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  • RED FANG – Rio de Janeiro/RJ, 23/03/18

    RED FANG – Rio de Janeiro/RJ, 23/03/18

    Stoner rock ou rock progressivo? Uma cacetada atrás da outra ou longas viagens instrumentais? Canções que preterem solos de guitarra ou o talento de um dos grandes nomes do instrumento? Foi mais ou menos isso que passou pela cabeça quando foram anunciados para o mesmo dia os shows do Red Fang e de Steve Hackett no Rio de Janeiro. Como a vida é feita de escolhas, a opção foi pela estreia do quarteto americano em solo carioca, uma vez que o músico inglês tem batido ponto com frequência na cidade.

    Mas a verdade é que o Red Fang poderia ter sido um belo aperitivo para o espetáculo do ex-guitarrista do Genesis. A programação de matinê que culminou com a perda do show do Dandara, que abriu os serviços no Teatro Odisseia, faria com que fosse possível rumar ao Vivo Rio, a poucos quilômetros de distância da Lapa, para assistir a Hackett e sua banda. Quem manda não fazer as contas?

    Penitência registrada, o fato é que Bryan Giles (guitarra e vocal), Aaron Beam (baixo e vocal), David Sullivan (guitarra) e John Sherman (bateria) serviram um ótimo prato principal naquela noite de sexta-feira. É só lembrar de “Blood Like Cream”, que abriu o show, para ficar tudo bem, porque foi o início de sinfonia de cabeças e pés batendo ao ritmo de uma música cujo refrão é absolutamente irresistível. E que ficou melhor ainda ao vivo, com a participação do público que compareceu em bom número à acanhada e tradicional casa.

    O peso de “Malverde” deu sequência a uma pressão que logo mostrou qual é o seu alicerce: riffs de guitarra. “Crows in Swine” e “Cut it Short” foram a união do melhor desses dois mundos – peso e riffs, incluindo o de baixo da segunda –, e no meio delas ainda teve o acento mais pop de “Not for You”, comprovando o acerto na divisão dos vocais de Beam, mais limpo e palatável, e Giles, mais agressivo e heavy metal. E o resultado da união das duas vozes pode ser sentido em canções como “Into the Eye”, que veio a seguir com seu refrão hipnótico.

    E tome porrada! E uma bem dada com a dobradinha “Antidote”, pesada como deve ser um filho do Black Sabbath, e “Wires”, que transformou o Odisseia num pula-pula – principalmente a parte da frente da pista, onde se concentraram aqueles que eram realmente fãs de carteirinha do Red Fang. “Vamos tocar a próxima especialmente para vocês. Não sei se querem ouvi-la, mas acredito que sim. Mas preciso beber um gole de cerveja antes”, disse Beam, apenas confirmando a predileção do grupo por suco de cevada. Bom, era a vez de “Sharks”, e quem não queria mais rock’n’roll? Sim, todos queriam.

    A levada contagiante de “Cut it Short”, que provocou novos momentos de êxtase na turma do gargarejo, abriu espaço para a arrastada e pesada “The Smell of the Sound”, que colocou o trem de volta aos trilhos ao acelerar no fim. E veio a trinca que encerrou o set regular… Alguém anotou a placa? “Dirt Wizard” preparou o terreno com um riff espetacular, a rápida “Flies” mereceu a roda aberta pelo público, e “Prehistoric Dog” simplesmente deixou os fãs ensandecidos.

    Teve mais roda, teve mais pula-pula, e poderia ter acabado aí que todos voltariam felizes da vida para casa. Mas o quarteto voltou ao palco para um bis que, apesar de não estar no setlist, vem se mostrando protocolar na atual a turnê – o Red Fang ainda promove seu quarto álbum, “Only Ghosts”, lançado em 2016. Bom, protocolar porque todo mundo já esperava a festa continuar, e os últimos momentos de uma hora e 15 minutos de celebração rock’n’roll foram com “Hank is Dead”, animada, e “Throw Up”, arrastada e pesada. Animação e peso, exatamente os elementos que marcaram a bela estreia do quarteto de Oregon no Rio de Janeiro.

    Set list

    1. Blood Like Cream 2. Malverde 3. Crows in Swine 4. Not for You 5. No Air 6. Into the Eye 7. Antidote 8. Wires 9. Sharks 10. Cut it Short 11. The Smell of the Sound 12. Dirt Wizard 13. Flies 14. Prehistoric Dog Bis 15. Hank is Dead 16. Throw Up
  • RED FANG

    RED FANG

    No variado cardápio da segunda edição do Maximus Festival, que acontece em São Paulo no dia 13 de maio, está o Red Fang, um dos melhores grupos da já não tão nova safra do se popularizou chamar stoner rock. Em seu 13º ano de estrada e com quatro ótimos álbuns lançados – “Red Fang” (2009), “Murder the Mountains” (2011), “Whales and Leeches” (2013) e “Only Ghosts” – Bryan Giles (guitarra e vocal), David Sullivan (guitarra), Aaron Beam (baixo e vocal) e John Sherman (bateria) têm a oportunidade de alçar voos maiores no Brasil e na América do Sul em geral – o quarteto de Portland, nos EUA, se apresentou em Santiago (Chile) e Rosário (Argentina) antes de uma parada com o Slayer em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. E foi para falar sobre isso e mais um pouco que batemos um papo com Giles, e você confere parte dele aqui como aperitivo do que em breve estará nas páginas da ROADIE CREW. Boa leitura e um show ainda melhor.

