A pressão é sempre intensa. Criar uma banda de black metal naquela que é considerada a nação do black metal, é sempre uma tarefa complicada, pois o padrão comparativo tende a ser bem prejudicial para as novas bandas. Não bastasse fazer black metal na Noruega, e sofrer comparações instantâneas com gente como MAYHEM, EMPEROR, DARKTHRONE, SATYRICON e outros de igual grandeza, o trio de Kristiansand (Noruega) denominado BLOT ainda acrescenta uma complicação extra em seu som: o folk/viking. Mas é justamente ao juntar esse elemento ‘complicador’ que Jan Åge Lindeland (vocal), Bengt Orstad (guitarra) e Ruben Gentékos (bateria) conseguem se destacar e se diferenciar dos seus pares, apesar de agora somarem nomes como BATHORY, ENSLAVED, e tantos outros gigantes nas comparações. “Quando começamos o BLOT, já estávamos muito certos do som que queríamos tocar, mas levou um tempo para chegarmos nele”, Lindeland comentou em entrevista exclusiva para a ROADIE CREW. “Nós ainda sentimos muito orgulho do nosso EP [Blot, 2009], mas o álbum, Ilddyrking [2015] foi um passo adiante, assim como o próximo álbum será”.
Claro que muito dessa sonoridade foi lapidada a partir das velhas influências, algo que a banda também não tem problema em assumir: “BATHORY e DISSECTION exerceram certa influência sobre nós, elas são duas das maiores bandas do gênero, mas precisamos também mencionar o EMPEROR e o TAAKE”. Mas, nem apenas o black metal seria usado para forjar as armas do BLOT: “Como somos interessados na velha música folk/viking tradicional e nos instrumentos usados nelas, foi natural incorporar essas características na nossa música. Ao darmos início ao BLOT, como o próprio nome indica, a intenção era justamente mesclar black metal com música folk tradicional”. E, se alguém acha que essa mistura não é lá muito original, isso tampouco era a intenção da banda: “Ruben e Bengt escrevem as músicas, e não é necessariamente o desejo de criar algo novo que os impulsiona a criar música. O que realmente desejam é criar música que se encaixe na ideia no BLOT”.
Se a ideia do som e da própria concepção da banda permanecem firmes desde os primeiros dias, outros aspectos acabaram mudando com o tempo. “Levar o BLOT para os palcos tem sido incrível”, comenta Lindeland, falando sobre o aspecto de maior mudança na carreira dos noruegueses, “nós começamos mais como uma banda de estúdio, mas ao vermos o quão bem as coisas funcionavam ao vivo, e a maneira como as plateias nos recebiam, foi incrível”. E isso não tem a ver com inexperiência, como o vocalista explica, “todos nós somos (ou fomos) de outras bandas de metal, então, tem sido algo como esperávamos”.
O próximo passo da jornada ao vivo dos noruegueses será justamente no Brasil, onde a banda toca pela primeira vez, durante o tradicional festival Thorhammerfest. “Musicalmente, nós estamos preparados”, entrega o empolgado vocalista, “e daremos o nosso melhor para levar até vocês uma dose intensa de black metal norueguês com influência folk”. E, para os novos fãs que a banda busca encontrar no Brasil, uma boa surpresa: “atualmente, estamos trabalhando em um novo disco, que deverá ser lançado ainda em 2018. Uma ou duas músicas novas deverão aparecer nos shows aí”, ele revela.
Sobre a oportunidade de tocar no Thorhammerfest, ele acrescenta: “tocamos no Midgardsblot, na Noruega em agosto de 2016, e foi uma experiência incrível. Antes do Thorhammerfest, esse foi o único festival de viking em que tocamos, mas temos que dizer que é um dos melhores festivais que já participamos. Os festivais tendem a ter uma atmosfera e um ambiente único que você nem sempre consegue em um show “solo”. Mas, hey, nós amamos estar no palco trazendo nossa música para o público, não importa qual seja o formato”. E se for no Brasil, melhor ainda, certo? “Nós realmente estamos ansiosos para levar um pouco da cultura norueguesa para o Brasil, e ainda mais para conhecer alguns dos nossos fãs brasileiros! Então, nos vemos no Thorhammerfest!”.
A quarta passagem do Radio Moscow pelo Brasil é um convite a todos que curtem o bom e velho rock’n’roll. Serão cinco shows – dias 27 (Palmas), 28 (Florianópolis), 29 (São Paulo) e 31 de março (Aldeia Velha) e dia 1º de abril (Rio de Janeiro) – para Parker Griggs (guitarra e vocal), Anthony Meier (baixo) e Paul Marrone (bateria) mostrarem a força do quinto disco, o ótimo “New Beginnings” (2017), e confirmar que a bandeira do estilo está mesmo em boas mãos. Formado em 2003, o power trio americano é um dos principais representantes de uma geração que nada contra a maré ao abraçar as raízes fincadas nos anos 60 e 70, mas sem soar datada. O grupo traz para os dias de hoje um passado revigorado, e não faltam improvisos, longos solos de guitarra, feeling e talento em cima do palco. Prepare-se para alta doses ao vivo de música boa e visceral, e aumente o volume – porque vale a pena conferir também “Radio Moscow” (2007), “Brain Cycles” (2009), “The Great Escape of Leslie Magnafuzz” (2011) e “Magical Dirt” (2014) – enquanto devora as palavras do líder Griggs, que respondeu já em solo brasileiro às perguntas que enviamos para ele.
Creio que vocês já estejam bem familiarizados com o público do Brasil, então talvez não haja mais aquele sentimento de novidade. Mas há algo especial nesta nova turnê pelo país?Parker Griggs: É sempre uma nova experiência para nós, porque é mais uma oportunidade de conhecer pessoas novas e interessantes, fazer novos amigos e ouvir novas e incríveis bandas brasileiras. Estamos muito empolgados com o festival na floresta que muitos de nossos amigos brasileiros têm falando tanto (N.R.: o Aldeia Rock Festival, em Aldeia Velha, no estado do Rio de Janeiro). Aliás, é uma felicidade saber que alguns dos grupos com os quais dividimos o palco em turnês passadas também estarão no festival, como Quarto Astral e The Mountain Session, por exemplo.
Perguntei porque a novidade está na apresentação em Palmas, no Tocantins. Não é um lugar muito comum para shows de rock, diga-se. Você está ciente disso?Parker: Ouvi dizer que faremos o primeiro show internacional de rock na cidade de Palmas, e isso é absolutamente incrível! Falaram para mim que os promotores locais realmente se esforçaram para que isso acontecesse, então espero que mais bandas comecem a tocar por lá depois de nós. É sempre bom saber que há uma nova cena em ascensão e que, a despeito das dificuldades, um público mais jovem está se conectado à música que fazemos e ao rock’n’roll em geral.
Dito isso, quais são suas lembranças das experiências anteriores (N.R.: o Radio Moscow fez turnês no Brasil em 2014, duas vezes, e 2016).Parker: As lembranças são sempre as mais doces, porque aqui as pessoas são muito amáveis e nos tratam bem demais. É difícil expressar todos os sentimentos em poucas palavras, mas eu diria que estamos sinceramente agradecidos por todo o amor e energia positiva que recebemos daqueles que encontramos nos shows, incluindo as bandas com as quais tocamos e fazemos jams.
“New Beginnings” é o primeiro disco do Radio Moscow pela Century Media, então o que mais mudou para a banda desde que assinou com o selo?Parker: Nós já excursionamos na América do Norte e na Europa para promover o novo álbum, mas depois desta viagem pela América do Sul (N.R.: o trio passa também por Argentina, Uruguai e Chile) voltaremos à Europa para mais festivais e outros shows como atração principal, então ainda estamos tentando entender essa mudança como um todo. No entanto, o simples fato de termos assinado com uma gravadora maior tem sido encarado por muitos como uma mudança no jogo, e isso tem mesmo ajudado na divulgação da banda e do “New Beginnings”. E também foi bom porque a Abraxas, nosso agente aqui, funciona como gravadora e pôde fazer um acordo de licenciamento com a Century Media para lançar e distribuir nossos discos na América do Sul. Curiosamente, no passado isso não era possível por causa da política de nossa antiga gravadora (N.R.: Alive Records). De fato, acreditamos que as coisas estão mudando para melhor.
Imagino que o nome do novo álbum está relacionado a essa nova fase…Parker: Sim, definitivamente! É o segundo trabalho com a atual formação, e Paul, Anthony e eu sentimos que estamos crescendo e ficando cada vez mais conectados musicalmente à medida que o tempo vai passando (N.R.: Marrone, que havia passado pela banda em 2010, entrou definitivamente em 2012, e Meier, em 2013). Eles estão contribuindo mais no processo de composição, e o fato de escutarmos os mesmos discos em nossas casas torna mais fácil para todos nós fazer jams, criar, gravar e tocar.
É natural que as pessoas relacionem o Radio Moscow a você, mas devo dizer que as baquetas finalmente encontrarem seu dono em Paul Marrone. A química está mesmo muito boa atualmente, não?Parker: E está ficando melhor a cada dia! Paul é um amigo de longa data, e sou fã dele como músico. Ele toca baixo no Alpine Fuzz Society, banda que tenho com Mario Rubalcaba, baterista do Off! e do Earthless, então estamos constantemente fazendo jams e conversando sobre música. Quando vi pela primeira vez o Anthony tocando, tive certeza de que se encaixaria perfeitamente no Radio Moscow. E ele mostrou ser muito profissional logo nas primeiras jams e nos primeiros shows, mostrou estar interessado em tocar quantas músicas do Radio Moscow fossem possíveis ao mesmo tempo em que adicionou um toque pessoal nas linhas de baixo e nos riffs. Paul e Anthony já fizeram parte ou ainda tocam em alguns grupos de progressivo psicodélico na região de San Diego, como Astra, Sacri Monti e Birth, então eles são definitivamente pessoas com as quais você deve formar uma banda. Sou um felizardo por ter essas caras ao meu lado nos últimos cinco anos ou mais.
Minha primeira impressão ao ouvir “New Beginnings” foi que você optou por uma abordagem mais forte nos vocais, que estão mais rasgados, como se você tivesse tomado uma garrafa de uísque antes das gravações. Foi intencional?Parker: (rindo) Talvez, porque você pode incluir muitos cigarros aí (risos). Mas estou tentando largar gradualmente os dois (risos). Nós também tentamos criar uma atmosfera mais sombria e obscura no novo álbum, certamente uma abordagem mais pesada em nossa música, e provavelmente isso é um reflexo desses tempos sombrios que estamos vivendo.
As guitarras são outro ponto alto do disco, com vários riffs e solos lancinantes e cheios de feeling. O trabalho ficou ainda melhor que o de “Magical Dirt”, e canções como “Driftin’” e “Last to Know” são grandes exemplos disso.Parker: Muito obrigado, cara! Bem, eu não sei como chego a isso, porque não realmente não faço mais nada o dia inteiro a não ser tocar guitarra, então encaro o que você falou como um elogio, mesmo. Sim, com certeza essas músicas são algumas das que têm um trabalho de guitarra muito mais intenso. E acredito que nosso talento para compor também melhorou bastante.
E creio que a principal inspiração para “No One Knows Where They’ve Been” foi Jimi Hendrix, não?Parker: Sim, porque Hendrix é sempre uma influência. Neste caso, a música foi originalmente composta por Paul e gravada pelo Cosmic Wheels, sua outra banda. Decidimos fazer uma versão dela para “New Beginnings”, e pelo visto posso dizer que funcionou muito bem.
