrei na Manivela, do segundo álbum Lavô Tá Novo (1995), sendo acompanhado pela plateia antes que a pancadaria hardcore tomasse conta do palco.



Dando sequência, o blues com swing e ‘slide guitar’ de Bad Obsession, primeira a representar o capítulo Use Your Illusion (1992) do Guns N’ Roses, trouxe ao Allianz Parque um clima quase western, cheio de atitude e elegância. Ao final, Axl perguntou se todos estavam bem, comentou que estava sendo ótimo estar de volta e agradeceu pela recepção — para a alegria dos fãs.
Confesso que não sou dos maiores apreciadores de Chinese Democracy, um álbum que, diante de tantos anos de produção e expectativa, acabou deixando muito a desejar. Ainda assim, gosto bastante da faixa-título, que foi a próxima do setlist. Com a pegada de Duff e Slash — que, como se sabe, não participaram das gravações originais —, Chinese… ganha em palco uma nova força, mais suja, viva e visceral do que a versão de estúdio.

Axl também mandou muito bem na performance contagiante do Guns N’ Roses para Human Being, cover do New York Dolls, que acabou sendo uma bela homenagem para o lendário cantor da banda, David Johanssen (também conhecido como Buxter Poindexter), que faleceu em fevereiro deste ano.
Nem parecia que já havia passado três horas, mas o show já caminhava para a reta final com duas músicas de Appetite For Destruction. A primeira delas foi Nightrain e, embora Axl Rose a tenha cantado muito bem, acabou se perdendo um pouco no tempo no início. Talvez não tenha percebido — ou estava de muito bom humor —, já que dessa vez não reclamou de nenhum problema técnico com seu ‘in ear’ (monitor de ouvido). Sorridente, deixou o palco sob aplausos. Todos sabiam o que viria como despedida da banda. Então Slash tocou alguns acordes sugestivos antes de emendar na explosiva Paradise City. De colete branco, Axl entoou os primeiros versos e, ao trilar do apito (que arremessou para a plateia), fez os fãs esquecerem o cansaço das longas três horas e colocou todo mundo para agitar.
Raimundos – setlist:
- Os Calo
- Esporrei Na Manivela
- Reggae do Manêro
- O Pão da Minha Prima
- Me Lambe
- I Saw You Saying (That You Say That You Saw)
- Be A Bá
- Puteiro em João Pessoa
- A Mais Pedida
- Mulher de Fases
- Eu Quero Ver o Oco
Guns N’ Roses – setlist:
- Welcome to the Jungle
- Bad Obsession
- Chinese Democracy
- Pretty Tied Up
- Mr. Brownstone
- It’s So Easy
- The General
- Perhaps
- Slither (cover do Velvet Revolver)
- Live and Let Die (cover do Wings)
- Hard Skool
- Wichita Lineman (cover de Jimmy Webb)
- Sabbath Bloody Sabbath (cover do Black Sabbath)
- Never Say Die (cover do Black Sabbath)
- Estranged
- Yesterday
- Double Talkin’ Jive
- Don’t Cry
- Thunder and Lightning (cover do Thin Lizzy)
- Absurd
- Rocket Queen
- Knockin’ On Heaven’s Door (cover de Bob Dylan)
- You Could Be Mine
- Sweet Child O’ Mine
- Civil War
- November Rain
- This I Love
- Human Being (cover do New York Dolls)
- Nightrain
- Paradise City
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