Uma combinação explosiva que sempre gera uma noite mítica de boa música, uma ou outra surdez temporária na manhã seguinte e, é claro, certo toque de ressaca aqui e acolá. Como o próprio o vocalista Jimmy London gosta de dizer, o Matanza no Circo Voador é o Matanza jogando em casa. E daí que todos os que comparecem à Lona para a versão no Rio de Janeiro da quarta edição do “Matanza Fest” acabaram saindo de lá fisicamente derrotados e acabados, apesar de musicalmente realizados.
A noite de festa começou cedo. Quando o Monstros do Ula Ula, já histórica banda do underground carioca, subiu ao palco por volta da 22h15, o público presente ainda estava frio e faltava muita gente para chegar. O Punk Rock com pegada de Surf Music foi suficiente até com sobras para dar o start na coisa toda. A banda, que teve seu nascimento ainda na década de 90, com uma mistura que contava com integrantes atuais do Matanza e do Planet Hemp, entre outros, deu conta do recado. Lucky Leminski (vocal, Metalmania, X-Rated), Gus Santoro e Diba (guitarras), Omar (baixo) e Bacalhau (bateria) fizeram um show misturando sons que há muito estão na estrada e novidades que farão parte do próximo EP do quinteto.
Daí que as coisas não só se encaminharam, mas mergulharam de cabeça rumo ao inferno, quando o Hatefulmurder subiu ao palco. O Thrash com toques de Death Metal do grupo levantou (e arruinou) o público de vez – e provavelmente foi o tamanho descomunal da barulheira que apressou a galera que ainda estava tomando umas e outras do lado de fora do Circo Voador a entrar na casa. A lona encheu rápido, e a beldade ruiva Angélica Burns (desculpem-me, mas não resisti) incendiou de vez, e sem muito blábláblá, o Matanza Fest. Muita, mas muita competência musical envolvida no show dos cariocas. Logo de cara percebemos que é brincadeira de gente grande, e que não é por acaso do destino que a banda tem contrato para rodar o mundo, espalhando um pouco de beleza e muito de caos e barulho por aí. Tudo orgulhosamente “made in Brazil”. Dá uma catada aí e presta atenção na bateria da banda. Uma devastação só o que Thomas Martin faz – Renan Campos (guitarra) e Felipe Modesto (baixo) completam o quarteto.
Logo após, e a mudança de palco em todo o evento foi de uma agilidade e tanto, foi hora de cultuar o Punk Rock do Cólera, na estrada há quase 40 anos. E é reconfortante saber que mais de uma geração está podendo curtir a agressividade dos caras. A formação atual, com Wendel (vocal), Fábio (guitarra), Val (baixo) e Pierre (bateria), também fez bonito e honrou o nome do saudoso Redson Pozzi, falecido em 2011. Apesar de o Hatefulmurder ter conduzido os tímpanos da galera para um tom mais alto e devastador, o que esfriou um pouco os ânimos da plateia no show do Cólera foi um clima adequado. Um show de uma lenda viva do Punk Rock nacional é mesmo para ser contemplado e cultuado com o devido respeito, tentando arquivar na memória o máximo possível.
E aí então, enfim, o cheiro de enxofre que dominou o ambiente indicava que era chegado o convidado principal, o Matanza. Confesso que sou 100% suspeito pra falar dessa banda. Já fui, sem nenhum exagero, assistir a dezenas de shows e continuo por aí, sempre querendo mais. E foi o trator sonoro de sempre. Desta vez com algumas inserções que não são muito habituais em shows. Tocaram Motörhead e Johnny Cash, além de algumas músicas próprias que são menos frequentes nos palcos. Dentre elas, e é claro que Jimmy London deu aquela compreensível patinada na letra, “Conversa de Assassino Serial”, a bela e longa canção que encerra o último álbum, “Pior Cenário Possível” (2015). Dentre as pouco tocadas nos palcos, o grupo tirou do baú a excelente “Santanico”, sacada lá do primeiro disco, o mítico “Santa Madre Cassino” (2001), e canção apareceu estilosamente com cara de filme B, dividida em duas partes.
