ANTHARES | MASSIVE POWER | INFERNO NUCLEAR | ARMADILHA – SÃO PAULO (SP)

Por Leandro Nogueira Coppi

Fotos: Andre Santos

Com quatro décadas dedicadas ao thrash metal, o Anthares lançou na sexta-feira, 8 de agosto, seu terceiro álbum, Espetáculo Sangrento. Foram dez anos de espera desde o trabalho anterior, O Caos da Razão. Para celebrar o lançamento, o veterano grupo paulistano promoveu, no dia seguinte, um evento no Hangar 110, em São Paulo, que contou com os convidados Inferno Nuclear e Armadilha, além dos chilenos do Massive Power, como bandas de abertura.

Produzido pelo selo Dies Irae – responsável pelo lançamento do novo álbum do Anthares – em parceria com o próprio Hangar 110, o evento se destacou pela organização, com rigoroso cumprimento dos horários divulgados à imprensa. O público, no entanto, não compareceu em grande número; a presença foi apenas razoável para a capacidade do local. O frio intenso que assolava São Paulo naquela noite de ventos cortantes na Zona Norte – onde fica o Hangar 110 – pode ter desanimado muitos headbangers que, nas redes sociais, sinalizaram positivamente anteriormente. Outro possível fator foi a concorrência com a segunda noite do Made in Brazil na capital, em comemoração aos 58 anos de carreira da banda do bairro da Pompeia.

Pontualmente às 19h20, o Armadilha subiu ao palco e, quase literalmente, tratou de aquecer o público com uma celebração ao heavy metal, começando com a música Sangue de Ferro. Coincidentemente, naquela mesma noite a banda lançava nas plataformas digitais sua versão de Missão Metálica, do extinto grupo brasileiro Avenger. A faixa integrará Ataque En Vivo, álbum ao vivo dividido com os chilenos do Pronoia. A parte do Armadilha no ‘split’ foi registrada em dezembro de 2024, durante o show que celebrou os 40 anos do clássico álbum SP Metal.  Atualmente formada pelo incansável e carismático Pedro Zupo (vocal), Gregório Bondezam (baixo), Marcelo S.O.S. (bateria) e Denys Garcia (guitarra), a banda pratica um heavy/speed metal cantado em português, capaz de orgulhar os fãs de nomes históricos do metal brasileiro — como Centúrias, Stress, Azul Limão, Avenger, Vírus e Salário Mínimo — e também da N.W.OB.H.M. do início dos anos 1980.

Durante toda a apresentação do Armadilha, o público pôde desfrutar de uma boa e bem equilibrada qualidade de som. No repertório, a banda paulistana apresentou músicas de seus dois álbuns de estúdio, Choque Elétrico (2013) – do qual apenas Denys integrava a formação na época das gravações – e Sangue de Ferro (2021). Entre os destaques, estiveram Armadilha e Guerra No Espaço – além das viradas viscerais de Marcelo e dos riffs de Denys. Nesta última, próximo ao fim, Zupo se agachou à beira do palco e estendeu o microfone para que alguns fãs entoassem o coro “ô, ô, ô…”. Antes, porém, o vocalista fez questão de enfatizar o respeito do grupo aos pioneiros que influenciaram sua sonoridade: “Sempre respeitando o passado, respeitando a história. Quem não respeita a história não merece fazer parte dela”.

O ponto alto do show ocorreu quando Zupo, amante e profundo conhecedor do metal feito na América Latina, anunciou que tocaria ao lado de um de seus ídolos. Era o momento em que o Armadilha prestaria homenagem a um dos grupos pioneiros do heavy metal praticado do lado de cá do globo: o Arkangel, banda venezuelana formada em 1977, originalmente com o nome Power Age, em Valencia, Carabobo, antes de adotar o nome atual em 1981. Para isso, Zupo convidou ao palco o ex-vocalista do Arkangel, Joad Jiménez (também ex-Sexto Sonar, Centurión e Torre de Marfil), com quem dividiu os vocais em Motin En Occidente, faixa do quinto álbum de estúdio do grupo, El Ángel de la Muerte, que completa 25 anos. A performance resultou em um dueto impecável e bem sincronizado. Simpático e comunicativo, Joad permaneceu no palco e, em bom português, cantou também Metal Inquebrável – uma das melhores músicas do Armadilha -, que encerrou o curto, porém redondo show da banda brazuca.

