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  • A CHAVE DO SOL lança seis bootlegs com material inédito

    A CHAVE DO SOL lança seis bootlegs com material inédito

    O baixista Luiz Domingues, integrante da formação clássica da banda A Chave do Sol ao lado de Rubens Gioia (guitarra e vocal) e José Luiz Dinola (bateria), resgatou um vasto material inédito da banda e lançou seis discos de uma série intitulada Pirata. São demos e apresentações ao vivo registradas entre 1982 e 1986, incluindo dois raros shows com a presença da vocalista Verônica Luhr, que teve um rápida passagem pela banda. Todo o material teve o áudio recuperado pelo guitarrista e vocalista Kim Kehl, da banda Kim Kehl e Os Kurandeiros, da qual Luiz faz parte atualmente. Kim também cuidou da parte visual da série. A intenção inicial de Luiz era reunir os antigos parceiros e fazer um show para marcar o lançamento da série, mas o advento da pandemia da covid-19 acabou cancelando os planos. Mais recentemente, surgiu a terrível notícia da morte de Rubens Gioia, o que reforça o interesse por essa série. Numa daquelas terríveis coincidências, três dias depois da morte de Rubens faleceu Acácio Vaz, guitarrista que fez parte da banda Clavion e que em 1987 foi cogitado a ingressas n’A Chave do Sol na condição de segundo guitarrista, algo que acabou não se concretizando. Luiz Domingues falou com exclusividade com a ROADIE CREW sobre o lançamento da série Pirata.

    Por que você decidiu divulgar esse material somente agora, mais de trinta anos após as gravações?

    Luiz Domingues: Não foi uma escolha, exatamente. Na verdade, foi falta de oportunidade, por escassez de recursos. Na realidade, eu pensava em colocar esse material à disposição dos fãs do trabalho desde os anos 80. Tanto que na época algumas fitas cassete foram preparadas para venda, com uma pequena parte desse material, mas sem sofisticação alguma na produção. Contudo, foi apenas ao final de 2019 que isso se viabilizou, enfim, e no início de 2020 efetivamente que começou a se materializar de fato.

    Você conversou com os outros ex-integrantes d’A Chave para falar sobre esse lançamento?

    Luiz: Sim, eles souberam da intenção desde o começo. A ideia seria lançar o pacote completo em um show-reunião da formação original do power trio que já estava marcado para o dia 15 de julho de 2020, no teatro Cacilda Becker da Lapa em São Paulo, com produção do guitarrista Geraldo ‘Gegê’ Guimarães, quando, reforçados pelo Rodrigo Hid que atuaria como vocalista, tecladista e guitarrista, faríamos uma apresentação em dobradinha com Os Kurandeiros. A pandemia forçou a postergação inicial, mas à medida que se tornou algo muito mais grave do que imaginávamos e queríamos, percebemos que o melhor seria lançar os discos paulatinamente, mesmo sem o show. Quebramos a surpresa que desejávamos, portanto. E também por uma questão logística, visto que o apoio fundamental da Crossover Records, através do produtor musical Felipe Falget, nos entregou os álbuns paulatinamente, conforme Kim Kehl encerrava a produção de cada um, daí termos optado pelo lançamento escalonado em princípio e como um kit a conter promoção ao final. Ficamos com a esperança de fazer o show em 2021, quando fosse seguro, mas a súbita perda do Rubens ceifou essa possibilidade, e falo isso com enorme dor no coração.

    Qual o papel de Kim Kehl no lançamento da série Pirata?

    Luiz: Foi total! Se eu fosse contratar um estranho para cuidar desse trabalho, sei que teria um trabalho profissional bem feito, mas nas mãos do Kim houve um algo a mais, pois ele vibrou intensamente com a ideia do resgate e cuidou desse material com um carinho fora do comum. Portanto, o capricho dele na digitalização, preparação e mixagem desse áudio foi no sentido de que ele buscou o máximo, de forma incansável. Leve-se em conta que além da captura em fita cassete ser algo jurássico e tecnicamente muito limitado, houve também a ação do tempo, com essas fitas guardadas em armário por tantos anos, e estamos a falar sobre quase quarenta anos no caso das mais velhas. Então, ele operou um milagre ao salvar algumas fitas que já tinham nítidos sinais de deterioração, também ao extrair ruídos típicos das fitas e imprimir um nível de áudio com a máxima nitidez e o melhor equilíbrio possível ante uma captura precária em determinados casos e com predominância do aspecto mono, inclusive. E Kim foi além ao criar a arte e finalizar o lay-out das capas – e neste caso ele também se esmerou ao usar de muita criatividade para compor tais ilustrações com fotos condizentes com cada disco e a época retratada.

