“Bem-vindos ao nosso sanatório!”, bradou Cristina Scabbia na primeira vez das muitas vezes em que se dirigiu aos fãs que lotaram o Teatro Odisseia para prestigiar a terceira passagem do Lacuna Coil pelo Rio de Janeiro. Superlotaram, eu diria. Se jogassem um pouco de eucalipto, o sanatório teria virado uma sauna. Se jogassem um pouco de enxofre, teríamos a certeza de que estávamos no inferno – o local, acanhado e que mostra o problema da cidade para shows de tal porte, foi a alternativa depois que a noite de sexta-feira no Circo Voador foi ocupada por Jake Bugg (quem? Exatamente…). Mas e daí? Cristina e seu parceiro de microfone, Andrea Ferro, mostraram ao lado de Diego Cavallotti (guitarra), Marco Coti Zelati (baixo) e Ryan Blake Folden (bateria) que nada daquilo atrapalharia uma belíssima apresentação do quinteto italiano. De fato, não atrapalhou.
Dez minutos antes do horário programado, a introdução que antecedeu “Ultima Ratio”, a primeira das sete músicas extraídas do trabalho mais recentes, o excelente “Delirium” (2016), fez com que os fãs esquecessem o desconforto. “Spellbound” terminou de fazer o serviço, colocando a casa para cantar o refrão grudento junto com Cristina – e abafar a voz da vocalista, o que seria uma constante durante a noite. “I love you so much, Rio! Loudest crowd EVER”, escreveria ela mais tarde em suas redes sociais. Ok, diz isso para todos, mas a declaração não fugiu da verdade.
O jogo já estava ganho em “Kill the Light”, o que facilitou a vida do grupo ao apresentar mais material novo. “Blood, Tears, Dust” e “Ghost in the Mist” foram bem recebidas, enquanto “My Demons” mostrou potencial para se tornar um clássico ao fazer render bem ao vivo um refrão muito palatável, um belo e econômico solo de guitarra e, principalmente, os momentos pula-pula. Curiosamente, segundo Cristina, “My Demons” foi uma das mais requisitadas pelos fãs nas redes sociais, onde a simpática vocalista é quase onipresente.
Com “Trip the Darkness” começou a ficar difícil respirar, mas porque o show havia atingido em sua metade níveis de êxtase, o que virou catarse quando foi perguntado se os fãs queriam algo mais old school. Se todos já esperavam por “Swamped”, sempre um grande momento, o que veio antes foi um verdadeiro deleite, porque “Senzafine” causou um misto de incredulidade e alegria no rosto dos presentes, que enrolaram a língua para acompanhar a letra em italiano. Foi lindo, de verdade, assim como “Downfall”, uma das mais bonitas canções da discografia do Lacuna Coil. E palmas para Cavallotti, que respeitou nota por nota o solo cheio de feeling da versão em estúdio – gravado por Myles Kennedy, diga-se de passagem.
“Vamos fazer algo ao estilo carioca”, disse Ferro ao puxar o coro “Olê, olê, olê! Lacuna Coil!”, prontamente acompanhado em uníssono pela plateia. A falta de rima passa como licença poética, porque a banda conseguiu uma proeza: fazer do terço final do show um único clímax. “Our Truth” colocou a casa abaixo e ratificou a impressão inicial de que Cristina está cantando como nunca, atingindo as notas altas com muita facilidade – vale ressaltar que o som estava impecável, o que obviamente tem a ver com o técnico responsável, mas justiça seja feita com o Odisseia: a iluminação não estava aquela coisa monocromática de sempre. Além do vermelho, tinha um pouco de azul e de verde…
“Enjoy the Silence”, o cover do Depeche Mode muito bem apropriado pelos italianos, manteve a altíssima temperatura, e o coro de “we fear nothing”, puxado pela vocalista foi a deixa para “Nothing Stands in Our Way” chamar o bis em grande estilo. De volta ao palco com as pinturas nos rostos vencidas pelo suor – mas o visual da banda é mesmo muito legal –, os cinco espremeram o hit “Heaven’s a Lie” (desnecessário dizer a reação dos fãs) entre duas das melhores músicas de “Delirium”: a faixa-título, com seu refrão simples e impecável, e “The House of Shame”, ainda mais pesada ao vivo e na qual os holofotes vão todos para Ferro e sua performance gutural de tirar o chapéu. Depois de uma hora e meia, nem mesmo a hora de deixar o local no esquema “pague para entrar, reze para sair” incomodava mais.
