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  • ClassicTBT 06: TRISTANIA – World Of Glass

    ClassicTBT 06: TRISTANIA – World Of Glass

    Tudo parecia estar indo muito bem. Afinal, desde que tinha lançado Widow’s Weeds, o seu álbum de estreia, em 1998, o TRISTANIA só crescia. Com o lançamento de seu segundo álbum, Beyond The Veil (1999), eles estavam definitivamente colocados entre os gigantes do gothic metal, e a formação, com Morten Veland (vocais extremos, guitarra), Kenneth Olsson (bateria), Einar Moen (teclados), Rune Østerhus (baixo), Anders Hidle (guitarra) e Vibeke Stene (vocais femininos) estava extremamente conectada e trabalhando em completa sintonia, ao menos era o que todos imaginavam. Porém, não era bem assim que as coisas funcionavam.

    Às vésperas de entrar no estúdio para registrar o seu terceiro álbum completo, veio a notícia que ninguém queria: Morten Veland, uma das forças criativas da banda estava fora, e, pelo que ouvia-se na imprensa, de forma nada amistosa. Ótimo letrista, compositor criativo e um ótimo vocalista/guitarrista, ele logo retornaria aos holofotes com o seu SIRENIA, mas cabia agora ao TRISTANIA provar que a casa estava em ordem, e isso não era algo fácil de se fazer, especialmente não quando você está se preparando para entrar no estúdio.

    E havia ainda um outro agravante: com o intento de trazer novos elementos para a sua música, a banda demandava de mais tempo para compor, e assim um processo que já era intenso desde os primeiros dias se tornava um fardo ainda mais pesado, eles definitivamente não tinham tempo para perder entrevistando candidatos, testando habilidades… Eles precisavam de alguém conhecido, que já chegasse pronto para o trabalho, e foi assim que eles chegaram ao nome de Ronny Thorsen, vocalista de outra banda gótica norueguesa, o TRAIL OF TEARS. Ronny de cara eliminava um dos grandes problemas da banda, que eram os vocais extremos, antes a cargo de Veland, mas jamais assumiria o posto de vocalista do TRISTANIA. Ademais, a banda ainda contava com os vocais de Vibeke Stene, que ia se tornando cada vez mais uma peça-chave na sonoridade e imagem do grupo, e Østen Bergøy, que havia participado de todos os registros do TRISTANIA, mas que só agora viria a ser efetivado como integrante da banda.

    O outro problema a ser resolvido era a composição. Anders Hidle e Einar Moen assumiram as rédeas, e se tornaram os compositores de World Of Glass. Em contrapartida, ambos declararam que todos os demais músicos contribuíram com ideais de arranjos, especialmente os vocalistas, já que muito da vibração correta dos vocais só é conseguida quando os compositores trabalham muito próximos dos vocalistas, o que faz todo o sentido. Com este esforço concentrado, o TRISTANIA de fato conseguiu alcançar um caminho até então inédito em sua jornada. Logo de cara, o álbum destaca a música The Shining Path, uma das mais pesadas que eles tinham trabalhado até então. Com ótimos corais, uma performance firme de Vibeke e riffs fortes e intensos, a música já trazia uma mostra do tal ‘novo som’ que o grupo buscava, já que elementos de metal industrial aparecem nas entrelinhas. Esses elementos continuam pouco evidentes em Wormwood, que vem logo na sequência. Marcada pelas linhas vocais – extremo e lírico assumem o caráter de complementar um ao outro, em vez do tradicional contraste – a música é uma das que mais destaca o trabalho dos corais, que iniciam entoando os versos em latim do poema medieval In Taberna Quando Sumus, que aparece também na cantata Carmina Burana, do compositor alemão Carl Orff.