Ainda sobre o novo álbum, preciso citar as minhas duas favoritas. “Pick Up the Pieces” soa como se tivesse sido composta ao vivo e com a banda em cima do palco, enquanto “Dreams” deve ficar ainda melhor nos shows, com aqueles solos ganhando continuação numa jam.Parker: Nós adoramos fazem jams. O fato de não haver regras a serem seguidas durante um improviso nos leva a diferentes direções dentro de um mesmo tema musical, assim exploramos nossos limites criativos e algumas vezes até mesmo os ultrapassamos. Ao adicionar uma jam a uma música construída de maneira regular, você enriquece essa música. Gostamos de riffs fortes e pesados, de versos e refrãos pegajosos, mas também gostamos de criar esses interlúdios com jams nas quais o ouvinte ficará imerso nas texturas musicais mágicas que tentamos elaborar. Quanto mais rápido o ouvinte mergulhar nessa jam que é uma viagem psicodélica, mais rápido ele volta à realidade com um soco dado por nossos pesados riffs e pelo andamento da canção, que segue em frente!
Esta é uma pergunta que tenho feito a alguns músicos: os últimos anos têm apresentado um sem-número de bandas inspiradas naquelas que começaram tudo. Algumas são mais bluesy, e outras, mais pesadas, mas o foco é o rock’n’roll clássico. Radio Moscow, Kadavar, Vintage Trouble, The Vintage Caravan, Blues Pills, Rival Sons, Inglorious e por aí vai… Como você explicaria esse, digamos, movimento?Parker: Acredito que as pessoas cansaram daquele som superproduzido dos anos 80 e de parte dos anos 90, então elas começaram a criar e a tocar música mais orgânica, analógica mesmo, inspirada em seus ídolos das décadas de 60 e 70. E foi graças à internet que, de repente, vários grupos underground oriundos dessa época de ouro do rock’n’roll começaram a ganhar visibilidade, assim nós fomos cavar mais e mais fundo para descobrir muitas joias que estavam enterradas. E as compartilhamos com os amigos. Assim surgiu essa nova geração, da qual nós e todas essas bandas que você mencionou fazemos parte. Isso aconteceu em vários países, incluindo o Brasil, porque vocês possuem uma cena de rock retrô muito rica. A luz acendeu sob nossas cabeças, então pensamos: ‘Podemos fazer parte da história do rock’n’roll, podemos continuar trilhando aquele caminho que foi esquecido no fim da década de 70.’ O que quero dizer é que continuamos escrevendo a história, porque não é apenas venerar o que foi feito nos anos 60 e 70. Temos nossas influências e referências, mas estamos sempre olhando para o futuro.
E a natureza está seguindo o seu curso de diversas maneiras. Motörhead, Black Sabbath e Rush se foram, o Slayer está se despedindo… Em mais cinco ou dez anos, as bandas que crescemos ouvindo não estarão mais na ativa. Que tipo de futuro você espera para a sua geração? É uma transição normal ou uma enorme responsabilidade?Parker: Se é isso que precisa acontecer, então vamos deixar acontecer. Houve a época da música clássica, com Mozart, Bach e por aí vai, mas então as aulas de violino e piano foram deixadas para trás porque os garotos começaram a pedir um violão de Natal a seus pais. Aí veio a guitarra, e o rock’n’roll estabeleceu padrões completamente novos na produção e no consumo de música. Isso durou várias décadas, mas hoje um garoto com um laptop pode ser tornar a próxima estrela da música. Isso deveria fazer sentido? (risos)
“Modas vêm e vão, mas a ideia de um grupo de garotos se juntando numa garagem para tocar o tipo de música que faz os vizinhos chamar a polícia… Isso é para sempre.” A frase está no Facebook do Radio Moscow, então, por mais que a música esteja seguindo um caminho estranho, há esperança enquanto os mais jovens ainda estão descobrindo Jimi Hendrix e The Allman Brothers Band, por exemplo.Parker: E acredito que o rock’n’roll é mesmo sobre isso, cara! É autoexpressão através da música, exatamente como fizeram Jimi Hendrix e Allman Brothers, que você mencionou. O desejo de realizar mudanças positivas é o que dá forma ao rock’n’roll, é o que deixa a sua chama viva e acesa!
Bom, eu tenho de trazer esse assunto à tona, mas fique à vontade para não responder. Nem todos sabem que dois dos integrantes originais do Blues Pills fizeram parte do Radio Moscow. Você gostaria de dar a sua versão para o que levou Zach Anderson e Cory Berry (N.R.: baixista e baterista, respectivamente) a abandonarem a banda durante um show?Parker: Se você não se importar, eu prefiro realmente não falar sobre isso (N.R.: em 2011, Griggs e Berry foram às vias de fato durante uma apresentação, e o líder do Radio Moscow foi atingido na cabeça por uma guitarra atirada contra ele).
Para terminar, quais são seus cinco discos favoritos?Parker: É difícil listar e até mesmo lembrar todos, mas citaria “Blues from Laurel Canyon” (1968), de John Mayall, e todos os álbuns do Fleetwood Mac enquanto Peter Green ainda estava na banda. Há bons discos de algumas bandas underground dos anos 60 e 70, como H.P. Lovecraft, T2, Master’s Apprentice, Jerusalem e Bull Angus, e também sou grande fã de Pappo’s Blues, da Argentina, e de Lanny Gordin, guitarrista brasileiro.
É isso, Parker, e obrigado pela entrevista.Parker: Muito obrigado a você, cara! Espero vê-lo e também todos os fãs nos shows! Adoramos o Brasil! Cuidem-se!
A entrevista de capa da ed. #229 da ROADIE CREW leva o amigo leitor ao mundo de ØMNI, o novo disco do Angra, através do papo com Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli. Mas a conversa com os dois músicos foi longa e frutífera, então as seis páginas da revista precisavam de uma continuação para que o conceito do álbum pudesse ser absorvido da melhor forma possível. Aqui você encontra todo o restante do bate-papo sobre o nono trabalho de estúdio da banda – completada por Fabio Lione (vocal), Marcelo Barbosa (guitarras) e Bruno Valverde (bateria) – e outros assuntos igualmente interessantes. Portanto, o segredo é simples: devore as páginas da revista, depois mergulhe no site. De preferência ouvindo as 11 músicas de ØMNI em ‘loooping’. Mãos à obra e boa leitura.
ØMNI é um disco conceitual que mistura realidade e ficção de maneira mais complexa do que se imagina. Então podemos começar explicando a históriaFelipe Andreoli: É um conceito idealizado pelo Rafael, baseado em várias pesquisas que tem feito. Ele criou o conceito unindo todos os elementos, como geometria sagrada, ficção científica e viagem no tempo, e unindo também os elementos às histórias de outros discos do Angra, mais precisamente Holy Land, Rebirth e Temple of Shadows, para juntar todos eles numa só história. O Rafael pega várias doutrinas, bate no liquidificador da cabeça dele e encontra uma coerência entre todas elas. Isso pode não refletir a religião de cada um dentro da banda, porque temos crenças diferentes, mas no fim faz muito sentido. É uma mistura de religião, filosofia e ciência que criou uma história muito legal, e uma que não acho impossível vivermos ainda neste século. Como nos comunicarmos com pessoas de outras dimensões ou de outras épocas. São situações intocáveis para nós agora, mas que estão sendo estudadas no campo da ciência, astrofísica, astronomia e física quântica. Ele escreveu todas as letras, que contam diferentes partes dessa história, então é o cara ideal para falar como o conceito se desenvolveu.
E como foi o desenvolvimento da ideia que culminou no conceito do ØMNI?Rafael Bittencourt: Eu li muita coisa sobre hinduísmo e meditação, por exemplo. À época, lembro-me que a banda estava divulgando o Aqua e depois teve problemas de formação, então eu anotava várias coisas num caderno, mas era algo muito pessoal. Quando fizemos o Secret Garden, optei por outro tipo de história, mais realista e pontual, sem caráter épico. Quando começamos a trabalhar no ØMNI e as músicas estavam tomando forma, peguei meus cadernos porque em todas as épocas criativas eu resgato as ideias que tenho guardadas, minhas linhas de raciocínio. A todo instante estou fazendo desenhos e anotações, até em bloquinhos de hotel, e guardo tudo, afinal, não sei o que pode valer a pena mais para frente. (N.R.: Rafael mostra várias folhas com imagens e frases, incluindo alguns numa folha do Radisson Hotels & Resorts) Este aqui tem uma reflexão sobre como fazer um cruzamento de ideias, então desenhei esse esquadro, escrevi quatro ideias e fui criando um sistema geométrico para que as ideias se cruzassem de maneira mais ou menos equilibrada. Este outro tem um quadrante como se fosse Yin e Yang, e separei dentro dele tudo o que não se vê e não se pode tocar; tudo o que se vê e o que se pode tocar; e tudo o que não se vê, mas se pode tocar. Aí você pensa na emoção, que é abstrata e se aproxima da realidade, e por aí vai. Esses papéis e cadernos são a minha linha condutora quando reflito sobre algo, se quero falar de amor ou se vejo na TV alguém que atropelou uma mulher e fugiu, porque imagino dentro desse quadrante o que eu falaria para essa pessoa. Quando faço isso, todos os assuntos dentro do quadrante se conectam porque dou uma linha condutora a eles. A conexão existe na hora de bolar um título, e o nome vira uma síntese. Não usei esses exemplos no ØMNI, que é um sistema que vinha criando faz bastante tempo, mas tem a ver com a metodologia de trabalho que elaboro na minha mente e vou usando para ter assuntos. Tenho algo chamado diálogos internos, porque converso muito comigo mesmo, mas imaginando que estou falando com outra pessoa. Por exemplo, estou com raiva e fico horas conversando com essa pessoa, mas chega um momento em que ela mostra que eu não estou tão certo como imaginava. O diálogo fica tão real que começo a tentar encontrar um ponto de equilíbrio, e o Sistema ØMNI é isso: tentar sair de você mesmo, ficar fora do seu lobo frontal, do seu sistema de crenças e da sua identidade, para enxergar o que está orbitando ao seu redor. E quando encontro outro ponto de vista dentro de determinada situação, um ponto de vista que não é meu, a resolução é incontestável. A resposta é imparcial.
Dentro de tudo isso, a maneira como foram incluídos Shadow Hunter e Carolina IV acabou mesmo fazendo sentido.Rafael: Sim, porque o Shadow Hunter, como viajante do tempo, participou da descoberta da Arca de Salomão, um objeto cheio de segredos e mistérios. É a Arca da Aliança que Hitler e Napoleão tentaram encontrar. Até Indiana Jones foi atrás dela (risos) (N.R.: assista ao primeiro filme da saga, “Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida”, de 1981). Com ela, os Templários adquiriram o conhecimento para desenvolver a nova arquitetura, a mesma das igrejas góticas, um novo sistema socioeconômico, com a criação dos bancos, e outras coisas que, de certa forma, tiraram a Europa da idade das trevas e, 400 anos depois, culminaram na Renascença. Ou seja, por que não usar o Shadow Hunter como personagem em ØMNI? Com Carolina IV existe um paralelo na história com a nova e iminente civilização, porque a consciência superior nos coloca no papel dos índios quando os europeus foram conquistar as Américas. A civilização ocidental como é hoje vai se enxergar como os índios no exato momento em que isso acontecer. Tem o ímpeto da descoberta. É um paralelo com a própria banda, porque ØMNI representa o que ela é hoje: abriu caminho, tem uma história de heroísmo e é precursora em várias coisas. O Angra ainda não é um grande herói porque continua navegando, e nós não temos como saber qual é o fim dessa história, mas é uma das caravelas que desbravou o mar para chegar à Europa, aos Estados Unidos e ao resto do mundo. Estamos levando de volta para os nossos colonizadores a grande mistura cultural e racial que somos hoje.
