Uma das coisas que chamavam a atenção na apresentação do Scorpions era o palco, com um visual que remetia bastante aos cenários vistos em shows dos anos 80, especialmente pelo praticavel da bateria com escadas laterais e o grande número de luzes. Um detalhe foi notado ao longo do festival: vários canhões de luz posicionados abaixo dos telões laterais, protegidos com o que parecia ser apenas plástico contra a chuva. No entanto, durante a performance do Scorpions, o público percebeu que aqueles equipamentos faziam parte da cenografia da banda. O que parecia ser apenas uma proteção improvisada, na verdade, eram redomas transparentes moldadas como válvulas gigantes de amplificadores, criando um efeito visual muito interessante.

Na última passagem do Scorpions pelo Brasil, na edição anterior do Monsters of Rock, como já mencionado, a banda havia lançado há poucos meses seu mais recente álbum de estúdio: o ótimo e energético Rock Believer (2022). Naquela ocasião, o grupo incluiu várias músicas do disco no repertório. Desta vez, porém, apenas Gas in the Tank, que veio a seguir, entrou no setlist.
Na primeira pausa, após Make it Real, a preocupação do público – que antes pairava sobre Mikkey -, voltou-se para Klaus Leine. Prestes a completar 77 anos em maio, o vocalista está visivelmente fragilizado fisicamente após a complexa cirurgia na coluna à qual foi submetido no início de 2024. Sua performance estava mais contida, e seus movimentos no palco demonstravam lentidão e cuidado. Nos momentos de chuva, ao se dirigir até a rampa para cantar mais próximo dos fãs na pista, dava até vontade de dizer à ele: “Senhorzinho, sai da chuva para não cair e não se resfriar”. Em um dos closes do telão, chamou a atenção o modo como ele segurava o pedestal do microfone – por vezes, parecia até se apoiar nele. As mãos de Klaus tremiam, o que gerou apreensão em quem percebeu, de que pudesse haver algo mais sério com a saúde do cantor, como o Mal de Parkinson – doença que atinge nomes como Ozzy Osbourne, Glenn Tipton (Judas Priest) e que levou Pat Torpey, ex-baterista do Mr. Big, em 2018. Ficamos na torcida para que não seja o caso.

Por sua vez, Rudolf ainda vai precisar envelhecer bastante para aparentar ser esse senhor também de 76 anos. Sua forma física e a energia e vitalidade que demonstra no palco são algo a ser estudado. Aliás, o que ele e Paweł, que estava usando uma bandana com os logotipos do festival e das sete bandas desta edição, estavam se divertindo no palco era indescritível. A mesma energia era sentida no público, que era arrebatado por clássicos como a citada Make it Real, a indispensável The Zoo e a pesada Coast to Coast.

Já que o show celebrava inacreditáveis seis décadas do Scorpions, nada melhor do que a surpresa que o grupo preparou para o público após a fulminante rajada oitentista: um medley com músicas de seus discos lançados nos anos 70. Foi inacreditável ouvir trechos de Top of the Bill, faixa presente no álbum In Trance (1975); Steamrock Fever, de Taken By Force (1977); Speedy’s Coming, de Fly to the Rainbow (1974); e Catch Your Train, de Virgin Killer (1976).
Como se essa agradável viagem no tempo já não bastasse para surpreender a plateia, a banda agitou ainda mais o Allianz Parque com a explosiva Bad Boys Running Wild, e emocionou o público com duas baladas de seu álbum mais bem-sucedido, Crazy World: Send Me An Angel e – com com direito a Klaus Meine errando o começo da letra – a indefectível Wind of Change. Sobre esta última, vale lembrar: quando o Scorpions a tocou no festival em 2023, Meine dedicou a música ao povo ucraniano. Dois anos se passaram, e a Ucrânia continua imersa em um descabido conflito com a Russia – instigado pelo déspota Vladimir Putin.

Depois do bloco dedicado aos isqueiros – ops, às luzes dos celulares -, Meine, Schenker, Jabs, Mąciwoda e Dee voltaram a fazer o estádio pulsar, desta vez com Loving You Sunday Morning e I’m Leaving You. Em seguida, Meine e os responsáveis pelas doze cordas finas do Scorpions deixaram o palco, abrindo espaço para a ‘rhythm section’ de Mąciwoda e Dee, em um momento que culminou em um daqueles solos “derruba-queixo” do baterista sueco.
E por falar em bateria, foi emocionante quando Klaus Meine trocou seu colete que trazia nas costas o nome do álbum Love at First Sting por outro estampando a frase “Rock and Roll Forever”, com o mesmo tamanho e formatação da tatuagem que o saudoso baterista da banda, James Kottak, falecido em 2024, tinha nas costas.

Dali para o final, o show do Scorpions foi só de hits: Tease Me Please Me, Big City Nights e, para alegria de muitos — e o “não aguento mais essa” de outros — , Still Loving You, a imortal balada que até um extraterrestre conhece. Para o bis, com direito a um enorme escorpião inflável com ferrão luminoso no palco, mais dois clássicos para encerrar, com majestade, a edição de 30 anos do Monsters of Rock: Blackout e Rock You Like a Hurricane. O show da banda, em comemoração aos seus 60 anos de história ininterrupta, trouxe uma reflexão sobre a longevidade e a relevância do grupo no cenário musical, com clássicos que atravessaram gerações. Algo para poucos, como eles e os Stones.
Quanto ao Monsters of Rock, o festival se manteve fiel à sua proposta de proporcionar ao público uma imersão no melhor do rock e heavy metal, com grandes apresentações e um ambiente que celebra tanto a história quanto a continuidade do gênero, consolidando sua conexão com os fãs e seu foco em grandes nomes da música.

Confira a cobertura dos outros shows do Monsters of Rock
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