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  • OKKULT SESSION IV – BARCELONA (ESPANHA)

    OKKULT SESSION IV – BARCELONA (ESPANHA)

    Texto e fotos: Écio Souza Diniz

    Dia nublado, um pouco frio e com probabilidade de chuva em Barcelona deram ao 28 de setembro a atmosfera propícia para receber a quarta edição do festival Okkult Session. O público foi agraciado com a imersão profunda derivada do foco do festival no doom e no black metal atmosférico. Nesta edição, os principais nomes do evento foram os suecos veteranos do Candlemass e os britânicos do My Dying Bride. Completaram o cast os espanhóis do TodoMal, Sylvaine e Gaahl’s Wyrd.

    O evento ocorreu na Carpa del Poble Espanyol, um espaço amplo, moderno e multifuncional em Barcelona, com capacidade para até 800 pessoas e excelente acústica. Está localizada ao lado de uma zona de piqueniques arborizada, oferecendo um ambiente agradável com versatilidade e apoio técnico para diversos tipos de eventos. Além disso, as pessoas indo ao festival podiam aproveitar para caminhar pelo Poble Espanyol, um museu arquitetônico ao ar livre na área de Montjuïc, Barcelona, criado para a Exposição Internacional de 1929 e composto por 117 réplicas de edifícios representativos de várias regiões da Espanha. Com isso, o recinto reúne arte, cultura, gastronomia e artesanato em um só local.

    Visto que o evento ocorreu num domingo e tendo em conta que o dia seguinte já era dia útil, o primeiro show começou às 16h com o TodoMal. A banda foi formada em 2020 e é encabeçada duo espanhol Javier Fernández (Mile) e Christopher Baque-Wildman, que tiveram trajetórias em bandas reconhecidas no cenário local como Asgaroth, Dejadeath e Nexus 6. Os dois álbuns já lançados, Ultracrepidarian (2021) e A Greater Good (2023), foram bem recebidos por crítica e fãs pela sua profundidade estética e produção bem cuidada. Ao vivo, o duo é acompanhado por Javi Félez (guitarra, Graveyard), Cecilia Tallo (teclados e backing vocals) e Javier Martínez “Bud” (bateria). O show de 45 minutos foi suficiente para o TodoMal destilar seu doom metal atmosférico com toques progressivos e psicodélicos envoltos em melodias melancólicas que lembram Anathema e Katatonia. Os destaques foram para as excelentes High Time e Infero Tristi, de A Greater Good, e Gods Fucking in the Sky, de Ultracrepidarian.

    Após um breve intervalo, entrou no palco o Sylvaine, projeto solo da multi-instrumentista norueguesa Kathrine Shepard, iniciado na capital Oslo em 2013 e que já tem quatro álbuns: Silent Chamber, Noisy Heart (2014), Wistful (2016), Atoms Aligned, Coming Undone (2018) e Nova (2022). Atoms Aligned, Coming Undone, rendeu a Shepard em 2019 o título de primeira mulher a receber uma indicação de melhor álbum de metal no Spellemannprisen do Norwegian Grammy Award. A sonoridade do Sylvaine ganha atenção por sua mescla de black metal atmosférico, shoegaze e post-metal com sensibilidade melódica e contrastes entre doçura e agressividade. Ao vivo, Shepard é acompanhada por Florian Ehrenberg (guitarra e backing vocals), Maxime Mouquet (baixo e backing vocals) e Dorian Mansiaux (bateria). A ótima performance combinou atmosferas densas com momentos mais extremos em músicas como Nova, Earthbound, Fortapt, I Close My Eyes So I Can See, Mono No Aware e Mørklagt.

    Já no entardecer nublado e com leve ventania entrava em cena o Gaahl’s Wyrd. A banda norueguesa foi fundada em 2015 pelo lendário e polémico vocalista Kristian “Gaahl” Espedal, conhecido por seu trabalho no Gorgoroth e no God Seed. Refletindo bem a postura provocadora de Gaahl, o grupo se vale de uma abordagem mais artística e espiritual do black metal, explorando temas de identidade, natureza e introspecção. A combinação de atmosferas sombrias com passagens melódicas e ritualísticas constituem o DNA da banda, atualmente completada por Lust Kilman (guitarra, ex-God Seed), Nekroman (baixo) e Spektre (bateria). Em junho deste ano, foi lançado o segundo álbum, Braiding the Stories, consolidando o Gaahl’s Wyrd como um dos nomes mais inovadores da cena norueguesa contemporânea. A atuação primorosa do quarteto no Okkult Session mostrou a boa integração e sintonia entre os músicos, destacando obviamente a postura introspectiva, calada, soturna e magnética de Gaahl. O objetivo ali não era comunicação com o público, mas imersão no universo negro da arte que produz. O que faz todo sentido, como se viu durante várias músicas, a exemplo da faixa-título de Braiding the Stories, Awakening Remains, Ghosts Invited e Carving the Voices. Também se destacaram os covers de Gorgoroth para Carving a Giant e Prosperity and Beauty e covers de God Seed para Aldrande Tre e Alt Liv. Com esse intenso show, o Gaahl’s Wyrd deixou muito bem preparado o terreno para as duas últimas e principais atrações do festival.