E que bibliografia você indica para quem deseja se aprofundar no conceito do disco?Rafael: As pessoas podem achar que sou maluco ou arrogante, mas a verdade é que sou aficionado por encontrar ideias que conectem quatro formas do conhecimento humano: filosofia, ciência, arte e teologia, a fé em várias religiões. Seria uma dica suficiente para começar a pesquisar, mas na ciência um cara que fala muito bem para nós, leigos, e eu sou um leigo, é o Carl Sagan (N.R.: respeitado cientista falecido em 1996, responsável pela série “Cosmos: Uma Viagem Pessoal”, de 1980, e autor de mais de 20 livros, incluindo “Contato”, de 1985 e que originou o filme de mesmo nome em 1997). Na religião há várias coisas que podem ser lidas, como as obras dos grandes mestres da humanidade, e posso citar Paramahansa Yogananda (N.R.: guru indiano) e Deepak Chopra (N.R.: médico e escritor indiano), que misturam filosofia e religião. Estudei estética e um pouco de história da arquitetura, então vale ir atrás do impacto da arte na sociedade, de como ela se revela nos movimentos gótico, renascentista e barroco, por exemplo. Eu não leio coisas que são difíceis, como trabalhos de historiadores que seguem por um caminho complicado, e recentemente tenho lido menos porque o tempo está cada vez mais escasso. Mas tenho assistido a muitas séries, principalmente da Netflix que misturam muito esses assuntos, e pesquiso muito na internet. Isso sempre gera um insight, então busco no Google se já existe algo relacionado ao assunto, começo a discernir o que no meu insight é diferente dos assuntos que já existem. Se eu penso num roteiro, pesquiso e encontro coisas semelhantes, mas não exatamente o que pensei, assisto ao que é diferente, ou leio, e vou encontrando meu próprio caminho. Tenho livros de todos os tipos de assunto, mas posso indicar “Pilares da Terra”, do Ken Follett, que mistura as histórias da arte e da religião, fala da construção das igreja góticas e lida com momentos de ignorância moral e de sabedoria da humanidade; “A Arte da Guerra” (N.R.: de Sun Tzu), que vez ou outra pego para pesquisar; “Uma Breve História do Tempo”, do Stephen Hawking; e “Breve História de Quase Tudo”, de Bill Bryson, cientista que pega várias teorias e as explica. Ele vai do Big Bang ao homo sapiens, e a minha história no ØMNI vai do homo sapiens à transcendência. Misturei essas coisas e tudo o que vejo pela frente. Às vezes caio em reflexão até ouvindo um funk, aí essa reflexão emenda em outra coisa… O lance é não reprimir os sentidos. ‘Ah, isso é uma merda. Ah, isso é ruim.’ Não. Acredito que o artista é uma antena de captação, recebe as vibrações ao seu redor e tem de convertê-las em alguma coisa.
Sobre a questão da arrogância, creio que não é por aí. O artista não pode deixar de fazer algo porque pode parecer complexo demais, e me refiro ao aspecto lírico. Isso não é subestimar quem ouve, mas podar a criatividade.Rafael: Concordo completamente. Inclusive, estava conversando ontem sobre isso com uns amigos aqui em casa. Nós mostramos a capa do ØMNI, feita pelo Daniel Martin Diaz, um artista que me comove. Eu chorei quando vi o desenho, que já existia, não foi feito para o CD. Liguei e perguntei se gostaria de fazer a capa do disco, e ele disse que faria uns dois ou três desenhos originais para eu ver. Disse que gostaria daquele, porque é o que melhor representa o conceito, por uma série de razões. Poderia passar umas duas horas falando sobre essa ilustração, porque ela mexe com meus lados emocional e racional. Não estou brincando quando digo que chorei quando vi a arte, mas aí as pessoas vêm e dizem que não gostaram da capa. Tudo bem não gostar, não é disso que estou falando. Quando um artista apresenta algo, ele faz isso para mexer com o público, mas hoje as pessoas estão tão acostumadas com arte superficial que acabam fazendo um julgamento artificial. É uma pena, porque se trata de um ciclo de ignorância, de falta de educação artística e de educação geral. A verdade é que não temos cultura no Brasil, e muitas vezes o público de heavy metal quer o óbvio porque isso conforta as suas inseguranças. Não quer algo que mexa com a sua expectativa, apenas que ela seja atendida, porque o público não quer mudar. Não está pronto para receber algo novo, que mexa com ele e o faça amadurecer. O ØMNI é um disco que veio para mexer com esse tipo de público, porque tem um sabor diferente, é algo que ele nunca provou, então é preciso mastigar um pouco mais para sentir esse sabor. Quando um artista lança uma nova peça nas artes plásticas, as pessoas ficam pensando ‘Puta merda, não entendi’, então é preciso que elas façam o trabalho de tentar entender. No heavy metal não existe esse trabalho, porque o cara não entende e já parte para o ‘não gostei’. Isso é falta de cultura.
A capa não tem espadas e dragões, mas acredito que o fã do Angra pode se acostumar com ela. É o que acontece desde o início, até mesmo com o nome da banda.
Rafael: Sim, desde o começou eu gosto de provocar. As pessoas falaram ‘Porra, banda com nome de praia?’ quando ouviram (risos), mas Angra é uma deusa na nossa mitologia. Além disso, é uma palavra que tem pronúncia forte no mundo todo. Quando colocamos ritmos brasileiros, a primeira reação foi negativa, mas aos poucos fomos ensinando ao público que aquilo fazia sentido, porque é possível recorrer às próprias raízes para ser original. Não é possível ser original copiando Steve Vai ou Yngwie Malmsteen, então minhas raízes podem deixar meu som espontâneo e consistente, afinal, a consistência está na minha identidade. Fizemos o carnaval com o Carlinhos Brown em 2016 para afirmar isso, e o público não entendeu. Mas é normal. Há quem se diga cristão, mas não sabe perdoar e é preconceituoso. O ser humano é incoerente, não sabe praticar as próprias crenças, colocar em prática a teoria em que acredita, então muitas vezes se comporta da maneira que ele mesmo considera errada, mas é tão natural e inconsciente que não percebe. Paciência. O que temos de fazer? Acreditar e levantar a bandeira do que estamos fazendo, que é arte, cultura, reflexão, transformação de padrões, amadurecimento nosso e das pessoas. Fazer isso é nossa obrigação.
Voltando à realidade criada para o Sistema ØMNI, dá para dizer que a relação com a ficção científica é mais plausível do que se possa imaginar?
Rafael: As dimensões a que me refiro são bolhas que ficam flutuando no multiverso e que poderão ser abertas por quem está no futuro, e as pessoas que precisam de ajuda estão transitando e são viajantes do tempo. Elas procuram por uma consciência coletiva em busca da salvação. Quando sairmos da consciência individual para a coletiva, poderemos nos comunicar com outros seres humanos, mortos ou vivos. Vamos abrir as portas das dimensões do multiverso, e a comunicação com os universos paralelos vai deixar de ser fantasia. Recentemente, li uma reportagem sobre um cara que se afogou e ficou 35 minutos embaixo d’água, ou seja, estava morto. Levado a superfície por uma onda, ele bateu com o peito num pedaço de madeira de um barco e, com o impacto fazendo-o expelir água dos pulmões, voltou à vida. Como explicar isso? Ele disse que viu uma luz que o chamava, mas não sentiu algo como ‘Meu Deus, estou morrendo! Estou deixando minha realidade, meus filhos, minhas coisas.’ Ele sentiu que estava retornando, e isso deu a ele uma sensação de conforto. Baseei-me também nesse relato para chegar a uma conclusão que por enquanto é fantástica e uma profecia, mas que vou enfatizar até que se prove o contrário.
Ou seja, se o futuro se mostra assustador, há uma mensagem positiva em ØMNI.
Rafael: Sempre espero acontecer algo que vai mudar as coisas para melhor. Isso me faz bem, e acho que cultivar isso faria bem para qualquer um. Quem está vencendo a guerra para manter a cortina fechada quer uma humanidade desesperada, sem esperança, porque é isso que mantém a cortina fechada.
Inclusive na questão do efeito borboleta, não estragando ainda mais o presente e o futuro ao mexer no passado.Felipe: Sim, porque de certa forma a viagem no tempo pode ser uma tecnologia pacificadora. Seria uma maneira de os seres humanos mais evoluídos conseguirem dar o alerta, olhando para o futuro para corrigir o passado.
Rafael: Vamos entender a suspeita, o medo de quando ficamos sozinhos, o diálogo interno e uma série de coisas que achamos ser apenas nosso pensamento e imaginação. Teremos uma sensação de conforto e de retorno.
E por que 2046 para o Sistema ØMNI acontecer?Rafael: Não tem uma explicação, realmente, porque é intuitivo. Quando faço imersão criativa, a meditação sobre os assuntos que resultam na criação de um sistema, alguns assuntos surgem intuitivamente. A mente gira em torno desse sistema até o momento em que passa a andar sozinha, e é aí que eu me ausento para apenas observar o que está acontecendo, como se assistisse a filmes passando nessa linha de raciocínio. 2046 surgiu quando fechei os olhos para imaginar quando tudo poderia acontecer. Vejo isso como uma profecia, mas o ano tem uma coerência com a viagem dos dias de hoje até o momento em que a consciência entra em ação, e ela já está em andamento. É uma questão do momento em que ela estará suficientemente amadurecida para deixar de ser ficção e virar realidade. O que falta para isso? Acredito que vamos viver uma revolução de novos tipos de fontes de energia, politicamente falando, porque o poder no mundo está nas mãos de quem detém o petróleo e das empresas que dependem do petróleo. É uma revolução que já está tomando forma. Acredito que estamos diante de um sistema de economia virtual que vai mudar o mundo, porque os bitcoins e afins serão responsáveis por uma transformação muito grande ao lado da deep web (N.R.: conteúdo da internet inacessível para ferramentas de busca porque está em redes que não têm ligação entre elas), porque na deep web há grandes grupos que querem revolucionar o sistema financeiro, fazer uma virada econômica e geopolítica. O poder estará nas moedas virtuais, num primeiro momento, e depois nas fontes de energia, então imaginei que levaria uns 30 anos para tudo isso acontecer. Seriam dez anos para o surgimento de uma nova economia, dez anos de uma guerra de resistência e mais dez anos para a consolidação dessa nova economia. Começando em 2016, quando comecei a estruturar o conceito, acredito que seja uma linha bem razoável.
E como a frase ‘flying missiles, atomic bombs and the second coming of Jesus’, de Jimmy Swaggart e que está no fim de War Horns, se encaixa no conceito (N.R.: a frase faz parte de um discurso que virou o disco Flying Missiles, Atomic Bombs and the Second Coming of Jesus Christ, lançado pelo pastor em 1972)?Rafael: (rindo) Isso foi ideia do Jens Bogren, porque War Horns é praticamente inteira feita com partes da Bíblia. Usei trechos do Apocalipse e de São Mateus, e apenas o refrão foi escrito por mim. Há algo muito inquietante para mim dentro do Apocalipse, a descrição de uma situação estrelar que acontece de cinco mil em cinco mil anos, e João escreveu que no apocalipse isso aconteceria. É um assunto que entrou na minha cabeça e me deixou sem dormir, me fez ficar pesquisando. João fala da Sétima Trombeta, e a Festa das Trombetas é a virada do ano judeu, que em 2017 foi em 23 de setembro, mesma época do solstício de outono (N.R.: a data seria mais uma apontando o fim do mundo e a volta de Jesus Cristo). Foi também a época em que estávamos terminando o disco, quando a sétima trombeta seria tocada, ou seja, o apocalipse estava de fato começando. Há uma teoria de que todos os anúncios de fim do mundo, como 21 de dezembro 2012, acontecem porque o Vaticano não quer pânico com o verdadeiro início do apocalipse, e em tese ele já começou. E sem alarde para não ser vulgarizado, virar filme da Disney, coisa de Hollywood.
Como foi a reação da banda no momento em que o Rafael chegou com o conceito?Felipe: Nós começamos o trabalho pelo instrumental, em algum camarim na Alemanha durante a turnê que fizemos com a Tarja em 2016. Foi quando esboçamos as primeiras ideias, porque o clima era muito bom, Bruno, Marcelo e o Fabio estavam com muita vontade de compor. Ao longo dos meses fomos juntando material, mas foi a partir de março de 2017 que passamos a nos reunir periodicamente para transformar as ideias em músicas. E mais o legal do ØMNI é o aspecto coletivo, porque nos discos anteriores nós trabalhamos com bateria eletrônica para programar partes de músicas ou músicas completas, então depois as mostrávamos para o resto do pessoal. Desta vez, não. O Bruno estava o tempo inteiro na bateria, e tudo surgiu de uma maneira muito orgânica, com a banda fazendo jams. Alguém chegava com uma ideia, um colocava algo, outro adicionava mais alguma coisa, e o resultado final não lembrava em nada a ideia inicial. Muitas vezes descartávamos a original em favor de sugestões que vieram depois, porque eram mais legais, e o tempo todo nós estávamos tocando juntos. Isso fez uma enorme diferença, especialmente na hora de conectar as partes, porque no som mais progressivo, por exemplo, há o risco de a música parecer uma colagem e várias canções que não se conversam. Por estarmos num processo orgânico, as partes eram derivadas uma da outra e assim por diante, então tivemos sucesso ao transformar mesmo o material mais complicado em músicas coerentes, com começo, meio e fim.