Instantes depois, foi a vez dos paraenses do Inferno Nuclear. Atualmente radicados em São Paulo, eles invadirem o palco às 20h20 assim que a introdução Ritual, que abre o recém-lançado segundo álbum da banda, Amazônia em Chamas, cessou no sistema de som. Wellington Freitas (vocal), Leonardo Garcia (guitarra), Leonardo Kronnos (baixo) e Marcos William (bateria) deram início aos próximos 40 minutos de porradaria com Matinta Pereira (A Feiticeira da Mata), uma pequena amostra de que o thrash metal, na linha de Exodus, Vio-Lence e Violator, com elementos regionais praticado pelo quarteto, é tão denso e encorpado quanto o tão comentado açaí de sua região. Na primeira música, o baixo de Kronnos soou muito à frente dos demais instrumentos, mas, após a primeira pausa, tudo se ajustou e a qualidade de som voltou a ficar tão boa quanto no show do Armadilha.

No fundo do palco, um enorme backdrop com a imagem da bonita capa de Amazônia em Chamas — arte do talentoso e requisitado Márcio Aranha — proporcionou um cenário intimidador, ilustrando a devastação florestal. Aliás, a destruição da floresta amazônica é um tema recorrente e levado amplamente a sério no metal. Basta lembrar não apenas do conceito e do título do novo álbum do Inferno Nuclear, mas também da música Amazonia, dos franceses do Gojira; da pessimista Amazônia Nunca Mais, que abre o clássico álbum Brasil (1989), do Ratos de Porão; e da letra de Ambush, gravada pelo Sepultura em Roots (1996).

Dando prosseguimento, Wellington Freitas agradeceu ao Anthares pela oportunidade, elogiou o novo álbum do grupo — inclusive pelo teor lírico — e declamou: “O que pensas, homem, da sua própria espécie? Não te envergonhas de tua estupidez?” Foi a chamada para Insensatez Humana. O curioso é que, nessa, não houve a participação de Diego Nogueira (vocalista do Anthares e baixista do Blasthrash), como na gravação de estúdio. Em contrapartida, em Falsos Profetas, executada após a faixa-título Amazônia em Chamas, o Inferno Nuclear contou com a presença de Andressa Castelhano, a Deca Cast – vocalista do Hell on Wheels, banda tributo ao Acid – dividindo os vocais com Freitas.

Na sequência, Antirracista evidenciou a influência do punk rock no som do Inferno Nuclear — com direito a corinho “ôoooo, ô, ô, ô, ô…”. Fã que sou de músicas que mesclam metal com ritmos brasileiros, achei interessante a inclusão de Grito de Protesto, faixa de pouco mais de um minuto em que se destaca a bateria de Marcos William, conduzindo caixa e bumbo como numa espécie de “baião/core”. A rasgante Unidos Pelo Underground, única representante do primeiro álbum Diante de um Holocausto (2021), encerrou de forma enérgica o convincente show do Inferno Nuclear. Antes de a banda deixar o palco, Freitas fez uma observação que arrancou algumas risadas: “A gente vai fazer um ‘retrato’. Antigamente se fazia retrato; foto veio depois. Nós somos old school.”

Mantendo a pontualidade, após introdução a penúltima atração da noite, o Massive Power chegou emocionando o público no início de seu show de estreia em solo brasileiro. Nelson Muñoz (vocal), os guitarristas Nicoláz Valenzuela e Rodrigo Echeverría, o baixista César Mogollones e o baterista Marcelo Echeverría começaram tocando o início instrumental da clássica Children of the Grave, em homenagem ao Black Sabbath e à memória do nosso querido Madman Ozzy Osbourne, falecido em 22 de julho. O gesto conquistou a simpatia dos headbangers, e, na sequência, a banda de Maipú, Santiago, que está na ativa desde 1994, deu início ao repertório autoral com License to Kill, faixa do álbum de estreia Massive Power, de 2013.