    Foto: Juja Kehl

    Os discos têm uma sonoridade que remete muito aos bootlegs que a gente curtia nos anos 70. A que você acha que isso se deve?

    Luiz: Isso ocorreu no aspecto das performances ao vivo, certamente, ao justificar que nossa banda, mesmo quando tentou forçosamente se adequar às tendências oitentistas, sempre foi por natureza sessentista/setentista em sua forma de se expressar. Por exemplo, a ideia de haver interlúdios longos de solos individuais nos shows é uma marca setentista típica. E no cômputo geral, a sonoridade remete mesmo aos anos 70 na pegada ao se verificar que estão refletidas em nossas composições dessa época entre 1982 e 1984, mais centradas no hard rock, no prog rock e no jazz rock, sobretudo, e com todas essas escolas com forte identidade setentista.

    Há mais material para ser lançado ou a série já está completa com esses seis discos?

    Luiz: De primeira mão para você e para os leitores da revista ROADIE CREW, sim, existe uma nova safra de material já digitalizado e que, mediante a decupagem, vai iniciar no futuro uma nova safra de discos bootlegs, assim espero. Desta feita, a maioria das fitas contém shows ao vivo do período de 1986 e 1987, com a presença do Beto Cruz nos vocais e uma sonoridade mais oitentista em tese. Mesmo assim, a influência setentista nunca nos abandonou, com certeza. Contudo, há também material com participações d’A Chave do Sol em programa de rádio e material de ensaio, com fragmentos de músicas a serem compostas e arranjadas entre 1982 e 1984 que eu ainda não analisei se reúnem condições mínimas para justificar a criação de um álbum, mas em princípio eu tenho essa vontade, dentro do espírito dos álbuns Anthology que os então remanescentes do Beatles lançaram nos anos 90, com material de ensaio nessas características. É evidente que a nossa banda não tem nem um milionésimo da envergadura do quarteto Fab Four de Liverpool, mas eu acho que os fãs do nosso trabalho. e notadamente os que possuem espírito de colecionador, haverão de gostar de um material raro e bruto assim. Contudo, não é uma certeza ainda, apenas uma possibilidade.

    Os discos estão saindo justamente no momento em que somos surpreendidos com a notícia do falecimento de Rubens Gioia. Por conta dessa fatalidade, você acredita que eles ganham mais importância ainda?

    Luiz: Rubens estava tão feliz por esse show que estava marcado para 2020 e com a possibilidade de lançarmos os discos que eu não consigo parar de pensar que tudo isso só tratou por tornar ainda mais dolorosa a notícia de sua partida. Ele chegou a ter em mãos alguns dos bootlegs. Acho que não viu os dois últimos, e eu lastimo isso demais. De minha parte, tais lançamentos ganharam uma aura melancólica assim que fui informado sobre a sua morte, todavia, muitas pessoas estão a me convencer que não, muito pelo contrário, o lançamento trata por dignificar ainda mais a sua persona como artista e ser humano. Bem, visto por esse prisma, tomara mesmo que os álbuns ganhem essa conotação de honra, respeito, admiração e com sentido de eternidade para com a persona dele e que assim seu filho, Rubinho Gioia, se orgulhe muito desse legado.

    Como deve proceder quem desejar adquirir os discos?

    Luiz: Bem, eu comecei a atender tal demanda de forma pessoal, com as pessoas a me pedirem os discos pelo inbox do meu perfil no Facebook e ainda o faço para quem me procurar por lá, mas eles já estão disponíveis também nas lojas Baratos Afins e Aqualung, tradicionais da Galeria do Rock de São Paulo, e em breve estarão em outras também da Galeria e com negociação para atingir plataformas de streaming, com o apoio do Luiz Calanca.

    A Chave do Sol: Rubens Gioia, Luiz Domingues e José Luiz Dinola | Foto: Divulgação

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  • Morre o guitarrista Rubens Gioia (A Chave do Sol)

    Morre o guitarrista Rubens Gioia (A Chave do Sol)

    O paulistano Rubens Gioia Martins, um dos ícones da guitarra, faleceu nesta sexta-feira (15) após complicações advindas de uma cirurgia. Nascido a 4 de maio de 1963, teve a música desde cedo em sua vida. Sua mãe, organista, conheceu o pai, poeta, e ele começou a arranhar um violino só para acompanhá-la. “E assim nasceu minha família.” Seu irmão mais velho tinha uma banda que tocava músicas dos Beatles e sempre conseguia comprar discos vindos lá de fora. “Quando ele se mudou para o interior para fazer faculdade, me elegeu guardião desse tesouro bastante eclético. Tinha Hard, Progressivo, Fusion, Blues, enfim, tudo de bom. Minha memória musical vem certamente desta mistura, que ainda contava com muita Música Clássica.”