    Já em seguida, eles apareceriam como uma das melhores canções de todo o seu repertório. Tender Trip On Earth é simplesmente uma das melhores composições góticas deste século, e tem o seu charme principal advindo das excelentes linhas dos vocais limpos masculinos, que buscam uma linha bem próxima da sonoridade clássica de bandas como FIELDS OF THE NEPHILIM e THE SISTERS OF MERCY, além de linhas de contrabaixo (uma das coisas mais legais em todo o álbum, diga-se) que realmente chamam a atenção do ouvinte. Enquanto isso, Lost é mais uma das que seguem a linha mais pesada, mais metal, enquanto a sua sucessora, Deadlocked é provavelmente a canção mais leve de toda a jornada dos noruegueses, e não vou protestar se você disser que também é a mais bela. Belíssimas passagens de violino, o contrabaixo harmonioso trabalhando em melodias enquanto o teclado insere ambientes contemplativos, tudo isso seguido pela voz bonita e suave de Vibeke, em resumo, uma música que mereceria estar em qualquer ‘playlist’ gótica que se preze.

    A segunda metade do disco segue ainda com a mesma qualidade da parte anterior. Selling Out partiu de uma antiga ideia de Hidle, um esboço que havia surgido originalmente ainda antes da banda lançar Beyond The Veil. Até por isso chama a atenção esta ser uma das canções que mais evidentemente mostra os elementos eletrônico/industriais que marcam o álbum, seriam essas ideias já evidentes na versão inicial, ou seriam novos elementos, surgidos com a revitalização da ideia original? Hatred Grows traz ótimos riffs doom, é arrastada, sorumbática. É uma das canções que melhor explora os contrastes entre vocais harmoniosos e extremos, e por conta do seu peso inerente acaba sendo uma das que mais se destaca em toda a audição. Para fechar o álbum, duas canções emblemáticas. Primeiro, a faixa-título, um belíssimo rock-gótico, com riffs bem dosados, refrão memorável e linhas instrumentais contidas, destacando apenas as breves inserções dos vocais rasgados como elemento ‘metal’. E, por fim, a longa Crushed Dreams, onde o tal ‘novo som’ realmente aparece em destaque, desde o primeiro segundo, mas sem abafar ou diminuir a intensidade musical do grupo.

    Liricamente, World Of Glass também se destacava. Mesmo não sendo um álbum conceitual, a temática das fragilidades humanas (World Of Glass significa ‘mundo de vidro’) permeia todas as canções, sob diferentes óticas e abordagens. O poder das diferentes religiões, a ansiedade do mundo moderno, a paranoia, a instabilidade mental… Tudo é matéria-prima para uma banda que buscava provar que poderia seguir em frente com firmeza, apesar da enorme fissura na formação e subsequente desconfiança de grande parcela dos fãs.

    No fim das contas, World Of Glass se saiu muito bem, obrigado. A banda apareceu mais do que nunca, viajou o mundo em uma turnê enorme (que incluiu o Brasil na rota pela primeira vez), e que ainda trouxe como saldo positivo a efetivação do novo vocalista extremo, Kjetil Ingebrethsen, que permaneceria ao lado do TRISTANIA até 2006. Vibeke Stene também abandonaria o barco mais ou menos na mesma época, em 2007. Mas isso já é outra história, que um dia você verá por aqui.

  • ClassicTBT 05: DARKTHRONE – Soulside Journey

    ClassicTBT 05: DARKTHRONE – Soulside Journey

    A arte de Duncan Fegredo para a capa de Soulside Journey

    Após algum tempo de atraso em relação aos melhores mercados musicais, a Noruega realmente começou a galgar seu espaço na década de 1980. Claro que os primeiros passos foram lentos e tímidos, especialmente quando falamos no rock pesado. Sem a atenção das grandes gravadoras, com uma população consideravelmente pequena e até então nenhuma tradição no rock, a década foi, para aqueles que se tornariam os gigantes do metal norueguês, praticamente toda devotada ao reconhecimento, admiração e estudo das suas referências musicais, um círculo que pouco a pouco ia se alargando e tornando mais heterogêneo, já que o mundo da música pesada estava em constante transformação.