Há quem diga que o Matanza perde muito da veia Country no palco, e isso é bem verdade. Mas se o destino quis assim, agora tanto faz. O próprio Jimmy já disse que a ideia original na formação da banda puxava mais para o Country mesmo, mas os caminhos acabaram tomando o caminho da tribo de camisa preta. É inevitável que o lado Hardcore se sobressaia nas apresentações. Só que a mistura é muito rica e não compromete. São experiências definitivamente diversas escutar Matanza em casa ou ao vivo… E não é que ambas são excelentes?
No palco ao lado de Jimmy London estavam Seu Nogueira (guitarra), Doni Escobar (baixo) e Jonas (bateria), formação vista na maioria dos shows. Por vezes a porta do sanatório fica aberta por descuido, e o guitarrista Donida, cérebro responsável pelas composições geniais, aparece para tocar junto. Felizmente vez foi assim desta vez. O pentagrama invertido esteve com as cinco pontas completas. E o inferno teve uma filial por quase duas horas no Circo Voador.
Quando a ROADIE CREW me convocou para rascunhar algo sobre o Matanza Fest do Rio, eu tive um pouco de receio. Topei e fui para o Circo todo profissional. Bebi pouco, levei caderninho de anotação e mantive uma boa postura… Até o Matanza entrar no palco. Ainda durante “Matadouro 18”, que abriu a apresentação, uma caneta estourou, eu joguei a reserva para o alto e fiquei lá pateticamente tentando equilibrar o lado fã, que estava “cantando” e pulando horrores no meio da multidão, com o lado responsável, anotando a ordem das músicas no bloco de notas do celular. Sim, o aparelho quase caiu uma meia dúzia de vezes. Sim, estou gargalhando enquanto escrevo isso e tento decifrar a loucura que vejo na tela do aparelho… Alívio. Meu filho colaborou também, e as anotações dele saíram bem melhores que as minhas. Segue abaixo o set list que está, provavelmente, 96,66% correto, e um pouco mais abaixo um pouco da versão “headbanger querendo se divertir e trabalhar ao mesmo tempo”.
Set list Matanza 1. Matadouro 18 2. Eu Não Bebo Mais 3. A Arte do Insulto 4. Bom é Quando Faz Mal 5. Meio Psicopata 6. Taberneira, Traga o Gim 7. O Chamado do Bar 8. Em Respeito ao Vício 9. Imbecil 10. Clube dos Canalhas 11. Todo Ódio da Vingança de Jack Buffalo Head 12. Eu Não Gosto de Ninguém 13. Tempo Ruim 14. Odiosa Natureza Humana 15. Ressaca Sem Fim 16. Sob a Mira 17. Santanico 1 e 2 18. Maldito Hippie Sujo 19. Remédios Demais 20. O que Está Feito, Está Feito 21. Pé na Porta, Soco na Cara 22. Conversa de Assassino Serial 23. Iron Fist (Motörhead) 24. Five Feet High And Rising (Johnny Cash) 25. Pandemonium 26. O Bebum Acabado 27. Rio de Whisky 28. Mulher Diabo 29. Mesa de Sallon 30. Tombstone City 31. Country Core Funeral 32. Ela Roubou Meu Caminhão 33. Interceptor V6 34. Estamos Todos Bêbados 35 Interceptor V6 (reprise) E os melhores momentos do setlist anotado no meio da multidão: . Sei k . Nada Missal o . Fal mal . Psicorp . Taber . Dia Quente . Jack Bugalhos . Não morri no diq . Dantwino . Iron Motor Hesd . Mama as as . Todos bebafpo . Johny caso mama as as E Não. Eu não estava bêbado.