Felipe e Jens Bogren
E acredito que o Jens Bogren captura muito bem esse lado orgânico. Ao contrário de outros produtores conceituados, como Andy Sneap, suas produções não têm aquela bateria gritando para todo mundo que está trigada.Felipe: E como já conhecíamos o método de trabalho dele, chegamos ao estúdio mais bem preparados para receber o seu input. Fizemos uma pré-produção maior do que a do Secret Garden exatamente porque já sabíamos da importância desse input, então chegamos sabendo muito bem as músicas, porque as tocamos durante bastante tempo. Além de ser um produtor que tira um som fantástico, o Jens é também um cara muito musical. Mais do que isso, ele entende o som do Angra, enquanto alguns produtores poderiam achar bizarras algumas coisas que fazemos. Tem produtor na Europa que simplesmente não entende o lance brasileiro, aí quer esconder apenas porque não faz parte do seu universo. O Jens abraça essas ideias e nos provoca para irmos além, explorando e ousando mais. E agora ele também já sabia o que esperar de nós como banda, ou seja, o conceito musical, e também como indivíduos, a maneira como cada um trabalha. No fim, o som do ØMNI é ainda mais orgânico do que o do disco anterior porque, por exemplo, o Bruno toca demais e tem uma pegada fantástica, então seria um pecado esconder o som da bateria com um monte de trigger. Um monte de banda europeia tem um som de bumbo que parece um canhão, parece que vai derrubar a parede da sala a cada bumbada (risos), mas não é isso que estávamos buscando. Queríamos um som bonito, pesado e moderno, mas sem perder a característica do instrumento. A bateria é o instrumento que mais sofre com o lance digital, mas hoje em dia o mercado tem como praxe editar tudo no grid, ou seja, pegar todas as peças e colocá-las milimetricamente no tempo, como se a bateria tivesse sido programada. O Jens é absolutamente contra isso, e nós também, por isso você consegue ouvir a música do Angra respirar. Se em determinada canção ele tocou um pouco mais para frente ou para trás, não importa. As flutuações de tempo na música são respeitadas no processo que adotamos, e acredito que isso transparece no resultado final.
E faz todo sentido, uma vez que é assim que acontece ao vivo.Felipe: Exatamente! É o mais próximo que se pode chegar da vibração de uma banda tocando ao vivo. No estúdio os instrumentos são gravados separadamente, então seria inviável capturar nos moldes atuais exatamente como o Angra soa ao vivo. Mas é definitivamente o mais perto que chegamos, com os artifícios de hoje em dia, da banda interpretando a música, não apenas a colagem das partes gravadas por cada um.
Como o Rafael é hoje o único integrante da formação original, o Felipe é segundo membro com mais tempo de casa. O que mudou na relação interna?Felipe: Mudou muita coisa, com certeza. O Kiko era um cara muito ativo na banda como um todo, não apenas no processo de composição, e nos últimos anos a banda vinha sendo gerida por nós três e o Paulo Baron, nosso empresário. Tivemos de suprir essa carga de trabalho e criação do Kiko, e a divisão ficou para mim e o Rafael. Foi um processo legal, porque tenho a oportunidade de participar e estar mais presente, de contribuir cada vez mais. O Kiko participou em War Horns, que tem uma parte escrita por ele, mas foi uma contribuição pequena por causa de seus compromissos com o Megadeth. O Kiko é um cara que compõe muito sozinho, faz aquele processo de gravar com bateria eletrônica e depois mostrar as músicas prontas ou bem adiantadas para a banda, e agora ficou tudo muito concentrado em mim, no Rafael e no Bruno, porque moramos em São Paulo. Sempre que pôde, o Marcelo veio de Brasília passar um tempo conosco, e o Fabio ficou um grande período participando da composição. Ele escreveu a grande maioria das melodias vocais. A ausência do Kiko deixou o Angra mais unido como banda, então a criação ficou mais bem dividida entre os integrantes. Mais democrática, porque deu a todos a oportunidade de se expressar no disco. Em uma banda com mais de 25 anos de carreira, é difícil um membro que entrou há dois anos participar do processo de composição. Geralmente é algo fechado, centrado nos líderes ou fundadores, porque é assim que funciona. São as regras do jogo, e imagino que no Megadeth deve ser assim, centrado no Dave Mustaine, embora o Kiko tenha contribuído em algumas músicas. Mas não no Angra. Queremos o input dos novos integrantes, que o trabalho reflita também suas influências e ideias e que eles se sintam parte do processo. E o disco se beneficia dessa riqueza, dessa variedade.
Rafael: Felizmente, ainda tenho parceiros de confiança, talento e competência para continuar trabalhando. Eu prefiro trabalhar em equipe, porque empaco individualmente. Sou bom em grupo e me preparei para isso, então ter alguém como o Felipe é uma bênção, porque eu trabalhava muito mais com o Kiko, naturalmente. Agora tenho o Felipe ao lado, e ele é um cara extremamente motivado e entusiasmado na hora de colocar suas ideias.
Creio que o tempo na estrada azeitou o processo no estúdio, mas tem o lado de trabalhar com um novo guitarrista depois de tanto tempo.Rafael: O Marcelo foi uma sucessão infinita de surpresas. Eu já sabia que era dedicado, mas ele superou minhas expectativas, porque não sabia que era tanto. Todos os dias, realmente todos os dias o cara acorda e começa a tocar (risos). Ele fica horas estudando, com metrônomo e tal, e me ajudou a recuperar uma motivação para também estudar. Como guitarrista, havia aquele pensamento de ‘Será que ele está à altura do Kiko?’, nos sentidos criativo, técnico e versátil. O Marcelo superou minhas expectativas também nisso, porque apareceu com um solo mais bonito do que o outro, e era a peça que faltava em termos de empatia. Ele é um cara leve no convívio, tranquilo e sempre de bom humor, e no palco eu vejo nele um escudo muito forte, uma solidez emocional e espiritual. É muito consistente como profissional, tem ideias de marketing e uma visão de mercado de como o Angra deve ou não deve ser. Eu não poderia estar mais feliz com a atual formação, porque ela representa como estou hoje. Os caras têm muito gás, mas não são uns loucos. São focados e disciplinados, e isso é muito importante.
Como a história de ØMNI passa por outros três discos, fiz um exercício de imaginação musical para buscar referências. Por exemplo, Caveman poderia entrar em Holy Land, e Light of Transcendence tem a ver com Temple of Shadows. Ela tem algo da bateria de Spread Your Fire…Rafael: É verdade. Eu tenho um molde que uso desde o Angels Cry. O disco do Angra começa com um speed metal, depois vem uma canção mid-tempo, um heavy metal mais lento, mas que não chega a ser uma balada, que pode ser a terceira ou quarta faixa. Só que depois da balada vem uma música mais prog ou étnica, com ritmos brasileiros, e na sequência volta o speed metal, que é para o álbum não ficar leve. Vem outra balada, que pode ser mais pop ou metal, e novamente um speed metal com toques clássicos e misturas brasileiras. É uma moldura que gosto de utilizar, mas nem sempre temos material suficiente para completá-la. Quando temos, no entanto, o CD é um sucesso. Só que não adianta apenas copiar o material antigo, é preciso ter inspiração para renová-lo. Posso dizer que ØMNI é a minha obra-prima, o que não significa que fiz o disco sozinho. É porque conseguir aprimorar a minha capacidade de criar estruturas eficazes e de desenvolver a ideia dos integrantes. Além das minhas ideias, consigo apropriar as ideias dos outros para a estética do Angra.
Isso tem a ver com o fato de você ser o único membro da formação original?Rafael: Sem dúvida, e isso me dá a propriedade de dizer que sou o único que realmente sabe, porque uma opinião minha nesse sentido podia ser questionada quando o Kiko estava na banda. Em termos de estrutura, desenvolvimento de ideias, direcionamento e criação de conceito, eu sei que me aprimorei porque venho fazendo isso há 26 anos. É por isso que digo que o ØMNI é minha obra-prima, porque pude guiar todas as ideias para que elas se transformassem num disco cem por cento do Angra. As pessoas podem ouvir e falar ‘Isso é Angra!’, então acho que sou o cara que pode adaptar qualquer ideia ao som da banda, seja uma batucada de samba ou um riff de thrash metal. O que fiz agora foi pegar as ideias e convertê-las para linguagens que já haviam sido usadas no Angra, porque eu não queria que as pessoas estranhassem a nova formação, afinal, hoje temos o Marcelo na banda. Quando o Felipe trazia um riff mais thrash metal, eu tinha de fazer com que soasse uma novidade no sistema que o fã reconhece. É um sistema padrão que precisa ser uma surpresa, e o tempo todo eu tive que pensar em satisfazer a expectativa do fã e surpreendê-lo ao mesmo tempo. Existe uma linha fina que separa isso. Às vezes você satisfaz o fã, mas não inova absolutamente nada. Em outras, inova tanto que acaba gerando uma decepção. É minha obra-prima porque encontrei o equilíbrio entre até onde poderíamos inovar e experimentar e até onde o estilo do Angra deveria ser preservado, continuar intocável.
O Angra já teve Milton Nascimento como convidado especial, então não é surpresa alguém fora do heavy metal. Mas agora tem a Sandy, e a patrulha do metal infelizmente pode não receber muito bem a ideia. Pouco importa se Black Widow’s Web é uma das melhores músicas do disco.Rafael: A Sandy foi convidada porque havia um propósito artístico. A música é uma história, e ela desempenhou um papel que tem um lado ingênuo da mulher, o lado que ingenuamente cativa e seduz. A Sandy fez isso a vida inteira, porque faz parte da vida do brasileiro e da cultura do país. Ela canta desde que era uma criança fofa, mas hoje é um ícone, e para nós é uma grande honra tê-la nos ajudando a contar a história. Existe o propósito artístico e existe o privilégio de ter alguém da nobreza da Sandy. Quanto às possíveis críticas, hoje, com a internet, a comunicação com os fãs ficou melhor e dá para saber imediatamente quais são suas expectativas. Isso é até uma base para criar, mas em hipótese alguma vamos ficar reféns dessas expectativas, por causa do que conversamos antes. O perfil psicológico do fã do Angra é de alguém muito conservador, fechado para novas ideias, inflexível e inseguro, o que gera uma dificuldade para aceitar a quebra de paradigmas. Não vamos nos render a isso, porque nosso papel é educá-lo musicalmente, fazer com que ele amadureça e cresça culturalmente. É assim que vai apreciar com mais abrangência a música e a arte em geral.
Eu iria perguntar exatamente se a música foi pensada para duas vozes femininas, não que vocês já tivessem os nomes em mente.Felipe: Sim, precisávamos desse contraste. Não funcionaria se cada uma cantasse toda a música. A Alissa também canta limpo, mas a sua voz é naturalmente mais agressiva. A Sandy tem uma voz doce, perfeita para o momento em que a Viúva Negra está seduzindo o parceiro. Depois, quando chega a hora de partir para cima e matá-lo, tinha que ser a Alissa. Foi justamente para servir à música que as convidamos.
