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  • Pepinho Macia 2

    Pepinho Macia 2

    Você é filho do Pepe, reconhecidamente um dos maiores jogadores da história do futebol, e que também foi um técnico de muito sucesso. O quanto o fato de ser filho dele influenciou na sua opção por seguir profissionalmente a carreira de treinador. Quais os clubes onde você já trabalhou?

    Pepinho: A influência foi total, por ter um treinador em casa, o pai ao lado todo dia. Acompanhei a carreira do meu pai todinha, como treinador. Quando ele parou de jogar eu era muito criança, tinha só quatro anos e eu não vi ele jogar.

    Nesse ponto eu tive mais sorte que você...

    Pepinho: Só depois que eu vi, mas apenas por vídeo. Ele parou de jogar quando tinha 34 anos em 1969, mas dava pra continuar e ele queria continuar a jogar. Só que o Edu e o Abel estavam “voando” e meu pai estava ficando na reserva. Então o Corinthians, a Portuguesa de Desportos e o Guarani cresceram o olho pra contratar meu pai. E meu pai só jogou no Santos a vida inteira…

    Ele só vestiu três camisas: Santos, Seleção Paulista e Seleção Brasileira.

    Pepinho: Certo. Ah, uma vez vestiu a do Vasco, lembra? O Santos usou a camisa deles, era um combinado Santos-Vasco. Bom, mas ele recebeu as propostas e foi ao Modesto Roma e falou “olha, os caras estão mandando isso aqui pra mim…” Meu pai já tinha recusado propostas de times da Espanha e da Itália na época e ele preferiu ficar no Santos. Só que então, no final de carreira, ele não tinha mais vaga no time, mas queria continuar, e o Modesto Roma falou “o quê? O ‘Menino de Ouro’…” – os apelidos do meu pai eram “Canhão da Vila” e “O Menino de Ouro da Vila” – “…o Menino de Ouro no Corinthians? Não! Você vai fazer uma despedida, e no dia seguinte você é o novo técnico do infantil do Santos”. Aí meu pai topou, foi assim. E aí eu comecei a acompanhar a carreira dele, mesmo no infantil, quando eu tinha oito anos, na época. Depois meu pai foi para treinador do profissional. Era o técnico naquele título que dividiu com a Portuguesa (em 1973), aquele absurdo.

    Eu estava lá no Morumbi naquele dia.

    Eu acompanhei bem de perto, eu ficava na concentração. Acompanhava o dia a dia. Eu jogava pebolim com o Pelé, com o Carlos Alberto Torres, com o Clodoaldo, na Chácara Nicolau Moran. Então eu vivi dentro da Vila, eu nasci dentro da Vila e dentro do futebol. O futebol sempre esteve incutido, não teve jeito, sempre esteve no contexto. O meu pai sempre me incentivou até indiretamente, pela convivência. E anos depois ele achou que eu poderia ter um futuro como treinador de futebol, me incentivou muito.

    Quais foram os clubes onde você já trabalhou como treinador?

    O Independente de Limeira foi meu primeiro clube como treinador, em 1998. Eu cheguei para ser técnico do Sub-17, disputamos um torneio e aí quando virou o ano para 1999 já veio a Taça São Paulo e Limeira era uma das sedes. A chave era Independente, ABC de Natal, Juventude e, claro, Santos. (risos) Tinha que ser, né? Incrível. Para que se tenha uma ideia naquele ano o Sub-20 do Santos tinha o Rodrigão, lembra do Rodrigão? Ele está jogando ainda, no finzinho de carreira, aqui no Jabaquara, ou na Portuguesa Santista, e está querendo mexer com empresariamento de futebol. Mas o caso é que a gente eliminou o Santos! Na primeira fase estreamos contra o Santos e perdemos de 2×0, dois gols do Rodrigão. Mas aí ganhamos as outras duas partidas e o Santos tropeçou com o ABC de Natal, empatou com o Juventude, e a gente se classificou e eliminou o Santos, cara! Incrível! Eu era auxiliar, o técnico era o Pupo Gimenez, que trabalhou no São Paulo muitos anos. Foi o Lê, ex-jogador do meu pai na Inter de Limeira quem nos contratou. Nossa classificação foi uma surpresa muito grande. Quando saí do Independente eu fui pro Lemense, e em seguida para a Ferroviária de Araraquara. Depois disso fui para a Portuguesa Santista, na primeira vez que trabalhei diretamente com meu pai, ele como treinador e eu como auxiliar, isso em 2002. Apenas em três ocasiões eu trabalhei com meu pai, dentre os 14 clubes onde estive.