    O Red Fang tocou no Brasil em 2012, então os fãs daqui já não são mais uma surpresa. No entanto, são cinco anos e dois discos desde a primeira vez em que vocês estiveram aqui. Mudou alguma coisa que traga uma nova expectativa? Bryan Giles: Sinto-me da mesma maneira de quando fomos aí pela primeira vez, porque é muito empolgante poder voltar a um local tão diferente e tão distante da minha vida normal. Além disso, vamos tocar no Maximus Festival, então imagino que ficaremos diante de muitas pessoas que nunca ouviram a nossa música. Isso deixa as coisas ainda mais excitantes, afinal, temos a chance não apenas de deixar nossos fãs felizes, mas também de conquistar novos. Tenho certeza de que será ótimo.

    E desta vez a banda também se apresentou pela primeira vez no Chile, ou seja, creio que são passos importantes para que role uma turnê própria e maior do Red Fang em breve. Bryan: Sem dúvida! Espero que isso ajude a abrir as portas para um giro sul-americano mais extenso no futuro. Nunca tivemos a oportunidade de abranger um maior número de países e cidades, então acredito que podemos transformar isso em algo comum. Isso seria ótimo, porque não precisaríamos novamente esperar cinco anos para voltar (risos).

    E seria ideal. Por mais que seja muito bom estar escalado no ‘main stage’ de um grande festival, creio que lugares menores combinam muito mais com o Red Fang. Bryan: Concordo com você. Os shows em casas menores são mais intensos e divertidos para nós. As pessoas enlouquecem com mais facilidade, há cerveja voando pela plateia (risos), é possível sentir melhor a energia do público. Os shows menores são mais vibrantes, sem dúvida. Claro que os festivais são ótimos, mas muitas vezes eu os encaro como uma chance de abrirmos as portas, como agora, e podermos voltar para tocar em lugares menores. Para mim, isso faz sentido. Há uma demanda muito grande de energia quando saímos de nossas casas para tocar tão longe, então precisamos de um festival, especialmente de um que tenha um público selvagem, para fazer com que as pessoas se importem o suficiente para a banda voltar e lotar um clube, por exemplo. Quem sabe?

    A propósito, o Maximus não é um festival exclusivamente heavy metal, cenário no qual o Red Fang se encaixa, e a mistura de estilos é comum em eventos assim na Europa e nos Estados Unidos. Aqui, no entanto, ainda existe certa polêmica, que neste caso envolve até o Slayer abrindo para o Linkin Park. O que acha disso? Bryan: Eu sou um grande fã de festivais que tenham essa diversidade. Assistir a shows de bandas do mesmo gênero, uma atrás da outra, pode ser bem cansativo. Fico entediado ao ouvir sempre o mesmo estilo musical, então prefiro também tocar em festivais que tenham essa mistura. Mas é curioso que você tenha levantado a questão dessa maneira, porque numa entrevista mais cedo perguntaram o que eu achava do Linkin Park, e precisei admitir que nunca havia escutado nada deles. Como tive alguns intervalos até falar com você, fui checar o som da banda e tenho de admitir também que não fiquei ofendido (risos). Não é o meu estilo de música, mas não me incomodou. É apenas diferente. Acredito que as pessoas deveriam ter a mente um pouco mais aberta e mantê-la assim, porque nunca se sabe quando você pode gostar de algo que imaginaria que detestaria ao ouvir.

    Sem dúvida, mas é complicado fazer com que um público mais conservador entenda isso, principalmente quando envolve a relação de amor e ódio com o chamado new metal. Bryan: Sabe, quando eu era mais novo, de alguma maneira a música serviu como um canal para eu ter uma identidade. Fez parte da minha formação e ajudou as pessoas a me compreenderem, eu diria, porque o tipo de música que eu estivesse escutando estava relacionado às minhas emoções, ao meu estado de espírito. Mas hoje estou mais velho e vejo valor em todos os estilos. Ficar preso num mundo musical pequeno serve apenas para atrasar as escolhas que você pode fazer. Há beleza em tudo.

    Você tocou num ponto importante, que é o amadurecimento. O radicalismo faz parte da adolescência, da juventude, mas com o tempo aprendemos que é mais fácil ignorar o que não gostamos. Eu não curto Linkin Park, mas se antes eu ficaria reclamando, hoje eu iria ao banheiro ou ao bar durante o show deles. Bryan: Claro, é isso mesmo! E posso dizer a você que, como estarei lá, vou assistir ao show deles (risos). Mas não me surpreenderei se muitas pessoas forem embora, até porque os shows no Brasil começam muito tarde. Fico imaginando que o Linkin Park subirá ao palco às três da manhã, porque costumo já estar na cama quando os ‘headliners’ começam a tocar no seu país (risos) (N.R.: os horários foram divulgados depois desta entrevista, e a atração principal está prevista para 21h).

    Obrigado pela entrevista, Bryan, e que o Red Fang realmente consiga abrir mais portas no Brasil depois do Maximus Festival. O espaço final é todo seu. Bryan: Mal podemos esperar para ver todos vocês no show, porque tenho certeza de que será sensacional. E também mal posso esperar para conhecer novos lugares e conhecer novas pessoas, então, se você me vir na rua, sinta-se à vontade para falar comigo! (risos)