Mas vocês pensaram em outros nomes que não fossem as duas? E foi o Fabio quem convidou a Alissa, certo?Felipe: Sim, e a história é a seguinte: estávamos no 70000 Tons of Metal, e a Alissa estava com o Arch Enemy e também com o Kamelot, banda com a qual já havia feito algumas turnês, justamente quando ela conheceu o Fabio. Nós ficamos bem impressionados com a presença e o talento da Alissa, então pensamos em compor algo para ela cantar. Tínhamos os riffs que casavam bem com o estilo dela, então terminamos a música com Alissa em mente. Nunca cogitamos outro nome, então teríamos de pensar o que faríamos com a música se ela dissesse não (risos). A Sandy veio um pouco depois, quando fizemos a introdução de Black Widow’s Web, porque vimos que precisaríamos de alguém como ela. E a Sandy também foi nossa primeira opção, então teríamos de correr atrás de uma cantora do mesmo estilo caso ela tivesse recusado.
No fim das contas, o contraste não foi apenas das vozes, mas artístico, de nomes com backgrounds completamente diferentes. O que é ótimo, diga-se.Felipe: Sim, e também acho legal esse lado inusitado. Se eu pedisse o nome de dez cantoras, acredito que ninguém acertaria. Honestamente, admiro muito a Sandy. Acompanho sua carreira solo e vejo que ela faz tudo com muita qualidade e zelo. Para mim, é uma honra tê-la num disco do Angra.
É também uma questão de liberdade artística.Felipe: É parte da função do artista ser quem vai mostrar ao público o que é vanguarda, mostrar qual é a sua expressão artística naquele momento, e em nenhum momento nos sentimos pressionados a repetir o sucesso do passado usando as mesmas fórmulas. É muito difícil replicar o sentimento de descoberta, mas é o que tentamos trazer em todo álbum: ‘Olha o que os caras fizeram dessa vez! Que coisa nova legal!’ Podemos fazer isso andando para frente, sem repetir as fórmulas do passado, assim ficamos satisfeitos como artistas, respeitando e contemplando as raízes do Angra.
Todos nós somos fãs, mas quem tem de ficar satisfeito em primeiro lugar é o artista. Não dá agradar a todos. Tem fã do Kiss que não ouve mais a banda porque o Peter Criss não está mais lá, só que ele não tem mais condições de tocar.Felipe: Exatamente porque o fã busca aquela sensação de quando viu o Peter Criss tocar há muitos e muitos anos. Não dá para culpá-lo por isso. Eu também queria de volta a sensação que tive quando escutei o Ride the Lightning pela primeira vez, mas eu sei que o Metallica mudou, andou para frente. Não tem como esperar que algo como aquilo se repita. Se a pessoa não quer se abrir para ouvir o que o Metallica tem para oferecer hoje, pode ficar em casa curtindo os discos antigos, sem dar a mínima para o que eles estão fazendo. O que eu acho chato é ficar forçando a barra, tipo ‘Porra, vocês não fizeram um álbum como o Master of Puppets! Estou chateado!’ Cara, eles já fizeram. O disco está aí, você pode ouvir quantas vezes quiser até morrer (risos). E mesmo se fizesse hoje um trabalho exatamente nos moldes do Master of Puppets, o Metallica continuaria sendo criticado, afinal, não seria o Masters of Puppets. Mas quem reclama não lembra que não tem mais os 12, 13 ou 15 anos da primeira vez que ouviu o disco. É mesmo uma sensação muito difícil de replicar, e eu tenho uma teoria: se você não ouve e assimila determinadas bandas quando está formando sua personalidade, vai ser muito complicado gostar delas depois de velho e cricri. Para mim, por exemplo, é difícil aceitar o Accept, que não fez parte da minha formação musical, da mesma maneira que uma pessoa que cresceu ouvindo a banda. As referências são diferentes.
Especificamente sobre o Angra, o curioso é que o primeiro álbum já foi um marco dentro do estilo. E o Angels Cry foi sucedido por um divisor de águas, porque o Holy Land mostra que não é qualquer banda que pode inserir no trabalho a cultura musical do próprio país, e isso inclui convidados fora do heavy metal. O Brasil tem essa singularidade.Felipe: Com certeza, e tentamos tirar o máximo de proveito disso. Antes de começarmos a fazer o Temple of Shadows, e acredito que tenha sido assim com o Holy Land, estávamos com a sensação do dever cumprido por termos feito um disco que, apesar de gostarmos dele, foi bem calculado. Então tivemos liberdade para pirar, para sermos completamente espontâneos no processo de criação. Aconteceu a mesma coisa agora, pudemos colocar em práticas essas ideias malucas, como ter vocal gutural pela primeira vez num disco do Angra e convidar a Sandy, porque é uma participação inusitada. É preciso lembrar que o Milton Nascimento tem status de lenda, é inquestionável… O cara que questiona a presença dele não conhece história. Se for falar bobagem por aí, é melhor pensar bem, porque está falando do Milton Nascimento. Embora seja uma artista consolidada, porque é impossível alguém no Brasil não conhecê-la, já que ela canta na TV desde os cinco anos de idade, a Sandy não está no patamar de lenda. Ou seja, é mais arriscado. Quando o Rafael veio com a ideia, admito que fiquei como cachorro que entorta a cabeça para o lado (risos), mas não precisei pensar nem cinco segundos para perceber que fazia sentido. Não apenas pelo contexto da música, mas por ser a Sandy. Precisamos aproveitar que nosso legado permite uma ida por caminhos diferentes, mas também o fato de termos acesso a essas pessoas, porque elas respeitam o Angra e sua trajetória, o que a banda representa no país e lá fora. Levamos a nossa cultura para o mundo inteiro, e é por isso que em festivais Brasil afora, ao encontramos com as bandas mais pop e diferentes possíveis, percebemos que o respeito é gigante. Tenho certeza de que qualquer artista dessas bandas aceitaria um convite nosso, porque enxergam a importância do Angra.
Rafael: O fã do Angra também é fã de outros grupos do estilo, e o fã de power metal e metal melódico tem aquele estereótipo um pouco conservador. E esses estilos não são dos mais transgressores dentro do rock pesado, como são thrash metal e o punk ou até mesmo o rock alternativo e o grunge, então tentar quebrar paradigmas no power metal é uma dificuldade. Você basicamente se comunica com um público que, por opção, prefere ser conservador. E isso é um direito que ele tem, chegar em casa e tomar um Toddy quentinho feito pela vovó enquanto ouve Angra e Nightwish (risos). É assim que vai dormir feliz, achando que a vida é fantasia. Como somos uma banda brasileira, acredito que temos a responsabilidade de não iludir o fã. Por exemplo, a música Angels Cry fala de crianças que passam fome na rua, porque eu não queria falar de castelos, dragões e um mundo belo. Seria hipocrisia. Não moro na Inglaterra, minha realidade é diferente. Essa pegada sempre esteve presente nas nossas letras, mesmo com metáforas e analogias que dizem respeito à realidade do ser humano e à sua crueldade, uma reflexão sobre injustiças, desigualdade social e incoerências. Nossas burrices, e me incluo quando falo nossas.
E a percepção geral é que esse caminho sempre é mais bem aceito lá fora.Rafael: Eu vou além, porque é mais bem aceito nos países desenvolvidos, curiosamente. Nos países do Terceiro Mundo é a mesma coisa. Quando digo que faltam cultura e educação no Brasil, não estou falando dos analfabetos. Falo da grande massa, de uma classe media que não tem consciência e civilidade, não sabe qual é o seu papel como individuo e cidadão, qual é o papel do país no mundo em relação a mudanças. Isso faz do Brasil um país ignorante, que não sabe avaliar para onde está indo a sua cultura, porque há 30 anos as rádios tocavam Tom Jobim e Elis Regina. Essa era a nossa música pop. Gilberto Gil era a música mais prostituída que tínhamos, e havia Amado Batista e Roberto Carlos nas rádios AM. Aí falamos ‘Puta merda, bons tempos’. O samba no Brasil sempre foi foda, mas hoje você não consegue mais assistir a um show com artistas do calibre dos icônicos, porque não há mais interesse. Estamos vivendo um período de trevas na cultura brasileira, então temos de dar educação ao povo para que ele tenha critério e faça um bom julgamento. Como o povo não tem educação, a música acaba nivelada por baixo. A gravadora tenta vender o novo disco da Alcione, mas ninguém quer saber, ninguém compra o CD, então ela lança o que está aí, porque precisa vender.
E está ficando cada vez mais difícil, porque essa falta de cultura faz com que a discussão não seja mais artística e musical. Ninguém quer saber se os dois nomes da moda, Anitta e Pabllo Vittar, têm talento. Os focos são a bunda de uma e a orientação sexual do outro.Rafael: A música popular sempre foi, desde a era do rádio, música, tendência e comportamento. Os Beatles surgiram vendendo também comportamento, aqueles quatro caras bem comportados e de terninho, mas depois foram um dos pilares da revolução hippie e das grandes transformações comportamentais na sociedade. Mas eles fizeram isso com a música tendo peso e relevância. O Kiss é comportamento com Gene Simmons cuspindo sangue, mas também é música. Hoje, a questão comportamental é mesmo muito mais forte que a música, então é preciso encontrar um equilíbrio entre conceito e conteúdo. O mundo precisa voltar a ser criativo.
Você falou que Z.I.T.O. está ligado ao conceito de ØMNI, que houve situações estranhas durante a gravação de Holy Land. Por exemplo?Rafael: Acho que o Kiko lembra vagamente, talvez o Ricardo e o Luís lembrem, e o Andre levou um choque durante uma tempestade, por isso pode ser o que menos recorde de algo. Mas foi um dos mais afetados com a transformação que vivemos lá. Ficamos isolados no campo, não havia TV, telefone, fax e, obviamente, internet. Estávamos num local cheio de pedras, cheio de magnetismo, então os raios caíam com toda força. O Andre estava tocando teclado, que ficava numa estante de ferro, quando caiu um raio fortíssimo que chacoalhou a eletricidade. Ficamos sem luz por um tempo, e o Andre apareceu na sala completamente tonto e atônito, porque tinha recebido uma descarga elétrica. Aquilo me assustou bastante, porque havia perdido recentemente um amigo eletrocutado.
Para você, Felipe, como foi a experiência de tocar com o Geoff Tate, especialmente para apresentar a íntegra do Operation: Mindcrime, para mim o maior disco conceitual da história do heavy metal.Felipe: Cara, foi surreal. Estava na Som Livre resolvendo uma lance de edição das minhas músicas quando recebi um SMS do Geoff. Eu o conheci em 2004, quando o Angra tocou no Metal All Stars, na Bolívia e em São Paulo, e trocamos contato. Ele pediu que eu montasse uma banda aqui, pois iria tocar no Brasil, e foi uma felicidade enorme ter recebido o convite porque pude escolher músicos que são extremamente competentes e também amigos. Mais do que isso, pessoas que, assim como eu, são fãs incondicionais e que cresceram ouvindo o Operation: Mindcrime. O Geoff é um cara muito legal, e a convivência foi tão legal que também vou fazer a turnê na Europa com ele. Farei dois shows por noite nas 27 datas europeias do Angra, primeiro com o Geoff, depois com o Angra. Turno dobrado (risos). Será bem pesado, mas vai valer a pena. Tocaremos novamente o Operation: Mindcrime na íntegra, e concordo com você: é certamente o disco conceitual mais animal já feito no heavy metal. Também vão rolar outras músicas da carreira dele, e com o Angra poderei tocar as músicas novas, o que dá uma injeção de ânimo. Há canções que eu toco há exatos 17 anos em todo show, então é uma sensação bacana ter material novo para apresentar. Até porque acreditamos que o ØMNI é um disco muito forte e que as suas músicas vão funcionar muito bem ao vivo. Estou bem ansioso para a turnê.
Exatamente. Essa é uma das razões por que tiro o chapéu para o Iron Maiden, apesar de muitos fãs reclamarem que a banda toca cinco, seis, sete músicas do novo álbum quando sai em turnê. Vocês já sabem o que vão tocar do ØMNI?