    Essa passagem pela Portuguesa Santista tem uma história emocionante…

    Nós entramos na Portuguesa Santista que estava numa situação dificílima no Campeonato Paulista. Em último lugar no Paulista, cinco pontos atrás do penúltimo. Ou seja, a imprensa e os amigos falavam “Ah, já caiu! O que é isso? O Pepe está louco de pegar esse time”. Faltavam seis jogos, com cinco pontos atrás. O último lugar caia, e o penúltimo jogava com o vice da A-2, tinha uma chance ainda de não cair. A Matonense era o penúltimo. Tomamos três ‘porradas’ em seguida. Pegamos o time e perdemos do Juventus, do Ituano e do Paulista de Jundiaí. Pô, aí meu pai falou “vamos embora, filho” eu falei “não pai! Espera…”. O próximo jogo era com a Matonense, em Matão. Meu pai disse “não, não dá. Esse time não tem solução. Só vamos tomar ‘porrada’”, eu falei “pai, é a última chance contra a Matonense, se a gente ganhar…”. Eles também tinham perdido três partidas, continuávamos com cinco pontos de diferença. Se a gente ganhasse da Matonense cairia para dois pontos. E fomos para Matão. Começa o jogo e a Matonense faz 1×0, em seguida 2×0. “Puta que o pariu! Que desgraça!”. Mas foi incrível, viramos pra 3×2! Ganhamos o jogo de 3×2. Jogavam o Silas (ex-São Paulo) e aquele Zinho, que falava que era o Antonio Banderas – feio de doer e ele falava “eu sou o Antonio Banderas”. (risos) Eles jogaram demais nesse dia. Cara, nós ganhamos esse jogo, e viramos um ‘timaço’ (risos). O time todo ganhou uma moral enorme. O time não era ruim, e agora com uma moral tão grande as coisas melhoraram muito. Ganhamos mais dois jogos e passamos a Matonense. Com isso fomos jogar com a Francana que era o vice da A-2 para disputar o ‘rebolo’, e ver quem ficaria na primeira divisão. Primeiro jogo em Franca, 15 mil pessoas, o estádio lotado! Estávamos no hotel em Franca quando o presidente do clube me chamou e disse “seu tio acabou de morrer”. Tinha falecido o irmão do meu pai! “…e agora? Fala ou não fala pra ele?”. Eu achei melhor falar, pois seria terrível omitir uma coisa dessas, e demos a notícia. Ele não queria nem ficar no banco, mas eu pedi e ele ficou. Mas o preparador físico me falou “Pepinho, ele está uma figura decorativa”. Começou o jogo, 2×0, dois pênaltis a favor da Francana, 2×0. Eu pensei “Nossa Senhora, tanto esforço pra passar a Matonense, e agora…”. E a torcida vibrando. Nós tínhamos um centro-avante chamado Guilherme no banco, e ele vinha arrebentando nos treinos. Era um moleque, tinha 18 anos. No intervalo falamos com meu pai para por o Guilherme. O auxiliar não podia ficar no banco, durante o jogo eu estava na arquibancada, no meio de 15 mil torcedores da Francana e 10 pessoas da Portuguesa Santista, no lado oposto do banco da Portuguesa. Combinei com o preparador físico que quando eu fizesse um sinal com o braço era para aquecer o Guilherme. Airton, deu 15, 18 minutos o time deu uma ‘melhoradinha’ e meu pai colocou o moleque pra jogar. Tiramos o centro-avante – que não fazia gol em ninguém, o infeliz – fizemos uma jogadinha no fundo, o Zinho cruzou, e o moleque ‘tum’, 2×1. Eu vibrei “Nossa, 2×1!” e o time da Francana sentiu demais, a torcida sentiu um baque. Dali a pouco o moleque fez um gol de calcanhar! Ah, o mesmo moleque, 2×2! Depois esse garoto foi jogar na Itália, e acabou não dando muito certo, mas… E no fim do jogo todo mundo alegre, mas meu pai estava muito triste, coitado… e eu também, afinal era o meu tio que tinha falecido. Mas foi uma coisa incrível. O preparador físico vibrava “cacete, Pepinho, conseguimos!” Eu me senti o máximo naquele dia. Foi a primeira vez que eu me senti daquela forma! Bem, o jogo de volta foi em Santos, e empatou de novo, 1×1. Foi pros pênaltis e nos pênaltis a gente ganhou. Imagina, a Portuguesa se manteve… Todo mundo falava: “isso foi um milagre”.

    E no ano seguinte deu sufoco em todo mundo, né?

    Pepinho: Aí virou o ano para 2003, e entrou um empresário que manteve meu pai, manteve a comissão técnica toda. Montamos um time do zero. Vieram o Souza, o Adriano, o Rico… A melhor campanha até a semi-final foi a nossa, mas aí perdemos para o São Paulo. Ganhamos até do Santos! Fazia 45 anos que a Portuguesa Santista não ganhava do Santos. Jogamos em Ulrico Mursa, o campo da Portuguesa. Lembro que meu pai não deixou o jardineiro cortar a grama, e quando eu questionei isso ele disse: “não, você tá louco? Diego, Robinho, o time deles é muito rápido. Deixa a grama desse tamanho”. Treinamos com o campo assim e o time se acostumou com a altura da grama, porque o nosso time era rápido também, só que treinamos 10 dias naquele “mato”. O pessoal do Santos estranhou o campo: “mas, que, o que é isso? Vai ter jogo aqui?” Nossa, a Portuguesa jogou muito naquele dia: 2×0, dois gols do Rico. Essa campanha na Portuguesa Santista deu uma visibilidade no Brasil inteiro. Choveu time querendo a gente. Fortaleza, América de Natal, Guarani. Decidimos ir para o Guarani, no Campeonato Brasileiro da Série A, o time estava bem…

    Depois do Guarani teve a segunda passagem pelo Catar então.

    Pepinho: Fizemos uma campanha boa no Guarani, ficamos entre os 10 no Brasileiro. Com isso o Sheik do Catar, o que tinha contratado meu pai 20 anos antes, ficou sabendo que ele estava na ativa então em 2003, “o Pepe está em atividade ainda, na Série A do Brasil!”. Mandou a proposta e a gente deixou o Guarani, já estávamos de saída… Saímos de Campinas e fomos para o Catar para ficarmos dois anos em Doha, no Al Ahli.

    Você passou dois períodos no Catar, um na época ainda de adolescente e a outro entre 2003 e 2005, já trabalhando, mas você chegou a ter experiências em outros países?

    Pepinho: Sim, morei em vários outros lugares. Morei um ano em Portugal, vivi por um tempo no Peru, meu pai foi técnico da seleção do Peru. Meu pai também trabalhou no Japão e moramos em Tóquio. Mas sempre vivendo com a família, eu ainda era moleque. Profissionalmente mesmo foi na segunda passagem pelo Al Ahli do Catar.

    Como foi viver num país do Oriente Médio, de cultura tão diferente da nossa?

    Pepinho: Na primeira vez que fui morar lá eu tinha 18 anos, era horrível, cara! Não tinha nada, era um deserto do deserto. Não tinha nada pra fazer. Tinha um hotel e a gente frequentava o hotel, e um shopping bem pequenininho que era só o que havia lá. Desta segunda vez já era outra coisa, houve um progresso absurdo! Agora a cidade de Doha é igual a Dubai, cara. Doha compete com Dubai, são duas cidades rivais… Doha é a capital do Catar, e Dubai é como se fosse uma ‘Rio de Janeiro’ dos Emirados Árabes. Dubai lança um prédio enorme e Doha já quer lançar um mais alto… Agora para morar no Catar é sensacional!