    Se o 666 de Tromsø teve vida curta (inicialmente a banda atuou apenas entre os anos de 1982 e 1983), eles foram uma espécie de mostra para os seus sucessores, uma prova de que era  possível fazer na Noruega uma música muito mais ríspida, suja e agressiva do que aquela que se ouvia o dia todo e todos os dias na rádio NRK. Pouco depois surgiria o MAYHEM (em 1984), e com ele todo um batalhão de ‘novatos’ começaram a dar os primeiros passos, entre eles, o DARKTHRONE, de Kolbotn. E, sob vários aspectos, a jornada do DARKTHRONE é quase que um resumo de como as coisas funcionavam para o metal na Noruega dos anos 1970 e 1980, e seu líder, o baterista Fenriz conviveu com toda aquela dificuldade causada pelos primeiros passos da Noruega no mundo do heavy metal.

    Fenriz muito cedo se apaixonou por música. Antes dos 10 anos de idade, por influência de um tio, ele teve contato com o seu primeiro disco de rock, o clássico Morrison Hotel, trabalho lançado em 1970 pelo THE DOORS. Na mesma época, ele teve contato com o URIAH HEEP, mas teve sua intenção de mergulhar na discografia da banda frustrada com o afastamento de seu tio, e a falta de dinheiro (e muitas vezes falta de boas opções mesmo) para comprar mais discos. Ele também se lembra de ter comprado um disco do ELVIS PRESLEY, uma coletânea barata qualquer, mas que foi o suficiente para manter o seu interesse ativo e ávido. Com a chegada da década de 1980, as coisas começaram a melhorar significativamente. Após ouvir pela primeira vez o Unmasked (1980) do KISS e os álbuns If You Want Blood You’ve Got It e For Those About To Rock, do AC/DC (1978 e 1981, respectivamente), ele teve contato com o seu primeiro álbum de heavy metal propriamente dito, o seminal álbum ao vivo do BLACK SABBATH, Live Evil (1982). Daí em diante, as coisas começaram a acelerar. IRON MAIDEN, CANDLEMASS, novas bandas iam surgindo conforme a oferta permitia, e não muito depois ele mergulhava de vez em algo mais pesado, influência direta dos primeiros registros de METALLICA, MERCYFUL FATE e, claro, SLAYER.

    Foi sob toda essa carga de diferentes referências que Fenriz começou a tocar bateria, por volta de 1986, ano em que nascia o BLACK DEATH. Diversas vezes o baterista já mencionou que o som da banda era intragável, simplesmente pelo fato de que eles eram ainda absolutamente incapazes de tocar. Porém ele, Dag Nilssen (baixo), Ivar Enger (guitarra) e Ted Skjellum (guitarra e voz) seguiram em frente, foram aprimorando sua técnica e, já sob o nome DARKTHRONE, conseguiram mostrar a sua verdadeira faceta musical, mostrando toda a sua incrível gama de influências na demo Thulcandra, de 1989. Nela, o ouvinte encontrava de tudo: death metal, thrash, doom, heavy, e até mesmo inserções de guitarras acústicas. O DARKTHRONE era uma banda pronta, e muito rapidamente se colocaram no mercado, enviando cópias de suas demos para todas as principais revistas especializadas do mundo.

    Ivar Enger, Ted Skjellum (Nocturno Culto), Hank Amarillo (Fenriz) e Dag Nilsen

    Como resultado, eles logo conseguiram um bom contrato com a PEACEVILLE, assim como hoje, mesma gravadora do lendário AUTOPSY. Fenriz relembra a história, dizendo que a banda contava na verdade com outras seis propostas diferentes para gravação, “só que nenhuma boa”, ele acrescenta aos risos. Fato é que foi dessa parceria que a banda partiu para a gravação de seu lendário álbum de estreia, que aconteceu em setembro de 1990 no lendário Sunlight Studio, em Estocolmo (Suécia).

    Diferentemente do que se podia esperar, o DARKTHRONE não apresentaria em seu Soulside Journey aquela mesma sonoridade cheia de nuances ouvida antes, na demo Thulcandra. Pelo contrário. Sem limitar suas referências, o quarteto mergulhou profundamente no death metal, um movimento até natural dado o que acontecia na Escandinávia naquele momento, com a solidificação da cena death metal da Suécia e da Finlândia. Porém, fato é que Fenriz (aqui apresentado como Hank Amarillo), Dag, Ted e Ivar tinham a sua própria maneira de fazer as coisas, e o álbum de estreia do DARKTHRONE não se limitaria aos velhos clássicos suecos.

