Para quem viu o The Sisters of Mercy em 2023, havia a expectativa de que, desta vez, a banda se redimisse com uma apresentação mais digna que a duramente criticada naquela ocasião. Como costuma ocorrer em muitos shows do grupo mundo afora, o som baixo e mal equalizado — com a voz de Andrew Eldritch soterrada por outros elementos em volume mais alto —, foi um dos pontos mais apontados por quem, ironicamente, saiu desapontado. E pontuais com o horário marcado para as 22h, Eldrich, Ben Christo — guitarrista, que está completando vinte anos na banda —, Chris Catalyst — a mente por trás da parafernália eletrônica conhecida como Doktor Avalanche — e o novato guitarrista Kai (Kaito Takahashi, ou 海) — cantor, músico e produtor musical japonês, além de líder da banda de J-rock Esprit D’Air — deram início, assim como em 2023, à contagiante Don’t Drive on Ice. Em clima de pub gótico londrino, que se instaurou no nada modesto Tokio Marine, o público ovacionou as quatro silhuetas que balançavam os esqueletos na penumbra de um véu de fumaça que escorria por todo o palco.
Desde o início, o som estava notavelmente muito melhor regulado do que naquele ano. O mesmo se pode dizer em relação ao volume mais equilibrado da voz de Eldritch. De sobretudo e careca, o cantor, que se tornou a maior referência para diversos outros no gothic rock e no doom metal, estava lembrando bastante o Conde Orlok, vampiro antagonista do clássico filme de terror mudo Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922), por causa da fumaça que o engolia e só possibilitava ao público ver seus contornos.
Ainda comparando, se na apresentação anterior — como já mencionei — o público havia reclamado, desta vez sou eu quem reclama do próprio público. Mesmo diante de um show superior, a plateia pouco se movia: não agitava, não dançava, apenas aplaudia e gritava nos intervalos entre as músicas.
Há 35 anos sem um novo álbum de estúdio que suceda os clássicos First and Last and Always (1985), Floodland (1987) e Vision Thing (1990), a banda de Leeds (ING) preparou um repertório equilibrado, recheado de clássicos e de singles “soltos” (ou não), antigos e recentes, como a citada Don’t Drive on Ice. Entre as músicas mais ‘novas’, destacaram-se I Will Call You, But Genevieve e Crash and Burn, herança essa do projeto The Sisterhood, cujas músicas de seu único álbum, Gift (1986), costumam aparecer com frequência nos shows da banda.

Já entre os clássicos, é impossível não citar pérolas divinas como More — minha preferida (e a de muitos fãs também), além de uma das mais dramáticas de minha geração —, Ribbons, Dominion/Mother Russia, Marian e Temple of Love, que encerrou a primeira parte do show. No entanto, é um pecado deixarem de fora músicas como Walk Away, Black Planet e No Time to Cry, esta última originalmente gravada no debut First and Last and Always, e que voltou aos holofotes em 2025 na trilha do primeiro episódio da nova temporada da série “Wandinha”, da Netflix.
Também me desaponta ver o bpm ser acelerado em músicas como o hit Detonation Boulevard, que, dessa forma, soa entediante ao vivo. Seria culpa de Chris Catalyst, espécie de Krang — o vilão do universo das Tartarugas Ninja —, que comanda a Doktor Avalache como o cérebro alienígena que opera o exoesqueleto robótico dos Utroms? Apesar de Mr. Eldritch, mesmo não falando um “A” com a plateia, ser sempre o destaque com seu inconfundível vozeirão barítono grave, sombrio e declamado, além de sua performance sempre hipnótica, cabe um elogio também à dupla Christo e Kai, que agita bastante.

Sisters of Mercy – setlist:
Don’t Drive on Ice
Crash and Burn
Ribbons
Doctor Jeep / Detonation Boulevard
More
I Will Call You
Alice
Dominion / Mother Russia
Summer
Giving Ground (cover do The Sisterhood)
Marian
But Genevieve
Eyes of Caligula
Here
Quantum Baby
On the Beach
When I’m on Fire
Temple of Love
(Bis)
Never Land (A Fragment)
Lucretia My Reflection
This Corrosion
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