    E Rock por lá, você conseguiu curtir alguma coisa?

    Pepinho: Ah, zero, né. Não tem… Muito pouco. Lá ainda tem fita cassete! Agora talvez não tenha mais, mas quando eu estive lá até 2005 ainda tinha muita fita cassete. Caramba 2005, não está tão longe assim! Tinha fita cassete pra caramba e eu achava Megadeth, Metallica, Slipknot, Korn, ainda se achava álbuns de Metal assim lá. Mas é difícil. Show? Nem pensar… Em Dubai agora está tendo. Mas no Catar show de Metal nem pensar. Totalmente improvável. Acho que teve shows do Rod Stewart e do Elton John. É acho que esses dois foram lá. Mas Rock pesado por lá era zero, agora melhorou um pouco. Eu levava uma parte da minha ‘coleçãozinha’, ou então passava na Europa ali perto e me abastecia. (risos) E já tinha a internet também, em 2004, 2005 já tinha internet, já dava pra ouvir um sonzinho on-line.

    Seu pai se aposentou depois disso e não chegou a trabalhar mais, não é?

    Pepinho: Como treinador o último time foi o Al Ahli. Depois ele ainda trabalhou no Santo André e no Flamengo de Guarulhos como observador, depois parou. Mas eu fiquei os dois anos no Al Ahli e então vim para o São Vicente como treinador, depois no Bragantino, como auxiliar do Marcelo Veiga, no Paulista de Jundiaí também com o Marcelo. Em seguida fui para Santa Catarina, no Balneário Camboriú. Passei pelo Juventude do Mato Grosso, e fiz um trabalho legal lá também. Aí eu fui pro Velo Clube de Rio Claro. Nossa, que várzea que era aquilo! O Lemense e o Velo Clube se eu contar em detalhes você chora… No Lemense faltava comida para os jogadores. A prefeitura fornecia a alimentação para o clube, mas alguém levava a carne pra casa, que absurdo! Eu cansei de comprar comida para os jogadores. Isso é o submundo do futebol. Mas eu tinha que fazer currículo… E no Velo Clube eu até que tinha uma estruturazinha boa, mas não podia jogar no estádio que seria do clube… Eu jogava em um outro estádio, com portão fechado. A torcida do Velo Clube ficava do lado de fora do estádio batucando… Aí, do Velo eu voltei para o Independente de Limeira, e de lá vim para o Santos. Foram 14 clubes no total.

    Um dos seus comandados na segunda passagem pelo Catar acabou se tornando, poucos anos depois, uma celebridade como técnico. Quem era essa “figura”, e o que ele sabia sobre o futebol de seu pai e do time do Santos dos anos 60?

    Pepinho: Então, foi o Pep Guardiola que hoje é considerado o melhor, ou pelo menos um dos três melhores treinadores do mundo. Ele foi nosso jogador no Al Ahli durante duas temporadas, era nosso capitão e ajudava muito. Ele já era um jogador em finalzinho de carreira, mas muito talentoso, passava a bola como ninguém. Eu nunca vi ninguém passar bola como ele. Tá certo que eu não vi ‘aquele’ pessoal do Santos, mas dos que eu vi o Guardiola era impressionante. E era um jogador que estava sempre muito interessado nos treinamentos, questionava, perguntava, e tal, “como vai ser o treino?”. Ajudava muito a gente. E sempre teve uma admiração muito grande pelo meu pai. Comigo também foi sempre muito legal. Gostava demais do meu pai. Aliás, ainda gosta, né. Tanto que outro dia perguntaram pra ele sobre meu pai, e quando falaram o nome do “Pepe” ’zooom’ ele abriu um sorriso enorme – se procurar no Youtube encontra esse vídeo. Isso é muito legal, ele tem um carinho muito grande pelo meu pai. E nas conversas todos os dias, perguntava do Pelé, perguntava o que eles faziam, aquele drible, e aquele jogo… Sempre tinha muita curiosidade de saber do time do Santos. O Guardiola sempre foi grande admirador do futebol brasileiro. Ele comentava muito sobre o Romário, falava que ele era muito inteligente, o jogador mais inteligente que tinha jogado com ele com a camisa do Barcelona. Ele pegava a bola e o Romário já fazia o movimento onde queria a bola… e ‘tum’, gol… Era impressionante. E o Ronaldinho Gaúcho, na época que a gente estava no Catar, ele estava estourando no Barcelona. O Guardiola falava dele também: “esse aí vai ser o melhor do mundo, e daqui a dez anos vai continuar ganhando…”. Ele sempre gostou muito do futebol brasileiro. E uma curiosidade do Guardiola é que uma vez eu perguntei a ele – a gente chamava ele de Pep – “Pep, você com a sua liderança tem tudo pra ser um treinador, cara… Você está encerrando a carreira… “ ele estava para terminar o contrato e dizia que ia parar mesmo como jogador, mas ele respondia “non, não tenho paciência pra isso, pra ser treinador. Meu negocio é jogar golfe” (risos) Ele falou isso. Cara ele jogava golfe todos os dias com o Batistuta. O Batistuta jogava no time do Cabralzinho, acabava o treino dos dois e eles iam jogar golfe. Ele falava “eu estou viciado em golfe!“.

    Seu início na comissão técnica do Santos foi como auxiliar do Claudinei de Oliveira?