    Logo de cara, Cromlech é uma faixa poderosa, com um início fortemente atmosférico, logo interrompido por uma tempestade de riffs ‘old school’, uma mistura pútrida das escolhas estadunidense e finlandesa do death metal. As referências ao passado underground aparecem por todos os lados, já que a música abre com o verso “Into The Abyss I Fall”, mesmo verso que inicia a música Sphinx, uma antiga composição da banda thrash/death alemã POISON, e que aparece na sua demo Into The Abyss, de 1987. Logo em seguida, na primeira pausa da canção, o DARKTHRONE incluiu uma voz macabra pronunciando o verso “Lucifer, master”, uma referência direta à letra da faixa-título do segundo álbum completo do POSSESSED, Beyond The Gates, de 1986.   Essa mesma postura pode ser sentida na sequência, Sunrise Over Locus Mortis é extrema demais para se encaixar nas diretrizes do death sueco, mas também estranha e climática demais para se comparar ao death da Flórida. Accumulation of Generalization é outra daquelas que pega o ouvinte pelo calcanhar, traz ótimas passagens no contrabaixo e nas guitarras, e conta com uma sonoridade suja e pungente típica daquilo que ouvíamos nos pioneiros do metal extremo finlandês e aqui, nos discos de SARCÓFAGO, SEXTRASH e VULCANO.

    Mantendo o ataque cerrado, e alternando sempre velocidade com climas mais densos e arrastados, o álbum ainda destaca Sempiternal Sepulchrality, tão estranha e ritmicamente esquizofrênica quanto o título parece indicar, e Grave With A View, com ótimos recursos atmosféricos, que ajudam a estabelecer o clima soturno da composição. As boas passagens instrumentais e movimentos rítmicos variados farão a alegria de fãs de bandas como DEAD CONGREGATION, INCANTATION e SEMPITERNAL DEATHREIGN, além de tantas outras que mesclam o poderio do death com o doom metal.

    Hoje, perto de celebrar 30 anos de seu lançamento (que ocorrerá em janeiro de 2021), ainda é extremamente difícil dizer de que fonte o DARKTHRONE bebeu para compor este álbum. Ou, melhor dizendo, é impossível limitar as referências a apenas um par de nomes. Existe muito aqui de SARCÓFAGO e da cena brasileira em geral, existe muito dos pioneiros do metal extremo finlandês, referências cruas do punk e muito de doom metal, tudo explorado sob a ótica suja e obsessivamente distorcida do metal extremo. Estranho, esquizofrênico e aterrador, Soulside Journey se destaca como um dos melhores álbuns produzidos naquele que é considerado por muitos o ano definitivo do death metal, e até por isso costuma estar sempre em catálogo, como acontece neste momento no Brasil, onde o disco foi disponibilizado via Mindscrape Music.

    E aqui temos o que Fenriz tem a dizer sobre este momento:

    “Este setembro é especial para mim porque já se passaram 30 anos desde que fomos a Estocolmo, na Suécia, para gravar nosso primeiro álbum SOULSIDE JOURNEY.

    Eu ouvi de novo e, embora não tenha acabado com um som tão orgânico quanto queríamos originalmente (não tínhamos dinheiro suficiente para gravá-lo localmente nos estúdios CREATIVE), ainda o mantivemos em alto nível, pois foi nosso primeiro álbum, inspirado por exemplo na segunda demo do NOCTURNUS, no primeiro álbum do AUTOPSY, no primeiro do DEATH, MORBID ANGEL, segunda demo do MASSACRE, POSSESSED, SADUS, NIHILIST (e até mesmo alguns riffs antigos do BLACK SABBATH, do primeiro do CANDLEMASS e também do CELTIC FROST). Ele se tornou um álbum de death metal muito estranho e abrangente.”

    Logo após o lançamento de Soulside Journey, o DARKTHRONE seguiria por um caminho muito mais estreito, mergulhando de cabeça no black metal. Mas essa já é uma outra história.