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  • Em coletiva de imprensa, NERVOSA analisa os primeiros 15 anos de carreira e fala do futuro

    Em coletiva de imprensa, NERVOSA analisa os primeiros 15 anos de carreira e fala do futuro

    Por Leandro Nogueira Coppi Fotos: Andre Santos Dez meses depois de uma série de shows pelo Brasil, a Nervosa voltou ao país para uma apresentação especial que marcou o encerramento da turnê do álbum Jailbreak (2023) e celebrou os 15 anos da banda de thrash metal. Na noite anterior à performance no Teatro do Sesc Bom Retiro, realizada na última sexta-feira (05), Prika Amaral (vocal e guitarra), Helena Kotina (guitarra), Emmelie Herwegh (baixo) e Gabriela Abud (bateria) participaram de uma entrevista coletiva na Arena Galeria, espaço localizado na tradicional Galeria do Rock, em São Paulo. Com entusiasmo, o quarteto ficou bastante tempo atendendo aos jornalistas e respondendo perguntas sobre vida na estrada, a distância da família e dos amigos, a adaptação a diferentes culturas, os bastidores das gravações de Jailbreak, o próximo álbum de estúdio e vários outros temas. Por ser a fundadora e única integrante remanescente da formação original, Prika Amaral foi a mais procurada para falar sobre a trajetória da banda. Ela também comentou sua adaptação como vocalista, as sucessivas mudanças de formação, a relação respeitosa com todas as ex-integrantes, a própria resilência e outros assuntos. A seguir, destacamos alguns dos pontos abordados.  

    Duas baixistas oficiais na formação

    Além da holandesa Emmelie Herwegh, a Nervosa conta com a grega (assim como Helena KotinaHel Pyre. Segundo Prika, a intenção não é ter as duas no palco ao mesmo tempo. Hel Pyre é mãe de uma criança pequena e, além disso, toca teclado ao vivo para o King Diamond. Dessa forma, quando ela não estiver disponível, é Emmelie quem segue para a estrada com PrikaHelena Gabriela.

    Adaptação de Prika Amaral como vocalista e gravação do novo álbum

    Sobre o próximo álbum de estúdio — previsto para 2026, com primeiro single programado para janeiro —, que será o segundo com Prika nos vocais, ela contou que se sentiu mais segura ao gravar as vozes desta vez e, por isso, o processo foi mais divertido. Por outro lado, revelou que esse foi o mais difícil dos seis álbuns para gravar, devido ao acúmulo de compromissos ao longo de 2025. “Só nos seis primeiros meses desse ano foram cinco turnês, e a gente gravou o disco no intervalo entre essas turnês.” De fato, 2025 foi um ano intenso para a Nervosa. A banda, que já passou por 58 países ao longo da carreira, realizou 20 shows somente na França e ainda circulou pela América do Sul, Europa e Asia, por exemplo. “A gente ia fazendo música nos finais de semana que a gente tinha livre aqui e ali. Sentávamos eu e a Helena para compormos as melodias e termos mais ou menos as ideias. Tudo foi basicamente um diálogo”.  

    Método de estrutura das linhas vocais da Nervosa

    Perguntada por este repórter como tem sido o processo de criar as linhas vocais da Nervosa, já que não é vocalista por natureza, Prika respondeu:

    “Muito legal essa pergunta, porque, instintivamente, eu sempre tive isso dentro de mim. Desde o começo da Nervosa compus muitas linhas vocais e sempre participei das letras. Por exemplo, um dos nossos maiores singles, Death, fui eu quem compus a letra e a melodia vocal; não 100%, mas diria que 90% dessa música em específico. Não toda, porque a Fernanda (Lira) colocava muita coisa de letra. As letras a gente sempre dividiu, mas as linhas vocais eu deixava mais na mão dela porque ela é vocalista, então eu ficava mais com a parte da guitarra e da estrutura. Ela também participava disso, mas eu tentava me concentrar mais naquilo em que eu era especializada.

    Mas eu sempre compus, sempre participei. No Jailbreak, por exemplo, eu tive que me preocupar ainda mais, porque meu cérebro funciona de um jeito diferente — acho que porque eu nunca estudei música de forma mais teórica ou aprofundada. Sei muita coisa superficialmente, o necessário, digamos assim. Tenho muito esse lance da intuição, então sempre trabalhei muito mais nos riffs. Lembro que as meninas reclamavam: ‘Isso aqui até a metade é 4 x 5…’. E eu nunca pensei se é 4 x 5, se é 2 x 1 (risos). Eu sentia a música até onde ela tinha que ir e fazia os riffs ali. Com o tempo, pensava: ‘Ah, tá… vamos tentar fazer no 4 x 4’. Mas a minha cabeça, quando vai fazer as linhas vocais, funciona diferente também, porque eu conto uns negócios meio doidos que eu nem sei explicar.