    Pepinho: Foi como auxiliar no Sub-15, e aí eu fui subindo: Sub-15, Sub-17, Sub-20… Com o Flavinho, por um período curto, depois com o Claudinei, sendo Campeão Paulista na sequência: no Sub-15, no Sub-17 e no Sub-20. Foi como numa escadinha… No dia 1º de junho agora eu completei um ano como treinador principal do Sub-20. E vou completar 5 anos de Santos, entrei em 2009, e é a minha primeira passagem no Santos na comissão técnica. E isso é uma coisa que ninguém sabe. Muita gente pensa que eu caí de paraquedas, né. Mas eu ralei muito fora daqui antes… Meu pai falou isso pra mim “você vai ralar, vai rodar clubes pequenos…”. Pô, eu ganhava 500 reais na Ferroviária, no Lemense eu “ganhava” 800 reais, mas não recebia…

    Nessas últimas temporadas você tem obtido um sucesso absoluto! Ganhou tudo que disputou, seja como parte da equipe técnica com o Claudinei, e agora que ele saiu você continuou ganhando. Você tem conseguido vitórias consistentes em campeonatos importantes. Como é que fica a sua perspectiva em relação aos passos seguintes na carreira? Você acha que hoje o profissional de futebol se tornou dependente de um agente? Você tem o seu agente, um empresário que cuide dos seus negócios no lado profissional?

    Pepinho: Ah, por enquanto não mudou nada assim. Não tenho agente, eu continuo cuidando pessoalmente da minha carreira. Já teve uma sondagem ou outra de outros clubes, mas a diretoria do Santos veio falar comigo e não quer que eu saia de jeito nenhum, e isso foi muito legal… Quando acabou a Copa São Paulo eles me disseram que queriam me preparar para daqui a uns dois anos ser treinador do Santos. Isso inclui fazer estágio na Alemanha com o Guardiola, pelo fato de eu ter uma amizade com ele, além de eu ter trabalhado com ele por dois anos. Então eles têm essa proposta, que pra mim é sensacional. Não tenho agente, não acho que preciso. Estou muito feliz no Sub-20 do Santos, quero continuar aqui. Mas no futebol, mesmo sem agente, o seu futuro está nas mãos de outros, não está na sua mão. Então pode chegar alguém com um contrato e dizer “quero que você vá para o Real Madrid”. Fazer o quê? Ambição eu tenho, claro. Mas eu já sou um profissional realizado porque eu trabalho no clube que eu amo, e é um clube de ponta. Estou muito satisfeito aqui. O que vier pra frente é lucro.

    Alguns dizem que o que importa no trabalho feito na base é a revelação de jogadores, mas não existe também uma cobrança para se ganhar títulos?

    Pepinho: Independentemente da cobrança, eu acho que um título, uma conquista, faz parte da formação de um craque, de um bom jogador. Passa por isso também. Até no aspecto psicológico, é muito melhor subir sendo um vencedor do que conseguir um espaço no elenco profissional sem nunca ter ganhado um título. Se você chega ao profissional como um jogador que conquista, chega lá mais preparado, chega diferente: “olha, fui campeão da Taça São Paulo, cheguei, tô aqui”.

    Como treinador da categoria Sub-20 você trabalha com meninos que já têm contratos como os profissionais do elenco principal, mas ainda estão num momento de transição que é decisivo para o futuro na carreira deles. Seu papel é importantíssimo na vida desses jovens. Como você encara essa responsabilidade?

    Pepinho: Como você falou e até o Oswaldo comentou isso, e eu acho perfeita essa análise dele, o Sub-20 hoje é uma extensão do profissional. É uma coisa ligada, tanto é que a gente até treina junto, ali no mesmo CT. E eles sabem disso, sabem que o Santos dá oportunidade. Por isso que eles treinam cada vez com mais determinação. A gente percebe isso, eles treinam forte todo dia. Eu aprendi com meu pai sobre a responsabilidade de quem ocupa um cargo desses. Vai além de coisas como os tipos de treinamento, a parte tática – que ele também me passou. Eu acompanhei o que ele fez nesse ramo, ele sempre foi um paizão, cara. Ele sempre foi um treinador que conseguiu trazer o grupo sempre ao lado dele, conseguiu fazer um bom clima, um ótimo ambiente. Isso é muito importante. Já vi times muito bons que não tinham um bom ambiente e não conquistava, não chegava. Com a nossa molecada a gente tem um ambiente aonde eles chegam e entram no treino sempre felizes. Sabem que vão ser bem tratados. A nossa comissão toda tem um ambiente muito alegre, muito bom. Não é uma coisa carrancuda, fechada, é uma coisa descontraída, com responsabilidade, mas a gente trabalha com alegria. Dando risada. Você viu hoje lá no CT. A gente dá risada, brinca. Então o trabalho se torna uma coisa prazerosa, e com isso eu percebo que os jogadores se sentem menos pressionados. Percebo isso no dia a dia e também nos jogos. E eu falo sempre isso pra eles “vocês não vão me ouvir xingar, ou ofender vocês”. Porque tem treinador que apela a qualquer momento e acaba perdendo o respeito. E eu já falei com eles sobre isso. Eu falo “vai lá, tenta fazer, se errar tentando uma jogada pode ficar tranquilo, valeu, ‘vamo’ pra próxima, beleza”. Agora se o moleque fizer uma ‘cagada’ por displicência, uma jogada com irresponsabilidade gratuita, aí ele toma ‘chamada no saco’, mas sempre com limites. Mas eu acho que esse lado de psicólogo meu, além do conhecimento da parte tática, é muito importante.

    Com certeza esse seu comportamento é algo que você herdou do seu pai também, além de ser canhoto como ele.

    Pepinho: É verdade. E todo mundo gosta do meu pai. E essa característica eu acho que estou conseguindo colocar nos meus times. É o caso dos jogadores que subiram para o profissional depois da Taça São Paulo, quando nos encontramos é só alegria. Eles vêm e já me abraçam. Isso é muito legal, isso não tem preço. É o que a gente conseguiu colocar aqui. O nosso time na Taça era um time leve. Eles não sentiam pressão. E poderiam até sentir, pô, estádio lotado… Eles tentavam, eu falava “tenta, velho, não tenha medo de errar, que eu vou te incentivar. Pode ficar tranquilo, não vou dar ‘comida de rabo, viu”, essa é uma linguagem do futebol (risos). E sobre ser canhoto, eu sou mais canhoto que meu pai. Sou de pé e mão. Meu pai escreve com a direita, ele é canhoto de perna e destro com a mão. Eu sou ‘canhotaço’ mesmo, de tudo.