Rafael: Nos shows sempre tem aquele cara que foi para ouvir os clássicos e não está por dentro do novo disco, então vamos começar tocando umas quatro ou cinco. E acho que tem de ser as de assimilação mais fácil, que são Travelers of Time, Insania, War Horns, Light of Transcendence e Caveman. Depois vamos colocando aos poucos no repertório canções como Magic Mirror e ØMNI – Silence Inside, e acredito mesmo que mais para o fim do ano os fãs estarão pedindo todas as músicas do ØMNI.
E ØMNI é um disco que merece ser tocado na íntegra, realmente. Mais do que isso, para registrar o bom momento da banda e sua nova formação, um CD e DVD ao vivo seriam bem-vindos. De repente, um novo Angra Fest com as participações especiais da Sandy e da Alissa. Pode ser difícil, mas não custa nada tentar.Felipe: Sem dúvida, e ficamos viajando nessas coisas também, o tempo inteiro fazendo planos. Como você disse, há coisas que podem ser complicadas de realizar, mas esse DVD vai ter que existir porque o ØMNI merece. Não fizemos um do Secret Garden, mas agora é o momento certo. Não está longe de acontecer, e levar tudo isso para o palco enriqueceria bastante o show.
Rafael: Tudo vai depender da aceitação do público, o quanto ele vai gostar e entender o ØMNI, mas a nossa vontade é mesmo fazer tudo isso. Se ele se tornar um clássico daqueles que as pessoas falam que é inteiro bom, aí é que vai valer mesmo a pena fazer um espetáculo só dele, chamando a Alissa e a Sandy.
Uma banda com músicos competentes e que conta com um produtor como Alan Niven, que quando empresário de Great White, Mötley Crüe, Guns N’ Roses, Dokken e Tesla os ajudou a alcançar o sucesso, só poderia resultar em qualidade. E é isso mesmo que o Razer oferece em seu homônimo terceiro álbum, além de um som direito e contagiante. O grupo norte-americano conta em suas fileiras com o vocalista Chris Powers e com o baixista Chris Catero (Marty Friedman). Falantes, eles atenderam a ROADIE CREW para conversar sobre o álbum e também de outros projetos e do futuro do Razer.
Chris Catero
Foram dois anos trabalhando em Razer. Por que o processo foi demorado?Chris Catero: Coisas boas levam tempo. Foi como se fosse um primeiro álbum, pois nos transformamos em uma banda diferente do que éramos até então. Antes tínhamos um som mais voltado ao rock americano de rádio e neste álbum fomos brutalmente honestos artisticamente. ‘Fodam-se as tendências e expectativas, faremos o que manjamos bem!’: essa era a mentalidade. Outro fator foi que Jordan Ziff tinha acabado de se juntar a banda. Legitimamente, ele é um talentoso Deus da guitarra ‘old school’ e sua entrada mudou completamente a dinâmica da banda e nos guiou a uma direção que musicalmente estávamos interessados. Como compositor senti que em Chris Powers tínhamos um incrível cantor de rock e agora também este grande guitarrista, então pensamos: ‘vamos chutar bundas e fazer rock de verdade!’. Nesse período conheci Alan Niven e, uma vez que ele estava comandando a mesa conosco, demos um passo atrás, nos reaproximamos de tudo que vínhamos fazendo e levamos um tempo para desenvolver coisas organicamente. Naquela altura, atiramos os calendários pela janela, tudo estaria pronto quando tivesse que estar, sem pressão ou estresse.
Chris Powers: Acho que o Catero fez um bom trabalho analisando toda a perspectiva da banda, mas falando sob a visão de um vocalista, levou um bocado de tempo para sair da nossa antiga maneira, ou melhor que esse “novo modelo” de se fazer vocais de rock de hoje em dia, com todas essas bandas de rádio utilizando grandes ‘pads’, ‘takes’ perfeitos de vocais e de ‘timing’, ‘auto-tune’ etc. Em nosso álbum, Niven forneceu sua experiência em como os vocais deveriam ser feitos (outra de suas sagacidades), onde as coisas não são perfeitas, mas há ‘takes’ vindos do coração, e a dinâmica de vocal e de tempo projetando um sentimento verdadeiro ao ouvinte. Ou, ao seu melhor sotaque inglês: “uma conexão espiritual com a música e o ouvinte”.
Já que mencionaram Alan Niven, como chegaram até ele? Catero: Conhecemos Alan e nos tornamos amigos dele. Por sermos fãs de seu trabalho, eventualmente discutíamos a respeito e ele conferia algumas das novas músicas que estávamos compodo e achei que esse seria o seu território. Na verdade, ele ficou intrigado e após realizarmos uns testes vocais com Chris Powers ele se rendeu e se juntou a bordo. Como tudo com Alan nunca é formal, ele disse: ‘ok, eu sou o grande cara para produzir e gerenciar isto agora’. Ele é genuíno e com uma ‘vibe’ bem orientada, muito tranquilo. Organicamente, começamos a trabalhar juntos e foi perfeito. Sem estresse algum para os envolvidos. Ele tem grande sensibilidade para o rock and roll e um histórico de Platina como produtor. Acho que houve um respeito maior por sua entrada, algo que ajudou a todos na banda a se abrir para novas ideias de como fazer as coisas. Co-produzi todos os nossos álbuns e quando essa parceria orgânica começou eu estava empolgado com a chance de trabalhar com ele. Honestamente, pensamos muito parecidos. Acabou que todo o processo ficou melhor do que eu esperava. É um disco muito honesto, das nossas performances até a produção.
Realmente, há aspectos técnicos de gravação interessantes em Razer… Catero: Ah, é muito orgânico! Todos nós tocamos e cantamos. Então, fizemos um álbum que é uma espécie de Led Zeppelin II, pela maneira que gravamos as músicas em momentos diferentes, sem nos preocuparmos se tudo parecia igual, apenas fizemos cada canção do próprio jeito. Para mim, isso é muito mais interessante para os ouvidos do que a maioria dos álbuns de hoje, onde tudo soa tão uniforme e parecido – eventualmente, esses álbuns se transformam em uma longa canção para mim. Eles usam os mesmos sons de bateria ‘sampleados’, tudo fica perfeito. Em minha opinião, isso não é nada rock and roll.
Powers: Fizemos os vocais em um galpão, em um prado com cabras. Então foi orgânico até demais! Quase fomos alimentados pelo capim do rock and roll se você quer saber! (risos) Realmente foi como um livro aberto tentar coisas novas (ou reintroduzir antigas maneiras, talvez). De verdade, fizemos algumas partes em tempo real, de um jeito que saiu naturalmente.
Catero, você e Niven estão trabalhando juntos atualmente, não é mesmo?
Catero: Niven e eu reiniciamos sua antiga empresa de produção, Stravinski Brothers. Produziremos bandas juntos, e consultaremos para contratar algumas em vários aspectos de negócios da música.
Powers, você “emprestou” sua voz em The Devil Went Down To Georgia para o jogo de vídeo game Guitar Hero III: Legends of Rock. Como foi que isso aconteceu?Powers: Alguns amigos meus, Steve Conley (guitarrista atual do Flotsam & Jetsam) e o produtor Ryan Green (NOFX, Megadeth) – que recentemente mixou algumas velharias do Razer -, estavam trabalhando em um projeto de uma estação de rádio o qual eles me pediram para cantar em algumas trilhas. Ryan também estava trabalhando com Steve Ouimette, um Deus da guitarra extraordinário que estava se dedicando a algumas canções para o jogo Guitar Hero 3, e ele disse a esse guitarrista que tinha um cara que ele deveria ouvir, e esse cara era eu. Ouimette amou o que eu estava fazendo na canção de Charlie Daniels – a título de crédito, também fiz Cities on Flame With Rock and Roll (Blue Öyster Cult), para o mesmo jogo. Também gravamos uma resposta a The Devil Went Down To Georgia, chamada Lou’s Revenge, que foi lançada no álbum solo de Steve Ouimette, Epic (2010). É uma canção divertida para guitarristas, que a comunidade do Guitar Hero pegou para si para criar todos os mapas dela para a versão do jogo para computador. De fato, é um testamento de quão boas Steve deixou essas canções.
Chris Powers
Catero, você trabalhou para o lendário guitarrista Marty Friedman (ex-Megadeth) dentro e fora de sua banda de turnê. Jordan Ziff também toca com ele. Fale sobre essa experiência.
Catero: Maravilhoso! Fiquei amigo de Marty, provavelmente desde o ciclo final do álbum Countdown To Extinction do Megadeth. Ele convenceu minha antiga banda, Wardog, a se mudar para Phoenix (onde ainda vivo) e por lá acabamos tocando por diversão algumas vezes em bares locais. Eu ia bagunçar junto com ele em seu ‘home studio’. Eventualmente ele me perguntava se eu poderia aparecer para tocar com sua banda solo. Na verdade, mesmo que tivéssemos sido amigos por um tempo, a perspectiva de tocar com sua banda me assustou. Ele era meu amigo, mas é foda, afinal ele também era um dos meus guitarristas de metal favoritos de todos os tempos! Seus álbuns tinham alguns músicos convidados matadores no baixo, então eu sabia que teria que “aparar as costeletas” para tocar aquele material. Mas uma vez que pisei fundo e fiz disso um momento definitivo, tanto quanto músico como experiência, minha confiança foi elevada e eu realmente aprendi um pouco de como os verdadeiros profissionais lidam com os negócios. No estúdio peguei algumas dicas dele de produção e também de gravação de guitarras. Acabei fazendo algumas turnês com ele, o CD Exhibit A: Live In Europe (2007) e o DVD Exhibit B: Live In Japan (2007). A banda de Marty está sempre em rotação, com diferentes músicos, e meu período tocando com ele foi bastante divertido. Ao fazer Razer, comecei a enviar algumas demos para ele, para mostrar um pouco do Jordan tocando e ele dar o seu aval. E foi como pensei: ele deu! Então os apresentei na NAMM (N.R.: feira internacional anual que acontece em Anaheim, California) e Marty acabou convidando Jordan para tocar em sua turnê americana, que penso ter sido uma oportunidade incrível para Jordan ter uma experiência similar a que eu tive, e também ajudar a promover seu nome entre os guitarristas. Conferi o show deles em Las Vegas e eles soaram matadores!
Vocês já estão trabalhando no quarto álbum do Razer?Catero: Levamos alguns meses fora da banda, tocando em outros projetos. Eu, por exemplo, toquei com Mick Brown (N.R.: baterista do Dokken) em sua banda solo, The Bourbon Ballet. Mas voltaremos a nos reunir em breve para trabalhar no novo material.
Quem sabe, após lançá-lo, vocês não venham conhecer o Brasil?Catero: Eu amaria fazer alguns shows no Brasil. Espero que tenhamos sorte o bastante para isso!
Powers: De acordo! Queremos agitar o Brasil! Assistimos daqui alguns shows que acontecem aí e notamos multidões de pessoas que vivem e respiram rock and roll. É um dos lugares mais fodas, que ainda quero tocar.
Simone Simons relembra primeiros shows do Epica no Brasil e fala da expectativa para a maior turnê da banda no país
É tão certo quanto os arranjos orquestrais em suas músicas: desde a turnê de Consign to Oblivion que o Epica bate ponto no Brasil para promover todo e qualquer álbum de estúdio que lance. Da primeira vez, em dezembro de 2005, até o giro que começa no início de março, o currículo terá nada menos que sete passagens pelo país – incluindo até mesmo uma edição do Epica Metal Fest, em 2016. Desta vez, a relação de amor com os fãs brasileiros resultou na maior turnê da banda holandesa por aqui, com nada menos do que oito shows: Belo Horizonte (09/03), São Paulo (10/03), Rio de Janeiro (11/03), Porto Alegre (13/03), Curitiba (14/03), Manaus (16/03), Fortaleza (17/03) e Recife (18/03). Simone Simons (vocal), Mark Jansen (guitarra e vocais), Isaac Delahaye (guitarra), Rob van der Loo (baixo), Coen Janssen (teclados) e Ariën van Weesenbeek (bateria) levam para mais fãs a The Ultimate Principle Tour – baseada em seu trabalho mais recente, The Holographic Principle (2016), que rendeu o EP The Solace System (2017) –, e nós levamos até você algumas palavras de Simone sobre isso e mais um pouco. Boa leitura.