Do meio para frente da música seguinte, Deception and Death, infelizmente tudo ficou bem embolado por conta de um barulho que irrompeu o sistema de som, obrigando a banda fazer uma curta pausa ao final para algumas orientações ao técnico de som. Após a música seguinte, Rightwing Control, essa do segundo e mais “recente” álbum do grupo, Defeated by Ignorance (2019), mais ajustes precisaram ser feitos, dessa vez porque o som não estava chegando legal para a banda no palco. Mesmo com os contratempos iniciais, Muñoz disse que eles estavam “muito felizes de estarmos tocando aqui para vocês” e explicou que passavam por problemas técnicos. Demorou um pouco até que a coisa engrenasse e esse vai-não-vai deu uma quebrada no início da apresentação do Massive Power, dando a impressão de estarmos diante de um ‘soundcheck’.

Assim que essa questão foi técnica totalmente resolvida, a banda prosseguiu com a apresentação, mostrando boa presença de palco e alternando faixas de seus dois únicos álbuns de estúdio – além de Possessed by Alcohol, da demo homônima lançada em 2005. Durante o show, Nelson presenteou alguns headbangers arremessando fitas cassete. O que se viu do Massive Power foi um thrash metal old school honesto, com traços de Vio-lence, Xentrix, Kreator, Nuclear Assault e Testament em sua fase inicial – embora soe como muito do que já se ouviu no gênero, sem apresentar grandes diferenciais. No repertório, meu destaque pessoal fica por conta da ótima Force, música do álbum Massive Power, que remete a um encontro entre o Overkill e o Metallica antigos, e também a veterana banda carioca Taurus na fase Pornography.

Instantes depois de o grupo chileno deixar o palco, as pessoas que até então confraternizavam próximo ao bar do Hangar 110 se juntaram aos demais headbangers na pista para assistir à atração principal da noite. Com míseros minutos de atraso – pouco depois do horário marcado, 22h20 – uma introdução começou a tocar no som mecânico da casa e, em seguida, o Anthares, formado por Diego Nogueira (vocal), Maurício Amaral (guitarra), Eduardo Toperman (guitarra), Pardal Chimello (baixo) e Edu Nicolini (bateria), surgiu no palco ornado com um enorme backdrop que exibia a arte de Espetáculo Sangrento – feita pelo mesmo artista que acompanha o grupo desde o clássico disco de estreia No Limite da Força, Thomas Pinheiro. A abertura ficou por conta da aniquiladora Cicatrizes, música que inicia o novo disco e que foi a primeira a ser divulgada previamente nas plataformas digitais. Mantendo a mesma sequência do tracklist de seu novo play, o quinteto não perdeu tempo e soltou outra nova porrada sonora: Extremismo Sagrado.

Depois de dois cruzados certeiros no queixo, o sempre comunicativo e animado Diego pediu alguns ajustes no som da guitarra de Maurício, cumprimentou o público e anunciou que o novo álbum do Anthares já estava disponível, não apenas nas plataformas digitais, mas também à venda na lojinha do evento. Ele contou que viabilizar o show foi uma verdadeira “luta”, pois, além da dificuldade de conseguir uma data em uma casa como o Hangar 110, um mês antes Edu Nicolini havia quebrado o braço — o baterista foi “atropelado” por um patinete em Berlim, Alemanha, quando do primeio show da turnê de sua outra banda, o também lendário Agrotóxico. Mesmo com a fratura, Edu chegou a fazer dois shows, mas acabou sendo substituído na Europa pelo ex-integrante Pedro. Apesar do incidente recente, Diego disse que, em respeito ao público, Nicolini, que fez sua estreia em estúdio com o Anthares em Espetáculo Sangrento, decidiu fazer o show — e o agradeceu por isso. Ao saber disso, o público o aplaudiu, e ele literalmente sentou o braço na batera (sem trocadilhos) – para quem já o viu ao vivo, esse é o normal de sua performance. 