    O Santos dos anos 60 foi o chamado “Time dos Sonhos”, algo que jamais teria paralelo no mundo do futebol, e vários jogadores daquela geração ainda se mantém unidos em torno do clube. Tem amizade, se encontram, Inclusive aquela linha atacante insuperável – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe – que, graças a Deus, estão todos vivos…

    Pepinho: Interessante isso. É uma coisa até de parar pra pensar, os atacantes todos estão vivos e os zagueiros, quase todos, morreram, impressionante.

    Da defesa mesmo só tem o Dalmo vivo, pois o Lima jogava em todas as posições, o Abel e o Edu também eram atacantes, o Zito e o Clodoaldo eram meio-campo.

    Pepinho: Impressionante, cara! É uma coisa até estranha…

    Esse pessoal todo ainda tem uma contribuição muito importante, às vezes diretamente prestando serviço, como o Lima que é trabalha no Santos como o responsável pelas franquias de escolas de futebol. Alguns ajudam demais, mesmo quando não ocupam cargos no clube.

    Pepinho: É. O Abel também trabalha com a base.

    Então, todo esse pessoal, os gênios daquele time, tiveram filhos. Esses filhos cresceram mais ou menos na mesma época, e você deve ter uma série de “primos”, filhos desses seus “tios” que foram parceiros de seu pai. Como é o seu relacionamento com essa turma, o filho do Lima, o filho do Pelé, o filho do Coutinho…

    Pepinho: O Coutinho teve um drama, ele perdeu o filho muito cedo. Jogava pra cacete! Jogou no Sub-15 do Santos, chamava Cleber, jogava demais, mas morreu muito cedo, faz muito tempo. Conheço o filho do Lima, mas temos pouco contato. Assim, no Santos, eu tenho contato com os dois filhos do Mané Maria que são treinadores na base, o Aarão do Sub-17 e o André do Sub-15. A gente tem contato praticamente diário. O sobrinho do Mengálvio também trabalha nas franquias do Santos. Mas o que eu tenho assim mais contato é com o Edinho, o filho do Rei, que é auxiliar do profissional e volta e meia a gente troca ideias, ele pergunta muito sobre o Joshua que é um jogador do meu time, filho do Pelé também, e que é irmão dele. São os filhos do Rei, eles são os mais próximos de mim. O mais novo joga no meu time e o mais velho, o Edinho, está no profissional, e a gente tem um contato praticamente diário também.

    Só pra terminar aqui, parabéns por ser filho do Pepe…

    Pepinho: Ah, obrigado, eu agradeço isso todos os dias…

    E parabéns pela forma como você carrega essa herança que recebeu dele como pessoa, incluindo aí uma facilidade enorme para ser um ótimo contador de histórias. Pelo jeito você só deixou de lado o único defeito que ele tem: a falta de cabelo. (risos)

    Pepinho: Eu e meu irmão, a gente tem cabelo. Mas ele diz que perdeu o cabelo por causa daquele topete que ele tinha. Era o famoso topete do Elvis Presley, que todo mundo queria ter igual. E ele passava aquela porra do “gumex” ou da “brilhantina”, o que acabou com o cabelo da geração toda, não foi só dele. (risos) Ficou todo mundo careca…

     
  • Pepinho Macia 1

    Pepinho Macia 1

    A conversa que tivemos com Alexandre Serrano Macia, o Pepinho, foi algo muito além de uma entrevista. O objetivo inicial era a publicação da entrevista e da seção “Blind Ear” na edição especial de junho/2014 da Roadie Crew, que focaliza o tema Rock/Metal e Futebol. Mas na verdade esse foi um longo papo entre amigos, e nos divertimos muito falando de Rock, Heavy Metal e futebol durante algumas horas. Percebi que seria impossível limitar tanto assunto às quatro páginas registradas na edição #185 da revista em papel, onde ficou a parte da entrevista que Pepinho falou da sua iniciação no Rock, da sua loja de discos, do programa de rádio e TV, dos shows que produziu, dos shows a que assistiu e marcaram sua vida, da sua passagem como atleta nas categorias de base do Santos e como se tornou treinador profissional. Então temos aqui no site a continuação da matéria, com mais futebol e mais Heavy Metal nas palavras do técnico da categoria Sub-20 do Santos F.C., filho de um dos maiores jogadores da história do futebol mundial: o Pepe, o “Canhão da Vila”.

    Você citou os shows memoráveis a que já assistiu, mas tem algum que você se arrependeu de ter ido, a ponto de pensar “o que eu estou fazendo aqui?”. Pepinho: Caramba, acho que alguns vão querer me bater, mas penso que o pessoal do Metal vai adorar. No único show que vi do Nirvana eu sai de lá com raiva. Achei uma grande porcaria, cara. Eu até gosto do Nevermind, tenho na minha coleção, mas aquele show do Nirvana foi deprimente. Lembro que quando sai do show comentei: “esse cara (Kurt Cobain) vai ficar mais uns três ou quatro meses vivo e vai ‘embarcar’”.  E não deu outra, passou um tempo ele morreu. Aquele show pra mim foi um dos piores da minha vida. Mas voltando a falar dos shows que marcaram positivamente minha vida, tem mais dois shows assim, que eu posso citar, mas porque eu estava envolvido na produção e pra mim foram muito especiais. Eu ia citar dois, na verdade são três: O Saxon, o primeiro show que eles fizeram no Brasil foi em Santos. Isso pra mim foi marcante…  O outro foi Mercyful Fate/King Diamond juntos, os dois tocando juntos em Santos! E o terceiro foi o Exodus com o Paul Ballof, que eu produzi.