A relação do Epica com o Brasil começou a ser construída em 2005, e a banda nunca mais parou de vir aqui. Há uma conexão, obviamente, mas o que a torna especial para você?
Simone Simons: Vamos ao Brasil praticamente desde o começo da banda, e o mais legal é que os fãs sempre foram loucos pelo Epica. Posso dizer que foi um choque cultural para nós quando fomos pela primeira vez, porque os brasileiros são muito apaixonados, gostam do contato com os ídolos, e os holandeses são um pouco diferentes (risos). Havia fãs nos esperando em aeroportos, o que foi surreal para nós. Os brasileiros nos amam, e nós também os amamos, por isso fico feliz por poder voltar sempre. Fico ainda mais feliz porque desta vez vamos fazer uma turnê ainda maior.
Sobre essa paixão, lembro-me da primeira vez que o Epica tocou no Rio de Janeiro. Acompanhei a banda como assessor de imprensa do produtor local e, apesar de o Kamelot ser o headliner, o público foi insano no show. Vocês estavam nas nuvens depois da apresentação…
Simone: (rindo) Sim, é verdade! Foi em 2005, mas acredito que tocamos no Brasil antes disso, não?
Na verdade, não. Foi a primeira turnê do Epica no país, e não dá para esquecer o público cantando Cry for the Moon de maneira ensurdecedora…
Simone: Você tem razão, porque fomos com o Kamelot para uma turnê conjunta. Faz muito tempo, mas lembro-me bem. Meu marido toca no Kamelot (N.R.: o tecladista Oliver Palotai), então foi uma viagem especial para mim. Cantei The Haunting (Somewhere in Time) com o Roy Khan no show do Kamelot, que era tipo a minha segunda banda à época. E foi exatamente nesta primeira vez que vimos como os fãs brasileiros são devotados ao Epica, porque a recepção que tivemos foi inacreditável. Como você bem lembrou, Cry for the Moon foi um momento impressionante do show. Definitivamente, o Brasil é um belo país com pessoas bonitas, e somos afortunados por ter uma base de fãs tão sólida aí. Não tem como não ser feliz ao ter esse carinho dos brasileiros (risos).
Mas o Epica fez por onde, também. Foram quatro cidades logo na primeira turnê de uma banda que tinha apenas três anos de idade. Antes, você e Coen ainda se apresentaram num programa de TV para promover os shows.Simone: É verdade! Lembro-me disso! Programa do Jô, certo?
Exatamente. Foram duas músicas, Solitary Ground e Linger.Simone: E também lembro que estávamos bem nervosos (risos). Não gostamos muito de tocar em programas de TV, porque saber que milhares de pessoas estão assistindo só ajuda a aumentar o nervosismo (risos).
Você mesma lembrou que esta turnê em 2018 será a maior no Brasil, e ela inclui três cidades onde o Epica nunca esteve, Manaus, Fortaleza e Recife. Ou seja, a banda continua crescendo no país.
Simone: Isso é incrível. Costumamos ir para Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba, e posso dizer que as minhas cidades favoritas são Rio, porque tem praias e eu adoro praia (risos), e São Paulo, porque sempre vamos para lá. Manaus, Fortaleza e Recife são territórios desconhecidos para nós, então estou curiosa para ver como serão os shows. Uma coisa é certa: depois dessa turnê talvez eu seja capaz de falar um pouco de português (risos).
Como a banda levou o Epica Metal Fest para São Paulo em 2016, haverá alguma mudança nos shows desta vez?Simone: Creio que não, mas serão os melhores shows do Epica, porque será uma turnê de headliner. A energia da banda no palco é sempre no nível máximo, mas tocaremos por uma hora e meia, então o setlist será maior. Além disso, haverá pacotes VIP de ‘meet and greet’, ou seja, poderemos interagir com alguns fãs antes dos shows. Ah, e vamos beber muitas caipirinhas! (risos)
Um mês depois da turnê no Brasil, o Epica fará uma apresentação especial em casa (N.R.: dia 14 de abril, em Tilburg) para celebrar a marca de mil shows na carreira. Vocês vão gravar para lançar em DVD, como Retrospect (N.R.: ao vivo da noite comemorativa de dez anos de banda)?Simone: Não vamos gravar todo o show, talvez apenas partes dele. O planejamento para gravar um show e lançá-lo em DVD não pode incluir um festival, porque será um dia longo e, honestamente, o público estará cansado quando subirmos ao palco. Lembro-me das vezes que tocamos no Metal Female Voices Fest (N.R.: festival na Bélgica que teve edições de 2003 a 2016, e o Epica participou em 2003, 2004, 2005, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2012), porque começava às onze horas da manhã. Quando o headliner começava o seu show, os fãs já estavam fisicamente esgotados. Mas o evento em Tilburg será especial, porque Lacuna Coil, Myrkur, Mayan, Oceans of Slumber e Nightmare serão nossos convidados, e o mais interessante é que antes o Myrkur abrirá nossos shows na turnê pelo Reino Unido (N.R.: seis datas, entre 6 e 13 de abril). Nunca havia ouvido falar dela (N.R.: Simone refere-se à vocalista Amalie Bruun, mentora do Myrkur), mas todos dizem que é muito talentosa, uma revelação, então estou curiosa para vê-la ao vivo. Bom, preciso pesquisar um pouco mais, pois tudo que sei é que ela é dinamarquesa (risos). Enfim, será um minifestival no qual seremos a atração principal e teremos alguns convidados especiais, e fico particularmente feliz porque o Lacuna Coil vai participar.
Foto: Divulgação
Ah, sim. As redes sociais mostram que você e Cristina Scabbia têm um bom relacionamento.Simone: (rindo). É verdade. Cristina e eu somos grandes amigas.
O Epica mal lançou The Solace System e já soltou um novo EP, Epica vs. Attack on Titan Songs, mas este é algo completamente diferente para a banda (N.R.: A banda fez versões heavy metal das músicas de abertura do anime Attack on Titan – no original, Shingeki no Kyojin). O que você pode falar sobre ele?Simone: O compositor do tema principal do desenho, não os criadores da série, é um grande fã do Epica, então entrou em contato conosco há algum tempo para fazer o convite. Devo admitir que não sou muito fã de animes ou mangás, mas lembro-me que nossa primeira ida ao Japão foi como se estivéssemos realizando um sonho (N.R.: em 2003). Achamos que seria legal fazer o EP porque sairíamos da nossa zona de conforto, então sentamos para assistir à série e fazer algumas pesquisas, depois adaptamos as letras para o inglês e fomos gravar com o Joost van den Broek, que produziu nossos álbuns mais recentes (N.R. The Quantum Enigma, de 2014, e The Holographic Principle). E foi muito divertido. Aquelas músicas são rápidas demais, então tivemos de desacelerá-las um pouco porque, caso contrário, não conseguiríamos tocá-las (risos). Particularmente, fiquei muito feliz porque minhas performances naquelas canções estão entre as melhores que já fiz. Aliás, hoje é o dia oficial do lançamento do EP (N.R.: a entrevista foi realizada em 20 de dezembro).
Sim, e tentei escutá-lo antes desta entrevista, mas ainda não está disponível no Spotify.Simone: Eu sei, porque fui checar pela manhã e também não encontrei (risos). Mas pelo menos eu tenho as músicas no meu computador (risos).
Falando em internet, você é bem ativa nas redes sociais, e o interessante é que o foco são dicas de maquiagem e fotografia, por exemplo. Até a minha esposa segue você, e fico imaginando quantas pessoas não sabem que se trata de uma vocalista numa banda de heavy metal…
Simone: (rindo) Ah, é verdade que sou ‘heavy user’ de Instagram e Twitter, meus canais principais. Não gosto do Facebook, que é linkado ao meu Instagram. Ou seja, o que entra são as fotos que posto no Instagram, porque não costumo abrir o Facebook para ficar lendo o que está lá. A razão de eu gostar mais de Instagram e Twitter não é apenas porque são compactos, mas porque nas duas há mais coisas positivas do que negativas. Claro, eu curto mensagens mais curtas e adoro fotos, então sempre que estou com vontade escrevo alguma coisa e promovo meu trabalho como fotógrafa. Como não sou de falar ou ler muito, então é legal fazer um Q&A (N.R.: perguntas e respostas) no Twitter ou um Live no Instagram. Faço quando tenho vontade, e os fãs dizem que gostam. Apenas tenho que estar no clima, porque ser for planejado acaba não funcionando direito. Tem que ser espontâneo, mas é uma boa maneira de interagir com os fãs. Conheci muitos que me seguem nas redes sociais e depois vão aos shows, então vira uma família Epica (risos). Apesar de eu vestir muitas roupas pretas, vários não sabem que sou uma cantora de heavy metal (risos). Tem a história de um fã que, por causa das minhas postagens, achou que eu cantava música country (risos). No fim das contas, considero-me uma artista mais do que uma musicista, porque gosto bastante de arte. Moda, maquiagens, fotografia e coisas bem visuais.
A jornada do Epica já dura 16 anos, e no início você era uma adolescente à frente de uma banda de heavy metal. Hoje o Epica é uma referência no estilo, e você, uma das vocalistas mais respeitadas do estilo e também mãe. Já se pegou pensando em como a sua vida mudou?Simone: Na verdade, não, e agora que você falou… É incrível, realmente. O Epica é muito bem-sucedido, e as pessoas adoram o que fazemos, mas no fim do dia eu sou mãe, como você bem lembrou, e também esposa (risos). Tenho uma casa para cuidar, então preciso cozinhar, fazer limpeza e todas as coisas comuns que todo mundo faz. A diferença é que quando estou no palco todos estão olhando para mim, então é um contraste muito forte. Desde que me tornei mãe o mundo ficou diferente para mim. Levo o meu filho (N.R.: Vincent Palotai, de quatro anos) para a escola e para praticar esportes, depois vou pegá-lo, à noite o coloco para dormir… É o lado contrário do rock’n’roll (risos). Tenho dois mundos, amo ambos da mesma maneira e sinto-me afortunada pelo Epica continuar crescendo e indo tão bem. Nós trabalhamos muito duro, mas temos fãs realmente leais, e é mesmo incrível perceber que já são quase 17 anos de banda. O tempo passa rápido demais.
Mas você e o Epica ainda têm muito pela frente, então o que você ainda sonha alcançar?Simone: Como artista, há algumas pessoas com as quais eu gostaria de trabalhar, mas num material solo. Talvez cantar num filme, fazendo a trilha sonora dele. No lado pessoal, gostaria de ter uma casa algum dia (risos). Tenho um apartamento, mas a cidade onde moramos (N.R.: Stuttgart, na Alemanha) é muito cara. Temos família, amigos e escola em nossa região, mas não quero morar aqui por muito tempo, só que gostaria de ficar próxima de Stuttgart também pela facilidade de ir ao aeroporto ou à estação de trem. Porque não dá para ir morar no meio do nada (risos). Resumindo, trabalhar com alguns artistas fora do Epica, gravar a trilha sonora de um filme e ter a minha própria casa (risos).
Tobias Exxel fala dos 25 anos do Edguy, da coletânea para marcar o feito e se diverte ao explicar a pronúncia do primeiro nome e do apelido Eggi
Vinte e cinco anos. As bodas de prata chegaram para o Edguy, e a banda alemã resolveu comemorar em grande estilo. Teve coletânea, claro, mas uma à altura da data: Monuments conta com 22 clássicos, cinco músicas novas e uma inédita espalhadas em dois CDs, além de um DVD com um show gravado no Brasil em 2004, durante a turnê de Hellfire Club. E teve uma miniturnê, também: treze shows de 15 de setembro a 3 de outubro, quando Tobias Sammet (vocal), Jens Ludwig e Dirk Sauer (guitarras), Tobias “Eggi” Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria) encerraram o bem-sucedido giro com uma apresentação em sua cidade natal, Fulda. E a festa obviamente tinha de estar nas páginas da ROADIE CREW, por isso fomos atrás do grupo para uma conversa. Mas é bom ressaltar: o bom humor típico do Edguy se refletiu numa entrevista totalmente descontraída com o empolgadíssimo e, por isso mesmo, falante Exxel. A ponto de o papo ter começado de uma maneira, digamos, pouco comum. Assim, boa leitura!