    Prika admitiu que o produtor Martin Furia tem sido peça fundamental nessa etapa:

    “No Jailbreak eu precisei muito da ajuda do Martin Furia, que é um produtor muito importante. Ele sabe tirar o melhor da gente. Ele respeita a obra que a gente entrega — não tenta mudar a música nem quem a gente é —, mas ajuda a fazer com que aquilo fique ainda melhor. Ele é muito importante, tanto que nunca pensamos em trocar de produtor. Ele traz ideias de detalhes aqui e ali, claro que 95% da música é nossa, fomos nós que compusemos. Mas a participação do produtor é essencial, porque a gente está tão focada ali que alguns detalhes acabam passando, e ele vem com a visão dele.

    Em Jailbreak, ele me deu muita segurança e me ajudou a me guiar, porque eu estava paranoica em fazer tudo certo ou ter alguma ideia equivocada. Ele dizia: ‘Meu, calma, tá bom o que você está fazendo’. Lembro que a primeira música que gravamos no disco foi Endless Ambition, como um teste, e eu pensava: ‘Meu Deus, está horrível’. E a Helena e o Martin diziam: ‘Não, tá bom, não canta de outro jeito!’. Eu estava em pânico, e eles me ajudaram muito: ‘Continua fazendo o que você está fazendo que está ótimo’. E eu: ‘Não! Deixa eu tentar de outro jeito’. Tentei e continuei não gostando. Aí percebi que não adianta fazer diferente se eu não vou gostar, então eu realmente preciso deles me guiando.

    Agora, no disco novo, eu estava me sentindo mais segura, e o Martin me dizia: ‘Você não vai conseguir cantar isso e tocar’. E eu respondia: ‘Vou, me dá a minha guitarra aí’. Eu mostrava, e ele dizia: ‘Meu Deus, sua cabeça funciona de outro jeito mesmo!’. No Jailbreak eu estava tão perdida que me guiei muito pela opinião dele, porque ele também toca e canta, então sabe como funciona. Mas tive dificuldade em algumas músicas, em algumas passagens para tocar e cantar.

    Ainda bem que nos singles do disco eu não tive essa dificuldade. E percebi que, no próximo, vou ter que tomar cuidado e fazer tudo 100% da minha cabeça para não precisar mudar nada — e o disco novo foi assim.”

    Espaço democrático para composições

    Quanto ao papel das demais integrantes, Prika explicou: “A Gabi vem de uma escola mais moderna, ela inspirou muito a gente a colocar alguns elementos modernos, mantendo as raízes da Nervosa do thrash metal brasileiro — a gente consegue manter isso — e trazer outras coisas legais também. Então, cada uma com seu estilo foi inspirando a gente a compor os riffs e a estrutura das músicas”.  A guitarrista e vocalista acrescentou ainda que costuma dar bastante liberdade para as demais integrantes colaborarem. No caso de Gabriela, que fará sua estreia em estúdio e, segundo Prika, é muito boa com letras, ela terá uma composição própria no novo disco. A baterista falou sobre as letras do disco: “Eu acho que as letras estão diferentes. As suas também” — disse a Prika. Eu espero que as pessoas realmente se conectem do jeito delas, não do jeito que a gente quer, mas que a letra chegue nelas. A música “tá” foda, mas a letra… eu gosto muito, sempre me conectei muito com letra, eu gosto de escrever e tal… E essa é uma das expectativas que eu tenho” (N.R.: sobre a recepção do público às letras).

    Importância de festivais como o Bangers Open Air e renovação do público

    Perguntada sobre qual tipo de público a Nervosa atinge hoje em dia — entre os mais radicais e/ou os mais diversos — Prika Amaral comentou, mencionando feitos importantes que têm acontecido no cenário.

    “Acho que não só o público da Nervosa, mas o de metal no geral, está com a cabeça muito mais aberta — graças a Deus, né? Eu me incluo nessa. Vim de uma escola que era muito radical com as coisas, e eu sempre tive discursos muito radicais. A internet e as novas gerações trouxeram muito diálogo pra gente, pra nos tornarmos mais abertos. Acho que o maior reflexo disso, uma das coisas que mais me surpreenderam positivamente, é o que o Bangers Open Air está fazendo: misturando todas as tribos dentro do metal. Tem bandas completamente diferentes, bandas que a gente pode não gostar, mas que a gente respeita, porque isso não existia há muito tempo. Sabemos dos episódios que aconteceram em vários festivais no Brasil, de artistas sofrerem vaias, do pessoal jogar coisas… Acho que todo mundo está melhor hoje em dia. Os extremismos ainda existem, mas não são mais a maioria. Acho que isso é muito importante: você pode não gostar, mas é importante respeitar.