    O Merciful Fate/King Diamond foi quando vieram pro Monster Of Rock, certo?  Pepinho: Sim, e eles tocaram em Santos antes do Monster.

    Sua coleção de discos é uma coisa espantosa, já passou de 20 mil álbuns entre CDs e LPs. Eu queria que você citasse cinco deles, os que você considera as peças mais preciosas da coleção, as joias (Pepinho: de qualidade, ou…) as coisas que têm um significado especial pra você.

    Pepinho: Eu vou falar o Into Glory Ride do Manowar que me marcou muito. Quando eu ouvi esse disco pela primeira vez eu falei “não é possível! Isso aí não é desse planeta!” (risos) e eu ‘furei’ ele de tanto ouvir. O Unleashed In The East, do Judas Priest, esse dois têm um algo a mais… Até hoje eu ouço sempre, é atemporal. Ambos marcaram uma época pra mim. Eu poderia também citar o Back In Black, do AC/DC, que é outro disco que eu ouvi demais, que decorei… E tem um que é assim como uma relíquia que eu guardo, que eu pego com carinho, eu nem ouço, sinto prazer só em ver ali: o Long Live Rock ‘n’ Roll, do Rainbow, meu vinil autografado pelo Dio com uma dedicatória que…  puxa vida… é demais! Falei quatro já? Bom, esse não é só relíquia, mas eu gosto demais de uma banda chamada Witchfinder General. E o primeiro disco deles, Death Penalty, é maravilhoso! E eu tenho o “picture disc” dele, então é mais que uma relíquia aquilo. Pra mim é banda de travesseiro também. Eu adoro. Nessa viagem que fiz para a Inglaterra em no final de janeiro eu visitei um lugar especial para a banda, porque as duas capas dos discos do Witchfinder General têm fotos que foram tiradas numa igreja em Enville, no condado de Staffordshire. Nem é uma cidade, é um vilarejo. Tive que pegar um taxi pra ir até a Saint Mary The Blessed Virgin Church. Tem a igreja e um cemitério ao lado. As fotos das duas capas dos discos do Witchfinder foram tiradas nessa igreja. E eu tinha que ir lá. Tirei fotos no mesmo lugar das fotos das capas, na igreja e no cemitério. Entrei no cemitério, as fotos que tirei estão no meu Facebook. Pra mim foi um sonho realizado! Eu fiquei assim uns 10 minutos olhando “nossa, não acredito que estou aqui!”. Bom, são esses meus cinco álbuns mais importantes.

    Além desses, tem algum disco que você curte, mas não tem nada a ver com seu gosto pelo Rock/Metal? Aquele que você pode até sentir uma certa vergonha de confessar que gosta. Pepinho: Eu não sinto vergonha, quer dizer… Como todo moleque lá na década de 80 eu ‘pisava’ nas bandas da Disco Music. Mas agora eu ouço com a maior tranquilidade, e até gosto. Tem Cool & The Gang, Earth Wind & Fire, KC And The Sunshine Band. Ouço e vibro. Os caras eram músicos fantásticos. É que na época era (com voz rasgada): “sou rockeiro…” Agora já velho, né, experiente, a gente vai mudando. Hoje eu vejo como os caras eram bons e como aquelas músicas eram sensacionais. Além da Disco Music, que eu acho que tem muita coisa legal, mas eu não tenho nenhum disco deles, eu tenho um disco que poderia ser assim meio controverso: o Tower Of Power, que é bem Pop, e Pop pra caramba! Mas eu acho que os caras tocam muito bem. E tem também – e principalmente – o Tears For Fears, que eu gosto demais.

    Você gosta de Tears For Fears? Pepinho: Adoro Tears For Fears, acho muuuuito bom… O show deles é sensacional.

    Eu fui a um show deles com a Vera, mas só pra fazer companhia… Pepinho: (risos) Eu acho que a gente se encontrou lá. Eu vou a todos os shows do Tears For Fears. Bom, eu vou a tudo quanto é show também, né? (risos)

    Se serve de consolo pra você, eu tenho uma coisa que é assim ‘inaceitável’ para o mundo do Rock. Eu tenho um CD que é um ‘split’ com músicas de dois caras: Tom Jones e Engelbert Humperdinck. Você já ouviu alguma coisa deles?  Pepinho: Não, talvez do Tom Jones acho que já ouvi.

    Digamos que seria o suprassumo da música brega. Pepinho: Americana ou inglesa?

    Inglesa. Mas, cara, eu consigo gostar desse disco. Tem uma música do Tom Jones, Green Green Grass Of Home, que você precisa ouvir.  Pepinho: Tipo Barry Manilow?

    Mais cafona ainda. Pepinho: Tom Jones eu já ouvi… Caraca! (riso geral e comentário da Cíntia: fica a dica, né).

    Você já provou que tem um gosto bem abrangente, com o passar do tempo é normal até perdermos um pouco da radicalidade, mas tem algum estilo dentro do Rock que você tenha preferência?

    Pepinho: Heavy Metal Tradicional é o que eu mais gosto, puxando para NWOBHM, que eu adoro. Se eu pudesse gostaria de ter tudo daquela época. Em fevereiro agora estive também em Newcastle, fui a um festival que é só de NWOBHM. É um evento fechado para 800 pessoas do mundo inteiro. Tinha só 20% de ingleses, o resto era tudo estrangeiro, e eu o único brasileiro. Chama-se BroFest e essa foi a segunda edição deste festival. Só tinha bandas como Blitzkrieg, Fist, Gaskin… Totalmente coisas de 81, 82, 83… E Thrash Metal também curto demais: Overkill, Death Angel, Slayer, Anthrax…

    Acho que Thrash é quase uma unanimidade entre os ‘headbangers’. O cara pode gostar mais de um ou outro estilo, mas o Thrash está sempre entre os favoritos da maioria. Pepinho: O Thrash dos anos 80 é demais, o Metallica… pelo amor de Deus,  eu amo. O Hard Rock também gosto bastante, Classic Rock pra cacete também. E aí você já vai falar “gosta de tudo também esse cara!”…

    Cintia: Eu pensava que Hard Rock fosse sua primeira opção. Pepinho: Gosto bastante de Hard Rock também, já fui até a um cruzeiro só de Hard Rock. Está ali com o Thrash, pau a pau, mas acho que o Thrash ainda está um pouquinho à frente na minha preferência.