Um toque sobre a veracidade do ditado popular que diz “mente vazia, oficina do diabo” foi dado com a música seguinte, Ócio, do álbum anterior, O Caos da Razão, conhecida por seu videoclipe, que está próximo de alcançar a marca de 10 mil visualizações no YouTube. E que rifferama da dupla Maurício Amaral e Eduardo Toperman, ex-guitarrista do Korzus. Por falar em Korzus, se os colegas contemporâneos de thrash metal sempre foram conhecidos como o “Slayer brasileiro”, a considerar pelos riffs agressivos e solos tresloucados de Amaral e Toperman, o Anthares também pode ser chamado de o “Exodus tupiniquim”, reforçando a coesão de sua pegada thrash, que permanecesse agressiva e, a cada álbum, mais visceral. 

Era chegada a hora de revisitar o passado e relembrar o clássico No Limite da Força: “Estamos vivendo a ‘paranoia final’!” — foi com essas palavras que Diego anunciou a primeira música do disco, que ainda teria espaço de destaque ao longo do show. Já na metade da apresentação, o Anthares preparou um bloco intercalando músicas de O Caos da Razão e Espetáculo Sangrento, trabalhos gravados com Diego, que, desde que assumiu o posto de frontman da banda, conquistou o respeito dos fãs que curtem o lendário Henrique Poço, vocalista de No Limite da Força. Assim, a banda castigou os pescoços daqueles que agitavam na pista com ConservadorismoPesadelo Sul-Americano, Ataque Legítimo, a própria O Caos da Razão e Retratos da Miséria. Sobre está última, Diego lembrou que ela fazia parte da quarta demo do Anthares, Retaliation (1995), ainda em inglês e com o título Portrait of Misery.

Para os amantes de No Limite da Força, o bloco final foi especial, já que foi inteiramente dedicado ao álbum que serviu de inspiração para muitas bandas nacionais e internacionais. Entre elas, os finlandeses do Força Macabra – que, inclusive, contam com um baixista que adota o nome artístico Pedro “Porco” Anthares – e uma molecada antenada de Minas Gerais que atendia por Sepultura. Um bom exemplo está na contracapa do debut Morbid Visions, onde Paulo Junior aparece usando uma camiseta do Anthares, antes mesmo de No Limite da Força ser lançado. Primeiro veio a mais comemorada pelos headbangers: Fúria, música para qual o Força Macabra gravou uma versão em seu terceiro álbum, Aqui é o Inferno, de 2008. Antes de cantá-la, Diego a dedicou ao ex-baterista Evandro Junior, que fez parte do Anthares de 1985 a 2018, tendo gravado os dois discos anteriores, além de algumas demos. Ao final, Diego direcionou o microfone aos fãs da banda, que cantavam o nome da música berrando com toda a “fúria”.

Depois da própria No Limite da Força, Diego dedicou Chacina a outro ex-vocalista do Anthares, Renato Higa, que estava na plateia prestigiando a banda com a qual ele gravou duas demos,  entre elas a já citada Retaliation. A homenagem ganhou uma ‘força sem limite’ quando, antes de a música terminar, Higa subiu ao palco e dividiu o microfone com Diego, cantando a faixa em um abraço que simbolizou a união de diferentes fases da história do grupo. Foi o encerramento perfeito – pena que não deu tempo de tocarem Batalhas Ocultas, que estava programada para ser a última -, colocando um ponto final com muita energia em uma noite que reafirmou a relevância do Anthares no thrash metal brasileiro.

Armadilha – Setlist
Sangue de Ferro
Filhos do Ódio
Noite de Revolução
Armadilha
O Herói
Guerra No Espaço
Motin Em Occidente
Metal Inquebrável

Inferno Nuclear – Setlist
Ritual
Matinta Pereira (A Feiticeira da Mata)
Insensatez Humana
Amazônia Em Chamas
Falsos Profetas
Antirracista
Grito de Protesto
Doença Social
Unidos Pelo Underground

Massive Power – Setlist
License to Kill
Deception & Death 
Rightwing Control
Mass Crime Corporation
Massive Power
Political Class
Force
Possessed by Alcohol
March of Destruction

Anthares – Setlist
Cicatrizes
Extremismo Sagrado
Ócio
Paranoia Final
Conservadorismo
Pesado Sul-Americano
Ataque Legítimo 
O Caos da Razão
Retratos da Miséria 
Fúria
No Limite da Força
Chacina
Batalhas Ocultas (BIS)

 

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