    Sinto que o público da Nervosa é mais diversificado. Embora a gente seja um thrash metal old school, também temos algo do moderno — principalmente no último disco, em que trouxemos mais do groove moderno. A Nervosa nunca será uma banda de metal moderno porque não faz parte da nossa raiz, do nosso sangue, mas eu gosto de algumas coisas; acho interessante, porque a gente está fazendo música. Acho que esse disco novo mostra muito isso: a nossa raiz no thrash metal, mas fazendo música, trazendo outros elementos e ideias. É não se fechar e não direcionar a sua inspiração; fazer arte é liberar a sua expressão, não ter medo, não se limitar. E vejo que a Nervosa tem um público super jovem. Temos a geração old school e uma geração mais nova, e eu acho isso incrível.”

    Diversidade cultural

    Para a guitarrista Helena Kotina, uma das melhores partes de estar em uma banda é conhecer pessoas e países diferentes — e perceber que a paixão pela música é igual em qualquer lugar.

    “Essa é uma das coisas mais bonitas sobre ser músico em uma banda e fazer turnê pelo mundo todo. Estar em turnê, às vezes, parece um sonho — e é um sonho. Muitas vezes existem dificuldades, o cansaço diário de viajar, questões pessoais… Toda noite você quer se manter ali, presente, com um monte de gente local, e isso é maravilhoso. Às vezes você realmente perde a noção de onde está, porque no tourbus você dorme na Alemanha e acorda na Itália (risos). Então é muito louco tocar toda noite e ver pessoas cantando as mesmas letras, gritando, sentir o entusiasmo delas. Não importa de qual país elas são, não importa a idade. Eu gosto disso.

    Ter essa troca no mundo inteiro, com nacionalidades e lugares tão diferentes, é mágico! Porque, no fim, todo mundo curte. Esse tipo de coisa acontecendo toda noite provavelmente é a melhor parte desse trabalho.”

    Show especial de 15 anos

    Falando sobre o show que faria no dia seguinte, Prika Amaral refletiu sobre os 15 anos de carreira da Nervosa“O começo da Nervosa, para mim, parece (que foi) ontem”, disse. “É muito louco como o tempo passa rápido. Eu me dei conta desses 15 anos no final do ano passado. Pensei: ‘Puxa, a gente tem que fazer algo especial’. E eu fiquei muito feliz que a gente conseguiu fazer o primeiro show de comemoração de 15 anos em São Paulo” (N.R. realizado no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade). “Eu estava tentando fazer isso acontecer e foi meio que um acaso junto com um empurrãozinho — vamos dizer assim. E aí falei: ‘Puxa, seria muito massa se a gente conseguisse encerrar em São Paulo também’. Só joguei para o universo e aconteceu. A gente chegou a fazer um show no Japão… Na verdade, fizemos cinco shows em Tóquio, com cinco setlists diferentes. É muita criatividade fazer isso (risos). Então eu falei: ‘A gente está numa turnê de 15 anos da Nervosa, vamos contar a história da banda? Fazer um setlist mais ou menos cronológico, alguma coisa assim’. A gente tentou fazer, e foi muito improvisado, mas rolou legal. E aí casou de a gente fazer o último show desse ano — e último da turnê — em São Paulo. Pensei, ‘Vamos fazer esse show só que mais elaborado, vamos estudar melhor o que vamos fazer’. E a gente vai tocar em um teatro, e no (Sesc) Bom Retiro todo mundo fica sentado, então fez muito sentido para esse tipo de formato. A galera não vai poder ficar agitando muito — o que é uma pena —, mas eu vou estar ali também para a gente tocar as músicas, fazer um revival da Nervosa e contar a história também. Tem muitas coisas que eu nunca contei, como… A gente chegou a gravar um disco nos Estados Unidos, então tem várias coisinhas que eu vou tentar trazer de informação nova, talvez que os fãs nunca escutaram. Vai ser meio que isso: um stand up — mas não comedy (risos).” Ao final da coletiva, ficou evidente que a atual fase da Nervosa combina maturidade artística, abertura a novas influências e uma forte consciência sobre a própria história. Entre desafios de estrada, renovação criativa e a construção do próximo álbum, a banda demonstra segurança e coesão, reforçando o compromisso de seguir evoluindo sem perder a identidade que marcou seus 15 anos de trajetória. *Matéria sujeita a atualização, com a inserção do link da cobertura do show assim que estiver disponível.   Clique aqui para seguir o canal ROADIE CREW no WhatsApp