    Voltando a rolar a bola, você percebe que deu visibilidade ao cargo de técnico de uma categoria Sub-20, num nível de exposição na mídia que jamais outro treinador na mesma situação conseguiu antes? E ninguém conseguiu tanto no Santos como em outros clubes, mesmo sendo campeões. Pepinho: Ah, eu percebi, eu percebi. É diferente, mas não é só o fato do técnico, de eu ter conseguido essa visibilidade maior. É que o Sub-20 hoje tem mais visibilidade. Então você liga no SporTV e está passando o campeonato paulista Sub-20, está passando a Copa do Brasil Sub-20, o Campeonato Brasileiro, até o Sub-17 está mais visível. Então hoje do Sub-20 do Santos, por exemplo, o torcedor da Torcida Jovem sabe a escalação. É uma coisa de quatro anos para cá. Coisa recente, o Sub-20 atraiu uma visibilidade muito maior. E o fato de eu ser o filho de quem eu sou também, aumenta mais ainda essa visibilidade. E, principalmente, acrescentando-se o fato da gente ter conquistado títulos, né. Que se não ganhar também não adianta nada. E também do fato de eu gostar do Rock, da música pesada. Tudo isso agrega. E acabou fazendo com que eu chamasse um pouco mais a atenção que os outros. De fato tem acontecido um pouco de assédio da imprensa. A ESPN fez matéria, a Record fez matéria, o SporTV fez matéria. Não a imprensa ligada ao Rock mesmo, e sim a imprensa esportiva. O Lance também fez matéria, todos eles fizeram matéria do assunto paralelo, o Rock. É uma coisa diferente que eles estão achando uma novidade, e isso de forma positiva por enquanto. Está sendo muito positivo, eu estou muito feliz com isso.

    Também porque você representa um lado vencedor e um lado com uma ética, um passado de glória, de prestígio e de dignidade dentro do futebol. Quer dizer, fazendo  as coisas certas, não só profissionalmente, mas também no campo pessoal. Seu pai é um dos maiores exemplos de figura humana do mundo. Pepinho: Então, além do futebolista que ele foi. O (Emerson) Leão é que fala sobre o meu pai “seu Pepe é uma ilha…”, ele sempre fala do meu pai com carinho.

    Nesse aspecto você acaba prestando uma contribuição muito grande para nossa cena do Rock. O pessoal que não vive isso, que não conhece Rock/Heavy Metal, vê que você é diferente daquele estereotipo que alguns erroneamente imaginam ser vinculado à violência, à agressividade das imagens estampadas nas camisetas pretas, das tatuagens. Podem descobrir que Rock não é marginalidade, não tem nada a ver com a violência gratuita. Pepinho: É, eu sinto isso, percebo sim, e é muito legal. Você não tem ideia de como é legal. Eu continuo indo a todos os shows que posso, e eu fui ao show do Megadeth, estava na porta para entrar, e apareceu um cara do nada “caraca, você é o Pepinho, pô!” eu nunca tinha visto o cara na minha vida, ele me deu um abraço e disse “parabéns, cara. Eu sou são-paulino, mas, meu… você representa o Rock, que ‘do caralho’, meu!”. E eu tiro foto com as pessoas, falo com muita gente nos shows, é o maior barato. É o mais incrível foi um que disse “tu nem me conhece, meu. Sou corintiano, mas torci pra você, tu é headbanger!” É demais isso pra mim… Recebi ‘trocentas’ mensagens quando a gente ganhou a Taça São Paulo. Um monte de gente de outras torcidas dizendo “torci pra você cara, eu não sei o que aconteceu na hora, mas, cara, tu é do Metal, tá representando o Metal, é a primeira vez no futebol!”. É o maior barato, muito legal.

    Você é visto como alguém diferente no ambiente do futebol por gostar de Rock, Heavy Metal. Como é que você vê isso? Você chega a conversar com seus atletas a respeito de música ou de cultura em geral, enfim? Ou a comunicação de vocês se restringe ao futebol mesmo? Pepinho: Ah, o máximo que a gente fala de música é pra tirar sarro uns dos outros, não tem assim a coisa de uma conversa. O mundo do futebol brasileiro é totalmente alheio ao Rock. Do Rock para o futebol é diferente, mas no ambiente do futebol é impressionante, não tem Rock, não tem. É quase zero.

    É verdade. É que essa é uma característica tipicamente de Brasil mesmo, porque na Europa, você vê a Alemanha, por exemplo, na Alemanha o futebol e o Rock, o Heavy Metal especificamente, são coisas intimamente ligadas.  Pepinho: Totalmente ligadas, músicos e torcedores curtem Rock. É impressionante o envolvimento que existe do jogador com a música e dos músicos também com o futebol, os caras são fanáticos.