Tobias Exxel: Oi, Daniel! Aqui é Tobias Exxel, do Edguy. Tudo bem?
Olá, Tobias. Tudo bem, e aí? Aliás, permita-me dizer que você acabou de matar uma curiosidade minha. Conheço muita gente que fala ‘Tobaias’ Exxel ou ‘Tobaias’ Sammet, ou seja, não como se escreve, que é o jeito certo confirmado agora pela própria fonte.
Tobias: (rindo bastante) Sim! E provavelmente essa é a pergunta mais interessante de todas que respondi até agora (risos). É verdade que muitos fãs falam ‘Tobaias’, mas para facilitar seria melhor dizer apenas Tobi. Mas como esse é o apelido do nosso vocalista, atendo por Eggi. Fiz essa gentileza a ele porque sou mais velho (risos).
E é bom saber que essa dúvida não é novidade para você, porque tomo como base a maneira como os fãs brasileiros pronunciam.Tobias: Acredito que isso acontece porque não é um nome internacional, como os que são comuns nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo. Não é como os nomes que têm pronúncia diferente dependendo do inglês americano e do britânico. E você não encontra muitos Tobias ou ‘Tobaias’ por aí (risos). Não existe nem mesmo uma tradução específica, então as pessoas podem falar da maneira que acharem melhor. A partir do momento em que todos nos entendemos, não tem problema. Mas se ficar complicado, é só me chamar de Eggi… Ah! Algumas pessoas no Brasil me chamam de ‘Édi’, e eu sempre achei que era uma referência a Edguy (risos). Mas Eggi se pronuncia ‘Égui’, disso eu tenho certeza (risos), e não tem nada a ver com a pergunta que muitos me fazem, porque meu apelido não é Eggi porque pareço com um ovo (risos). Quando tinha 10 ou 11 anos, um colega no colégio surgiu com esse nome para mim, e a coisa se espalhou de tal maneira que até os professores me chamavam assim. Sempre achei engraçado, então não me incomodava. E também nunca perguntei por que ganhei esse apelido, apenas fiquei feliz por ter um. Acho que meu antigo colega queria era me irritar ao me chamar a todo instante de Eggi (N.R.: Exxel imita a voz do colega, incluindo uma risada à la Beavis & Butt-Head), mas se deu mal, porque eu gostei (risos). Pensando bem, eu deveria ter ficado irritado, assim ele poderia ter me chamado de Angry Eggi. Seria ainda mais legal, tipo Angry Birds (risos) (N.R.: referência ao famoso jogo para smartphones criado em 2009). Eu sei que a entrevista mesmo nem começou, mas todo esse lance de Tobias ou ‘Tobaias’ e Eggi ou ‘Édi’ é muito importante na história do Edguy (risos). Sério, nunca havia falado sobre isso tão profundamente, então foi bem interessante. Gostei bastante.
Acredito que os fãs também vão curtir. Talvez não como Monuments, porque o conteúdo é mesmo bem caprichado. O quanto vocês se envolveram na elaboração da coletânea?Tobias: Envolvemo-nos completamente, desde o início. Todas as músicas foram escolhidas por nós, por exemplo, e a solução mais interessante que encontramos para chegar ao track list final foi que os cinco estivessem totalmente de acordo. Temos um catálogo muito grande de canções e, no geral, estamos muito satisfeitos com ele, porque é nosso cartão de visitas. Todas as nossas músicas representam muito bem o Edguy, não importa o quão diferente sejam. Pode ser uma mais rápida, uma balada ou algo mais rock, porque acredito que fazemos uma boa mistura de estilos. Qualquer período de nossa carreira tem isso. No fim das contas, foi bem tranquilo definir quais seriam as 22 faixas de Monuments. Acredite, não houve um problema sequer em relação a isso, porque vou lhe contar um segredo: muitas vezes acabamos discutindo por causa de set list, tipo que músicas devemos tocar numa próxima turnê, sabe? Eu gostaria disso, mas Felix quer algo diferente, então Dirk aparece com outras ideias… Mas para o CD foi fácil. É o melhor do Edguy, e os fãs já têm essas canções, por isso nosso objetivo com uma compilação é maior na questão de conquistar novos fãs, apresentar a banda a quem nunca ouviu nosso trabalho. Era preciso impressioná-los com o que fizemos nos últimos 25 anos, mas também agradar àqueles que nos acompanham há tanto tempo, por isso incluímos um DVD ao vivo e material novo. Nenhuma das cinco faixas inéditas é sobra de estúdio, todas foram compostas e gravadas em fevereiro e março deste ano (N.R.: Monuments foi lançado em 14 de julho), e a edição limitada ainda vem acompanhada de um enorme livro (N.R.: 160 páginas) com várias fotos inéditas e informações realmente legais. É um pacote completo para o fã do Edguy, talvez algo que não faríamos não fosse uma ocasião tão especial, os 25 anos da banda, porque o investimento é grande. E também estamos completando vinte anos sem nenhuma alteração na formação, o que é impressionante até para nós mesmos (risos). Vemos tantos grupos mudando a todo instante que é até difícil acreditar que estamos juntos todo esse tempo. Sempre nos inspiramos no Aerosmith, que está aí com a sua formação clássica e sem nenhuma mudança há quase quarenta anos (N.R.: desde 1984), então mal posso esperar pelas entrevistas que darei daqui a 25 anos, uma delas talvez para você mesmo, para falarmos do cinquentenário do Edguy (risos).
Espero chegar lá, e tomara que a entrevista seja com você, que está tornando o meu trabalho bem mais fácil. Já matou três das minhas perguntas numa só resposta.Tobias: (rindo bastante) Desculpe-me! Eu falo demais, né? (risos)
Não se desculpe, não, porque estou achando ótimo. Isso é um sonho de todo jornalista, então continue assim (risos).Tobias: OK, manda a próxima que vou responder e antecipar mais algumas (risos).
Você explicou o processo de escolha das músicas de Monuments e que as cinco inéditas foram compostas especialmente para a coletânea, mas houve alguma razão para nenhuma faixa do primeiro álbum, Kingdom of Madness (1997), estar presente?Tobias: Sim, apesar de ter sido algo inconsciente. Kingdom of Madness é um bom disco, sem dúvida, mas para nós não é uma representação de fato do nosso trabalho. É difícil explicar isso, porque não quero ofender os fãs que gostam do disco. Sabemos que é parte importante da banda e do seu desenvolvimento, porque foi um aprendizado em termos de composição, especialmente para Tobi, que começou a se encontrar como vocalista. Por outro lado, o Edguy começou mesmo a ficar mais popular a partir de Vain Glory Opera (N.R.: o disco seguinte, de 1998). Assim, como tínhamos que escolher 22 ou 23 faixas, dependendo da duração de cada uma, preferimos pinçar mais uma, duas ou três canções de Theater of Salvation (N.R.: de 1999) ou do próprio Vain Glory Opera para representar nossa fase mais antiga. Além disso, há dez ou quinze anos não tocamos nenhuma música de Kingdom of Madness ao vivo, porque há tantas outras que queremos tocar, e talvez Vain Glory Opera pudesse ter mais algumas de suas faixas em Monuments, mas ainda assim não o ignoramos (N.R.: há duas músicas dele, a faixa-título e Out of Control).De qualquer maneira, nosso primeiro disco não está fora de catálogo, então o fã pode comprar a coletânea e ele também, caso não o tenha. Ou escutá-lo no YouTube, porque hoje em dia você encontra qualquer coisa no YouTube (risos).
E para o fã brasileiro, o DVD é um bônus mais do que especial, até porque esse show é um desejo antigo (N.R.: foi gravado no festival Rock the Planet, que contou com Timo Kotipelto, Shaman e Viper no dia 2 de outubro de 2004, no Espaço das Américas).Tobias: Isso mesmo! Você sabe que o show completo deveria ter sido lançado oficialmente anos atrás, mas não rolou porque houve grandes problemas técnicos com algumas câmeras. Colocamos algumas músicas no DVD que acompanhou o EP Superheroes (2005), mas só agora encontramos uma equipe técnica boa o suficiente para restaurar os vídeos e deixar toda a apresentação pronta para ser lançada com a qualidade necessária. E aquele show foi maravilhoso! Quando assisti ao DVD agora, depois de tanto tempo, fiquei arrepiado com o público em canções como The Piper Never Dies, por exemplo. E o melhor de ter revisitado o show treze anos depois foi perceber como ainda temos aquela energia e aquele frescor. Ainda fazemos shows como aquele e nos divertimos no palco, tocando para pessoas que nos admiram. Sou grato por não sermos uma banda que apenas fica olhando para os instrumentos para ver se o tempo passa mais rápido no palco. Amamos tocar, tocar e tocar sem parar, e sei que para vocês, brasileiros, ter aquela apresentação finalmente em DVD é algo especial. Lembro-me que a atmosfera em São Paulo naquela noite era muito boa e guardo com carinho todas as lembranças, desde os momentos que antecederam o show até o backstage ao fim dele. Foi uma experiência maravilhosa para nós.
E uma última pergunta sobre Monuments. Vocês chegaram a pensar em regravar o baixo e bateria de Reborn in the Waste, que acabou não saindo na demo Savage Poetry (1995)? Porque assim ela teria a formação clássica do Edguy, com você e Felix Bohnke.Tobias: Não, realmente. Preferimos manter a versão original, com o primeiro baterista, Dominik Storch, e o baixo do Tobi. Hoje em dia você pode consertar qualquer coisa em estúdio, mas Reborn in the Waste está como foi gravada naquela época. É um documento de quase 25 anos atrás, quando Tobi, Dirk e Jens tinham 14 ou 15 anos de idade, ou seja, você pode ouvir que mal sabiam tocar direito (risos). Era o comecinho da banda, e o interessante é que essa música foi finalizada, mas não registrada num estúdio profissional, e acabou sendo deixada de lado porque eles tinham canções melhores e com as quais se sentiam mais confortáveis. Até por isso ela nem mesmo foi regravada para Kingdom of Madness, o que, em minha opinião, a torna mais especial. A primeira vez que a escutei foi há um ano, quando Jens encontrou a fita original, e não pude deixar de rir. Aliás, foi divertido para todos nós porque era um cassete, e hoje você tem de explicar aos fãs mais novos o que eram as fitas cassete e como as usávamos. Hoje eles só conhecem CDs e, principalmente, MP3s (risos).
Para terminar, você está na banda desde 1998, mas sempre o considerei como parte da formação original, afinal, Tobi era responsável pelo baixo. Ou seja, não é que você tenha substituído alguém. É um ponto de vista de diferente, mas o que acha dele?Tobias: Sabe o que é mais interessante? Não seria apenas a minha opinião a respeito, mas também as de Tobi, Jens e Dirk, e garanto a você que eles consideram a atual formação como a original. Claro, isso pode soar injusto com Dominik, mas lembra-se quando disse que nossa popularidade começou a crescer depois de Vain Glory Opera? Foi na turnê deste disco que Tobi, Jens, Dirk, Felix e eu subimos num palco pela primeira vez juntos (N.R.: Storch gravou apenas Kingdom of Madness, enquanto a bateria de Vain Glory Opera ficou a cargo de um músico de estúdio, Frank Lindenthal). Foi o line-up atual que caiu na estrada pela primeira vez, e o Edguy nunca havia tocado fora da Alemanha até estarmos os cinco na banda. Dormíamos num micro-ônibus e fazíamos tudo juntos. Incluo o Felix nesse ponto de vista, porque é um grande elogio para nós quando pensam assim. Você está certo, então, e somos gratos aos outros três por também compartilharem essa ideia.
FRASE DE DESTAQUE:
Sou grato por não sermos uma banda que apenas fica olhando para os instrumentos para ver se o tempo passa mais rápido no palco – Tobias Exxel