    Com palco preparado e público à espera, os suecos do Candlemass, banda mais esperada do dia pela maioria do público, entrava para desfilar seu Epic Doom Metal. Formada em 1984 na capital sueca Estocolmo pelo baixista e compositor Leif Edling, o Candlemass se tornou referência mundial no doom metal, tendo estabelecido contribuído fundamentalmente para o estabelecimento do gênero com o lançamento do álbum Epicus Doomicus Metallicus (1986). Com quatro décadas de trajetória, a banda se tornou um símbolo de autenticidade e resistência, influenciando gerações de músicos, e seu legado ainda se perpetua, inspirando novos públicos e artistas ao redor do mundo por meio de sua sonoridade única e inabalável. Contando com o aclamado vocalista do primeiro álbum, Johan Längqvist, que voltou à banda em 2018 e já lançou dois álbuns com o grupo desde então (The Door to Doom, de 2019, e Sweet Evil Sun, 2022), eles estão num ritmo criativo e ativo contínuo. Inclusive, este ano lançaram o EP Black Star, com formação sendo completada pelo brilhante e veterano guitarrista original Mappe Björkman, o também excelente guitarrista Lars Johansson e Jan Lindh na bateria. O show no Okkult Session foi intenso, com excelente interação da banda com o público. Logo na entrada com Bewitched, clássico do grandioso Nightfall (1987), com vocal originalmente gravado pelo icônico Messiah Marcolin, todos cantaram junto. Desse álbum, ainda fomos agraciados com cortante Dark Are the Veils of Death e The Well of Souls. O timbre de Längqvist também se mostrou muito bem ajustado e potente para Mirror Mirror (de Ancient Dreams, 1988) e Dark Reflections (de Tales of Creation, 1989), ambas também originalmente cantadas por Marcolin.

    Claro que os pontos mais altos do show ficaram a cargo das músicas do primeiro álbum, dentre as quais somente não tocaram completamente Black Stone Wielder. O público participou com força nas incomparáveis Demon’s Gate e Crystal Ball, nas quais Längqvist interagiu bastante com os presentes, inclusive chegando mais próximo à grade. Também foi bom escutar os riffs the Under the Oak e A Sorcerer’s Pledge. Como esperado, o fechamento perfeito foi com a atemporal e marca maior do Candllemass, Solitude.

    Com todo o frenesi do show intenso do Candlemass ainda na cabeça, os britânicos do My Dying Bride vieram fechar a noite com sua conhecida e bela melancolia. Formada em 1990 em Bradford, West Yorkshire (Inglaterra), é considerada uma das pioneiras do death/doom metal, junto com Paradise Lost e Anathema, com uma sonoridade melancólica, atmosférica e gótica. Seu legado é marcado pela combinação de vocais guturais e limpos, uso de violinos e teclados, e letras carregadas de romantismo e tristeza, influenciando diversas bandas do gênero.  Assim, o My Dying Bride se mantém relevante na arte de explorar a dor e a escuridão, renovando seu som sem perder sua essência. Atualmente, formada por Andrew Craighan e Neil Blanchett (guitarras), Lena Abé (baixo), Dan Mullins (bateria, Blasphemer) e Shaun MacGowan (teclado e violino), a banda excursiona ainda em divulgação do mais recente álbum, A Mortal Binding (2024). A marca da banda com seu equilíbrio entre peso e melancolia entrou no palco do festival com A Kiss to Remember, do aclamado Like Gods of the Sun (1996). Inclusive, desse álbum os fãs presentes ainda puderem apreciar a faixa-título. Focando nessa volta ao tempo, ainda tocaram com emoção From Darkest Skies e The Cry of Mankind (de The Angel and the Dark River, 1995) e The Snow in My Hand (de Turn Loose the Swans, 1993). O encerramento com a densa e agressiva The Raven and the Rose (de The Dreadful Hours, 2001) terminou de coroar muito bem esse dia de introspecção musical.

    Num balanço geral, o Okkult Session IV foi um evento excelente, com tudo funcionando bem, desde a infraestrutura do local até a pontualidade e excelente performance de todas as bandas participantes. Assim, nos resta aguardar curiosos pela próxima edição.