    Você já citou a viagem à Inglaterra do início deste ano, mas, além da Saint Mary Church, você visitou também o local onde fica o Moinho de Mapledurham, da foto da capa do primeiro álbum do Black Sabbath. O que o emociona mais: conhecer um lugar mitológico como este ou um estádio como o San Siro em Milão, ou o Estádio da Luz em Lisboa onde seu pai foi Campeão Mundial pelo Santos? Pepinho: O Estádio da Luz eu conheço, o San Siro não. São emoções diferentes, mas que têm o mesmo peso. Vou falar primeiro do Rock vai, do Black Sabbath, da capa do disco: eu já queria ter ido lá há anos. Só que desde 2009 as minhas férias são sempre em fevereiro. E em fevereiro é fechado ao público e só reabre em final de março. Fica aberto do final de março e vai até novembro. Aí fecha do finalzinho de novembro até março por causa do inverno. Mas não estava tão frio neste ano.  Já há vários anos que tenho ensaiado ir lá. Eu sabia que naquele período estava fechado e pensava “como é que eu vou lá se está fechado?”. Este ano eu decidi: “vou fechado mesmo, não quero nem saber”. Aí você tem que ir pra Reading, aquela cidade que tem o Reading Rock Festival. Em Reading pega-se um taxi, e tem que pedir pelo amor de Deus para o taxista não ir embora de lá sem você. Se ele largar você lá “ferrou”! Se o taxi for embora você pode começar a chorar, porque vai ter que dormir lá. É muito afastado. Sendo no período que está aberto, tudo bem, tem movimento, gente visitando… Do lado do moinho tem uma igreja e um cemitério que à noite aquilo deve ser um terror de dar medo, cara! Não tem nem luz ali! E eu fui de dia, né. Eu cheguei e, como eu já sabia, estava fechado. Pedi para o taxista esperar e pensei “caramba, e agora? Está fechado…” Ah, não deu outra: eu pulei a cerca, e pulei a cerca “à la brasileiro”, né. Só que o Rio Tâmisa passa ali, passa bem ali no terreno do Mapledurham. e quando pulei já ouvi: “tchum”. Enfiei o pé na beira da água que estava alta… “Caramba acabei de pisar no rio Tamisa… (risos) foda-se que sujou…” (mais risos) Eu sei que eu fiquei por uns 10 minutos só olhando, cara! “Putz… não acredito que estou aqui… olha… cacete!”. Tirei um trilhão de fotos. Eu não sei fazer “selfie” muito bem, mas tirei as fotos. E o cara do taxi olhando e acho que pensando assim: “Meu Deus, esse cara é louco, não é possível!”. Apesar de que deve ter muito louco que faz isso… Mas acho que na época que está fechado ninguém faz, só eu que fui lá em pleno inverno. E foi uma emoção fantástica, eu saí de lá rindo a toa. O taxista deve ter pensado: “porra, que loucura é essa?”. Quando eu fui a Enville (local da capa do Witchfinder General) o taxista que me levou também tinha que ficar lá esperando porque era muito afastado. Quando estávamos no caminho de volta ele me perguntou: “mas por que você tirou tanta foto dessa igreja? O que ela tem de especial?“. Eu falei “é uma longa historia”. Já pensou? Eu vou explicar pra ele que tem o Witchfinder General, a capa do disco, etc… Não dava, né. Ele nunca ia entender. Agora falando em futebol, entrar onde meu pai brilhou… Maracanã, ou então no estádio da Luz, na própria Vila Belmiro… É emocionante demais. Quando a gente joga na Vila Belmiro com o Sub-20 – você já foi lá, você viu – quando a gente joga na Vila, durante o hino nacional eles colocam um filme passando lances de jogos. Pô, e o meu pai aparece três vezes lá, cara! Toda vez que aparece meu pai (suspiro) dá uma emoção, cara! Eu vejo meu pai novinho, com a camisa da seleção brasileira, é sempre assim, porra… E dá sempre uma emoção, e dá uma coisa mais tipo “caraca, meu! Pô, eu estou aqui dentro da Vila!”. As emoções são muito fortes.

    Você continua sendo um grande incentivador da cena de Rock na Baixada, organizando caravanas para praticamente todos os eventos em São Paulo, e mesmo fora do estado, como para o Rock in Rio. Como é que você consegue manter esse pique?  Pepinho: Muita gente pergunta isso, principalmente o pessoal do Rock que vai nas excursões e fala “não é possível…” Às vezes eu chego na excursão com o uniforme do Santos. Mas dá tempo. Acabo de sair de um jogo, vou lá e organizo uma excursão, não tem crise. Não sei, eu acho que é porque são duas coisas que eu faço porque eu gosto demais…

    Você deve se sentir um privilegiado pelo fato de trabalhar com o que a maioria das pessoas adoraria fazer. Pepinho: Eu gosto muito de futebol, e de Rock tanto quanto. Então pra mim, quando saio do treino do Santos saio feliz, e entro no Rock do mesmo jeito. Todo dia eu vou ao ponto de encontro que a gente tem na loja da Blaster. Ficamos lá batendo papo sobre futebol e Rock, é claro, porque o pessoal do Rock também gosta muito de futebol. Muitos pensam que não, mas o que tem de rockeiro que gosta muito de futebol. É muita gente, acho até que a grande maioria. É que no futebol é ao contrario. No futebol aqui no Brasil não tem realmente muito rockeiro, mas se for aqui do lado, na Argentina, tem vários jogadores que se você perguntar vai comprovar que gostam.

    Até no cabelo se nota isso. O que você vê de cabeludo jogando lá, e aqui você não vê isso em campo. Pepinho: É verdade.

    Falando das tradições da cidade de Santos em relação ao Rock, além de ser o berço do melhor futebol do mundo, eu não esqueço que na minha adolescência – que é bem anterior à sua – tinha uma banda de Santos que poucas pessoas talvez se lembrem, que se chamava Liverpool Sound…Pepinho: Não, não conheço. Com esse nome devia ser alguma coisa relacionada a Beatles…

    Além tocarem músicas das bandas do Brit Pop inglês da época, eles tinham um trabalho próprio também muito legal. No final dos anos 60 entre as bandas que me chamavam muito a atenção estavam o Made in Brazil, os Botões (ou The Buttons, inicialmente, do grande Zé Luiz, vulgo ‘Dave MacLean’), o Porão 99, que era de São Caetano do Sul, e o Liverpool Sound, de Santos. Pepinho: Dessa coisa bem do início assim eu poderia citar o Blow Up e o New Zago. O Blow Up, particularmente, até hoje está em atividade e os músicos são fantásticos, eles tocavam os grandes clássicos, Beatles, Rolling Stones…  Até hoje tocam e lotam aqui na Baixada.

    continua na parte 2 da entrevista em: https://roadiecrew.com/mtOnlineDetalhe.php?id=420