    Rubens começou com as aulas de piano, mas aos 13 anos se enveredou definitivamente pelas seis cordas. Então, com vizinhos e amigos da escola, montou a primeira banda, A Chave do Sol, que contava com Luiz Domingues (baixo) e José Luiz Dinola (bateria). Após a estreia nos palcos, ocorrida em 25 de setembro de 1982, A Chave do Sol trabalhou intensamente. Com isso, Rubens foi conseguindo mostrar sua destreza e técnica, até se tornar um dos ícones da guitarra no rock pesado brasileiro. Muitas bandas brasileiras, que usam a virtuose em sua sonoridade devem muito ao trabalho da paulistana A Chave do Sol, que aliava hard rock com jazz, além de toques sutis de heavy metal. O programa “A Fábrica do Som”, da TV Cultura, tinha como música de abertura uma composição instrumental da Chave do Sol.

    Com A Chave do Sol, Rubens gravou o compacto “Luz” (1984) e o EP “A Chave do Sol” (1985, com o saudoso vocalista Fran Dias), além do álbum “The Key” (1987), com A Chave, gravado com o vocalista Roberto Cruz e Ivan Busic (bateria) como convidado.

    Depois d’A Chave do Sol, Rubens tocou em bandas como Yankee e a icônica Patrulha do Espaço com quem gravou o disco “Primus Inter Pares” (1994). Passou trabalhar como cerimonialista, mas sem deixar a música, tendo participado das bandas 6L6 e GSM. Rubens também atuou como radialista com o programa “Blog do Rubão”, no ar desde 2014.

    “Perdi um ídolo, um amigo… O primeiro show que filmei em VHS na vida ocorreu em dezembro de 1986, no Teatro TBC. Era A Chave do Sol. O público ficava boquiaberto com a qualidade de som que vinha dos PA’s em qualquer show que víamos desta banda. O carismático Rubens Gioia fazia solos extremamente melódicos com sua Les Paul ou com a Jackson ‘rabo de peixe’ igual à de Robbin Crosby, do Ratt. Jamais irei esquecer-me da destreza dele, da simpatia e dos longos papos sobre o que ele mais gostava: música. Descanse em paz, Rubinho. Sua obra é eterna” – Ricardo Batalha, redator-chefe revista Roadie Crew.

    “Estarrecido… Não me ocorre outra palavra para definir como me sinto ao saber da morte de Rubens. Foi uma das primeiras pessoas que conheci quando me enveredei pelo jornalismo musical, lá em 1985. Sempre gentil, educado, muito inteligente e um músico do mais alto gabarito. Nunca vi Rubinho falando mal de ninguém, pelo contrário, o apoio que ele dava às outras bandas era exemplar. Lembro de um carnaval em que ele promoveu uma grande festa em sua casa, com direito a bandas ao vivo e tudo mais – foi lá que vi pela primeira vez o Golpe de Estado. Enfim, só boas lembranças de alguém que vai deixar muitas saudades.” – Antonio Carlos Monteiro, redator da revista Roadie Crew e apresentador dos programas “Rock’n’Brasil” (MKK Web Radio) e “Vamos Tomar Uma?” (YouTube)

    “Muito difícil assimilar essa triste notícia. Além de fã, eu era amigo e praticamente vizinho do Rubens aqui na zona norte de São Paulo. Por diversas vezes nos reunimos na casa dele para ouvir música e conversar sobre a vida, e também em mesas de bares para darmos risada junto a outros amigos nossos. Gastei os discos d’A Chave do Sol de tanto ouvi-los, e ter mais tarde o Rubens como um amigo pessoal foi uma honra. Era um cara muito inteligente, sério e ao mesmo tempo divertido, além de um talentoso guitarrista. Certamente, uma perda muito triste para a história do rock brasileiro. Vá em paz, irmão!” – Leandro Nogueira Coppi, colaborador da revista Roadie Crew.

    A seção Background das edições #198 e #199, da Roadie Crew, conta a história completa da banda A Chave do Sol.